João Gilberto em dois retratos tirados por Caetano e Gil

Caetano Veloso e Gilberto Gil estão entre os artistas mais fortemente influenciados pelas lições de João Gilberto.

Em 1968, aos 26 anos, Caetano fez – e gravou ao vivo com Os Mutantes – Saudosismo.

A letra fala da Bossa Nova, da quarta-feira de cinzas que se abateu sobre o Brasil e, naturalmente, de João, a quem sempre chamou de mestre supremo.

Em 2014, aos 72 anos, Gil lançou Gilbertos Samba, um disco no qual se debruça sobre o repertório de João Gilberto.

Em Gilbertos, faixa que fecha o repertório, Gil trata João como um mestre da canção, desses que aparecem a cada 100 anos.

Seguem letras e áudios de Saudosismo e Gilbertos.

Vamos ouvir?

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SAUDOSISMO, Caetano Veloso (1968)

Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos

A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade
Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões

Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser

Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade

GILBERTOS, Gilberto Gil (2014)

Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz
Aparece a cada cem anos um mestre da canção num país
Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz

Foi Dorival Caymmi que nos deu
A noção da canção como Liceu
A cada cem anos um verdadeiro mestre aparece entre nós
E entre nós alguns que o seguirão
Ampliando-lhe a voz e o violão

É assim que aparece mestre João
E aprendizes professando-lhe a fé
Um Francisco, um Caetano, algum Roberto
E a canção foi mais feliz

Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz
Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz

João Gilberto é o bruxo de Juazeiro da letra de Caetano Veloso

O CD Abraçaço, que Caetano Veloso lançou em 2012, começa com uma música chamada A Bossa Nova É Foda.

A faixa, com a pegada rocker da banda Cê e uma breve passagem bossanovista, traz uma bela homenagem à Bossa Nova, vista de longe pelo extraordinário letrista que Caetano é.

É delicioso decifrar seus versos.

O bruxo de Juazeiro, por exemplo, é João Gilberto.

O louro francês é André Midani.

O Lyra de Carlos Lyra é mencionado através da lira, “o magno instrumento grego antigo”.

“O tom de tudo comanda as ondas do mar” é uma alusão a Tom Jobim, descrito como “homem cruel, destruidor, de brilho intenso, monumental”.

Vinícius de Moraes é o poeta a quem Jobim deu a chave da casa de munição. “O velho transformou o mito das raças tristes”.

Já o bardo judeu romântico de Minnesota é Bob Dylan, que, em algum momento, também se inspirou na contenção vocal de João Gilberto.

“Lá fora, o mundo ainda se torce para encarar a equação” – assegura Caetano Veloso.

Ouçamos.

Lucy Alves era Vira e Mexe. Lucy, agora só Lucy, é Mexe Mexe

Nesse vídeo, Lucy Alves toca Vira e Mexe.

Vira e Mexe é um número instrumental que está na antologia de Luiz Gonzaga.

Nesse outro vídeo, Lucy, que agora é só Lucy, canta Mexe Mexe.

Traz a total adesão da artista ao pop da moda.

O Rei dos Reis tem a melhor música de uma Paixão de Cristo

Em O Evangelho Segundo São Mateus, Pasolini usou música erudita e o spiritual dos negros americanos.

Em A Maior História de Todos os Tempos, Stevens botou a Aleluia, de Handel, na cena da ressurreição de Lázaro.

Em Jesus Cristo Superstar, Jewison transpôs para a tela as canções da ópera-rock original.

Em A Última Tentação de Cristo, Scorsese trabalhou com um homem do rock, o ex-Genesis Peter Gabriel.

Em O Rei dos Reis, Ray teve Miklos Rozsa como autor dos temas musicais.

O húngaro Rozsa era um gigante no seu ofício. Fazer música para cinema foi sua especialidade.

A trilha de Ben-Hur é dele. A de El Cid, também.

A música de O Rei dos Reis é a melhor escrita para uma Paixão de Cristo.

Quem não a conhece?

Quem não a associa imediatamente à Semana Santa e aos dramas da Paixão?

Beba por mim e por minha saúde, já que eu não posso mais beber

O ano era 1973.

Pablo Picasso, uma das figuras geniais do século XX, esteve com amigos à noite.

Pediu que bebessem por ele e por sua saúde já que não podia mais beber.

No dia seguinte, estava morto.

O homem que legou Guernica ao mundo tinha 91 anos.

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O ator Dustin Hoffman, num intervalo das filmagens de Papillon, contou essa história a Paul McCartney.

Paul pegou o violão e cantou mais ou menos assim:

Beba por mim

Beba por minha saúde

Você sabe que não posso mais beber

O resultado, mais tarde, foi uma bela canção chamada Picasso’s Last Words.

As últimas palavras de Picasso.

De Paul para Pablo.

O vídeo é do filme Rock Show, que mostra o grupo Wings em turnê pela América.

A gravação original de Picasso’s Last Words está no disco Band on the Run.

Kisses, o novo álbum de Anitta, tem dueto com Caetano Veloso

Anitta lançou seu novo álbum nesta sexta-feira (05), o primeiro desde Bang, de 2015.

Kisses está disponível nas plataformas digitais.

O álbum em três línguas (português, espanhol e inglês) tem dez faixas.

A última faixa de KissesVocê Mentiu – traz um dueto de Anitta com Caetano Veloso.

Confira o áudio da canção.

Brasil é um abacaxi, e Bolsonaro não tem apetite para o cargo

Fulano não tem apetite para governar.

Como jornalista, desde cedo ouvi essa frase.

Diz respeito a políticos que, de fato, não conseguem se adaptar à dura rotina de um governante.

O óbvio ululante: governar é difícil. Um negócio de altíssima complexidade.

Na linguagem de hoje: governar não é para os fracos.

Ou, como diria Bolsonaro: governar o Brasil é um abacaxi.

Diria, não. Ele disse.

Disse e tentou corrigir.

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Surpresa?

Zero!

Tenho defendido essa tese desde o início do governo.

Bolsonaro não tem apetite para o exercício do cargo.

Ele queria chegar lá, mas, na prática, parece não se adequar a todos os rituais exigidos de um presidente da República.

Bolsonaro nunca foi tão verdadeiro. Nunca foi tão sincero.

Sabem aquelas coisas que a gente diz bem naturalmente, quase sem sentir que está dizendo? E que são de uma sinceridade absoluta?

Foi o que Bolsonaro disse sobre o abacaxi que é governar o Brasil e sobre a sua brevidade no cargo.

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Nesta quarta-feira (03), vi o ministro Guedes – agora articulador da reforma da Previdência – ser chamado de “tchuchuca” por um deputado e responder com um “tchuchuca é a mãe”.

Nesta quarta-feira, li a entrevista em que o ministro Vélez negou o golpe e a ditadura e defendeu a mudança progressiva nos livros de história.

Nesta quarta-feira, vi o presidente Bolsonaro admitir que governar o Brasil é um abacaxi.

O Brasil é que está com um gigantesco abacaxi para descascar!

Neil Sedaka, o cara que botou açucar no rock, faz 80 anos

Parecem personagens saídas 

De uma balada

De Neil Sedaka

No começo dos anos 60

Neil Sedaka faz 80 anos nesta quarta-feira (13).

Lembram dele?

Não?

Mas, certamente, lembram de Oh! Carol, sua balada mais famosa.

Na segunda metade dos anos 1950, Sedaka açucarou o que a primeira geração do rock vinha fazendo.

Ele ainda não tinha 20 anos quando lançou The Diary, em 1958.

Oh! Carol, seu maior sucesso, veio no ano seguinte. É, portanto, uma sexagenária.

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O rebolado de Elvis, que a TV americana censurou.

Os comentários sociais das letras de Chuck Berry.

A performance de Little Richard, primeira bicha louca do rock.

Neil Sedaka não tinha nada disso.

Era apenas um rapaz bonitinho tocando ao piano baladas pra lá de melosas.

O diabo é que elas também ficaram, atravessaram o tempo e hoje estão aí, evocando uma época, guardadas na memória afetiva de milhões de pessoas.

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Na primeira metade dos anos 1970, no Brasil, o rock rural de Sá, Rodrix e Guarabyra já tratava Sedaka como uma referência positiva de uma década atrás.

Longe daqui, Elton John, ao conquistar as paradas com Crocodile Rock, revelava que Sedaka estava entre as influências que recebeu, era uma das suas fontes.

Não somos nós, agora, que vamos questionar o legado de Neil Sedaka, esse artista de 80 anos.

Bob Dylan já foi mulher, eu sei! Seu Jorge pode ser Marighella!

I’m Not There.

Não Estou Lá.

Já viram?

É um filme incrível sobre Bob Dylan.

Direção de Todd Haynes.

Se quisermos, tem algo de cinebiografia, mas é evidente que não é uma cinebiografia do artista.

Falta linearidade para que seja.

Melhor dizer que é uma grande “viagem” pela vida privada, pela persona pública, pela música e pelo universo poético de Dylan.

Jamais será devidamente compreendido e saborosamente degustado por quem não tem intimidade com o que ele produziu.

Quanto mais intimidade, melhor.

Cinco atores e uma atriz (!) intepretam Bob Dylan em Não Estou Lá.

Destaco que o Dylan criança não é branco.

E que o Dylan de meados dos anos 1960 não é homem.

Sim! É uma mulher!

Cate Blanchett, em impecável performance, é o Dylan tal como vimos o artista no documentário Don’t Look Back, clássico do gênero, dirigido por D.A. Pennebaker. Lembram?

Cate Blanchett é o Dylan que trocou o violão folk pela estridência da guitarra elétrica. O cara que dialogou com os Beatles e com o poeta Ginsberg.

Em Não Estou Lá, há cinco homens fazendo Dylan, mas ninguém faz tão bem quanto Blanchett.

É impressionante!

Vejam o trailer.