Elvis Presley em 10 discos

Vamos reouvir Elvis Presley?

Nesta quarta-feira (16), faz 40 anos que ele morreu.

Fiz um top 10 dos discos de Elvis. Estão na ordem cronológica.

Os cinco primeiros são de estúdio. Os cinco últimos foram gravados ao vivo.

ELVIS PRESLEY

ELVIS

LOVING YOU

ELVIS IS BACK

FROM ELVIS IN MEMPHIS

ELVIS NBC TV SPECIAL

ELVIS IN PERSON

ELVIS ON STAGE

ELVIS AS RECORDED AT MADISON SQUARE GARDEN

ELVIS ALOHA FROM HAWAII VIA SATELLITE

Elvis Presley morreu há 40 anos. Elvis está vivo!

Nesta quarta-feira (16), faz 40 anos que Elvis Presley morreu.

Onde você estava naquele 16 de agosto de 1977?

Eu estava vendo Taxi Driver, de Martin Scorsese, no Cine Plaza, em João Pessoa. Só soube depois da sessão. Durante três dias, entre o anúncio da morte e o enterro, o mundo parou para acompanhar os serviços fúnebres em Memphis.

Elvis se transformou num fenômeno em 1956, aos 21 anos, ao ser contratado pela RCA Victor. Nos dois anos anteriores, gravara em Memphis, na pequena Sun Records, fonogramas fundadores do rock’n’ roll. As chamadas Sun Sessions reúnem as bases do rock na medida em que Elvis mistura blues, R & B, gospel e country. Dos Beatles ao U2, todos se curvam à importância daqueles registros e reconhecem neles matrizes do que vieram a fazer. O artista que o mundo conheceu a partir da chegada à RCA conservou muito do que encontramos nas sessões da Sun, mas também foi tragado pelas artimanhas da indústria fonográfica e pelos grandes estúdios de cinema.

Os anos 1950 foram extremamente produtivos, apesar do serviço militar prestado na Alemanha – uma jogada comandada pelo Coronel Parker, seu empresário. A volta, no disco Elvis Is Back, foi triunfal. O LP promove o reencontro do artista com suas fontes. A década de 1960 seria dedicada ao cinema, entre filmes medíocres e discos com suas trilhas sonoras. Felizmente, um outro retorno recuperaria a imagem de Elvis e o levaria a uma fase em que gravou grandes discos. O primeiro, e um dos melhores, se chama From Elvis in Memphis. É da época do especial de televisão que mostrou um intérprete vigoroso revisitando o que fizera nos tempos da Sun.

Elvis Presley vem de regiões profundas do ser da América. Estabeleceu um vínculo raro com milhões de ouvintes, interpretando com um vozeirão kitsch um repertório irresistível para quem nasceu nos Estados Unidos. Ele não largou as raízes, ainda que as tenha submetido a um verniz que desagrada aos puristas. Não deve ser condenado por isso. Se tivermos boa vontade, verificaremos com facilidade que produziu música pop de ótima qualidade numa carreira relativamente curta, iniciada em meados da década de 1950 e encerrada em 1977, com a morte prematura aos 42 anos.

Ainda hoje, posto as capas dos melhores discos de Elvis. 

A esquerda não tem o direito de patrulhar Chico Buarque!

Com Açúcar, Com Afeto é de 1967. Chico Buarque escreveu no feminino. Na letra, ele dá voz a uma mulher submissa.

Termina assim:

E ao lhe ver assim cansado

Maltrapilho e maltratado

Ainda quis me aborrecer

Qual o quê?

Logo vou esquentar seu prato

Dou um beijo em seu retrato

E abro os meus braços pra você

Camisa Amarela é de 1939. Ary Barroso escreveu no feminino. Na letra, ele dá voz a uma mulher submissa.

Termina assim:

O meu pedaço me fascina

Me domina

Ele é o tal

Por isso não levo a mal

Pegou a camisa

A camisa amarela

Botou fogo nela

Gosto dele assim

Passou a brincadeira

E ele é pra mim

Sempre que ouço uma, lembro da outra. Guardam muitas semelhanças. E são duas joias do cancioneiro popular brasileiro.

Camisa Amarela fala de uma mulher submissa ao marido. O autor não é necessariamente defensor dessa submissão.

Com Açúcar, Com Afeto também fala de uma mulher submissa ao marido. Tal como o Ary de 1939, o Chico de 1967 não está, necessariamente, defendendo essa submissão.

No fim do mês, Chico Buarque vai lançar seu novo disco. O primeiro single está disponível nas plataformas digitais há alguns dias: Tua Cantiga (música de Cristóvão Bastos, letra de Chico). A letra dá voz a um homem casado que ama uma mulher casada.

Tem uma estrofe que diz assim:

Quando teu coração suplicar

Ou quando teu capricho exigir

Largo mulher e filhos

E de joelhos

Vou te seguir

Rapidamente, as redes sociais se encheram de artigos com críticas ao compositor: “machista!”, etc. “Chico não me representa mais!” – alguns resumiram assim.

Ora, é esperado que gente de direita fale mal de Chico Buarque. Mas não que gente de esquerda patrulhe o artista, como está ocorrendo.

É o retrato triste e fiel da falta de bom senso que, nos dois extremos, contamina o debate ideológico e político no atual momento brasileiro.

Chico Buarque tem 73 anos, 51 de carreira (se tomarmos como ponto de partida o seu primeiro disco). Lutou contra a ditadura, sempre foi de esquerda, continua sendo. Querem o quê mais dele?

Tua Cantiga é puro Chico. Não o Chico dos clássicos instantâneos da juventude. Mas aquele das canções refinadas dos últimos 20 e tantos anos. É difícil crer que seus versos suscitem o debate que estamos testemunhando.

Seu cancioneiro está entre o melhor que o Brasil produziu, em todos os tempos, quando o assunto é música popular.

As patrulhas ideológicas marcaram o Brasil de 40 anos atrás.

Não é possível que elas estejam de volta!

Salve o compositor popular!

Os Rolling Stones na América Latina em ótimo documentário

Vi Olé, Olé, Olé! – A Trip Across Latin America, registro da turnê que os Rolling Stones fizeram pela América Latina em 2016, e quero falar um pouco sobre o documentário e também sobre a relação da banda com o cinema documental.

Os Rolling Stones têm várias experiências com o gênero.

A mais importante é Gimme Shelter. Não é um filme sobre o rock que o grupo produz. É um registro de valor histórico e sociológico sobre a violência no free concert de Altamont, em 1969. Os méritos são dos realizadores, os irmãos Maysles, mestres do cinema direto.

Let’s Spend the Night Together é um concert film. Mostra a íntegra de um show da turnê americana de 1981. É o inverso de Gimme Shelter: só tem música. O diretor, Hal Ashby, havia se consolidado com os filmes que realizou na década de 1970.

Shine a Light traz os Rolling Stones no palco de um teatro, flagrados pelo olhar mais intimista e menos grandioso do diretor Martin Scorsese. Há entrevistas entre os números, embora o principal seja o concerto filmado como cinema.

A turnê pela América Latina no início de 2016 rendeu dois filmes: Havana Moon e Olé, Olé, Olé! – A Trip Across Latin America, ambos dirigidos por Paul Dugdale.

Havana Moon é sobre a ida dos Stones a Cuba, o primeiro concerto deles na ilha. Tem uma introdução que contextualiza tudo, mas o resto é o show ao ar livre. Sem o anticomunismo ostensivo de Buena Vista Social Club, Havana Moon mistura sutilmente rock e política.

Olé, Olé, Olé! não é um concert film. Tem poucos números musicais completos. Acompanha cronologicamente a excursão, e, entre um país e outro, volta sempre a Cuba com os preparativos do show e as dificuldades para a sua realização.

O documentário começa pelo Chile. O grupo toca no Estádio Nacional. O mesmo onde tanta gente foi morta pelos militares que derrubaram o presidente Salvador Allende em 1973.

Mick Jagger fala das ditaduras dos anos 1970 e das restrições impostas ao rock por governos autoritários.

Na Argentina, os Rolling Stones encontram um público tão apaixonado e eufórico quanto o que vai aos jogos de futebol.

A conversa de Jagger com dois velhos fãs é um momento tocante do filme.

No Brasil, Jagger e Richards resgatam a viagem de férias que fizeram em 1968. A conversa deles desemboca num delicado registro musical de voz e violão: Honk Tonk Women do jeito que foi composta, há quase meio século, numa fazenda em São Paulo.

O vínculo de Ronnie Wood com as artes plásticas (além de guitarrista, ele pinta) é pretexto para o elogio aos artistas que fazem arte nas ruas de São Paulo, em paredes e muros. É o contrário do que vimos nas manifestações de truculência do prefeito João Dória.

O filme passa pelo Uruguai, Peru, Colômbia, México e termina em Cuba com sons e imagens que enriqueceriam Havana Moon.

Olé, Olé, Olé! não é somente um filme sobre uma turnê dos Rolling Stones.

O documentário fala do amor pela música, da alegria que esta proporciona, da arte como elemento que une os povos, da relação entre fãs e artistas. Esses temas estão espalhados pela narrativa, às vezes explicitamente, outras vezes não. Eles foram reunidos pela sensibilidade do realizador e de sua equipe. Em olhares, depoimentos, encontros, gritos, lágrimas, trocas entre os velhos roqueiros e representantes das culturas de cada lugar.

Com essa abordagem, Olé, Olé, Olé! está muito distante dos filmes que são meros registros de shows. Humaniza os astros, tira do anonimato pessoas comuns. Procura personagens e situações que se encaixam perfeitamente no ótimo cinema documental feito aqui por Paul Dugdale.

Em Nova York, Elvis era um príncipe de outro planeta

Reouvindo Elvis.

Os americanos costumam filmar tudo. Mas não registraram as imagens dos shows que Elvis Presley fez no Madison Square Garden, em junho de 1972. Gravaram o áudio. Uma das performances logo se transformou em disco. Outra, virou CD póstumo na década de 1990. Uma edição de luxo junta os dois em versões remasterizadas. E surpreende os fãs: um DVD traz imagens raríssimas filmadas em oito milímetros por alguém que estava na plateia. Elas são do mesmo show da tarde lançado nos anos 1990. É tudo muito precário e incompleto, mas certamente encantará os admiradores do cantor.

As imagens foram restauradas. Ficaram excessivamente granuladas, mas não faz mal. O áudio do CD foi editado em sincronia com o vídeo e aparece completo no DVD, mesmo quando não há imagem. Elvis e sua banda oferecem uma performance vigorosa ao público que esgotou a lotação do Garden. A coletiva de imprensa e um pequeno documentário completam o material do DVD. Os dois CDs têm selos originais da velha RCA e o mesmo repertório das edições anteriores, só que com sensível ganho de qualidade. O pacote se chama Prince from Another Planet.

As apresentações de Elvis no Madison Square Garden são de uma época em que ele fez muitos shows pelos Estados Unidos. Alguns estão no documentário Elvis on Tour, realizado em 1972. Mas não os de Nova York, que marcaram o seu retorno à cidade, onde não cantava desde que participara do Ed Sullivan Show, no início da carreira, em meados da década de 1950. E onde não voltaria a se apresentar. Em 1972, longe do cinema, Presley estava dividido entre as gravações em estúdio e os palcos. A decadência física que o levaria à morte cinco anos mais tarde ainda não se fazia sentir nos dias em que cantou para o público que foi vê-lo no Garden.

Elvis tinha um show pronto. As pequenas alterações no set list não mexiam com a estrutura básica do espetáculo. Os registros ao vivo do período são muito parecidos. O rock’n’ roll dos 1950 ficara para trás. Era apenas uma referência. Prevalecia o vozeirão de tenor a cantar mais baladas dos que rocks. Ao seu lado, havia uma banda, uma pequena orquestra e um grupo de vocalistas, brancos e negros que pareciam saídos de uma igreja. O resultado era fantástico. Antes dos 40, o artista já era uma lenda. Um rei amado por seus súditos e também pelos colegas, a exemplo do beatle George Harrison, que foi vê-lo no camarim.

Os dois shows dessa edição de luxo são do mesmo dia. O da noite, que está no LP de 1972, é melhor do que o da tarde. Foi consumido à exaustão no disco de vinil. O áudio restaurado deu mais brilho à performance. Elvis revisita o repertório antigo, acrescenta novas canções, interpreta algumas que outras vozes tornaram conhecidas. No fundo, faz a síntese da sua música e também da música popular do seu país, com domínio absoluto do que canta. Há rock, balada, blues, soul, gospel, country. O show dura uma hora, e a plateia quer mais. Só que Elvis já deixou o Garden, assegura o animador que está no palco.

O dia em que Sivuca tocou com Paul Simon

A reaudição de um disco de Paul Simon de meados da década de 1970 me faz pensar em Sivuca. Não só por causa da presença do músico paraibano numa das faixas, mas, principalmente, porque o solo que ouvimos ali remete à origem de uma fusão que diferenciou a sanfona dele das outras sanfonas. E talvez a tenha feito mais ouvida dentro e fora do Brasil por sua absoluta originalidade.

O disco de Simon: Still Crazy After All These Years. A canção: I Do It For Your Love. A fusão: da voz do nosso sanfoneiro com o seu instrumento. O encontro dos dois elementos – a voz e a sanfona – geraria um terceiro, uma sonoridade única que se transformaria numa espécie de assinatura.

Sivuca faz um breve solo no meio da canção de Paul Simon. Melodia que, por nunca ter esquecido, solfejava com facilidade. Uma lembrança que esteve presente duas ou três vezes em nossas conversas e que a ele, se não estou equivocado, não parecia importante. Quero, contudo, retomá-la pelo que há de elucidativo nela em relação à origem da fusão entre voz e sanfona.

O que temos no disco de Simon é um solo em que, misturada à sua voz, a sanfona de Sivuca, numa melodia que lembra uma toada nordestina, soa como se fosse um sax. Mais do que em outros registros, em I Do It For Your Love, Sivuca desliza os dedos pelas teclas do instrumento como se estivesse soprando num saxofone.

Toda esta conversa, que começa com a reaudição de um disco de Paul Simon e desemboca no casamento entre a voz e a sanfona de Sivuca e na sua semelhança com o sax, tem a ver com o que o músico me disse na última grande entrevista que deu, duas semanas antes de morrer.

Eis a transcrição:

Meu sonho começou quando escutei a Orquestra Tabajara pela primeira vez, em 1943, 1944, nos bailes que Severino Araújo fazia no Itabaiana Clube. Verifiquei que aquele tipo de arranjo era diferente do que eu escutava nas bandas, e aquilo era o que eu queria fazer. Tanto que a minha sanfona soava diferente das outras porque eu tocava o instrumento como se estivesse tocando um saxofone.

A explicação é do próprio Sivuca. A sonoridade da sua sanfona vem dos saxofones da Orquestra Tabajara tal como ele a ouviu em Itabaiana, antes de Severino Araújo levar a big band para o Rio de Janeiro. Ao tomar a Tabajara como parâmetro e ao buscar em um dos seus naipes o som da sua sanfona, Sivuca parecia antecipar a sua compreensão da música como algo do mundo e não como uma manifestação circunscrita à sua pequena Itabaiana.

O caminho que ele seguiu, da Paraíba para Pernambuco (onde estudou com o maestro Guerra Peixe) e de Pernambuco para o mundo, só confirma a universalidade dos sons que produziu a partir daquele encontro da sanfona com os saxes da Tabajara.

Claro que não é preciso ouvir Paul Simon para desvendar Sivuca. O que acontece é que em I Do It For Your Love a sanfona está tão explicitamente parecida com um sax que o que ele me disse pouco antes de morrer fica ainda mais evidente.

Sivuca estava deixando Nova York para voltar a viver no Brasil quando participou do disco de Simon. Mais ou menos na época em que o vi ao vivo pela primeira vez, num memorável concerto no Teatro Santa Roza. Ali, a execução de Moonlight Serenade também nos levava a identificar um sax na fusão da voz com a sanfona.

Em seus últimos anos, quase sem voz, Sivuca foi privado de produzir esta sonoridade que sempre reencontro nesse belo disco de Paul Simon.

Caetano Veloso (por ele mesmo) e seus discos

Nos 75 anos de Caetano Veloso, comemorados nesta segunda-feira (07), escolhi 15 dos muitos discos que ele gravou a partir de 1967. E é o próprio Caetano quem os comenta.

 

Caetano Veloso (1967) – “Meu primeiro disco tropicalista. O Tropicalismo queria fazer misturas. Queríamos, sim, ouvir e curtir Roberto Carlos. Tínhamos acabado de descobrir os Beatles. Esse disco contou com a participação do grupo Os Beat Boys, formado por músicos argentinos que tocaram comigo no festival da canção, em Alegria, Alegria. A canção Tropicália teve arranjos de Júlio Medaglia.”

 

Tropicália ou Panis et Circensis (1968) – “Com arranjos divinos de Rogério Duprat, veio logo depois, tanto do meu disco individual quanto do disco individual do Gil, que são os discos inaugurais do Tropicalismo. Quando fizemos Tropicália, que é um disco meio manifesto e coletivo, estávamos cientes de toda essa efervescência política pós AI-5. É um filme meu esse disco.”

 

Caetano Veloso (1969) – “Esse disco foi feito quando eu já estava preso. Não estava mais na cadeia, mas confinado em Salvador, praticamente preso na cidade, porque dela não podia sair. Boa parte das canções, inclusive Irene, foi composta na prisão. Fiz o disco sozinho, com o Gil tocando violão. Mandamos a fita para São Paulo, e o Rogério Duprat completou o trabalho. Quando esse LP saiu, eu já estava em Londres.”

 

Caetano Veloso (1971) – “Primeiro disco que fiz em Londres. Tem coisas muito interessantes, como a gravação de Asa Branca. Tem London, London, tem a faixa Maria Bethânia, que também acho muito bonita, com arranjos lindos, onde faço improvisações acompanhado por um quarteto de cordas excelente, sugerido pelo produtor e que havia participado das gravações do disco Eleanor Rigby, dos Beatles.”

 

Transa (1972) – “A banda que tocou comigo definia muito a força do disco. Foi gravado em pouco tempo, produzido pelo Morris Hills. Ensaiamos, entramos em estúdio e fomos gravando, com muita espontaneidade. Ensaiamos tanto para as gravações que, quando o disco ficou pronto, o show estava pronto também. As matrizes foram enviadas para a gravadora aqui, que o lançou. Esse disco marca a minha volta ao Brasil.”

 

Caetano e Chico Juntos e ao Vivo (1972) – “Não posso esquecer: foi feito no dia em que Torquato Neto se suicidou, dia do aniversário dele. Eu e Chico estávamos ensaiando quando chegou a notícia do suicídio. O disco traz cortes feitos pela censura como no verso ‘na barriga da miséria/nasci brasileiro’, que o ‘brasileiro’ foi cortado. Depois Chico colocou ‘batuqueiro’ no lugar. O show fez muito sucesso. E o disco também.”

 

Araçá Azul (1973) – “Foi uma retomada dos pensamentos que vinham à minha cabeça antes de ser preso, que de uma certa maneira me aproximavam da poesia concreta, do experimentalismo, das letras de poucas palavras. Eu disse: vou fazer um disco ostensivamente experimental. E assim o fiz. Fiquei uma semana no estúdio Eldorado, em São Paulo. Não compus nenhuma canção antes de entrar em estúdio.”

 

Joia/Qualquer Coisa (1975) – “Gravei como quem grava um disco duplo, mas sentindo que, fazendo uma separação de repertório, daria dois discos. Sendo o Joia um disco de sons mais limpos, espécie de versão mais serenizada dos desejos experimentais, também com canções mais curtas; Qualquer Coisa ficou sendo um disco com canções mais variadas, músicas dos Beatles, canções pop. Qualquer Coisa resultou mais comercial do que Joia.”

 

Bicho (1977) – “Esse disco, cuja capa foi feita por mim, tem ecos do Joia. Lança a canção Odara, que deu muito o que falar, que talvez já trouxesse uma batida funk e que afirmava todo esse negócio da música de dança e de divertimento. Foi muito criticada, muito combatida como uma espécie de manifesto da alienação. Nessa época, havia uma espécie de raiva de mim pelo fato de eu não ser ‘de esquerda’.”

 

Muito (1978) – “Meu disco mais pichado e o que menos vendeu. No entanto, é o disco que tem as canções Terra e Sampa, que foram tão tocadas e cantadas em todo canto. Li várias críticas dizendo que era péssimo, abaixo da crítica, que o Caetano já era. Muito foi gravado com A Outra Banda da Terra.”

 

Outras Palavras (1981) – “Gosto muito do disco Outras Palavras, que tem tantas músicas bacanas, a canção Outras Palavras entre elas. Era uma gíria que a Mônica Millet, do Gantois, amiga nossa, dizia muito. Maria Bethânia também dizia muito. É como se você dissesse outros quinhentos, mas de outra maneira. Como se você dissesse: agora são outras palavras, o negócio é outro.”

 

Velô (1984) – “Esse disco traz a canção Podres Poderes, cuja letra tem muito a ver com temas ligados ao desejo de que as minhas ações tenham uma função poético-política. Nenhuma ditadura presta. E minhas canções políticas, Podres Poderes entre elas, foram feitas por um homem que jamais perdeu essa perspectiva. Que não está interessado em esconder o sol com uma peneira.”

 

Estrangeiro (1989) – “Esse disco foi feito em Nova York. O Arto Lindsay queria muito produzir um disco meu. Arto conhecia bem a minha música porque tinha vivido muito tempo no Brasil e adora o trabalho dos tropicalistas. Ele queria que aqueles procedimentos tropicalistas fossem conhecidos e reconhecidos internacionalmente. Esse disco contou também com a presença luxuosa de Peter Sherer, que é um grande músico eletrônico.”

 

Circuladô (1991) – “Fiz esse disco também com o Arto Lindsay, e o fiz bem do jeito que eu queria. Adoro. Tem Fora da Ordem, que é curiosa. A canção título, Circuladô de Fulô, é linda. Também adoro Itapuã, que meu filho Moreno canta comigo e é uma canção que fiz para a mãe dele, a Dedé. Tem O Cu do Mundo, letra que foi muito comentada.”

 

(depoimentos a Charles Gavin e Luís Pimentel)

Caetano, aos 75, ainda é o artista mais inquieto da sua geração

Caetano Veloso faz 75 anos nesta segunda-feira (07).

Na música popular brasileira, é o artista mais inquieto da geração que conquistou dimensão nacional na era dos festivais da canção, na segunda metade da década de 1960.

Ele não tem o talento musical de Gilberto Gil, a quem já admirava antes mesmo que se conhecessem. Nem a voz de Milton Nascimento, com os falsetes que considera os mais bonitos do mundo. Também não é um popular clássico como Chico Buarque, em cujas canções identifica uma sabedoria que as suas desconhecem.

Mas nenhum desses ousou tanto, provocou tantas rupturas, exerceu tantas influências. Nenhum esteve tão esteticamente à esquerda. Mais do que qualquer um dos seus contemporâneos, ele entrou em todas as estruturas e saiu ileso. Arrojado, transgressor, desafiador, complexo, brilhante!

Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso nasceu em sete de agosto de 1942 em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. O gosto pelo canto, deve à mãe, Dona Canô, e à irmã mais velha, Nicinha. Aos quatro anos, sugeriu que a irmã se chamasse Maria Bethânia por causa da música de Capiba que fez sucesso na voz de Nelson Gonçalves. Na infância, ouviu os baiões fundadores de Luiz Gonzaga. Aos 17, uma descoberta mudou sua vida: João Gilberto cantando Chega de Saudade. Se tivesse que escolher a música que mais o influenciou, escolheria esta de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Daquele modo: com a voz e o violão de João Gilberto. O ano, 1959. O mesmo em que Jean-Luc Godard realizou Acossado. Godard, o primeiro filtro pop de Caetano, que foi crítico de cinema na juventude e quis ser cineasta.

O grupo baiano, formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, começou a atuar em Salvador. Em meados dos anos 1960, Caetano foi para o Rio, acompanhando a irmã. Bethânia substituiria Nara Leão no Opinião. A estreia em disco seria em 1967 no LP Domingo (com Gal), mas o reconhecimento nacional viria um pouco depois, também em 1967. Alegria, Alegria, quarto lugar no festival da Record, o projetou e, junto com Domingo no Parque (de Gil), iniciou o Tropicalismo, movimento que propunha a retomada da linha evolutiva da música popular brasileira. Era um momento de ruptura, com a introdução das guitarras elétricas na chamada MPB, num Brasil convulsionado pelas lutas ideológicas. Os militares governavam o país, e a sociedade civil começava a resistir. O endurecimento do regime se daria no final do ano seguinte.

Em 1968, ano do manifesto tropicalista, Caetano Veloso faria um discurso a um só tempo lúcido e enfurecido, durante o festival em que apresentou a música É Proibido Proibir, o título retirado do slogan usado pelos estudantes que puseram a França de cabeça para baixo. Em sua fala, o compositor batia na esquerda, que não assimilara a virada proposta pelo Tropicalismo, e na direita, que espancara os atores de Roda Viva.

Duas frases falavam do Brasil de muitos anos na frente: “se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos” e “então é esta a juventude que diz que quer tomar o poder?”.

O ano terminou com a prisão dele e de Gil pelos militares que promoveram o que Leonel Brizola chamava de o golpe dentro do golpe. Prisão seguida do confinamento em Salvador e do exílio de três anos em Londres.

Na Inglaterra, Caetano gravou dois discos. O segundo (Transa) é um dos pontos altos da sua discografia. Na volta ao Brasil, dividiu o palco com Chico Buarque, um encontro que a plateia dos festivais consideraria improvável. O sucesso do LP com o registro do show permitiu a ousadia do seu passo seguinte: um disco radicalmente experimental, o Araçá Azul, campeão de devolução nas lojas. Mais tarde, já na segunda metade da década de 1970, seria alvo fácil das chamadas patrulhas ideológicas. Por sua postura crítica em relação ao sectarismo da esquerda e pelas canções que vamos ouvir nos discos Bicho e Muito. De todo modo, são deste período canções como Terra e Sampa, que resistiram ao tempo e figuram entre as mais marcantes do seu repertório.

No início da década de 1980, na letra de uma canção, mencionava os operários do ABC que prometiam mudar o sindicalismo e a política brasileira. Quando a redemocratização se aproximava, defendia a volta de Miguel Arraes ao poder. E, enquanto seu contemporâneo Chico Buarque cantava Vai Passar, ele falava dos Podres Poderes. “E quem vai equacionar as pressões do PT, da UDR e fazer dessa vergonha uma nação?” – perguntava no Brasil dos tempos de Sarney. Não demoraria a defender a tese de que o país se afirmaria internacionalmente por suas diferenças.

Musicalmente, o Caetano dos anos 1980 flertou com a vanguarda que surgia em São Paulo, passou pelos teclados de Lincoln Olivetti, se aproximou do novo rock brasileiro e da música eletrônica que encontrou em Nova York.

(A foto é dos 50 anos de Caetano. Germana Bronzeado registrou o momento em que Chico Pereira e eu conversávamos com ele sobre o Tropicalismo no backstage do show Circuladô.)

Quando completou 50 anos, em 1992, já não precisava provar mais nada. Era um dos grandes artistas da sua geração. Mas permanecia marcado pela inquietação que o acompanhava desde cedo. Neste sentido, seguia o caminho oposto aos demais. No lugar de se dedicar mais a uma espécie de manutenção da carreira, continuava buscando o novo, a provocação, a ousadia.

Foi assim em Livro, que fundia a percussão da música baiana com a sonoridade dos arranjos que o maestro Gil Evans escrevera para Miles Davis, gênio consumado do jazz. O disco saiu na mesma época de Verdade Tropical, denso volume de memórias em que Caetano, como num romance de formação, se debruça sobre a infância, a juventude, o Tropicalismo, a prisão e o exílio. Em Noites do Norte, trouxe a prosa de Joaquim Nabuco para sua música. E, a partir de , por quase uma década fez rock com um power trio.

Caetano Veloso é um artista que orgulha sua geração e seus ouvintes. Um compositor de música popular no nível dos melhores do mundo, um letrista excepcional.

Tem muitos outros méritos:

Como intérprete do que compôs e do que gravou de inúmeros autores, brasileiros ou não.

Como artista que chamou atenção para o papel da canção popular na construção da nossa identidade.

Como cidadão que pensa o Brasil com espantosa lucidez, a despeito do que dizem seus críticos.

Caetano é diferente e original. Do mesmo modo que são diferentes e originais os caminhos que enxerga para o Brasil em seu destino como Nação.

Caetano Veloso diz que, onde quer que vá e como quer que lá chegue, levará consigo sua versão muito complexa da música popular brasileira – manifestação riquíssima que nunca mais foi a mesma desde que ele apareceu naquele festival de 1967, cantando uma marchinha que anunciava o novo em seus versos e nas guitarras que a acompanhavam.

Ronnie Wood tem câncer no pulmão

Ronnie Wood, guitarrista dos Rolling Stones, tem câncer no pulmão.

A doença, em estágio inicial, foi diagnosticada há alguns meses, e o músico se submeteu a uma cirurgia para retirada da lesão.

Ronnie Wood, de 70 anos, fumou durante 50. Também é dependente de álcool e já passou por vários tratamentos de reabilitação.

Os Rolling Stones estão se preparando para uma série de shows na Europa.

A turnê se chamará No Filter.

75 músicas para festejar os 75 anos de Caetano Veloso

Caetano Veloso faz 75 anos nesta segunda-feira (07).

Vamos comemorar ouvindo 75 músicas dele neste domingo?

Não é um ótimo programa?

Eu fiz a minha lista.

Digamos que é um retrato de Caetano tirado por mim através das suas canções.

CORAÇÃO VAGABUNDO

AVARANDADO

DE MANHÃ

TROPICÁLIA

CLARICE

ALEGRIA, ALEGRIA

SUPERBACANA

PAISAGEM ÚTIL

PANIS ET CIRCENSIS

BABY

ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM

MAMÃE CORAGEM

SAUDOSISMO

DIVINO, MARAVILHOSO

É PROIBIDO PROIBIR

IRENE

MARINHEIRO SÓ

ATRÁS DO TRIO ELÉTRICO

OS ARGONAUTADS

NÃO IDENTIFICADO

LONDON, LONDON

MARIA BETHÂNIA

YOU DON’T KNOW ME

NINE OUT OF TEN

TRISTE BAHIA

IT’S A LONG WAY

COMO DOIS E DOIS

CHUVA, SUOR E CERVEJA

DE NOITE NA CAMA

VOCÊ NÃO ENTENDE NADA

ESSE CARA

ARAÇÁ AZUL

DA MAIOR IMPORTÂNCIA

LUA, LUA, LUA, LUA,

QUAL QUER COISA

UM ÍNDIO

ODARA

GENTE

TIGRESA

O LEÃOZINHO

TERRA

SAMPA

MUITO ROMÂNTICO

LUA DE SÃO JORGE

ORAÇÃO AO TEMPO

BELEZA PURA

MENINO DO RIO

TRILHOS URBANOS

CAJUÍNA

FORÇA ESTRANHA

MÃE

OUTRAS PALAVRAS

NU COM A MINHA MÚSICA

RAPTE-ME, CAMALEOA

QUEIXA

ECLIPSE OCULTO

PETER GAST

VOCÊ É LINDA

PODRES PODERES

O HOMEM VELHO

O QUERERES

LÍNGUA

VACA PROFANA

EU SOU NEGUINHA

O CIÚME

O ESTRANGEIRO

OS OUTROS ROMÂNTICOS

FORA DA ORDEM

HAITI

DESDE QUE O SAMBA É SAMBA

OS PASSISTAS

LIVROS

ZERA A REZA

ODEIO VOCÊ

ABRAÇAÇO