Tom Jobim “batia o ponto” numa farmácia. Bom lugar para vê-lo

Revi Bruna Lombardi entrevistando Tom Jobim.

Creio que em 1993. Talvez na TV Manchete.

Ela, linda e sedutora.

Ele, cheio de charme quando o assunto era sedução.

Nesse Brasil insano, é sempre bom revê-lo, ouvir suas conversas.

Foi numa dessas entrevistas de televisão que descobri: Tom “batia o ponto” numa farmácia.

Sim. A Farmácia Piauí, no Leblon.

Aberta 24 horas.

Desde então, botei na cabeça: vou à Farmácia Piauí cumprimentá-lo.

Maluquice de quem admira tanto o outro que quer vê-lo de perto. Puxar uma conversa. Sei lá.

Vi Tom Jobim ao vivo uma vez.

Ele, a família e os amigos no palco do Teatro Guararapes, no Recife.

Julho de 1991. Uma noite incrível!

Mas não deu para ir ao camarim. Nem sei se era possível. Não havia ninguém que pudesse me introduzir.

Na farmácia, seria diferente.

Quando estava no Rio, o cara sempre ia lá.

Será que Tom era hipocondríaco, desses que frequentam farmácia?

Frequentam, ficam amigos do dono, dos empregados, perguntam pelas novidades (novidades aqui são medicamentos).

São capazes até mesmo de passar para o outro lado do balcão. O lado de dentro.

Talvez atender ao cliente, sugerir algum remédio. Quem sabe?

Pois bem. Novembro de 1994.

Os Rolling Stones anunciaram sua primeira passagem pelo Brasil.

Turnê Voodoo Lounge.

Shows dali a dois meses, em São Paulo e no Rio.

Pronto. Chegou a hora. Dessa vez, vou à Farmácia Piauí.

Se Tom Jobim “bate o ponto”, eu darei um expediente completo só para estar com ele.

No dia oito de dezembro, passei na Mesbla logo cedo para pegar meus ingressos. A loja vendia para todo o país num tempo sem Internet.

Saí com o bolso cheio de ingressos para todos os shows no Rio e em São Paulo. Pensávamos que eles não voltariam nunca mais.

Na hora do almoço, entrei numa loja de discos.

Estava tocando o CD Passarim, a capa exposta num lugar bem visível.

Lembro até da música. Borzeguim.

“Não quero fogo, quero água/Deixa o mato crescer em paz” – dizia a letra, sempre atualíssima.

Eu ainda não sabia.

Soube naquele momento que não havia mais Farmácia Piauí no meu roteiro de viagem.

Tom Jobim morrera naquela manhã num hospital em Nova York.

Extirpou um tumor na bexiga e não resistiu ao pós-operatório.

A sua morte foi como a derrubada de uma floresta, li num jornal do dia seguinte.

Há ousadia e beleza na Blackbird de Mônica Salmaso e Maria João

Numa conversa aqui em João Pessoa, perguntei a Mônica Salmaso se ela não tem vontade, às vezes, de ser anti-Mônica Salmaso.

Mônica ficou surpresa com a pergunta, e eu imediatamente achei que havia sido indelicado com ela.

Tentei traduzir de outra forma o meu questionamento: mostrando uma gravação de Arrigo Barnabé com Paulinho da Viola.

Um tão diferente do outro.

Era disso que eu falava: Mônica indo a praias que não são as que ela costuma frequentar.

Se não estou equivocado, foi isso o que ela fez ao receber a portuguesa Maria João no projeto “Ô de Casas”.

Ela própria se definiu como a “carola da melodia”, aquela que tem “a necessidade da segurança, de saber onde estou pisando”, enquanto Maria João, também segundo Mônica, “é a liberdade, o salto mortal sem rede, o risco com extrema alegria!”.

Uma tão diferente da outra!

As duas fizeram Blackbird, dos Beatles.

Ousaram. Releram. Recriaram. Reinventaram. Reconstruíram.

Injetaram outras belezas.

Um dia, mostrei uma gravação “estranha” de Nanã a Moacir Santos, e ele disse: “Nunca pensei que a minha música fosse tão longe”.

Talvez Paul McCartney, o autor de Blackbird, dissesse algo semelhante ao ouvir a Blackbird de Mônica Salmaso e Maria João.

MÔNICA E MARIA JOÃO

90 – Ô DE CASAS 🏘 🏠🏡Ela é a liberdade, o salto mortal sem rede, o risco com extrema alegria! Eu sou a “Carola da melodia”, a necessidade da segurança, de saber onde estou pisando. E, por isso, eu adoro tanto ouvi-la e fico em estado de encantamento em ver que, com ela, tudo é possível. Queria muito muito esse encontro e não sabia o que propor. Pensei em alguma das maravilhas que ela compôs com o Mário Laginha e que eu me fartei de escutar. Mas faltaria o Mário Laginha!!!! Em um cd mais recente dos dois, eles gravaram BLACKBIRD (John Lennon / Paul McCartney). Eu já disse a ela, nos nossos encontros em shows com o Guinga que ela é livre como um pássaro; e que pássaro não se prende. Então decidi propor essa música. Aqui estou eu voando com a Maria João, sem paraquedas, feliz da vida, brincando na chuva. Quem não conhece o trabalho dos portugueses Maria João e Mario Laginha, procure e ouça. É apaixonante demais. Já passei uma vida inteira ouvindo. É o limite máximo da beleza do encontro do improviso com da alegria da forma. É demais!!!João, minha amiga querida 🌺🌺 Obrigada por você voar. Obrigada por todo o encantamento que vc me faz ver. Muitos beijos pra você!!!!!🏠🏡🏠🏡 #fiqueemcasa@mariajoaomusic@_o_de_casas#_o_de_casasLink para o canal no YouTube com todos os vídeos do Ô DE CASASyoutube.com/c/monicasalmasooficial

Publicado por Mônica Salmaso em Sexta-feira, 17 de julho de 2020

Elizeth Cardoso, tradicional e moderna, nasceu há 100 anos

Nesta quinta-feira (16), faz 100 anos que nasceu Elizeth Cardoso.

Quando morreu de câncer, em maio de 1990, tinha 69 anos.

Ela há de ser reconhecida, sempre, como uma das maiores cantoras do Brasil.

*****

Elizeth já tinha 30 anos quando, em 1950, gravou Canção de Amor, a música que a tornou conhecida.

No início, emprestou sua voz ao samba-canção.

Era uma cantora da tradição, mas, quase acidentalmente, difundiu o novo, ao antecipar, em 1958, uma revolução chamada Bossa Nova, que ocorreria no ano seguinte, mudando a música popular do Brasil para sempre.

Ao gravar o LP Canção do Amor Demais, somente com músicas de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, ela teve o acompanhamento, nas faixas Chega de Saudade e Outra Vez, do violão de João Gilberto e da batida da Bossa Nova por este criada.

Estão, portanto, no disco de Elizeth, a primeira gravação de Chega de Saudade e o registro inaugural da batida da Bossa ao violão.

Elizeth, contudo, nunca foi bossanovista. Sua voz não era cool.

Foi, isto sim, exímia cantora de samba (Elizeth Sobe o Morro é disco antológico).

Mas também soltou a voz, no Municipal do Rio, para solar a quinta Bachiana de Villa-Lobos.

Em 1968, juntou a tradição com a modernidade da música popular brasileira num show histórico em que cantou acompanhada por Jacob do Bandolim e seu conjunto Época de Ouro, mestres cariocas do choro, e pelo Zimbo Trio, emblemático representante do samba-jazz paulistano.

Elizeth não dependia de repertório para ser grande.

Mas, a despeito da extraordinária qualidade do seu canto, não teve uma carreira à altura do que merecia.

Não fez o sucesso que poderia ter feito.

Foi chamada de Divina, mas morreu pobre.

Hoje é o Dia Mundial do Rock. Mas apenas para os brasileiros

Hoje, 13 de julho, é o Dia Mundial do Rock.

É uma data comemorada somente no Brasil.

Toma como referência o Live Aid, evento realizado há 35 anos.

O Live Aid foi um grande acontecimento, mas há datas mais importantes na hora de estabelecer qual é o Dia Mundial do Rock.

De todo modo, nós, que gostamos de rock, aproveitamos a comemoração e escrevemos algo sobre esse tipo de música que mexeu com muita coisa nos últimos 65 anos.

Sim. Mexeu com comportamento, show business, indústria do disco, cinema, moda, política, religião.

Mexeu até com música! (rsrsrs)

Rock’n roll é uma coisa, rock é outra – nos ensinava Roberto Mugiatti em O Grito e O Mito, aquele livrinho fundamental que lemos na primeira metade dos anos 1970. O segundo é a expansão do primeiro.

Se quisermos escolher a figura mais icônica e individualmente poderosa do rock, ficaremos com Elvis Presley.

Elvis compreendeu no que daria a fusão da música dos negros com a dos brancos e, branco, produziu algo palatável num país que ainda hoje separa os homens pela cor da pele. Fez com muito talento e uma grande voz.

O rock fez do século XX o século da guitarra. Lá nos primórdios do fenômeno, foi Chuck Berry que inventou riffs incríveis e disse mais ou menos assim: “Guitarra no rock? É desse jeito que se toca!”. E era!

Há outros, mas Elvis e Berry podem resumir os anos 1950.

Os anos 1960 – os mais criativos – têm muitos nomes que operaram a tal expansão do rock. Nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Em primeiríssimo lugar, há os Beatles. Esses são absolutamente hors concours.

É impossível, contudo, falar em grupos sem mencionar os Rolling Stones, na estrada há quase 60 anos.

Voz feminina? É a de Janis Joplin, a despeito da carreira meteórica de três ou quatro anos.

Um músico de trajetória igualmente meteórica escreveu a gramática definitiva para o principal instrumento do rock: o guitarrista Jimi Hendrix.

Os elementos riquíssimos da black music americana estão condensados nos poucos discos que gravou e nas muitas performances ao vivo que, felizmente, foram gravadas para a posteridade em seus concertos na Inglaterra e na América.

E há aquele cara que veio da folk music e da protest song, com um violão, uma gaita e uma voz excessivamente anasalada. Depois, empunhou uma guitarra e disse que também era do rock. Bob Dylan, claro!

Se estiver vivo, Dylan fará 80 anos em maio de 2021.

Foi ele que deu um Nobel ao rock.

Conferiu à letra de música popular o status de poesia culta.

Não é pouco.

Muita coisa foi feita depois, mas ficarei por aqui.

Os Rolling Stones lançam música inédita com vídeo muito sensual

Os Rolling Stones lançaram uma música inédita nesta quinta-feira (09).

Criss Cross é inédita, mas, de nova, não tem nada. Tem quase 50 anos.

A música foi gravada para o álbum Goats Head Soup, de 1973.

Criss Cross aparece agora porque está incluída numa luxuosa edição do disco que será posta no mercado no início de setembro.

Goats Head Soup veio depois de Exile on Main Street, que muita gente considera o melhor álbum da banda.

Sob o impacto do Exile, de um modo geral os fãs se decepcionaram com o Goats Head Soup.

Mas o tempo, certamente, o fez melhor.

Criss Cross é, tipicamente, Rolling Stones.

O vídeo tem como protagonista Marina Ontanaya.

40 anos sem Vinícius de Moraes. Foi o branco mais preto do Brasil

Nesta quinta-feira (09), faz 40 anos que morreu Vinícius de Moraes.

Para a garotada, vou resumir assim:

Foi um grande poeta, no sentido clássico da palavra, que se transformou, de modo inovador, em letrista de música popular.

Em 1956, no espetáculo Orfeu da Conceição, inaugurou a parceria com Antônio Carlos Jobim.

Em 1959, junto com Tom e João Gilberto, foi protagonista da Bossa Nova, o movimento que deu dimensão internacional à música popular brasileira.

Foi parceiro de Carlos Lyra, Baden Powell e Toquinho.

Com Baden, inventou os afro-sambas, algo tão importante quanto as canções praieiras de Dorival Caymmi.

O branco mais preto do Brasil – assim ele se considerava.

Vinícius de Moraes foi um grande brasileiro!

Fiquemos com o Samba da Bênção, da parceria com Baden.

Vidas negras importam. Ringo se engaja na luta contra o racismo

Ringo Starr fez uma live de 60 minutos para comemorar seus 80 anos.

Foi, no fundo, uma grande celebração à música dos Beatles.

Divertida, alto astral.

Mas séria também.

Lá pelo meio, um trecho do programa foi dedicado ao “Vidas negras importam”, o movimento e o slogan antirracistas que, com muita justiça, se espalham pelo planeta.

Sim.

“Black lives matter”.

O apoio de Ringo ao movimento fala, pela milionésima vez, do quanto devemos nos orgulhar dos Beatles. Pela beleza da música que legaram ao mundo e por suas atitudes públicas.

O baterista, misto de músico e ator, está sempre a dizer paz e amor e exibir os dedos em V.

Não surpreende que marque posição quando a questão é a luta contra o racismo.

Era um tema crucial na década de 1960, o tempo dos Beatles. Permanece agora, mais de meio século depois.

John Lennon lutou pela paz.

George Harrison procurou a paz no misticismo.

Paul McCartney defende os animais e o meio ambiente.

O peace and love de Ringo Starr é mais do que uma evocação dos anos 1960.

Quinteto da PB Convida agora é em casa. Xangai abriu nova fase

Em 2017, o Quinteto da Paraíba deu início a um projeto que proporcionou grandes encontros.

Era o Quinteto Convida.

O grupo recebeu artistas como Xangai, Carlos Malta, Mônica Salmaso, Spok, Zeca Baleiro, Nelson Ayres, entre outros, em memoráveis performances na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, em João Pessoa.

Agora, por causa da pandemia do novo coronavírus, o projeto ganha outra feição. Passa a ser Quinteto Convida em Casa.

A estreia foi com Xangai.

As novas edições já estão agendadas:

Toninho Ferraguti – 07 de agosto.

Spok – 04 de setembro.

Mônica Salmaso – 02 de outubro.

Jessier Quirino – 06 de novembro.

Marcelo Jeneci – 04 de dezembro.

Ringo Starr faz 80 anos. Menino doente, foi um homem de sorte

John Lennon foi assassinado aos 40.

George Harrison morreu de câncer aos 58.

Paul McCartney acabou de fazer 78.

E Ringo Starr chega aos 80 anos nesta terça-feira (07).

Foi um menino doente, mas um homem de sorte, muita sorte.

Em 1962, o baterista dos Beatles era Pete Best. Ringo tocava num outro grupo de Liverpool.

Quando o quarteto foi contratado e se preparava para gravar o primeiro disco, o maestro e produtor George Martin reprovou Best.

Convocado a substituir o músico dispensado, Ringo, do dia para a noite, se transformou num Beatle.

Não imaginava o que o esperava.

Em 1964, o filme A Hard Day’s Night, de Richard Lester, ajudou a fixar a persona pública dos quatro Beatles.

Foi ali que Ringo revelou seu talento para ator. Tanto que, na narrativa, há uma espécie de intermezzo criado exclusivamente para ele.

Mais do que isso: em Help!, toda a trama gira em torno do seu personagem.

Ringo Starr é um grande baterista?

Muito provavelmente, não.

Mas tem uma marca, uma assinatura inconfundível.

Nos Beatles, gravou poucas vezes como cantor. Também assinou raras canções.

É dele o vocal de Yellow Submarine.

É dele a autoria de Octopus’s Garden.

Longe dos Beatles, tocou com John, Paul e George. Gravou muitos discos e percorreu o mundo fazendo shows com sua all star band.

Envelheceu como homem da paz e do amor, indicam sempre os seus dedos em V.

Mônica Salmaso recebe Chico Buarque, e fazem João e Maria

Mônica Salmaso é uma das melhores cantoras do Brasil.

Técnica, emoção, belíssimo timbre e um repertório primoroso – é o que ela nos oferece (no palco ou no estúdio) numa admirável carreira iniciada há mais de duas décadas.

Mônica está enfrentando esses tempos difíceis da pandemia do novo coronavírus com um projeto chamado “Ô de casas”.

Ela recebe virtualmente seus convidados e, com eles, nos brinda com performances que são verdadeiras joias.

O “Ô de casas” de número 85 é com Chico Buarque, a quem Mônica já dedicou dois CDs.

A música escolhida foi João e Maria.

Sivuca compôs a melodia dessa valsa em 1947. Chico escreveu a letra 30 anos mais tarde.

Teco Cardoso está na flauta.

Luiz Cláudio Ramos faz o violão.