Há 50 anos, 350 milhões viram os Beatles via satélite

25 de junho de 1967.

350 milhões de pessoas de vários países viram a primeira transmissão mundial de televisão via satélite.

Os Beatles participaram com uma nova canção: All You Need Is Love.

Era uma mensagem de paz para um mundo conflagrado.

Neste domingo (25), faz 50 anos!

“Dominguinhos é o melhor de nós todos”, disse Sivuca

“O sol nasceu, a lua nasceu/o dia nasceu, o sol nasceu/é tudo mentira/é tudo figura”.

Não são versos conhecidos. Estão na letra de Quem Nasceu, blues de Péricles Cavalcanti que Gal Costa canta na abertura do disco Temporada de Verão, de 1974. O grupo que acompanha a cantora tem o sax de Oberdan e a guitarra de Cláudio Stevenson, que logo ouviríamos na Banda Black Rio. Mas o que sempre me impressionou foi o som da sanfona. Primeiro, na harmonização, enquanto Gal está cantando. Depois, no solo. O senso de improvisação, as soluções jazzísticas de um mestre do forró chamado Dominguinhos.

Em 1976, quando Gilberto Gil esteve em João Pessoa com o show Refazenda, fui ver a passagem de som no Teatro Santa Roza.

Final de tarde, plateia completamente vazia, alguns técnicos espalhados pelo teatro. Lá no palco, Gil num violão plugado, Dominguinhos à sanfona, Moacir Albuquerque no baixo, Chiquinho Azevedo na bateria. Os quatro em improvisações intermináveis. “Fazendo som”, como se dizia na época. Recriando músicas do set list da noite. Os instrumentos dialogando em Essa É Pra Tocar no Rádio, com aquela levada funk à Miles Davis. O Miles de On the Corner. E Dominguinhos no meio. Totalmente à vontade. Um forrozeiro aberto a outras possibilidades. Guiado por Gil, seu parceiro no blues da caatinga Lamento Sertanejo.

Menciono o Dominguinhos que não é do forró porque acho que circunscrevê-lo aos ritmos nordestinos restringe o seu talento. Mas é claro que a essência do que ele produziu está na música da sua região. Desde o dia em que, ainda menino, foi visto e descoberto por Luiz Gonzaga, cuja ajuda foi determinante para que viesse a se tornar um artista.

Tocou com Gonzaga quando este amargava o ostracismo. Percorreu o país com o Rei do Baião. Esteve com ele no momento em que recuperou prestígio e público. O show Luiz Gonzaga Volta Pra Curtir é o retrato da reentrada. E Dominguinhos está lá. Sua sanfona se mistura a uma guitarra elétrica, que não era comum no grupo que acompanhava Gonzaga. Mas que antecipa algo do seu encontro com Gil.

Dominguinhos deu a Gil o xote Só Quero um Xodó. Foi parceiro de Chico Buarque em Tantas Palavras. Colocou notas e acordes de grande melancolia em Cajuína, de Caetano Veloso. Escreveu (com Manduka) e cantou lindamente a toada Quem me Levará Sou Eu. Compôs (com Nando Cordel) De Volta pro Aconchego, para Elba Ramalho imortalizar. Dividiu com Sivuca e Oswaldinho um disco (Cada um Belisca um Pouco) em que os três sanfoneiros prestam tributo a Luiz Gonzaga. Este costumava atribuir ao afilhado a urbanização do forró. E um compromisso muito sério com o Nordeste. Gonzaga estava certíssimo. Sabia que Dominguinhos seria um dos seus herdeiros. Talvez o principal. O que faria mais justiça ao seu legado. O mais fiel na interpretação do seu cancioneiro.

“Dominguinhos não sabe uma nota, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. É pura intuição, mas uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que ele” – me disse Sivuca pouco antes de morrer. E ele não foi generoso com o colega. Apenas verdadeiro.

Há 50 anos, Festival de Monterey projetou Hendrix e Joplin

Sexta 16, sábado 17, domingo 18 de junho. Tal como agora em 2017. Só que há 50 anos.

Naquele fim de semana, o Festival de Monterey se transformou no primeiro dos grandes festivais de rock.

Os Beatles, duas semanas antes, haviam lançado o LP Sgt. Pepper, e os hippies viviam o verão do amor.

O festival projetou Jimi Hendrix (na foto, com Brian Jones), que, embora americano, ainda não era conhecido nos Estados Unidos.

E também Janis Joplin, a cantora do grupo Big Brother and Holding Company. Sua performance no blues Ball and Chain é inesquecível.

Monterey foi uma espécie de ensaio para Woodstock, que, dois anos mais tarde, se consagraria como o maior e mais importante evento do gênero.

A síntese do que foi Monterey está no filme de D. A. Pennebaker. Monterey Pop tem inestimável valor documental. E inaugura uma série de filmes de longa metragem (Woodstock, Gimme Shelter, etc.) que levaram muita gente aos cinemas, sobretudo na década de 1970.

Vistos de longe, festivais como o de Monterey são ingênuos e espontâneos. Têm boa música pop e muito amadorismo.

O rock ainda não estava contaminado pelo profissionalismo que, mais tarde, transformaria os grandes shows em espetáculos indiscutivelmente belos, mas às vezes assépticos demais.

Antonio Barros e Ceceu e o melhor do nosso São João

Antônio Barros (sozinho ou com Ceceu) compôs centenas de músicas. Entre elas, dezenas e dezenas de sucessos.

É um verdadeiro hit maker o autor de Homem com H.

Costumo dizer que, se tivesse nascido nos Estados Unidos, onde direito autoral é coisa séria, ele seria um milionário.

Nos últimos dias, em meio ao debate sobre a descaracterização do São João de Campina Grande, lembrei muito de Antônio Barros e Ceceu. Dos shows, das conversas, das histórias sobre a criação das canções. Da alegria de estar com eles.

Lembrei, sobretudo, porque os dois são grandes representantes da música do Nordeste. Com um repertório onde há verdadeiras joias do nosso cancioneiro popular.

Como essas três marchinhas que Antônio Barros compôs antes de formar a dupla com Ceceu. Aqui interpretadas pelo Trio Nordestino, Brincadeira na Fogueira, Naquele São João e É Madrugada remetem a regiões profundas do ser do Nordeste.

Confiram na edição do DJ Jorgito.

Nunca houve um Batman como Adam West!

Vi o Batman dos anos 1960 na época.

Éramos garotos e levávamos a sério as aventuras da dupla dinâmica. O humor, a coisa pop da série, o intencional caráter kitsch, só percebemos muito depois.

Adorávamos a transformação de Batman e Robin, o bat móvel e a saída da bat caverna, escondida naquele lugar insuspeito.

Torcíamos pelos mocinhos, mas, no fundo, desejávamos que Batman “pegasse” a Mulher Gato!

E tinha a ainda hoje irresistível música-tema composta por Neal Heft, mais tarde recriada por Prince para o Batman de Tim Burton.

No Brasil, vimos em preto e branco. A televisão brasileira ainda não era em cores.

Quando os personagens chegaram ao cinema, tivemos o impacto da cor.

O filme revelava que, ali, ela era elemento essencial.

Fui à estreia, no Cine Plaza, e revi pelo menos umas três vezes. A derradeira, no último dia da década de 1960, numa sessão noturna do Cine Bela Vista. Posso, então, dizer que encerrei os anos 60 vendo Batman.

Na TV, nunca mais vi.

O filme, revi mais de 30 anos depois, no advento do DVD. Reapresentou imagens (o morcego projetado no céu de Gotham City!) que estavam guardadas na minha memória afetiva.

Mas – confesso – achei tudo anacrônico. Gostei só como evocação de uma época.

Agora, morreu Adam West, o protagonista da série. Tinha 88 anos. Envelheceu sendo lembrado pelo personagem. Ficou de tal modo preso a ele que não conseguiu fazer sucesso fora das histórias de Batman. Como o Tarzan de Johnny Weissmuller.

Mas foi o melhor. Digo mesmo sem ser fã.

Adaptada, a velha frase serve para ele:

Nunca houve um Batman como Adam West!

Maysa, tristezas e desamores

Ne Me Quitte Pas, de Jacques Brel, é uma das mais belas canções do mundo. Tem dezenas de registros em vários idiomas.

A gravação de Maysa é prova inconteste de que a brasileira é uma intérprete extraordinária, que seria reconhecida como grande cantora em qualquer lugar do mundo.

Os olhos? A boca? Os cabelos? Quem é essa mulher?

Alguém tenta desvendá-la a partir dessas perguntas num texto que li.

Sim! Os olhos! A boca! Os cabelos! Certamente! Mas, sobretudo, a voz!

A voz e o que ela traduz: as tristezas, a angústia, os desamores.

Maysa é de uma linhagem à qual pertencem Billie Holiday, Edith Piaf, Janis Joplin, Elis Regina, Amy Winehouse. Cada uma no seu lugar,  no seu tempo e com seus talentos específicos.

Sua carreira, a rigor, não deu certo. Sua vida não deu certo. Maysa foi consumida pela solidão e pelo álcool. Quando morreu, aos 40 anos, tinha uma trajetória de duas décadas e estava em declínio.

Faria aniversário nesta terça-feira (06). Seu canto está acima do bem e do mal!

John Kennedy nasceu há 100 anos

Nesta segunda-feira (29), faz 100 anos que John Fitzgerald Kennedy nasceu.

Católico, filho de uma família de origem irlandesa, JFK estava com 46 anos quando foi assassinado em Dallas no dia 22 de novembro de 1963.

Kennedy é uma das grandes personalidades do século XX tanto quanto seu assassinato é um dos maiores episódios do século passado.

Onde você estava quando John Kennedy foi assassinado?

Eu tinha apenas quatro anos e meio, mas nunca apaguei da memória. No início da tarde daquele 22 de novembro de 1963, meu pai sintonizou a Voz da América para acompanhar o noticiário. A lembrança ainda é nítida. O rádio Philips em cima de um pequeno móvel no canto da sala, o som cheio dos ruídos da transmissão em ondas curtas. Costumo dizer que os americanos entraram na minha vida ali. Ou que é o primeiro grande fato histórico de que me lembro.

Meu pai era comunista, mas admirava os irmãos Kennedy (Bob mais do que John) e seus esforços na direção de um sonho: uma América que não mais separasse os homens pela cor da pele. JFK crescera em seu conceito na crise dos mísseis, no modo como dialogou com forças antagônicas. Também lhe era atraente a solidez da democracia americana. Talvez como contraponto às nossas históricas instabilidades. Como quem intuía que, dali a pouco mais de quatro meses, os militares deporiam um presidente civil e mergulhariam o Brasil em duas décadas de governos de exceção.

Perguntas que atravessaram o tempo que nos separa do assassinato de Kennedy continuam sem respostas. No início dos anos 1990, ao realizar o filme JFK, o diretor Oliver Stone nos remeteu a elas:

Quem, de fato, matou Kennedy? Todos os tiros foram disparados por Lee Harvey Oswald? Uma grande conspiração está por trás do assassinato? Quem ordenara a execução? O governo cubano? A direita americana? O que levou Jack Ruby, o dono de uma casa de prostituição, a matar Oswald diante das câmeras e da polícia?

Vendo de longe, tenho a impressão de que o mito Kennedy é muito maior do que a realidade. Vivo e reeleito, JFK manteria os Estados Unidos no Vietnã do mesmo modo que apoiaria as ditaduras da América do Sul. O irmão Bob, morto em 1968, parecia mais avançado, mas nunca saberemos. O fato é que a figura que o mundo construiu não pode ser desassociada da sua dimensão trágica. É esta que atravessa o tempo. Somada a sonhos projetados na imagem do jovem presidente e sua bela mulher.

Antes que se completasse meio século do assassinato de Kennedy, os Estados Unidos tinham seu primeiro presidente afrodescendente, o que era impensável em 1963. Agora, no centenário do seu nascimento, têm Donald Trump na presidência, algo fora de qualquer previsão um ano atrás.

Na minha memória afetiva, JFK está guardado como evocação de uma época de muitos conflitos e grandes esperanças.

Terra em Transe é nosso maior filme político. Quem quer vê-lo?

Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!

A fala do personagem de Jardel Filho ecoa há 50 anos!

Para mim, o nosso maior e mais instigante filme político é o agora cinquentenário Terra em Transe.

O Brasil continua muito parecido com o Eldorado de Glauber Rocha.

Unidos em Glauber, o gênio do construtor e o mito do demolidor gestaram um filme que fala das nossas questões cruciais. Falava em 1967. Continua falando agora, meio século depois.

Esquerda, direita, populismo, messianismo, o papel dos intelectuais, o povo, a desigualdade, o autoritarismo, o nosso destino enquanto Nação. O que quisermos mais.

Terra em Transe, se tudo isso fosse pouco, ainda é absolutamente devastador como delírio estético. Não é à toa que tem a admiração de Martin Scorsese.

O problema é que, para muitos, o filme de Glauber Rocha é tosco. Hermético. Incompreensível.

Quase ninguém quer enfrentá-lo.

Mas o problema pode ser o empobrecimento intelectual das nossas plateias. A ausência de uma crítica como a que se tinha na época em que o filme foi lançado. A falta de um ambiente propício a esse tipo de cinema.

Vejam o trailer.

Em 2001, tentei reunir amigos para uma sessão caseira de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Achei que seria o máximo ver o filme de Stanley Kubrick em pleno ano de 2001. Um deles me disse assim: não passaremos da sequência dos macacos. Ninguém topou.

Que tal, então, vermos Terra em Transe agora, com o Brasil mergulhado num dos seus grandes impasses políticos?

Acho difícil que alguém queira nesses tempos de tanta superficialidade!

Moore! Roger Moore!

Morreu o ator Roger Moore. Aos 89 anos, travou uma breve luta contra o câncer, informam as agências.

Moore se notabilizou no papel de James Bond, o agente 007.

Teve a difícil tarefa de substituir Sean Connery, o primeiro e o melhor de todos. O eterno Bond!

Cumpriu bem. Foi o segundo melhor da franquia.

Fez sete filmes. Quando deixou o papel, já tinha quase 60 anos.

Era Sir Roger Moore. Marcou uma época.

Fecho com Paul McCartney: Live and Let Die.

“Sgt. Pepper”, o “Cidadão Kane” do rock, chega aos 50 anos!

Estamos a poucos dias dos 50 anos do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Dizer que é o disco mais importante dos Beatles é pouco.

Chamá-lo de o disco mais importante do rock lhe faz justiça.

Por isso, a comparação com o filme de Orson Welles aí no título. Cidadão Kane é o filme mais importante do cinema. É quase uma unanimidade.

Quando o Sgt. Pepper foi lançado, eu tinha oito anos e acabara de ver os Beatles no cinema em A Hard Day’s Night e Help!.

Nos dois filmes de Richard Lester, a imagem deles era aquela ainda ingênua que conquistara o mundo em 1964 como irresistível fenômeno pop.

No Pepper, tínhamos coisas que eu não conseguia entender aos oito anos. Daí, tenho a lembrança de que o disco me soava estranho e enigmático quando o conheci.

Sgt. Pepper remete ao status que a segunda geração do rock deu ao gênero. Esse status começa com Bob Dylan, em 1962, um pouco antes do surgimento dos Beatles.

Nos primeiros tempos, os Beatles parecem ingênuos demais para dar continuidade à linha evolutiva do rock.

Mas amadureceram rapidamente, guiados (ou traduzidos, se quisermos enfatizar o talento dos rapazes) pelo maestro George Martin.

O Sgt. Pepper – após os passos dados no Rubber Soul e, sobretudo, no Revolver – é a confirmação desse amadurecimento do quarteto. E do amadurecimento do próprio rock.

O rock será o que fizermos dele – disse John Lennon.

O disco agora cinquentenário assegura que sim!

(Voltarei ao Pepper em outros textos aqui na coluna)