Sonífera Ilha é um pop bobinho que todos nós adoramos

Foi mais ou menos assim:

Stevie Wonder disse a Gilberto Gil que não gostava muito de I Just Called to Say I Love You.

Achava banal a canção.

Gil, que verteu a música de Wonder para o português, respondeu: Essas é que são as boas.

Lembrei dessa conversa vendo/ouvindo o vídeo oficial da nova versão de Sonífera Ilha, sucesso que lançou os Titãs três décadas e meia atrás.

Em 2020, Sonífera Ilha volta com os Titãs em formato de trio acústico, num vídeo em que o grupo paulistano tem o auxílio luxuoso de amigos e amigas (lá está Fernanda Montenegro!).

É um pop bobinho, bem bobinho, talvez mais banal do que a canção de Stevie Wonder. Mas está colado aos nossos ouvidos desde meados dos anos 1980.

Está bem guardado na nossa memória afetiva.

E todos nós adoramos.

Kenny Rogers morreu. Fez muito sucesso com country estilizado

Morreu o cantor americano Kenny Rogers.

Tinha 81 anos e estava doente há algum tempo.

Sua turnê de despedida, iniciada em 2016, foi interrompida por causa dos problemas de saúde.

Kenny Rogers fez muito sucesso.

Sua música era classificada como country.

Mas, convenhamos, era um country pra lá de estilizado.

Fiquemos como um pouco de Rogers.

Elis Regina 75 anos. Quem ainda ouve a maior cantora do Brasil?

Se estivesse viva, Elis Regina faria 75 anos nesta terça-feira (17).

Ela morreu em janeiro de 1982, pouco antes de completar 37.

É quase uma unanimidade: foi a maior cantora popular do Brasil.

Será que a voz de Elis resistiu a esses quase 40 anos que nos separam da sua morte?

Será que seus discos resistiram bem à ação do tempo?

Qual o legado de Elis Regina?

Um retrato datado do Brasil em que ela viveu?

Ou um cancioneiro que continua vivo por sua própria qualidade e pela força da intérprete?

Quantos dos seus contemporâneos ainda ouvem os discos de Elis?

E aos jovens, o que é que ela diz?

No dia em que Elis faria 75 anos, vamos reouvir seus discos?

Selecionei 10.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com Arrastão. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem Reza e Menino das Laranjas.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba Madalena, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para Águas de Março.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em Águas de Março é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba O Bêbado e a Equilibrista, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem Canção da América.

Antônio Barros faz 90 anos. Ele nasceu para compor sucessos

Antônio Barros faz 90 anos nesta quarta-feira (11).

O homem é um poderosíssimo hit maker.

Nasceu para isso. Para fabricar sucessos.

Se fosse americano, seria um milionário, de tanto que arrecadaria em direitos autorais.

Os que creem podem dizer sem medo de errar: Antônio Barros tem um imenso talento que Deus lhe deu.

Ele é um homem simples.

Sua música é feita com absoluta simplicidade, com os rudimentos de quem mal toca o violão.

Mas tem força.

Tem beleza.

Tem autenticidade.

É verdadeira.

Cola nos nossos ouvidos e não sai nunca mais.

Compôs um monte de sucessos. Alguns, a gente nem sabe, mas foi ele que fez.

Gravado por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, é dono de um songbook invejável na música popular do Nordeste.

O meu Antônio Barros? O que está muitíssimo bem guardado na minha memória afetiva?

Ele sabe. Já lhe disse inúmeras vezes.

É o daquelas três marchinhas juninas gravadas pelo Trio Nordestino.

Brincadeira na Fogueira, Naquele São João e É Madrugada.

São lindas demais.

Vêm de regiões profundas do ser do Nordeste.

É com elas, em versão de Spok e Orquestra Forrobodó, que faço minha homenagem ao compositor no dia dos seus 90 anos.

Viva Antônio Barros!

“A mulher é um livro místico. Somente a alguns é dado lê-la”

No Dia Internacional da Mulher, toda a beleza que há em Elegia, que Caetano Veloso gravou no disco Cinema Transcendental, de 1979.

O original é do poeta inglês John Donne, nascido no século XVI.

Augusto de Campos traduziu para o português.

Péricles Cavalcanti adaptou os versos e compôs a melodia.

ELEGIA

Deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre

Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista

Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério

Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo

Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes

Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita

Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la

Let It Be foi lançada há 50 anos. É um clássico da canção popular

Meu pai ouvia da Voz da América à Rádio Pequim. Da BBC de Londres à Rádio Central de Moscou.

Durante a ditadura, sabia-se mais do Brasil ouvindo essas emissoras do mundo que chegavam até nós com o som característico das ondas curtas.

Na BBC, tinha aquela transmissão diária das sete da noite.

Nas quintas-feiras, depois do noticiário, eu ouvia O Iê-Iê-Iê na BBC.

Sob o comando de Miguel Carlos, o programa de nome já anacrônico durava somente 20 minutos e trazia as novidades do pop/rock britânico.

Foi lá que fiz a primeira audição de Let It Be, o lado A do compacto que os Beatles tinham acabado de lançar.

Incrível!

Fui menino no tempo em que ouvíamos as novas canções dos Beatles.

Imaginam o que isso representa?

*****

O single Let It Be/You Know My Name foi lançado no dia seis de março de 1970.

Let It Be traz a assinatura John Lennon & Paul McCartney, mas a autoria é toda de Paul.

Já ouvi gente dizer que a “mãe Maria” da letra é a maconha.

Há quem diga que é Nossa Senhora.

Nem uma coisa nem outra.

A “mother Mary” é a mãe de McCartney, que morreu quando ele tinha apenas 14 anos.

A canção foi gravada em janeiro de 1969, quando os Beatles foram filmados para o projeto Get Back.

A ideia de mostrá-los na intimidade, meio de volta às origens, não deu certo. Resultou, mais de um ano depois, no álbum e no documentário Let It Be, retrato do fim do grupo.

Let It Be, a canção, foi segundo lugar nas paradas do Reino Unido. Primeiro nos Estados Unidos.

Tinha o piano e a voz de Paul McCartney.

Tinha o órgão de Billy Preston e o solo de guitarra de George Harrison.

E – claro! – a melodia irresistivelmente sedutora, do jeito que seu autor sabe escrever.

Let It Be é um clássico da canção popular.

É número obrigatório nos shows de Paul McCartney.

Quando ele canta, o público levanta as mãos e ilumina a arena com seus celulares.

A música atravessou meio século intacta.

Quando ela foi lançada, não imaginávamos que, 35 dias depois, o fim dos Beatles seria oficialmente anunciado.

Let It Be também evoca esse tempo.

Jimi Hendrix virou o ano tocando. Não imaginava que era o último

No último dia de 1969 e no primeiro de 1970, Jimi Hendrix fez quatro concertos.

Dois na véspera do ano que terminava, mais dois no dia do ano que começava.

Todos no Fillmore East, em Nova York.

Tocar ali (e também no Fillmore West, em São Francisco) era o máximo para a geração de Hendrix.

Em agosto de 1969, o guitarrista encerrara o festival de Woodstock com uma performance extraordinária, em cujo set list havia uma versão arrebatadora de The Star Spangled Banner, o hino americano.

Naqueles shows no Fillmore, trocara o The Jimi Hendrix Experience pela Band of Gypsys. Ambos, grandes no formato power trio.

Seu novo grupo tinha Billy Cox no contrabaixo e Buddy Miles na bateria e vocais.

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Band of Gypsys foi o título do último disco não póstumo de Hendrix. E, até ali, o único ao vivo. Continha registros da sua passagem pelo Fillmore.

Diversos números dos shows do Fillmore apareceriam, bem mais tarde, em dois álbuns oficiais da sua extensa discografia póstuma.

Nada que se compare ao box Songs for Groovy Children: The Fillmore Concerts.

Editada há pouco, a preciosa caixinha (R$ 320/importada) tem cinco CDs, um encarte com 40 páginas e, pela primeira vez, os quatro concertos reunidos na sequência original.

“43 performances incendiárias” – como diz aquele selinho colado sobre o box ainda lacrado.

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Esses quatro concertos de Hendrix no Fillmore East apontavam para o futuro da sua música?

Que caminhos ele trilharia depois de se desfazer do Experience e compartilhar novas formações?

Não houve tempo para respostas.

Jimi Hendrix não estaria vivo para celebrar a chegada de mais um ano.

O artista de trajetória meteórica morreu aos 27 anos em setembro de 1970.

Nunca mais houve um guitarrista como ele.

Rolling Stones são como Roberto Carlos. Fazem o mesmo show

Em 1997/1998, os Rolling Stones correram o mundo com a turnê Bridges to Babylon.

Ao todo, foram 97 concertos.

Quando vieram para a América do Sul, as datas da banda coincidiram com as de Bob Dylan, e Dylan “abriu” para os Stones, além de fazer uma participação especialíssima no show deles.

Eu vi, na passagem por São Paulo, e era inacreditável.

Primeiro, o show de Dylan.

Depois, o show dos Stones.

Mais tarde, a banda e o bardo juntos, fazendo Like a Rolling Stone.

Agora, mais de 20 anos depois, duas versões oficiais da turnê estão no mercado (CD, DVD, Blu-ray).

Após o concerto em Bremen (Bridges to Bremen), a mais recente se chama Bridges to Buenos Aires.

As apresentações são semelhantes, mas fã que é fã precisa das duas.

A de Bremen é vigorosíssima.

A de Buenos Aires tem aquele público louco da Argentina.

Naturalmente louco e, mais ainda, louco pelos Stones.

E tem o encontro com Dylan.

Sem voz, cantando mal, errando a letra – mas Dylan!

E tem – claro! – o show dos Stones.

A gente já viu dezenas de vezes em não sei quantos registros lançados oficialmente.

É como Roberto Carlos.

São muito parecidos.

O conceito é o mesmo, há décadas.

O set list pouco muda.

Mas são irresistíveis.

Como essas pontes que agora nos levam a Buenos Aires.

George Harrison na sua melhor composição e em cinco álbuns

Uma canção e cinco álbuns como lembranças de George Harrison.

Que tal?

Se estivesse vivo, nesta terça-feira (25), ele faria 77 anos.

***** 

Qual a grande canção de Harrison?

Para mim, Something.

É a segunda faixa do lado A de Abbey Road, de 1969, último disco gravado pelos Beatles. E única música de Harrison a ocupar, também em 1969, o lado A de um single do grupo (no lado B, ficou Come Together).

Foi composta ao piano, em 1968, durante as gravações do Álbum Branco, provavelmente sob inspiração de Ray Charles.

O primeiro verso da letra (“something in the way she moves”) vem de uma canção de James Taylor, gravada pouco antes no selo Apple, que pertencia aos Beatles.

Muita gente regravou Something: o próprio Ray Charles, Elvis Presley, Frank Sinatra. É a música mais regravada dos Beatles, à exceção – claro! – de Yesterday.

The Voice, numa performance ao vivo, uma vez atribuiu a autoria à dupla Lennon/McCartney.

Joe Cocker, espécie de cover branco de Ray Charles, fez uma belíssima e impactante releitura da canção no segundo disco de sua carreira.

Harrison interpretou Something ao vivo no concerto para Bangladesh, em 1971. Duas décadas depois, fez novo registro ao vivo, no álbum gravado no Japão. Nas duas gravações, quem está ao seu lado é o guitarrista Eric Clapton.

Num álbum dedicado ao cancioneiro dos Beatles, Sarah Vaughan transformou a balada em bossa nova e ainda convidou Marcos Valle para cantar um trecho em Português.

Paul McCartney a incorporou ao set list dos seus shows como tributo ao amigo.

A gravação dos Beatles beira a perfeição.

O vocal de George, as vozes de John e Paul, o solo de guitarra, as notas graves do piano, o caminho percorrido pelo baixo, as cordas arranjadas e conduzidas por George Martin.

Na minha opinião, nenhuma versão de Something supera a dos Beatles.

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All Things Must Pass.

O melhor disco de Harrison. Um álbum triplo gravado logo após a dissolução dos Beatles.

Tem algumas das suas canções mais conhecidas, além de uma longa jam session com os amigos.

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The Concert for Bangladesh.

Traz  o concerto realizado em Nova York, em agosto de 1971.

George e os amigos tocam e cantam para arrecadar fundos para a população faminta de Bangladesh.

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Living in the Material World.

Give Me Love, um grande hit, puxa o repertório desse disco feito por um artista perfeccionista.

O repertório reúne belas e melancólicas baladas compostas por Harrison.

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Cloud Nine.

Último disco autoral de George. Rocks e baladas se alternam num trabalho maduro.

Há uma certa nostalgia nas canções, como se, às vezes, a gente estivesse ouvindo os Beatles.

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Traveling Wilburys.

Uma brincadeira de George com seus amigos famosos. Entre eles, Bob Dylan e Roy Orbinson, que morreu logo após a gravação.

Os cinco interantes do grupo usaram pseudônimos.

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Em 69, frevo de Caetano Veloso fez Brasil descobrir o trio elétrico

Salvador, 16 de março de 1980.

Sábado de carnaval.

Era quase noite quando o caminhão posicionou-se na Praça Castro Alves.

As pessoas se aproximaram, e os primeiros sons ainda não eram do frevo.

O cantor do trio começou, numa cadência lenta:

“Vem, meu amor feito louca, que a vida tá pouca e eu quero muito mais”.

Logo, logo, a coisa virou frevo e o grupo jogou luz, muita luz, sobre a multidão:

“Pra libertar meu coração, eu quero muito mais que o som da marcha lenta”.

*****

Essa foi a primeira – e inesquecível! – visão que eu tive do fenômeno ao vivo.

Era o Trio Elétrico Dodô & Osmar, com Armandinho na guitarra principal e Moraes Moreira como cantor.

Àquela altura, a invenção que tanto orgulha o povo baiano completava 30 anos.

Até 1969, estava restrita à Bahia.

A dimensão nacional foi conquistada a partir do frevo Atrás do Trio Elétrico, que Caetano Veloso gravou quando estava confinado em Salvador, antes de partir para o exílio em Londres.

O que foi se consolidando nos anos seguintes, o Brasil inteiro conhece: a transformação do carnaval de Salvador numa gigantesca festa popular. Sim. E um grande negócio movido pela música que os baianos produzem.

Uma série de LPs lançados anualmente pela Continental a partir de meados da década de 1970 registra toda a beleza do trabalho do Trio Elétrico Dodô & Osmar.

Nesses discos, há muitos temas instrumentais e contagiantes frevos cantados por Moraes Moreira.

O primeiro, gravado para o carnaval de 1975, festejava o jubileu de prata.

Quando vi ao vivo, o trio fazia 30 anos.

Agora, neste carnaval de 2020, comemora seus 70 anos. Já se aproxima dos 80 carnavais da letra de Bloco do Prazer.

O tempo passou, mas a invenção sobreviveu.

O trio elétrico é um argumento eficaz contra os que querem cortar o barato da música popular brasileira, disse Caetano Veloso.

Viva Dodô & Osmar!