Vídeo do leão na conta de Bolsonaro é grave ataque à democracia

Nesta segunda-feira (28), o dia em que fez um ano da eleição do presidente Jair Bolsonaro, um amigo me enviou um vídeo no qual um leão era ameaçado por um grupo de hienas.

No vídeo, o leão é identificado como Bolsonaro. As hienas são os que o presidente julga adversários. Ou inimigos mesmo. O STF, a ONU, a OAB, a Globo, o PT, etc.

No final, outro leão – um conservador patriota – surge para proteger o leão ameaçado. E, sob a ótica do bolsonarismo, tudo termina bem.

À primeira vista, me pareceu só mais uma manifestação da imbecilidade bolsonarista.

Pouco depois, vi na capa da Folha de S. Paulo que o vídeo fora postado numa conta oficial do presidente da República nas redes sociais.

Aí, de manifestação da imbecilidade bolsonarista, a coisa passou a grave ataque à democracia.

Sim! Isso mesmo! Sem qualquer exagero!

O presidente de um país – ou quem gere suas contas nas redes sociais – não pode postar um vídeo como este, que, explicitamente, ataca, de uma só vez, a ONU, a OAB, o Supremo, os partidos políticos e os veículos de comunicação.

Num tempo em que tudo é banalizado, parece normal. Mas não é!

O ataque que o vídeo contém às instituições e à liberdade de expressão é inaceitável para ser chancelado pelo próprio presidente.

A repercussão negativa fez com que a postagem fosse deletada. Mas o estrago já estava feito.

O vídeo do leão atacado pelas hienas foi postado na conta oficial do presidente no mesmo dia em que Bolsonaro disse que não cumprimentaria o presidente eleito da Argentina para parabenizá-lo pela vitória.

Outra afronta à democracia.

Coringa traz homenagens explícitas a Martin Scorsese

Martin Scorsese é várias vezes homenageado em Coringa, esse filme de Todd Phillips que tem provocado tanto debate desde que entrou em cartaz, depois de conquistar o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

A construção do personagem remete ao Robert De Niro de Taxi Driver. Joaquin Phoenix dançando diante do espelho é puro Taxi Driver, grandiosíssimo filme de Scorsese. E é uma grande sequência de Coringa.

Robert De Niro, talvez o ator predileto de Scorsese, está no elenco. Ele faz o papel de Murray Franklin. Murray e seu talk show que Arthur Fleck, o futuro Coringa, vê em casa, sonhando com o dia em que será convidado para uma entrevista.

A relação de Arthur Fleck com Murray Franklin remete a O Rei da Comédia, um dos filmes notáveis de Martin Scorsese. Em O Rei da Comédia, o jovem De Niro é o Phoenix de hoje. O cara que comanda o talk show é ninguém menos do que Jerry Lewis, àquela altura, já uma lenda do cinema.

Alguém disse que Coringa é um filme de época. E é. Vemos na logo da Warner e nos letreiros de apresentação. Ele remete aos filmes americanos da década de 1970, constatamos o tempo todo. Nesse particular, o uso das cores é um dos trunfos de Coringa.

O melhor do filme de Todd Phillips – como todos têm observado – é Joaquin Phoenix. Ele conduz a narrativa em extraordinária atuação, digna de Oscar. Como se o Coringa de Phoenix conseguisse ser melhor do que o Coringa de Phillips.

That’s Life, essa memorável canção de Frank Sinatra, marca fortemente o filme e fala do personagem. Parece feita para ele.

Há ainda a discussão política que Coringa provoca. Pertinente, mas, talvez, com os excessos e equívocos próprios do tempo em que vivemos.

Ao mexer no universo das histórias em quadrinhos, conferindo uma outra perspectiva a um dos seus maiores vilões, Coringa, de fato, é um filme original.

Duas canções botaram Angela Davis no radar de muita gente

Angela Davis veio a São Paulo pela primeira vez.

É uma admirável ativista pop em escala planetária.

A luta contra o racismo, a defesa do feminismo,  problemas da população carcerária, a causa LGBT – tudo isso está na sua agenda.

Angela Davis agora tem 75 anos.

Tinha 30 quando comecei a prestar atenção nela.

Em Angela, observei a força do ativismo e a sua beleza.

Em 1972, duas canções botaram Angela Davis no radar de muita gente.

Em seu disco Some Time in New York City, o casal John Lennon e Yoko Ono gravou uma balada que tinha o nome da ativista.

No álbum Exile on Main Street, os Rolling Stones chamaram Angela de Sweet Black Angel.

O doce anjo negro.

Rock e política caminhando juntos.

Na balada de John & Yoko.

Na canção country dos Rolling Stones.

Não é por acaso que acho estranho gente que admira Beatles e Rolling Stones votando em candidatos da extrema direita.

São coisas incompatíveis.

JN chega aos 50 como o melhor noticioso da televisão brasileira

O Jornal Nacional completou 50 anos neste domingo (01/09).

Desagradarei muita gente (de esquerda e de direita) ao dizer o que penso do JN:

Não é só o mais importante, é o melhor noticioso da televisão brasileira.

A equipe do Jornal Nacional está sempre em busca da informação correta, bem checada, com espaço para os dois lados da notícia. Como, na universidade, a gente aprende que deve ser feito.

Mais do que isso:

Traz o mais completo resumo do que aconteceu no Brasil e no mundo e o faz seguindo um altíssimo padrão de qualidade.

É o óbvio ululante o que estou dizendo.

Mas não para todos.

Para boa parte da esquerda, o Jornal Nacional ajudou a dar o golpe que derrubou a presidente Dilma, botou Lula na cadeia e levou Bolsonaro ao poder.

Para a direita truculenta que chegou ao poder na eleição de 2018, o Jornal Nacional é coisa de comunista.

Claro que nem uma coisa nem outra.

O Jornal Nacional não faz diferente do que fazem os melhores veículos da chamada grande imprensa. A Folha, por exemplo.

É que a radicalização do jogo político no Brasil levou muita gente a não compreender o papel imprescindível da mídia – do jeito que ela é, com suas virtudes e seus defeitos – na nossa frágil democracia.

Notem que, para chancelar seus argumentos, a esquerda, nas redes sociais, recorre comumente à imprensa que ela tanto critica. Compartilha conteúdos da Folha, da Globo, até de colunistas reconhecidamente de direita.

Não me surpreende que a extrema direita veja comunistas na grande imprensa. É próprio da sua burrice, da sua ignorância.

Mas lamento que o campo progressista lide tão mal com a mídia, no lugar de ter uma visão crítica, de saber ler/ver/ouvir, identificando e respeitando as opções editoriais de cada um.

O Jornal Nacional chega aos 50 anos como o mais importante e melhor noticioso da televisão brasileira.

Nesse Brasil sob desconstrução, esse aniversário bem que pode suscitar oportunas reflexões para espectadores e para nós, jornalistas.

PAI E FILHO. FATHER AND SON

Hoje (11) é Dia dos Pais.

A coluna marca a data com uma bela canção do começo dos anos 1970.

Father and Son, de Cat Stevens, de quem ouvimos tantas outras belas canções.

A música ganhou uma versão de Nara Leão.

Seguem áudio e letra em Português.

É tão cedo pra partir,
Devagar, não se apresse
Nessa idade você tem
Tanta coisa que aprender
Ache a moça dos seus sonhos
Monte um lar e um negócio
Como eu fiz e eu sou velho
Mas feliz

Eu já fui como você
E sei bem que é da idade
Se iludir com o sonho de um mundo irreal
Mas pense um pouco, no futuro
Pense em tudo que hoje tem
Pois o sonho se acaba
E você vai ficar só

Como posso lhe explicar
Quando eu tento ele não quer ouvir
Volta mesma, é sempre a mesma
Velha história

Desde o dia que aprendi a falar
Só faço ouvir vocês
Mas agora descobri
Que há um caminho e devo ir
Adeus, eu vou partir

(Adeus, adeus, adeus…
Eu sei que tenho que decidir sozinho…)

É tão cedo pra partir
Sente um pouco e reflita
Nessa idade você tem
Tanta coisa a realizar
Ache a moça dos seus sonhos
Monte um lar e um negócio
Como eu fiz e eu sou velho
Mas feliz

(Não vá, não vá…
Você vai ter que decidir sozinho)

Sofri tanto pra guardar
Sempre em mim tudo em que acreditei
Me doia, mas dói mas se enganar
Vocês pensam que me entendem
Mas é sempre de vocês, que vocês falam
Mas agora descobri
Que há um caminho e devo ir
Adeus, eu vou partir

E, para terminar, Father and Son com o autor.

Feliz Dia dos Pais!

Na minha infância, canção erótica era Je T’aime, Moi Non Plus

No Dia do Orgasmo, uma canção erótica.

Je T’aime, Moi Non Plus.

O autor, Serge Gainsbourg, gravou em dueto com a atriz Jane Birkin.

O registro é de 1969.

Pois é. Eu era criança e lembro bem do impacto.

50 anos depois, acho ingênua a canção.

No Brasil, foi incluída numa compilação chamada Super Eróticas.

Era preciso ter 18 anos para comprar o disco, envolto numa sobrecapa de plástico.

João Gilberto em dois retratos tirados por Caetano e Gil

Caetano Veloso e Gilberto Gil estão entre os artistas mais fortemente influenciados pelas lições de João Gilberto.

Em 1968, aos 26 anos, Caetano fez – e gravou ao vivo com Os Mutantes – Saudosismo.

A letra fala da Bossa Nova, da quarta-feira de cinzas que se abateu sobre o Brasil e, naturalmente, de João, a quem sempre chamou de mestre supremo.

Em 2014, aos 72 anos, Gil lançou Gilbertos Samba, um disco no qual se debruça sobre o repertório de João Gilberto.

Em Gilbertos, faixa que fecha o repertório, Gil trata João como um mestre da canção, desses que aparecem a cada 100 anos.

Seguem letras e áudios de Saudosismo e Gilbertos.

Vamos ouvir?

*****

SAUDOSISMO, Caetano Veloso (1968)

Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos

A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade
Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões

Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser

Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade

GILBERTOS, Gilberto Gil (2014)

Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz
Aparece a cada cem anos um mestre da canção num país
Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz

Foi Dorival Caymmi que nos deu
A noção da canção como Liceu
A cada cem anos um verdadeiro mestre aparece entre nós
E entre nós alguns que o seguirão
Ampliando-lhe a voz e o violão

É assim que aparece mestre João
E aprendizes professando-lhe a fé
Um Francisco, um Caetano, algum Roberto
E a canção foi mais feliz

Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz
Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz

João Gilberto é o bruxo de Juazeiro da letra de Caetano Veloso

O CD Abraçaço, que Caetano Veloso lançou em 2012, começa com uma música chamada A Bossa Nova É Foda.

A faixa, com a pegada rocker da banda Cê e uma breve passagem bossanovista, traz uma bela homenagem à Bossa Nova, vista de longe pelo extraordinário letrista que Caetano é.

É delicioso decifrar seus versos.

O bruxo de Juazeiro, por exemplo, é João Gilberto.

O louro francês é André Midani.

O Lyra de Carlos Lyra é mencionado através da lira, “o magno instrumento grego antigo”.

“O tom de tudo comanda as ondas do mar” é uma alusão a Tom Jobim, descrito como “homem cruel, destruidor, de brilho intenso, monumental”.

Vinícius de Moraes é o poeta a quem Jobim deu a chave da casa de munição. “O velho transformou o mito das raças tristes”.

Já o bardo judeu romântico de Minnesota é Bob Dylan, que, em algum momento, também se inspirou na contenção vocal de João Gilberto.

“Lá fora, o mundo ainda se torce para encarar a equação” – assegura Caetano Veloso.

Ouçamos.

Lucy Alves era Vira e Mexe. Lucy, agora só Lucy, é Mexe Mexe

Nesse vídeo, Lucy Alves toca Vira e Mexe.

Vira e Mexe é um número instrumental que está na antologia de Luiz Gonzaga.

Nesse outro vídeo, Lucy, que agora é só Lucy, canta Mexe Mexe.

Traz a total adesão da artista ao pop da moda.

O Rei dos Reis tem a melhor música de uma Paixão de Cristo

Em O Evangelho Segundo São Mateus, Pasolini usou música erudita e o spiritual dos negros americanos.

Em A Maior História de Todos os Tempos, Stevens botou a Aleluia, de Handel, na cena da ressurreição de Lázaro.

Em Jesus Cristo Superstar, Jewison transpôs para a tela as canções da ópera-rock original.

Em A Última Tentação de Cristo, Scorsese trabalhou com um homem do rock, o ex-Genesis Peter Gabriel.

Em O Rei dos Reis, Ray teve Miklos Rozsa como autor dos temas musicais.

O húngaro Rozsa era um gigante no seu ofício. Fazer música para cinema foi sua especialidade.

A trilha de Ben-Hur é dele. A de El Cid, também.

A música de O Rei dos Reis é a melhor escrita para uma Paixão de Cristo.

Quem não a conhece?

Quem não a associa imediatamente à Semana Santa e aos dramas da Paixão?