Um bolsonarista raiz aceitaria homens vestidos de mulher?

No grupo Stoneanos, segue a briga entre stoneanos bolsonaristas e stoneanos não bolsonaristas.

Acho saudável.

Quanto menos stoneano bolsonarista no grupo, melhor.

É Brasil acima de tudo, Deus acima de todos ou Sympathy for the Devil?

É bandido bom é bandido morto ou sexo, drogas e rock’n’ roll?

É Bolsonaro fazendo arminha no rolls royce presidencial ou Keith Richards batendo com os punhos fechados na cabeça, no coração e no sexo?

Sabem aquela foto, ainda do tempo de Brian Jones, dos Rolling Stones vestidos de mulher?

É uma das imagens clássicas do grupo na década de 1960.

Pois é.

O que um bolsonarista raiz, não stoneano, diria a um bolsonarista stoneano, talvez mais nutella do que raiz?

Homens que se vestem de mulher?

Isso pode?

Pode para mim e para você.

Jamais para um filho que, ao visitar o pai no hospital, exibe ostensivamente a pistola que carrega na cintura.

O que Jagger diria a um stoneano bolsonarista? “A crock of shit”?

O último disco autoral de inéditas dos Rolling Stones já tem 14 anos.

É A Bigger Bang. A turnê passou pelo Brasil em 2006 com aquele show monumental em Copacabana.

A Bigger Bang não é um grande título da discografia deles. É somente mediano.

É lá que está a faixa Sweet Neo Con.

A letra começa assim:

Você se diz cristão
Eu te acho um hipócrita
Você se diz patriota
Eu acho que você está cheio de merda

Imaginemos a cena.

Um stoneano bolsonarista (pois é, descobri surpreso que eles existem!) no front stage do show dos Rolling Stones.

Uma maravilha ver os Stones ao vivo!

Ele se empolga, lembra do “mito” (seu novo guru), e começa a fazer arminha.

Arminha pra lá, arminha pra cá.

Como um autêntico bolsonarista.

Uma coisa louca, é claro: meio Bolsonaro, meio rock’n’ roll.

Aí Mick Jagger, depois de correr de um lado para o outro do palco, começa a cantar Sweet Neo Con.

A letra é um petardo!

Você se diz cristão
Eu te acho um hipócrita
Você se diz patriota
Eu acho que você está cheio de merda

Sejamos verdadeiros: COMBINA? 

Caros stoneanos: é óbvio que não combina!

Querem ser bolsonaristas? Que sejam!

Mas não misturem a truculência da extrema direita com o velho e bom rock’n’ roll dos Rolling Stones!

Stoneanos que são bolsonaristas deviam era ter vergonha na cara

Pleased to meet you
Hope you guess my name

Descobri num grupo que fãs brasileiros dos Rolling Stones estão brigando por causa de Bolsonaro.

Aqui na coluna, escrevi o que penso sobre o assunto: fãs dos Rolling Stones e bolsonaristas são incompatíveis.

Não estou censurando o gosto de ninguém, mas é que são mesmo.

É uma incoerência absoluta.

A menos que você só conheça muito superficialmente a banda e, a partir dessa superficialidade, diga que gosta.

Quem conhece de verdade, quem ama os caras e a música deles, quem tem todos os discos, quem viaja para vê-los ao vivo, quem acompanha há décadas – esses não podem ser bolsonaristas.

Não há como combinar uma coisa com a outra. Elas não se misturam.

Os Rolling Stones não coincidem em nada com a burrice da extrema direita brasileira.

Mick Jagger está para Obama, jamais para Trump.

Nesta quarta-feira (11), muitos comentaram meu texto, e a briga entre os stoneanos continuou.

Vou confessar: de tão estúpida, ficou engraçada.

Sabem o que fiz? Fui rever o documentário Havana Moon, lançado no final de 2016.

Minhas impressões?

Estão aí:

Não sem alguma ironia, a voz em off de Keith Richards diz no início do filme que a ida de Barack Obama a Cuba foi como uma abertura para o show dos Rolling Stones.

A estreia da banda em Havana tem significado simbólico forte. Marca o reatamento das relações entre Estados Unidos e Cuba e ilustra os estertores do ciclo de poder dos irmãos Castro.

Se quisermos, o filme é sobre esse tema. Mas com abordagem sutil e olhar simpático e respeitoso.

Houve a Revolução e suas conquistas. E houve o declínio com o fim do subsídio soviético. Os ganhos na saúde e na educação sempre se contrapuseram às restrições das liberdades individuais.

Havana Moon toca nessas questões sem precisar entrar nelas. Indiretamente, aparecem nas falas de Mick Jagger e Keith Richards que abrem o documentário. E no que eles dizem no palco, durante o concerto.

Jagger se estende mais, ao mencionar a censura ao rock.

Richards resume: Havana, Cuba e os Rolling Stones. Isto é incrível!

As imagens falam mais alto. Da memória da Revolução estampada no muro à pobreza do povo.

Jagger conta para a multidão em êxtase que viu a rumba de perto na Casa da Música. O diálogo se dá através da arte. É mais fluente do que nas relações políticas.

Buena Vista Social Club tem um anticomunismo que soa mal. Havana Moon não tem.

É como se os Stones repetissem o que Obama disse ao discursar diante de Raul Castro: que o destino de Cuba está nas mãos dos cubanos.

Aquela alegria toda, no palco e na plateia, é, então, para dizer isso: celebremos com música, mas o destino de vocês está nas suas mãos.

A música que os cubanos ouvem ao vivo pela primeira vez tem seu ponto alto numa “blues suite”.

É Midnight Rambler, que se estende por muitos minutos e resume o que os Stones são.

Naquela noite de 25 de março de 2016, eles se projetaram como a luz do luar sobre a noite de Havana.

Velhos, mas ainda muito intensos.

Fãs brasileiros dos Rolling Stones brigam por causa de Bolsonaro

No Festival de Veneza, Mick Jagger fez críticas à política ambiental do governo Trump. Falou dos que votam em candidatos de direita e do que isso pode representar para o futuro da humanidade.

Nas notícias que li, Jagger não mencionava o presidente Jair Bolsonaro, mas, aqui no Brasil, muita gente disse que sim.

Ao lado de Jagger, o ator Donald Shuterland – este sim – citou o nome do presidente brasileiro.

A fala de Jagger acabou sendo tema em um grupo de fãs dos Rolling Stones que, por sugestão de um amigo, acompanho há alguns anos.

Integrantes do grupo brigaram por causa de Bolsonaro. Ou pelo fato de que Mick Jagger, a quem idolatram, teria feito críticas a Bolsonaro.

O que chamou minha atenção nem foi a briga entre os fãs da banda, mas a constatação de que uma pessoa consegue, a um só tempo, admirar os Rolling Stones e Jair Bolsonaro.

Já tinha ficado surpreso com beatlemaníacos que aderiram ao bolsonarismo. Não dá para conciliar os dois. Se você conhece, de fato, os Beatles, não pode sair por aí defendendo um político como Bolsonaro.

Com os Rolling Stones, então, é muito pior.

Porque há muito mais transgressão na trajetória deles do que na dos Beatles. Toda sorte de transgressão.

Vejam os caras no palco, reparem as letras das canções, acompanhem o périplo deles pelo mundo das celebridades.

Imagine um bolsominion fazendo arminha com Jagger rebolando na sua frente! Não há qualquer compatibilidade.

Os Rolling Stones – essa banda que está na estrada há 56 anos – são o que o rock é.

Claro que eles se transformaram num grande produto, mas, dentro desse grande produto, ainda pulsa muito da essência do gênero a que aderiram quando eram jovens e rebeldes.

Olavo de Carvalho disse que os Beatles eram satanistas e que as canções deles foram escritas por Adorno.

O que o filósofo do bolsonarismo diria de Mick Jagger e sua turma?

Só um imbecil acredita que Adorno compôs as canções dos Beatles

09 – 09 – 09.

Nove de setembro de 2009.

Nesta segunda-feira (09/09/2019), faz dez anos.

Sim. No dia nove de setembro de 2009, as lojas de discos do mundo inteiro receberam a coleção dos Beatles remasterizada em CD.

Foi um acontecimento.

Hoje, portanto, pode ser um bom dia para falar sobre os Beatles.

Mas vou falar de forma torta.

Olavo de Carvalho, o filósofo do bolsonarismo, disse num vídeo que quem escreveu as canções dos Beatles foi Adorno, aquele da Escola de Frankfurt.

Os Beatles, segundo Olavo, mal tocavam violão, e lá foi Adorno compor as músicas deles.

Tem mais: para Olavo, os Beatles eram satanistas.

Adorno não gostava nem de jazz, quanto mais de rock.

Se você acredita nessa tese de Olavo de Carvalho, é tão ou mais imbecil do que ele.

O que diriam os que, ao mesmo tempo, conseguem ser beatlemaníacos e bolsonaristas?

Quinteto da Paraíba festeja 30 anos com CD ao vivo em New York

O Quinteto da Paraíba está comemorando 30 anos.

Em João Pessoa, a data será marcada por um concerto, nesta sexta-feira (06) às 21 horas, na Sala Maestro José Siqueira, no Espaço Cultural.

A entrada é gratuita.

Mas há também um registro físico pra gente guardar em casa: é o CD Quinteto da Paraíba ao vivo em New York.

O CD foi gravado durante a passagem do grupo pela Syracuse University/NY. Traz o concerto realizado no dia 29 de janeiro de 2019, dedicado às vítimas de Brumadinho.

No encarte, Bráulio Tavares diz que o Quinteto da Paraíba consolida “uma ponte extraordinária entre a música clássica e a música erudita”.

Rótulos que, no mesmo texto, Bráulio prefere substituir por Música Formal e Música Espontânea.

Bráulio é preciso na definição. E é isto o que temos no CD ao vivo.

O grupo revela, no repertório, uma grande admiração por Lenine, autor de cinco das onze faixas do disco. Há uma música de Chico César e três de Capiba. Uma composição de Antônio Madureira e outra de Clóvis Pereira completam o programa.

No CD, o trabalho sempre primoroso do Quinteto da Paraíba ganha um registro tecnicamente muito bem feito.

O Quinteto da Paraíba é: Ronedilk Dantas (violino 1), Thiago Formiga (violino 2), Ulisses Silva (viola), Nilson Galvão (violoncelo) e Xisto Medeiros (contrabaixo, zabumbaixo e voz).

O grupo orgulha a Paraíba com sua já longa viagem musical.

Bloco na Rua, de Ney Matogrosso, é comentário para o Brasil de 2019

“Há quem diga que eu dormi de touca/que eu perdi a boca/que eu fugi da briga/que eu caí do galho e que não vi saída/que eu morri de medo quando o pau quebrou”.

Bloco na Rua, o show que Ney Matogrosso trouxe a João Pessoa nesta terça-feira(03), começa com a música que lançou Sérgio Sampaio. Em 1972, era um forte recado político.

“Pra pedir silêncio eu berro/pra fazer barulho eu mesma faço”.

Ney cai no rock. É Rita Lee. Segunda metade dos anos 1970.

“No beco escuro explode a violência” ou “Nada mais me deixa chocado/nada!”.

São os Paralamas do Sucesso. Anos 1980.

De canção em canção, Ney vai montando um retrato.

Pode ser um autorretrato atual do artista.

Um autorretrato atual do artista diante do mundo que o cerca.

Ney Matogrosso, 78 anos, 46 desde os Secos & Molhados, esse grande artista brasileiro.

Domínio total do canto e do espaço cênico em que pisa.

“No escuro dessa noite, me ajuda a cantar” ou “Eles são muitos/mas não sabem voar”.

É Ednardo. Aquele do Pessoal do Ceará. Anos 1970.

Ney abre as asas sobre a plateia. Ele sabe voar. Sempre soube.

E, assim, segue Bloco na Rua.

Tem Raul Seixas (A Maçã), mais Rita Lee (Corista de Rock), Secos & Molhados (Sangue Latino), Caetano Veloso (Como 2 e 2), Milton Nascimento (Coração Civil).

Grande show. Grande banda. Grandes arranjos. Grande set list.

Grande noite!

Ney Matogrosso é um homem de muita coragem.

Ney Matogrosso é um transgressor maravilhoso.

Visto de perto, nos bastidores, sempre parece tímido.

No palco, se agiganta.

É um performer extraordinário.

Bloco na Rua é fortemente político.

Não foi, necessariamente, pensado para o Brasil de 2019.

O que o artista diz, através dessas canções, fala de uma utopia permanente, expressa ali no Coração Civil de Bituca.

Mas diz muito no Brasil de 2019.

Do Brasil tomado pela barbárie política e por uma caretice sem fim.

Digamos que Bloco na Rua não é um comentário sobre o Brasil de 2019, mas para o Brasil de 2019.

É o que Ney Matogrosso tem a nos dizer.

Aos não caretas e também aos tantos caretas que lotam o teatro.

Ney Matogrosso põe Bloco na Rua hoje em João Pessoa. Veja set list

Ney Matogrosso apresenta Bloco na Rua nesta terça-feira (03) em João Pessoa.

O show será às nove da noite no Teatro A Pedra do Reino, do Centro de Convenções.

Vai ver Ney?

Confira o repertório:

Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio)

O beco (Herbert Vianna e Bi Ribeiro)

Álcool (Bolero filosófico) (DJ Dolores)

Já sei (Itamar Assumpção, Alzira Espíndola e Alice Ruiz)

Pavão Mysteriozo (Ednardo)

Tua cantiga (Cristovão Bastos e Chico Buarque)

Mais feliz (Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza)

A maçã (Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta)

Yolanda (Pablo Milanés/Chico Buarque)

Postal de amor (Raimundo Fagner, Ricardo Bezerra e Fausto Nilo)

Ponta do lápis (Clodo Ferreira e Rodger Rogério)

Tem gente com fome (João Ricardo/Solano Trindade)

Corista de rock (Rita Lee e Luiz Carlini)

Já que tem que (Alzira Espíndola e Itamar Assumpção)

O último dia (Paulinho Moska e Billy Brandão)

Inominável (Dan Nakagawa)

Sangue latino (João Ricardo e Paulinho Mendonça)

Como 2 e 2 (Caetano Veloso)

Coração civil (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Feira moderna (Lô Borges, Beto Guedes e Fernando Brant)

Vai ver Ney Matogrosso ao vivo? Que tal (re) ouvir seus discos?

Nesta terça-feira (03), Ney Matogrosso apresenta o show Bloco na Rua no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Vamos (re) ouvir alguns dos seus discos?

Escolhi seis:

SECOS E MOLHADOS

De 1973. Primeiro dos dois discos dos Secos e Molhados, o grupo que revelou Ney Matogrosso. Foi um sucesso absoluto de crítica e público e uma grande ousadia em plena ditadura militar. Novo em sua proposta musical, novo também pela atitude.

ÁGUA DO CÉU – PÁSSARO

De 1975. Primeiro disco solo de Ney Matogrosso. O que ele faria depois dos Secos e Molhados? A resposta veio num LP que parecia ainda mais ousado do que o grupo desfeito. Com sua voz incomum, Ney se consolidava como um dos grandes da MPB.

NEY MATOGROSSO

De 1981. Comercialmente, foi o maior sucesso da carreira de Ney Matogrosso. Homem com H, do paraibano Antônio Barros, colocou Ney em primeiro lugar em todas as paradas. Depois, o artista saiu em excursão lotando os lugares onde cantava.

Ney CDs

PESCADOR DE PÉROLAS

De 1987. Gravado ao vivo. Um Ney Matogrosso diferente. Na performance, no figurino, no repertório . Contido, colocando sua bela voz diante de um cancioneiro de clássicos populares. Ao seu lado, Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Rafhael Rabello.

NEY MATOGROSSO INTERPRETA CARTOLA

De 2002. Ney Matogrosso na maturidade debruçado sobre o repertório do grande sambista da Mangueira. Um dos seus muitos álbuns conceituais. Os sambas de Cartola recebem arranjos primorosos para essa leitura muito fiel aos originais.

BEIJO BANDIDO

De 2009. Arranjos camerísticos e sofisticados para um repertório impecável. Ney Matogrosso canta verdadeiros clássicos do cancioneiro popular. Alguns antigos, outros ainda recentes. O disco reafirma a extrema qualidade do seu trabalho.

Francis Hime chega aos 80 como um dos grandes da sua geração

Francis Hime faz 80 anos neste sábado (31).

Ele é um pouco mais velho do que vários dos seus contemporâneos (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo), mas são todos da mesma geração. A geração impactada e fortemente influenciada pela Bossa Nova.

Diferente de Chico, Caetano e Gil, que são do violão (de João Gilberto), Francis é do piano (de Tom Jobim).

Francis (como Edu) também tem de Tom um híbrido que o coloca entre o popular e o erudito.

Quando gravou o primeiro disco solo, em 1973, já tinha 34 anos. É lá que está Atrás da Porta, música sua, letra de Chico Buarque, que teve gravação definitiva na voz de Elis Regina.

Em 1963, com pouco mais de 20 anos, foi um dos “parceirinhos” de Vinícius de Moraes. Mas seu grande parceiro, em qualidade e quantidade, foi Chico Buarque.

Juntos, Francis e Chico assinaram alguns clássicos do nosso cancioneiro, sobretudo ao longo dos anos 1970 e no início da década seguinte.

Grande melodista, hábil arranjador, Francis Hime é um músico muito sofisticado, o que talvez explique o fato de ter ficado menos exposto do que seus contemporâneos, de ter corrido por fora.

Nos últimos anos, produziu muito, gravou muito, experimentou novos parceiros. Agora, finaliza um disco que deve ser lançado em breve.

Francis Hime chega aos 80 anos como um dos grandes da sua geração.