Num filme, o poder que a música tem de mexer com o homem e fazê-lo melhor

Morreu Charmian Carr, a filha mais velha do capitão Von Trapp em A Noviça Rebelde. Vamos falar um pouco sobre o filme?

the-sound-of-music

A Noviça Rebelde é um dos grandes musicais do cinema. O último dos clássicos, realizado quando o gênero já não era atraente como fora nas décadas de 1940 e 1950. O filme é de 1965. Um pouco antes, temos os êxitos de My Fair Lady e de West Side Story (do mesmo Robert Wise). Como estes dois, A Noviça Rebelde ganhou o Oscar de melhor filme. Foi um campeão de bilheteria. O nosso amor por este musical não se baseia, contudo, no seu êxito, mas na sua beleza, no seu encanto, na sua imensa alegria. No fascínio exercido por esta história que, movida pela força da música, há décadas está sobrevivendo à passagem do tempo

Robert Wise era um mestre. Montou Cidadão Kane, de Orson Welles. Dirigiu Punhos de Campeão e Marcado pela Sarjeta, ambientados no mundo dos boxeadores, mas não apenas sobre lutas de boxe. Também é dele O Dia em que a Terra Parou, clássico da ficção-científica, realizado numa época em o cinema falava de temas cruciais da guerra fria, contando histórias de seres que vinham de outros planetas. Em West Side Story, com a música extraordinária do maestro Leonard Bernstein, modernizou o musical sem romper totalmente com a tradição. Em A Noviça Rebelde, foi menos ousado, mais ortodoxo. E se deixou guiar pelo cuidado de não ser piegas, de não se exceder no sentimentalismo.

A esquerda detestava A Noviça Rebelde. Mas havia gente que ia escondida ao cinema, sem revelar para os companheiros de luta. E chorava na sala escura. O curioso é que os patrulheiros de plantão não percebiam que, por trás da história de Maria, do capitão Von Trapp e dos seus filhos, havia uma outra história: a de um homem nacionalista, que defendia bravamente a soberania do seu país e que fugiu para não aderir às forças nazistas. Valores que deveriam agradar a quem execrava o musical.

O título em Português nos distancia do original em Inglês: The Sound of Music. No fundo, A Noviça Rebelde é um filme sobre o poder da música, sua força, sua beleza, sua capacidade de mexer com o homem, de redimi-lo, de fazê-lo melhor. O filme conta a história de uma família que se reencontrou quando alguém a reaproximou da música. Este tema me parece mais significativo do que o outro, da resistência do personagem ao Nazismo. A cena em que o capitão canta com os filhos, rompendo o silêncio que os separava, é comovente. E é regida pela ternura da canção que dá título ao musical.

Um Corpo que Cai, de Hitchcock, é um filme contemplativo. E para ser contemplado

No Facebook, sou convocado a escolher um filme que me marcou. Trago o desafio do Face aqui para a coluna.

Eis o cartaz criado por Saul Bass:

vertigo

Um pequeno texto sobre o filme:

“Um Corpo que Cai” (Vertigo) é obra de um artista maduro. Alfred Hitchcock estava perto dos 60 anos quando o realizou e já tinha feito quase todos os seus grandes filmes. Na Inglaterra e na América.

Mas era detestado por uma parcela considerável da crítica americana, que só enxergava seus méritos comerciais, e ainda não havia sido recuperado pelos críticos franceses da geração de François Truffaut.

“Vertigo” não tem nada de revolucionário. Não veio para reescrever gramática nenhuma, nem para transformar nada. Mas, a despeito de não ter provocado rupturas, exerceu uma gigantesca influência sobre muito do que se viu no cinema depois dele. Para o bem e para o mal.

“Vertigo” tem a assinatura de um realizador com total domínio do seu ofício. Hitchcock conhecia há muito todos os segredos do cinema e fez um filme para ser contemplado. Em sua narrativa que se desenvolve lentamente, enquanto James Stewart segue Kim Novak pelas ruas de São Francisco. No tom onírico que justifica o que na trama atenta contra a verossimilhança.

Hitchcock pode ter feito dois ou três filmes tão bons quanto “Vertigo” em sua longa trajetória. Não mais.

Quando “Vertigo” bateu “Cidadão Kane”, de Orson Welles, numa dessas escolhas dos melhores filmes de todos os tempos, fiz a seguinte comparação:

“Kane” rompe. “Vertigo” consolida. Welles sacode. Hitchcock entorpece.

E o trailer oficial:

 

 

 

 

“American Graffiti” é George Lucas antes de “Star Wars”

AMERICAN GRAFFITI

George Lucas

De 1973. O título em português é “Loucuras de Verão”, mas, nesse caso, prefiro o original. O jovem George Lucas, em seu segundo filme, já fizera ficção científica (em “THX 1138”), mas ainda não iniciara a franquia “Star Wars”, que o tornaria multimilionário.

A história de “American Graffiti” se passa em 1962, durante uma noite agitada numa cidadezinha da Califórnia. Rapazes e moças se divertem num ritual de despedida. Alguns vão para a universidade no dia seguinte.

Parece banal, mas não é. Fala do momento em que encaramos as responsabilidades da vida adulta. Fala também da geração de Lucas.

Harrison Ford faz sua estreia, numa ponta. Richard Dreyfuss, um dos rapazes, ficaria famoso em seguida. E Ron Howard trocaria a carreira de ator pela de diretor.

A trilha sonora é uma delícia!

George Lucas dizia que queria ganhar dinheiro com coisas como “Star Wars” para voltar a realizar filmes como “THX 1138” e “American Graffiti”. Não cumpriu a promessa.

Graffiti