Pare quatro minutos para ver esse vídeo! É incrível!

O nome dele é Hercules Gomes. Um pianista nascido em Vitória, no Espírito Santo.

Até a semana passada, eu não o conhecia, até que fui apresentado a esse vídeo que dura quatro minutos e alguns poucos segundos.

É incrível!

O virtuosismo, o domínio técnico do instrumento e a sensibilidade do cara a executar um clássico do frevo pernambucano. Duda no Frevo, de Senô, que a gente ouve com orquestra, transformado numa peça para piano.

Não perca, ganhe quatro minutos do seu tempo vendo esse vídeo! Vale a pena!

Guitarrista Larry Coryell morre aos 73 anos

Luto na música.

Morreu Larry Coryell. O guitarrista, de 73 anos, morreu de causas naturais enquanto dormia num hotel em Nova York, depois de fazer dois shows no fim de semana.

Nascido no Texas, Coryell era um dos grandes representantes (para muitos, um “padrinho”) da fusão do jazz com o rock. Tocou e gravou com mestres, como Miles Davis, e contemporâneos seus, como o também guitarrista John McLaughlin.

O duo de violões Larry Coryell e Philip Catherine deve ser lembrado não só pela altíssima qualidade do trabalho, mas também pela influência que exerceu sobre músicos do mundo inteiro.

Na sua assinatura, o virtuosismo e o domínio técnico de quem estudou o instrumento se encontravam com o senso de improvisação do jazz e a liberdade intuitiva do rock.

Fiquemos com um pouco da arte de Coryell numa performance ao vivo com o baixista Stanley Clarke.

Se estivesse vivo, Kurt Cobain faria 50 anos hoje

Se estivesse vivo, Kurt Cobain, o líder do Nirvana, faria 50 anos nesta segunda-feira (20).

Quando se matou aos 27, em 1994, estava entediado e velho.

Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison – Cobain entrou nessa estatística boba dos que morrem aos 27.

Com os muitos excessos que cometeu e a inadaptação ao mainstream em que se viu jogado junto com sua banda, é sempre difícil imaginá-lo aos 50.

O sucesso o colocou num mundo que combatia – um status com o qual Cobain não se sentia à vontade e que, até hoje, incomoda muitos dos seus fãs.

Kurt Cobain parece, de fato, com aqueles caras que são tão loucamente intensos que não podem viver muito. Como – sem querer comparar os dotes musicais – um Charlie Parker.

Da carreira meteórica e conturbada, ficou, no mínimo, um dos grandes discos do rock. Não é pouco. Nevermind, que começa com o poderosíssimo hit Smells Like Teen Spirit, tem a força do verdadeiro rock’n’ roll. A despeito de ser rústico, primitivo, é absolutamente antológico.

Anterior ao Nevermind, Bleach é cru em demasia e traz a banda em busca dos seus caminhos. Posterior ao Nevermind, In Utero contém um dilema: o que fazer depois de um disco tão bom?

Se você gosta de rock e ainda não parou para ouvir o Nirvana de Nevermind, pode acreditar, não faz ideia do que está perdendo.

Tem uma lacuna a preencher!

Morre Tibério Gaspar, autor de “Sá Marina”

O compositor Tibério Gaspar morreu nesta quarta-feira (15) no Rio de Janeiro. Aos 73 anos, teve uma infecção generalizada.

Tibério Gaspar marcou a Era dos Festivais com suas canções, entre o final dos anos 1960 e o início dos 1970. Principalmente na dupla que formou com o pianista Antônio Adolfo (na foto, Tibério é o da esquerda, Adolfo ao piano).

Sá Marina foi composta pelos dois. Grande sucesso na voz de Wilson Simonal, depois gravada por Stevie Wonder numa versão em inglês.

Também compuseram Teletema e BR-3.

Fiquemos com Sá Marina interpretada por Wilson Simoninha.

RIP Tibério Gaspar!

As Muriçocas são do povo. Apoio a políticos maculou bloco

Encontrei Fuba casualmente nos corredores da TV Cabo Branco. Fazia tempo que não conversávamos.

Acabei dizendo algo que estava guardado comigo há muitos anos:

O apoio das Muriçocas do Miramar a políticos prejudicou o bloco.

Vou entrar no túnel do tempo:

Fevereiro de 1987. Na quarta-feira que antecedia o carnaval, fui abordado, também nos corredores da TV Cabo Branco, pelo repórter Saulo Moreno. Ele tinha uma sugestão:

Vamos cobrir um bloco novo que vai descer a Epitácio Pessoa numas carroças.

Era um pessoal ligado à professora Vitória Lima.

Eu topei. Mandei cobrir. Pouca gente. Nada indicava ainda que, ali, estava nascendo um fenômeno absolutamente espontâneo e muitíssimo importante para a vida da cidade de João Pessoa.

O resto é história. Não preciso contar. Está aí há 30 anos.

Desde então, como cidadão e jornalista, acompanho com grande interesse e muito respeito a trajetória do bloco e o papel que desempenhou na consolidação da prévia carnavalesca Folia de Rua.

Não é preciso recorrer a teses sociológicas para compreender o significado de manifestações como essa que nasceu no bairro do Miramar e conquistou uma cidade.

Conquistou como expressão verdadeira e genuína de um povo, com sua alegria fugaz, com a beleza de sua música.

Desci a avenida várias vezes e sei que não tem preço.

É tão bonito que você não sabe se cai na folia ou se fica parado a contemplar.

MURIÇOCAS ENGAJADAS

Chegaram as eleições municipais de 2004. O bloco decidiu apoiar uma candidatura a prefeito. E desceu a avenida numa espécie de quarta-feira de fogo fora de época.

A convicção de que Ricardo Coutinho era o melhor candidato (como, de fato, comprovaria em sua muito bem-sucedida gestão) não me impedia de enxergar o equívoco.

O bloco não pertencia aos 60 (ou pouco mais) por cento de eleitores que votaram nele.

O bloco não pertencia nem aos seus fundadores.

O bloco pertencia ao povo de João Pessoa.

Não podia e não pode, portanto, permitir que, a cada campanha, seja qual for o candidato, se produza uma quarta-feira de fogo fora de época.

Partidos e políticos representam pedaços. Mesmo que grandes pedaços. As Muriçocas do Miramar conquistaram o direito de representar o todo. O todo é o povo de João Pessoa, que canta com orgulho o hino do bloco e se vê nos versos escritos por Fuba.

Esse vínculo da população com as Muriçocas é um patrimônio que não pode ser maculado por campanhas políticas. Precisa ser preservado!

Mulata é racismo? Pois salve a mulatada, como canta Martinho da Vila!

A parlamentar socialista vai num evento de teatro de bonecos e, ao discursar, diz assim:

Teatro de bonecos e bonecas!

Quem me contou foi um amigo, socialista como ela.

Custo a crer! Tento não me convencer de que falta inteligência ao politicamente correto!

Mas falta!

Lembro dessa história por causa da MULATA.

Não pode mais! É racismo!

Querem banir Tropicália de um bloco de carnaval (ou baniram?) por causa do verso “os olhos verdes da mulata”.

Caetano Veloso, autor da música, já falou ao The Economist“Penso em mim como mulato, eu amo a palavra”.

Puxa! Fiquei lembrando das músicas que serão banidas. Vão censurar Elizeth Cardoso cantando Mulata Faceira? E Mulata Assanhada na voz de Elza Soares? E Olhos Verdes com Dalva de Oliveira? E Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira com Moraes Moreira? Ah!, são muitas!

Nas redes sociais, vejo textos e mais textos sobre o assunto. A origem da palavra. É essa. É aquela. É racismo. Não é.

Os que agora censuram o uso da palavra MULATA parecem muito com os que, na ditadura, censuraram o Tiro ao Álvaro, de Adoniran. O contexto é outro, os motivos são outros, mas, no fundo, fazem a mesma coisa.

Fecho com Caetano Veloso:

Sou um mulato nato, no sentido lato, mulato democrático do litoral

E com Martinho da Vila:

José do Patrocínio

Aleijadinho

Machado de Assis que também era mulatinho

Salve a mulatada brasileira!

“Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” fazem 50 anos!

O single (no Brasil, compacto simples) dos Beatles com Strawberry Fields Forever e Penny Lane está fazendo 50 anos.

Nos Estados Unidos, foi lançado no dia 13 de fevereiro de 1967. No Reino Unido, no dia 17.

As duas canções (uma de John Lennon, outra de Paul McCartney) eram o prenúncio de algo extraordinário que estava em gestação: o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em junho daquele ano.

Strawberry Fields Forever e Penny Lane são reminiscências da infância em Liverpool. Os Beatles fazem a música nova do presente falando do passado.

Strawberry Fields Forever, embora assinada por Lennon/McCartney, foi composta por John Lennon a partir das lembranças que ele tinha de um orfanato do Exército da Salvação.

O registro inicial não indicava que a canção pudesse se transformar num dos pontos altos da discografia do grupo e num marco indiscutível do rock psicodélico. Os diversos registros (há até um bootleg com eles) confirmam que a canção cresceu no estúdio, enquanto era gravada. E, aí, temos que somar a melodia enigmática de John ao arranjo deslumbrante de George Martin.

Seguem áudio e vídeo, para reouvir e rever.

Penny Lane, igualmente atribuída à dupla Lennon/McCartney, foi composta por Paul McCartney.

A letra fala de uma rua de Liverpool. É uma balada com as marcas do inspirado melodista que Paul sempre foi, desde muito jovem. O solo de trompete de David Mason remete ao barroco e às influências da música erudita que os Beatles, via George Martin, incorporaram ao trabalho deles.

Vamos rever o vídeo oficial.

Strawberry Fields Forever e Penny Lane se completam em suas diferenças. São tão belas que formam um compacto sem lado B. Na época, a canção de Lennon provocou uma certa estranheza em alguns ouvintes, o que não ocorreu com a de McCartney. A passagem do tempo as fez igualmente poderosas.

Foram gravadas para o Sgt. Pepper, mas acabaram ficando de fora.

Flagram os Beatles num impasse. Depois do LP Revolver, após o fim das turnês, o que restaria a eles?

A resposta veio nesse single agora cinquentenário.

Com todos os significados que encerram, Strawberry Fields Forever e Penny Lane continuam fascinantes!

Grande voz do jazz, Al Jarreau morre aos 76 anos

Luto na música popular do mundo. O jazz perdeu uma das suas grandes vozes.

O cantor Al Jarreau morreu neste domingo (12) aos 76 anos. Quatro dias atrás, ele foi internado em estado de total exaustão.

A causa da morte ainda não foi divulgada.

Em 2015, ele esteve no Brasil para um show com Marcos Valle no Rock in Rio. A apresentação foi memorável, mas era visível a fragilidade do artista.

Fiquemos com um pouco de Al Jarreau num show da sua juventude.

A canção é Your Song, de Elton John e Bernie Taupin.

Ariano Suassuna abre mão da inteligência ao atacar língua inglesa

Ariano Suassuna era o que, no passado, se chamava de reacionário. Estética e ideologicamente (a despeito do vínculo que acabou estabelecendo com a esquerda).

Defendia um nacionalismo anacrônico e o fazia muitas vezes de forma simplista e grosseira. Ainda que fosse engraçado.

Seu reacionarismo não o diminuía como autor. Claro que não! A importância da obra não deve ser confundida com as ideias atrasadas que defendia.

Em 2010, estive na casa de Ariano, no Recife, junto com Gonzaga Rodrigues, Astier Basílio e Gustavo Moura (fazíamos uma entrevista para o Correio das Artes), e saí de lá positivamente impressionado com a sua erudição.

Mas também a me perguntar, com alguma inquietação: como esse homem erudito, com quem acabamos de conversar longamente, usa argumentos tão primários para defender seus pontos de vista?

De vez em quando, vejo vídeos de Ariano Suassuna. Ele e suas falas na aula espetáculo que costumava dar. Aquela fala sobre o guitarrista Ximbinha, Beethoven e o uso equivocado da palavra gênio é irresistivelmente engraçada.

Entre esses vídeos, há os que agridem a inteligência.

Como aquele em que o autor da Compadecida fala mal da língua inglesa.

O exemplo que Ariano dá com a palavra glass não serve nem como humor.

Ora, dizer que a língua inglesa é pobre porque glass é, ao mesmo tempo, copo e vidro, só ilude os incautos.

A língua portuguesa, enaltecida até por Cervantes, também tem manga, que é do verbo mangar, manga de camisa e manga, a fruta. E tantas outras palavras com mais de um significado.

Depois, há os adjetivos pejorativos que Ariano usa contra a língua inglesa. Absolutamente incompatíveis com os estudos da linguística. E, se quisermos, com o respeito entre os povos.

Tudo em nome do seu reacionarismo e de um nacionalismo fora de moda.

Quando vejo esses vídeos, lembro de um conselho que, muito cedo, ouvi do meu pai:

Nunca se deixe enganar pelo reacionarismo estético e ideológico de Ariano Suassuna!

Já que falamos da língua inglesa, fecho com Shakespeare por Marlon Brando. Shakespeare, de quem o erudito Ariano tanto gostava!

Estudiosos dizem que música de carnaval morreu. Será?

Como minucioso mapeamento da música popular que os brasileiros produziram entre 1901 e 1985, os dois volumes de A Canção no Tempo, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, permitem que a gente acompanhe, ano a ano, a trajetória da música de carnaval. Aliás, o primeiro volume começa logo com Ó Abre Alas, marcha-rancho que Chiquinha Gonzaga compôs em 1899 e que foi sucesso entre 1901 e 1910. Mas a fixação do gênero só se daria a partir de 1917 com a gravação do primeiro samba, Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida. E a partir do final dos anos 1920 é que surgem, em grande quantidade, as músicas de carnaval que conseguiram resistir ao tempo e são lembradas até hoje.

Na extensa lista, entre 1929 e 1940, estão Jura, Tai, Com que Roupa, O Teu Cabelo Não Nega, Linda Morena, Cidade Maravilhosa, Mamãe Eu Quero, Pastorinhas, Touradas em Madri, Yes, Nós Temos Banana e A Jardineira. Consolidam-se os nomes de Lamartine Babo, Braguinha e Noel Rosa, que morreu sem ver o sucesso da marcha Pastorinhas. Entre 1941 e 1950, temos Alá-Lá-Ô, Aurora, Ai que Saudades de Amélia, Nega do Cabelo DuroAtire a Primeira Pedra, Pirata da Perna de Pau, É Com Esse que Eu Vou, Chiquita Bacana e General da Banda. Nos anos 1950, de Lata d’Água, Maria Candelária e Sassaricando, vemos os primeiros sinais de que a música de carnaval está mudando.

O primeiro volume de A Canção no Tempo termina em 1957, ano em que um frevo pernambucano, e não uma marcha ou um samba do Rio de Janeiro, foi o grande sucesso carnavalesco. É Evocação, “em que Nelson Ferreira recorda velhos carnavais recifenses, citando nominalmente agremiações e personagens lendários da história do frevo”. Mas o livro de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello não trata do frevo, uma das grandes expressões do carnaval brasileiro, porque ele é essencialmente instrumental. Apesar dos formatos de frevo-canção e frevo de bloco, nos quais há letra, os maiores clássicos do gênero (Vassourinhas, Último Dia, Duda no Frevo) são mesmo peças para orquestra.

De 1958 a 1970, A Canção no Tempo destaca Madureira Chorou, Índio Quer Apito, Bigorrilho, Cabeleira do Zezé, Os Cinco Bailes da História do Rio, Tristeza, Máscara Negra e Bandeira Branca. Na década de 1960, em meio à Bossa Nova, à Jovem Guarda e os festivais da canção, a música de carnaval, em seu modelo clássico, entrou em declínio, apesar do jovem Chico Buarque ter produzido um sucesso como a marchinha Noite dos Mascarados. Na avaliação de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, a era da canção carnavalesca começa em 1917 com o samba Pelo Telefone e termina em 1970 com a marcha-rancho Bandeira Branca, que foi também o último sucesso de Dalva de Oliveira.

Um ano antes do êxito de Bandeira Branca, Caetano Veloso lançara Atrás do Trio Elétrico, chamando a atenção do Brasil para a invenção de Dodô & Osmar – um caminhão em cima do qual os músicos tocavam frevos com guitarras elétricas. Os primeiros trios surgiram no início da década de 1950, mas só se tornaram nacionalmente conhecidos através dos versos de Caetano. A partir dali, a música produzida para a festa de Momo percorreria novos caminhos e nunca mais seria a mesma. O tempo, porém, haverá de mostrar que, no fim da era da canção carnavalesca (como ela é classificada no livro A Canção no Tempo), não foi necessariamente decretada a morte da música de carnaval.