Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.

“Dominguinhos é o melhor de nós todos”, disse Sivuca

“O sol nasceu, a lua nasceu/o dia nasceu, o sol nasceu/é tudo mentira/é tudo figura”.

Não são versos conhecidos. Estão na letra de Quem Nasceu, blues de Péricles Cavalcanti que Gal Costa canta na abertura do disco Temporada de Verão, de 1974. O grupo que acompanha a cantora tem o sax de Oberdan e a guitarra de Cláudio Stevenson, que logo ouviríamos na Banda Black Rio. Mas o que sempre me impressionou foi o som da sanfona. Primeiro, na harmonização, enquanto Gal está cantando. Depois, no solo. O senso de improvisação, as soluções jazzísticas de um mestre do forró chamado Dominguinhos.

Em 1976, quando Gilberto Gil esteve em João Pessoa com o show Refazenda, fui ver a passagem de som no Teatro Santa Roza.

Final de tarde, plateia completamente vazia, alguns técnicos espalhados pelo teatro. Lá no palco, Gil num violão plugado, Dominguinhos à sanfona, Moacir Albuquerque no baixo, Chiquinho Azevedo na bateria. Os quatro em improvisações intermináveis. “Fazendo som”, como se dizia na época. Recriando músicas do set list da noite. Os instrumentos dialogando em Essa É Pra Tocar no Rádio, com aquela levada funk à Miles Davis. O Miles de On the Corner. E Dominguinhos no meio. Totalmente à vontade. Um forrozeiro aberto a outras possibilidades. Guiado por Gil, seu parceiro no blues da caatinga Lamento Sertanejo.

Menciono o Dominguinhos que não é do forró porque acho que circunscrevê-lo aos ritmos nordestinos restringe o seu talento. Mas é claro que a essência do que ele produziu está na música da sua região. Desde o dia em que, ainda menino, foi visto e descoberto por Luiz Gonzaga, cuja ajuda foi determinante para que viesse a se tornar um artista.

Tocou com Gonzaga quando este amargava o ostracismo. Percorreu o país com o Rei do Baião. Esteve com ele no momento em que recuperou prestígio e público. O show Luiz Gonzaga Volta Pra Curtir é o retrato da reentrada. E Dominguinhos está lá. Sua sanfona se mistura a uma guitarra elétrica, que não era comum no grupo que acompanhava Gonzaga. Mas que antecipa algo do seu encontro com Gil.

Dominguinhos deu a Gil o xote Só Quero um Xodó. Foi parceiro de Chico Buarque em Tantas Palavras. Colocou notas e acordes de grande melancolia em Cajuína, de Caetano Veloso. Escreveu (com Manduka) e cantou lindamente a toada Quem me Levará Sou Eu. Compôs (com Nando Cordel) De Volta pro Aconchego, para Elba Ramalho imortalizar. Dividiu com Sivuca e Oswaldinho um disco (Cada um Belisca um Pouco) em que os três sanfoneiros prestam tributo a Luiz Gonzaga. Este costumava atribuir ao afilhado a urbanização do forró. E um compromisso muito sério com o Nordeste. Gonzaga estava certíssimo. Sabia que Dominguinhos seria um dos seus herdeiros. Talvez o principal. O que faria mais justiça ao seu legado. O mais fiel na interpretação do seu cancioneiro.

“Dominguinhos não sabe uma nota, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. É pura intuição, mas uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que ele” – me disse Sivuca pouco antes de morrer. E ele não foi generoso com o colega. Apenas verdadeiro.

Elba Ramalho: “Minha voz não carrega preconceito, açoite ou ofensa”

Essa entrevista surgiu de uma conversa de Elba Ramalho com o jornalista Hildebrando Neto, da TV Cabo Branco.

Elba queria, de uma vez por todas, esclarecer alguns pontos dessa polêmica sobre a programação do São João de Campina Grande.

Hildebrando sugeriu que eu a entrevistasse.

Segue a conversa.

Sílvio Osias – Uma entrevista que você deu em Pernambuco deflagrou um debate sobre a descaracterização das festas juninas no Nordeste. Para começarmos essa conversa, como você resumiria aquela fala?

Elba Ramalho – O movimento Devolva Meu São João, lançado na rede e criado pelo sanfoneiro Chambinho ( que fez o papel de seu Luiz no filme De Pai prá Filho), ganhou adesão de todos os artistas regionais e se disseminou com muita força. Isto ocorreu logo após a apresentação das grades artísticas pelas prefeituras, bem antes da minha fala! Quis manifestar  meu apoio ao movimento, porque achei justo. Ratifico: só falei porque fui perguntada. Procurei ser delicada e democrática na minha fala, mesmo sabendo que poderia ser fogo em pólvora. Inicio dizendo: o céu é grande, cabem todas as estrelas e nenhuma atropela a outra. O resto, já sabemos. Não havia, de minha parte, revolta, nem discussão inflamada, porque isso não resolve, não auxilia nem ilumina.

A sua postura me pareceu muito clara. Mas nem todos entenderam assim. Que tipo de desconforto você enfrentou (e enfrenta) por causa desse debate?
O desconforto maior veio nas palavras  de um jornalista campinense, coordenador de comunicação da prefeitura de Campina. Foi difícil digerir e compreender a razão de tanto ódio, destilado de forma deselegante contra minha pessoa. Coisas que um ser humano não deve fazer a outro. Faltou-lhe perseverança, pela função que exerce. Respondi desejando-lhe paz e bem. A partir daí, o que deveria ser um diálogo saudável, ganhou ares de competição, intolerância, infelizmente. Continuo em paz, aguardando o concurso sábio do tempo.
Vivemos no Brasil um momento de muita intolerância. Você acha que os desdobramentos desse debate, com alguns excessos de ambos os lados, têm a ver com isso?
Vivemos debaixo do mesmo céu. Devemos buscar sempre a reconciliação e nunca a intolerância. Picasso disse, entre outras coisas: aprenda as regras como profissional para que possa quebrá-las como artista. Os debates que se seguiram saíram do limite da  tolerância, reconheço, de ambos os lados, mas não foram gerados por mim. Minha voz não carrega preconceito, açoite ou ofensa. Sou cristã e, apesar das confusões mentais geradas pela ignorância, continuo emanando luz na tentativa de dissipar as quimeras. Amo o que faço, respeito o que os outros fazem, isso é tudo. Espero que alcancemos o tempo onde falar sobre árvores não seja uma falta. O ministério que me foi dado por Deus não pode ser desacreditado, porque minha voz é verdadeira.
Os seus vínculos profundos com a música do Nordeste nunca lhe impediram de dialogar com outras expressões musicais. Tenho a impressão de que isso não ficou claro nessa discussão de agora. Você concorda?
Sim, construí minha carreira sobre rochas, com os pés no Nordeste e os olhos no mundo. Meu diálogo com a música transpõe os muros do preconceito, repito. Não podemos limitar a música já que tem o poder de aproximar povos e promover a paz. Minha maior satisfação não é ter vendido milhões de discos, nem ganhar dinheiro, é dividir o palco com meus colegas. E não importa a nacionalidade, cor ou crença. Cantei com artistas diversos; cubano, venezuelano, chileno, porto-riquenho, americano, português, alemão, francês e até japonês. O Brasil é o celeiro da diversidade. Rico, vasto, com uma cultura híbrida, tudo parece estar junto e misturado. Aliás, tenho um projeto de verão que se chama Elba Convida, onde recebo, há mais de 15 anos, artistas de todos os segmentos da música brasileira no meu palco. Resumindo, no verão deste ano estiveram comigo: Zélia Duncan, Maria Gadú, Chico César, Ney Matogrosso, Timbalada, Mart’Nália, Samuel Rosa, Aline Rosa, Margareth Menezes, Simone e Simaria. Inclusive a própria Marília foi convidada, mas não obtivemos resposta.  Mas samba é samba, baião é baião, rock é rock, sertanejo é sertanejo.
Para além do mercado, para além da terceirização, você não acha que os gestores públicos devem ter um compromisso maior com a manutenção de algumas das nossas tradições?
Chegamos ao cerne mais importante da questão. Esse discurso já foi conclamado por diversos artistas e não preciso citar nomes: a responsabilidade da preservação da cultura dessa ou daquela região está nas mãos de gestores, de curadores, ou seja, pessoas que são credenciadas para fazê-lo. Precisamos saber se essas pessoas têm consciência, responsabilidade e capacidade para gerarem arte e cultura devidamente.Uma modalidade musical pode ser arte ou show business para alguns. Para Miles Davis, jazz não era apenas jazz, para Almir Sater, sertanejo não é apenas sertanejo, para mim, forró não é apenas forró, mas o caminho pelo qual nos conectamos com o infinito.
Para Elba Ramalho, forró e São João não são assuntos de show business, vão além do cultural, alcançam o espiritual, o místico. Não tenho outros interesses nessa festa senão a emoção de ouvir a voz de seu Luiz, a sanfona de Dominguinhos e Sivuca, o pandeiro de Jackson, a voz de Marinês, o barulhinho bom dos trios regionais. Isso não é xenofobia, é afeto.
Para Elba, qual seria o modelo ideal para uma grande festa junina? Seria, por exemplo, algo como o carnaval multicultural do Recife, que abre espaço para muitas tendências, mas preserva o frevo como sua maior expressão?
Você já apontou um modelo que considero funcional, o adotado no carnaval de Pernambuco. É multicultural, mas prioriza a tradição, o frevo. Quem sabe esse não seja o caminho ideal. É só experimentar,  frisando bem o “multicultural “, ou seja, a diversidade de nossa música que poderá ser apresentada em diferentes polos do estado, sem apagar o brilho das nossas tradições. Tenho tanto respeito pelo carnaval de Pernambuco que priorizo os ritmos de lá no meu repertório, de ponta a ponta, porque violar seus tambores seria rasgar (destruir) as vestes da história.

Numa mensagem ao prefeito de Campina Grande, você adotou um tom de conciliação, de harmonia, que tem a ver com a sua formação, com o que você é. Pra você, esse episódio está superado? O que teremos no seu show da noite do dia 23?

Silvio, o conflito não edifica. O prefeito desejou falar comigo, ratificou sua admiração pelo meu trabalho e foi muito cortês. Reconheço que, ao terceirizar a festa, o risco que ele corre é muito grande porque qualquer equívoco lhe será atribuído. Música é também comércio e pode gerar muito, muito dinheiro. Ok, está tudo certo! O problema é a força da grana que ergue e pode destruir coisas belas. Respondi à sua gentileza com a mesma delicadeza que precede minhas ações neste mundo. Claro, estou ansiosa para cantar em Campina Grande, a cidade que me deu régua e compasso, no palco onde tudo começou. Desejo realmente que tudo seja passado a limpo. E passado. Isso só vai ocorrer se as coisas estiverem fundadas na VERDADE! Infelizmente, VERDADE não é base e ética de alguns profissionais. Só para atualizar, estou cantando nas grandes festas de São João do Brasil, pelo menos onde nossa música nordestina é considerada original, genuína. Muitas quadrilhas do Rio e São Paulo me homenageiam, contam minha história, o que muito me honra. Logo que acabem os festejos juninos, sigo para shows no Japão e na Europa. Quem estiver aberto a compreender minhas palavras vai saber que estão carregadas  de amor e de zelo. Aos amigos sertanejos, Zezé, Luciano, Chitão, Xororó, Daniel, Vanessa Camargo, Simone e Simaria e todos os  outros, digo: sejam bem vindos ao Maior São do Mundo. Sejam bem vindos também Zeca Pagodinho, Skank, Ney Matogrosso, Martinho da Vila, Zélia Duncan, Cidade Negra, Maria Gadú, Mestrinho, FalaMansa. Viva a democracia, viva a diversidade! No final, nada é entre você e os homens, mas tudo é entre você e Deus! É vida que segue! E viva São João do Carneirinho!

Luiz Gonzaga? Meninos, eu vi!

Caetano Veloso disse, certa vez, que Roberto Carlos vem de regiões profundas do ser do Brasil. Uma grande definição, fidelíssima à dimensão deste artista a quem chamamos de Rei.

Podemos usar a frase para o Rei do Baião. Luiz Gonzaga vem de regiões profundas do ser do Nordeste. Também dimensiona muito bem o homem que, junto com Humberto Teixeira, transformou o tema regional Asa Branca num dos clássicos da música popular brasileira.

Fui apresentado às suas músicas quando era garoto. O Nordeste na Voz de Luiz Gonzaga era o título do LP que eu ouvia na casa do meu avô paterno. Foi o primeiro de muitos discos.

Mas há uma outra lembrança associada à infância. Na minha rua, a Conceição, em Jaguaribe, havia festa de Santo Antônio, São João e São Pedro. Grandes festas populares organizadas por moradores e compartilhadas com a vizinhança.

Numa delas, e isto nunca saiu da minha memória, o que mais se ouvia era Gonzaga cantando: “A fogueira está queimando em homenagem a São João”. Mesmo que ele amargasse o ostracismo.

Tenho muito orgulho de ter ouvido Luiz Gonzaga em seu tempo. Mais ainda: de tê-lo visto de perto, ao vivo, inúmeras vezes. E com a consciência absoluta de que, sem nenhum exagero e sem qualquer favor, estava diante de um dos fundadores da canção popular brasileira.

Um gigante. Um artista autêntico, verdadeiro em sua simplicidade e sua força intuitiva. Gonzaga, seus trajes de Rei do Baião, sua sanfona, suas músicas belas e impregnadas de melancolia. O melhor pop nordestino produzido para atravessar o tempo e inserir-se na memória afetiva de milhares de pessoas, rurais ou urbanas, que cresceram ouvindo aquelas canções em casa e nas nossas festas juninas.

Uma vez, fui convocado a enumerar as músicas que prefiro no extenso repertório de Luiz Gonzaga. Légua Tirana é uma delas. Estrada de Canindé e A Morte do Vaqueiro também estão entre as prediletas. Adoro Noites Brasileiras e Olha pro Céu, uma marchinha junina comovente. O Xote das Meninas é uma delícia. Da parceria com Zé Dantas. Tema universal tratado com olhar regional. Vozes da Seca estava nas audições com meu avô, precursora da canção de protesto. Assum Preto é Asa Branca em tom menor. A lista não tem fim.

Na segunda metade dos anos 1970, fui à Assembleia Legislativa ver Luiz Gonzaga receber o título de cidadão paraibano. O discurso de tom excessivamente regionalista me pareceu ingênuo, mas ele merecia todos os aplausos. A despeito das críticas que lhe eram feitas (a defesa da ditadura, a não autoria das canções). Ele é muito maior do que o que se pode dizer de negativo a seu respeito.

O encontro com o filho Gonzaguinha, na turnê que passou por João Pessoa no início da década de 1980, não sairá da memória de quem o testemunhou. A homenagem permanente a Gonzaga é não deixar de ouvi-lo.

Retrato de Chico Buarque mostra o grande artista que ele é

No dia em que Chico Buarque faz aniversário, que tal rever o documentário Chico, Artista Brasileiro?

Vinícius e Chico, Artista Brasileiro são muito parecidos na estrutura narrativa. Realizados por Miguel Faria Jr., os documentários fogem um pouco do formato clássico do gênero por causa dos trechos encenados.

Em Vinícius, música e poesia se misturam num pocket show para uma pequena plateia. Em Chico, Artista Brasileiro, dez números são apresentados num galpão/estúdio sem plateia. Nos dois, os números são intercalados por entrevistas produzidas para os filmes e material de arquivo. O segundo repete a fórmula e os méritos do primeiro.

Vinícius é sobre um homem morto. Daí, talvez, o grande número de entrevistas gravadas para o documentário. Em algumas (Chico, Gil, Caetano), há música à base de voz e violão. Os depoimentos montam o retrato do artista.

Chico é sobre um homem vivo e em atividade, dividido entre a música e a literatura. Os depoimentos são em menor número e sem ilustração musical. Quem conta a história é o próprio Chico numa longa entrevista que conduz a narrativa. O filme é, então, um retrato do compositor tirado por Miguel Faria Jr., mas, sobretudo, um autorretrato do artista.

Chico, Artista Brasileiro não é o primeiro documentário sobre o autor de Construção. Há um outro, inferior: Certas Palavras com Chico Buarque, que Maurício Berú realizou em 1980. Faria Jr. utiliza cenas de Berú, como as imagens de Maria Bethânia cantando Olhos nos Olhos em estúdio, com o autor ao seu lado.

Em Certas Palavras, a encenação das canções empobrece o filme. Em Chico, os números gravados o engrandecem.

As dez músicas, mesmo que de épocas distintas, têm a feição do Chico dos últimos anos. Certamente, por causa dos músicos da sua banda (à frente, o guitarrista Luiz Cláudio Ramos), a quem há de se atribuir a sonoridade e a concepção dos arranjos executados em palcos e estúdios.

As escolhas não são óbvias, nem os intérpretes. A versão de Sabiá, com a portuguesa Carminho, é comovente. As imagens de Chico e Tom no palco do FIC são preciosas. Chico reconhece que, no Brasil de 1968, a canção de exílio composta com Jobim era alienada. O tempo a conservou bela.

Chico dá um depoimento corajoso e sem preconceito sobre a diversidade da música popular que se produz no Brasil. A canção popular como representação do que somos. Não deve agradar a uma parcela significativa dos seus fãs, mas eles fingem que não veem. O artista se apresenta como um homem que não sente saudade, não tem medo da solidão e não é tímido. Para ele, o presente é melhor do que o passado.

Paul McCartney, solo, em cinco discos

Nos 75 anos de Paul McCartney, escolhi cinco discos dele para reouvir neste domingo.

BAND ON THE RUN

VENUS AND MARS

TUG OF WAR

FLOWERS IN THE DIRT

FLAMING PIE

Paul McCartney, o mais musical dos Beatles, faz 75 anos

Paul McCartney faz 75 anos neste domingo (18).

É um dos grandes compositores de música popular do seu tempo. Nos Beatles ou longe deles, Paul escreveu canções que o tornaram autor de um invejável songbook, realizando um sonho que talvez tenha começado quando seu pai, músico amador, lhe apresentou ao cancioneiro americano da primeira metade do século passado. Um parâmetro e tanto para quem queria compor.

Paul McCartney é amado e respeitado no mundo inteiro. É praticamente uma unanimidade. Mas nem sempre foi assim.

Na segunda metade dos anos 1960, no momento em que os Beatles trocaram o palco pelo estúdio e produziram seus discos mais criativos, não era pequeno o número de fãs que queriam atribuir a John Lennon, e não a McCartney, todas as ideias inteligentes que enxergavam no grupo. Como se Paul fosse apenas um bom moço com talento para compor melodias bonitas. Não sabiam dos vínculos que estabeleceu com o que havia de mais contemporâneo no mundo das artes na Londres daquela época, nem do seu interesse pelas vanguardas da música erudita.

Não se trata de diminuir a importância de Lennon, sua inquietação, sua ligação com as artes de vanguarda através de Yoko Ono, seu engajamento político. Não. Apenas de dimensionar corretamente o papel desempenhado por McCartney dentro dos Beatles.

Ele era o mais musical dos quatro, o que melhor se desenvolveu como compositor, o que escreveu o maior número de grandes canções.

Não foi à toa que, em 1967, concebeu o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, marco na carreira do grupo e em todo o pop/rock. O álbum é sua obra-prima, uma suíte que enobrece o rock com seu repertório e sua sonoridade.

Aos 23 anos, em 1965, McCartney escreveu a canção mais gravada da era do disco. Yesterday, que gravou acompanhando-se ao violão, com cordas arranjadas pelo maestro George Martin, pode ter sido o primeiro sinal de que os Beatles iriam amadurecer rapidamente e deixar para trás a ingenuidade que os seguiu no início da carreira.

No ano seguinte, assinava canções como Eleanor Rigby, Here, There and Everywhere e For No One. E, logo depois, Penny Lane, inspirada evocação da infância em Liverpool. Nas muitas baladas, mas também nos rocks, há uma fluidez melódica e um domínio do artesanato da canção no seu trabalho que o colocam no topo, se pensarmos nos demais compositores populares daquela geração.

McCartney brilhou como beatle e continuou brilhando após a dissolução do grupo. Criou o Wings, excursionou com a nova banda até que ela se dissolvesse e permaneceu em atividade intensa, sempre dividido entre os estúdios e os palcos. Flertou com a música erudita, mas sua praia é mesmo o popular de extremo bom gosto.

É um dos grandes artistas do século XX por tudo o que compôs e gravou. Aos 75 anos, continua percorrendo o mundo com seu show, carismático e generoso com os que têm a alegria de vê-lo de perto.

Há 50 anos, Festival de Monterey projetou Hendrix e Joplin

Sexta 16, sábado 17, domingo 18 de junho. Tal como agora em 2017. Só que há 50 anos.

Naquele fim de semana, o Festival de Monterey se transformou no primeiro dos grandes festivais de rock.

Os Beatles, duas semanas antes, haviam lançado o LP Sgt. Pepper, e os hippies viviam o verão do amor.

O festival projetou Jimi Hendrix (na foto, com Brian Jones), que, embora americano, ainda não era conhecido nos Estados Unidos.

E também Janis Joplin, a cantora do grupo Big Brother and Holding Company. Sua performance no blues Ball and Chain é inesquecível.

Monterey foi uma espécie de ensaio para Woodstock, que, dois anos mais tarde, se consagraria como o maior e mais importante evento do gênero.

A síntese do que foi Monterey está no filme de D. A. Pennebaker. Monterey Pop tem inestimável valor documental. E inaugura uma série de filmes de longa metragem (Woodstock, Gimme Shelter, etc.) que levaram muita gente aos cinemas, sobretudo na década de 1970.

Vistos de longe, festivais como o de Monterey são ingênuos e espontâneos. Têm boa música pop e muito amadorismo.

O rock ainda não estava contaminado pelo profissionalismo que, mais tarde, transformaria os grandes shows em espetáculos indiscutivelmente belos, mas às vezes assépticos demais.

Tributo de McCartney é ao american songbook e ao pai

Mexendo nos discos de Paul McCartney.

Lembrando dos 75 anos que o mais musical dos quatro Beatles completa neste domingo (18).

Curiosamente, começo por um disco de exceção. O Kisses on the Bottom, em que Paul presta tributo ao american songbook.

O disco de Paul McCartney traz canções americanas que ele ouviu na infância, geralmente apresentadas pelo pai, que era músico amador. É um acerto com sua memória afetiva. O título é uma expressão de duplo sentido. Um deles, “beijos no traseiro”. É a tradução que fazemos assim que vemos o título na capa. A foto, no entanto, contrasta com o seu caráter chulo: Paul cheio de flores nas mãos, como um autêntico amante à moda antiga, prestes a fazer a felicidade da mulher que ama.

Paul McCartney é um roqueiro que, no fundo, sempre quis fazer canções como Cole Porter e os irmãos Gershwin. E bem que tentou, algumas vezes. Na época dos Beatles, em When I’m Sixty Four e Honey Pie. Ou Your Mother Should Know. Depois, na carreira solo, em You Gave Me the Answer e Baby’s Request. Há outras, mas essas são as principais. Também usou, em Here, There and Everywhere e Honey Pie, uma introdução cantada antes da melodia propriamente dita, modelo que temos tanto em Home como em Always ou Bye Bye Blackbird (que estão no CD). São lembranças inevitáveis quando se ouve Kisses on the Bottom. E a confirmação da presença dessas músicas na vida de Paul.

É gigantesca a lista dos que já gravaram os standards da música americana. Os grandes cantores dos Estados Unidos, negros ou brancos, adoram essas canções. Mas não só os de lá. Há mais de 10 anos, Caetano Veloso se debruçou num disco inteiro sobre o cancioneiro americano (A Foreign Sound), incluindo músicas mais recentes e não apenas aquelas anteriores ao advento do rock’n’ roll. Rod Stewart achou que um era pouco e fez cinco CDs, não disfarçando o caráter ultra comercial da empreitada de qualidade duvidosa. Paul McCartney tinha o dever de não repetir Stewart. Era necessário produzir algo muito melhor. Kisses on the Bottom confirma que ele, felizmente, conseguiu.

McCartney já tinha gravado standards. No disco destinado ao mercado soviético, na década de 1980, tem Don’t Get Around Much Anymore e Summertime. Mas executados por uma banda de rock, ao lado de vários clássicos do rock’n’ roll primitivo. Em Kisses on the Bottom, à exceção de duas canções de sua autoria, dedicou um disco completo aos standards. E com ao menos três escolhas muito positivas. A primeira: convidou um grupo de jazz (o da pianista canadense Diana Krall) para acompanhá-lo. A segunda: não cedeu à tentação, como quase todos, de escolher um repertório óbvio. A terceira: atuou apenas como cantor. E ainda se deu ao luxo de usar o mesmo microfone de Nat King Cole.

Se quisermos, poderemos procurar os defeitos do disco. McCartney não está na praia dele, dirão alguns. Por isto, não fica totalmente à vontade com o repertório, nem com a sonoridade da banda de Diana Krall. Ou: gravou canções que são muito melhores com outras vozes, das damas negras do jazz aos cantores brancos como Sinatra. É tudo verdade. Mas estes argumentos não diminuem o charme do CD. Nós, que amamos os Beatles, sabemos o quanto o american songbook foi fundamental na formação musical de Paul. E que, um dia, ele inevitavelmente se dedicaria a este repertório. Nem que fosse só para prestar um tributo ao pai. Bom que tenha deixado para fazer na velhice.

Antonio Barros e Ceceu e o melhor do nosso São João

Antônio Barros (sozinho ou com Ceceu) compôs centenas de músicas. Entre elas, dezenas e dezenas de sucessos.

É um verdadeiro hit maker o autor de Homem com H.

Costumo dizer que, se tivesse nascido nos Estados Unidos, onde direito autoral é coisa séria, ele seria um milionário.

Nos últimos dias, em meio ao debate sobre a descaracterização do São João de Campina Grande, lembrei muito de Antônio Barros e Ceceu. Dos shows, das conversas, das histórias sobre a criação das canções. Da alegria de estar com eles.

Lembrei, sobretudo, porque os dois são grandes representantes da música do Nordeste. Com um repertório onde há verdadeiras joias do nosso cancioneiro popular.

Como essas três marchinhas que Antônio Barros compôs antes de formar a dupla com Ceceu. Aqui interpretadas pelo Trio Nordestino, Brincadeira na Fogueira, Naquele São João e É Madrugada remetem a regiões profundas do ser do Nordeste.

Confiram na edição do DJ Jorgito.