Governo testa campanha contra isolamento social. É verdade!

Começo a sexta-feira (27) com uma notícia da Folha:

PROPAGANDA DO GOVERNO BOLSONARO PEDE FIM DO ISOLAMENTO

É isso mesmo.

O governo do presidente Jair Bolsonaro está testando uma campanha na contramão do isolamento social a que estamos submetidos na luta contra o novo coronavírus.

“A divulgação de uma política leniente com a propagação do novo coronavírus no país virou objeto de um vídeo de divulgação institucional da Presidência de Jair Bolsonaro. Nele, a volta ao trabalho de regime de confinamentos é estimulada, contrariando orientações globais sobre o tema” – diz o texto assinado por Igor Gielow.

A matéria informa que a peça publicitária foi distribuída em forma de teste para as redes bolsonaristas.

Informa também que, em postagem no Facebook, o senador Flávio Bolsonaro, primogênito do presidente, “foi o responsável por dar o chute inicial desta etapa da campanha #BrasilNaoPodeParar”.

Vejam o vídeo.

Sonífera Ilha é um pop bobinho que todos nós adoramos

Foi mais ou menos assim:

Stevie Wonder disse a Gilberto Gil que não gostava muito de I Just Called to Say I Love You.

Achava banal a canção.

Gil, que verteu a música de Wonder para o português, respondeu: Essas é que são as boas.

Lembrei dessa conversa vendo/ouvindo o vídeo oficial da nova versão de Sonífera Ilha, sucesso que lançou os Titãs três décadas e meia atrás.

Em 2020, Sonífera Ilha volta com os Titãs em formato de trio acústico, num vídeo em que o grupo paulistano tem o auxílio luxuoso de amigos e amigas (lá está Fernanda Montenegro!).

É um pop bobinho, bem bobinho, talvez mais banal do que a canção de Stevie Wonder. Mas está colado aos nossos ouvidos desde meados dos anos 1980.

Está bem guardado na nossa memória afetiva.

E todos nós adoramos.

Kenny Rogers morreu. Fez muito sucesso com country estilizado

Morreu o cantor americano Kenny Rogers.

Tinha 81 anos e estava doente há algum tempo.

Sua turnê de despedida, iniciada em 2016, foi interrompida por causa dos problemas de saúde.

Kenny Rogers fez muito sucesso.

Sua música era classificada como country.

Mas, convenhamos, era um country pra lá de estilizado.

Fiquemos como um pouco de Rogers.

Collor, Zélia, Lula, Chico Mendes e Paul McCartney no Maracanã

15 de março de 1990.

Posse de Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo povo desde Jânio Quadros.

16 de março de 1990.

Anúncio do Plano Collor, que incluía o traumático confisco da poupança dos brasileiros.

Lá se vão exatos 30 anos nesta segunda-feira 16 de março de 2020.

21 de abril de 1990.

Paul McCartney fazia o último dos seus dois shows no Rio de Janeiro, em sua primeira vez no Brasil.

Havia 180 mil pessoas no Maracanã, número que foi parar no Guinness Book.

Especulava-se que o presidente Collor iria. Não foi.

Quem estava lá era a ministra Zélia Cardoso de Mello, da Fazenda, vaiada ao chegar à tribuna de honra do estádio.

McCartney havia gravado, no seu disco mais recente, uma canção dedicada a Chico Mendes, líder dos seringueiros e ambientalista brasileiro assassinado em dezembro de 1988.

How Many People não estava no set list do Maracanã, mas, no meio do show, McCartney falava um pouco sobre o seu compromisso com a defesa dos animais e do meio ambiente.

A fala terminava com um brado do músico: Chico Mendes!

A plateia reagiu cantando:

Olê, olê, olê, olá! Lula! Lula!

Lula, quatro meses antes, fora derrotado na disputa eleitoral por Collor.

Em 1990, ele ainda não tinha a dimensão internacional que conquistaria depois, e McCartney, muito provavelmente, não entendeu o que a multidão cantava.

Pode ter parecido apenas um desses “gritos de guerra” entoados nos estádios de futebol.

Para mim, foi um sinal claro de que o confisco da poupança já levara parte da popularidade do presidente empossado há pouco mais de um mês.

30 anos se passaram, e cá estamos nós às voltas com mais um impasse brasileiro.

Antônio Barros faz 90 anos. Ele nasceu para compor sucessos

Antônio Barros faz 90 anos nesta quarta-feira (11).

O homem é um poderosíssimo hit maker.

Nasceu para isso. Para fabricar sucessos.

Se fosse americano, seria um milionário, de tanto que arrecadaria em direitos autorais.

Os que creem podem dizer sem medo de errar: Antônio Barros tem um imenso talento que Deus lhe deu.

Ele é um homem simples.

Sua música é feita com absoluta simplicidade, com os rudimentos de quem mal toca o violão.

Mas tem força.

Tem beleza.

Tem autenticidade.

É verdadeira.

Cola nos nossos ouvidos e não sai nunca mais.

Compôs um monte de sucessos. Alguns, a gente nem sabe, mas foi ele que fez.

Gravado por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, é dono de um songbook invejável na música popular do Nordeste.

O meu Antônio Barros? O que está muitíssimo bem guardado na minha memória afetiva?

Ele sabe. Já lhe disse inúmeras vezes.

É o daquelas três marchinhas juninas gravadas pelo Trio Nordestino.

Brincadeira na Fogueira, Naquele São João e É Madrugada.

São lindas demais.

Vêm de regiões profundas do ser do Nordeste.

É com elas, em versão de Spok e Orquestra Forrobodó, que faço minha homenagem ao compositor no dia dos seus 90 anos.

Viva Antônio Barros!

Ultradireita está pirada. Vídeo que viralizou é coisa de fanático

Tenho visto com frequência nas redes sociais esse vídeo convocando as pessoas para a manifestação do dia 15 de março, domingo que vem.

Li que viralizou.

Neste sábado (07), em Boa Vista, durante uma escala técnica do voo que o levaria aos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro também convocou a população.

Pela primeira vez, o fez de forma explícita.

Mas disse à plateia que o ouvia que o ato não é contra o Congresso nem contra o Supremo.

Pensei que fosse.

Afinal, a ideia surgiu depois do “foda-se” do general Augusto Heleno, e é assim que por muitos tem sido divulgada nas redes sociais.

*****

Voltemos ao vídeo.

“Vamos resgatar nosso país, nossa bandeira”

É o que brada esse estranho cavaleiro, empunhando um escudo e a Bandeira Nacional ao som do antigo dobrado Batista de Melo, um clássico do gênero.

Achei que Bolsonaro, presidente há 14 meses e mais alguns dias, já houvesse feito esse resgate, pelo menos à luz do que ele, seus auxiliares e apoiadores pensam.

Você considera normal esse vídeo?

É desse modo – com esses trajes e com essas falas – que se convoca a população a participar de um ato político de rua em pleno ano de 2020?

Venha de onde vier, esse chamado mostra que o Brasil está cheio de fanáticos de extrema direita.

Que ninguém se iluda: eles são uma permanente ameaça à democracia.

Para onde nos levarão?

O que farão com o nosso processo civilizatório?

“A mulher é um livro místico. Somente a alguns é dado lê-la”

No Dia Internacional da Mulher, toda a beleza que há em Elegia, que Caetano Veloso gravou no disco Cinema Transcendental, de 1979.

O original é do poeta inglês John Donne, nascido no século XVI.

Augusto de Campos traduziu para o português.

Péricles Cavalcanti adaptou os versos e compôs a melodia.

ELEGIA

Deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre

Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista

Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério

Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo

Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes

Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita

Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la

Let It Be foi lançada há 50 anos. É um clássico da canção popular

Meu pai ouvia da Voz da América à Rádio Pequim. Da BBC de Londres à Rádio Central de Moscou.

Durante a ditadura, sabia-se mais do Brasil ouvindo essas emissoras do mundo que chegavam até nós com o som característico das ondas curtas.

Na BBC, tinha aquela transmissão diária das sete da noite.

Nas quintas-feiras, depois do noticiário, eu ouvia O Iê-Iê-Iê na BBC.

Sob o comando de Miguel Carlos, o programa de nome já anacrônico durava somente 20 minutos e trazia as novidades do pop/rock britânico.

Foi lá que fiz a primeira audição de Let It Be, o lado A do compacto que os Beatles tinham acabado de lançar.

Incrível!

Fui menino no tempo em que ouvíamos as novas canções dos Beatles.

Imaginam o que isso representa?

*****

O single Let It Be/You Know My Name foi lançado no dia seis de março de 1970.

Let It Be traz a assinatura John Lennon & Paul McCartney, mas a autoria é toda de Paul.

Já ouvi gente dizer que a “mãe Maria” da letra é a maconha.

Há quem diga que é Nossa Senhora.

Nem uma coisa nem outra.

A “mother Mary” é a mãe de McCartney, que morreu quando ele tinha apenas 14 anos.

A canção foi gravada em janeiro de 1969, quando os Beatles foram filmados para o projeto Get Back.

A ideia de mostrá-los na intimidade, meio de volta às origens, não deu certo. Resultou, mais de um ano depois, no álbum e no documentário Let It Be, retrato do fim do grupo.

Let It Be, a canção, foi segundo lugar nas paradas do Reino Unido. Primeiro nos Estados Unidos.

Tinha o piano e a voz de Paul McCartney.

Tinha o órgão de Billy Preston e o solo de guitarra de George Harrison.

E – claro! – a melodia irresistivelmente sedutora, do jeito que seu autor sabe escrever.

Let It Be é um clássico da canção popular.

É número obrigatório nos shows de Paul McCartney.

Quando ele canta, o público levanta as mãos e ilumina a arena com seus celulares.

A música atravessou meio século intacta.

Quando ela foi lançada, não imaginávamos que, 35 dias depois, o fim dos Beatles seria oficialmente anunciado.

Let It Be também evoca esse tempo.

É meu bonde, é meu bonde, meu bom. Esse funk é bom demais!

Margem, de Adriana Calcanhotto, é um dos melhores discos brasileiros do ano passado.

Depois de lançar o CD, ela saiu em turnê.

O show foi gravado ao vivo.

Nesta sexta-feira (21), conhecemos o primeiro resultado: o vídeo oficial e o single com o funk Meu Bonde.

É arrebatador!

Recife adormecia, ficava a sonhar, ao som da triste melodia

Música de carnaval é feita para dançar nas ruas e nos salões.

Dispensa as discussões sobre “qualidade”.

Mas, se quisermos debater, algo me parece claro: entre todos os gêneros musicais carnavalescos, o frevo pernambucano é o mais rico.

O frevo de bloco que prefiro? Evocação No 1, de Nelson Ferreira.

E o frevo de rua? Último Dia, de Levino Ferreira.

Vamos ouvi-los?