Se CHAPLIN é gênio, TEMPOS MODERNOS é clássico absoluto

Revi um dos meus filmes prediletos. Boa cópia em BD.

Tempos Modernos é de 1936.

É um clássico absoluto do cinema.

Uma extraordinária sátira da mecanização, Tempos Modernos confirma o ápice da criação chapliniana, diz Jean Tulard no seu dicionário de cineastas.

Tempos Modernos retrata o tempo em que foi feito (os EUA da Depressão) e o engajamento político do artista. Mas o seu humanismo e a sua infinita beleza estética colocam o filme num patamar de permanência que o faz eterno. Ao menos enquanto houver excluídos no mundo.

Tempos Modernos tem grandes imagens, grandes sequências. Selecionei quatro momentos.

Uma das imagens icônicas do cinema:

Carlitos é engolido pela máquina.

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Outra imagem inesquecível:

Carlitos, acidentalmente, levanta uma bandeira vermelha e é confundido com um líder operário.

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Carlitos canta. As palavras não importam.

Na luta de Chaplin com o cinema sonoro, o gestual explica tudo.

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The end.

Carlitos e a órfã (Paulette Goddard).

“Teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e de esperança” (Drummond).

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Filme sobre George Harrison é aula de cinema documental

Living in the Material World, de Martin Scorsese, é um documentário com duração de três horas e meia. Conta a história de um homem rico que se voltou para as coisas do espírito. E viveu dividido entre o mundo material e a crença que as religiões oferecem de que o melhor é o que vem depois da morte. Morreu antes dos 60 anos, consumido pelo câncer, e deixou a fortuna para a família (mulher e filho) e os irmãos de fé. O personagem retratado por Scorsese não é um anônimo. É o beatle George Harrison.

Há muitas histórias neste longo filme. Uma delas, a dos Beatles. O documentário Anthology não a esgotou. Scorsese usa Harrison para contá-la através da sua sensibilidade. E consegue mostrar o que ainda não havíamos visto. A exemplo da sequência em que Astrid diz que fotografou John Lennon e George Harrison no lugar em que Stu trabalhava. Stu, morto prematuramente, fora integrante da primeira formação dos Beatles e namorado de Astrid. Duas ou três fotos desconhecidas ilustram a fala. John está devastado. George segura a barra dele. A alemã, que vimos bela e jovem, é uma senhora de 70 anos cujo envelhecimento não acompanhamos. Scorsese nos reencontra com ela.

No começo, vemos George no jardim. Ele está indo embora. Como se estivesse morrendo. Depois, algumas pessoas falam da ausência dele. Do que diriam se o reencontrassem. A narrativa volta para a década de 1940, quando nasceu. A guerra, a vitória dos aliados. A canção que ouvimos garante: tudo passa. All Things Must Pass. Scorsese vai contando várias histórias. A do garoto pobre que conquistou a fama através do talento. A do jovem astro que mergulhou fundo no misticismo. A do músico preterido pelos companheiros de banda, mais talentosos do que ele. A do homem que viu o melhor amigo levar sua mulher. Canções e imagens de uma época ilustram cada uma das histórias.

O documentário mostra George Harrison vivendo no mundo material, o título nos assegura. Dividido entre a escolha religiosa e a fortuna que fez com sua guitarra e suas canções. Entre o senso de humor e a amargura. Mundano e cheio de luz. Assim os amigos o definem. Assim Martin Scorsese o revela neste retrato que poucos cineastas tirariam com tanta propriedade e delicadeza. Era preciso que um realizador como Scorsese se dispusesse a transformar George em personagem de um filme. Porque o seu cinema, desde o início, está repleto de música. Ele trabalha com as duas formas de expressão artística, o cinema e a música, do mesmo modo que é tão talentoso na ficção quanto no documentário.

A morte é um dos temas principais do filme. Está no prólogo e no epílogo. Na abertura, o filho, Dhani, conta que sonhou com o pai. Perguntou onde ele estivera e ouviu a resposta: nunca saíra de perto. No final, os mais chegados dizem do que sentem falta. Da amizade, do amor. E não parecem bem resolvidos com a ausência física. Ao contrário de George, que, guiado pela religião, lidava melhor com a ideia da morte. O campeão Jackie Stewart perdeu colegas em acidentes nas pistas, mas não conhecia um luto tão severo. Ringo Starr chora ao narrar o último encontro com o amigo. Se acreditarmos na conversão de George, assistiremos ao filme convencidos de que ele não comporta lágrimas.

Bertolucci parece dizer que o melhor do homem está na arte

Maio de 68. A geração que virou a França de cabeça para baixo está afetuosamente retratada por Bernardo Bertolucci em Os Sonhadores.

Trancados num apartamento, três jovens fazem as suas revoluções individuais, enquanto, nas ruas, milhares fazem a revolução coletiva. Quando eles descem e se encontram com a multidão, enfrentam uma das questões cruciais daquele momento: adotarão a violência ou a não violência?

Realizado em 2003, o filme de Bertolucci vê maio de 68 de longe. Mas não fica somente nele. Nem no desejo que se tinha de contestar o sistema e tomar o poder.

Seus personagens falam muito de cinema e música. Chaplin ou Keaton? Hendrix ou Clapton? Dylan, Garbo, Joplin, Godard. A cinemateca francesa, as imagens de Fuller. Paixões que Alucinam, crítica de filmes, cinema americano versus cinema europeu. O encontro de Belmondo e Seberg em Acossado.

Maio de 68 pode ser a síntese de tudo. O instante em que a geração que queria mudar o mundo se manifestou de forma mais eloquente e radical. Mas Bertolucci se debruça sobre questões que não estão circunscritas a um mês nem a um ano determinado.

Para mim, o trecho mais belo de Os Sonhadores é quando os namorados vão ao cinema. Não como transgressores, mas como jovens comuns. O filme é Sabes o que Quero, comédia adorável da década de 1950, direção de Frank Tashlin. No início, tem aquela brincadeira com o cinemascope – a meia tela se expande para os lados e a tela toda é tomada pela imagem. Bertolucci usa a cena dos Platters e a música deles (You’ll Never Never Know) para dar um clima romântico ao programa dos dois personagens.

Na volta, eles se deparam com a realidade. Numa praça, o saldo de mais um dia de confronto entre policiais e manifestantes. O mundo está convulsionado. Mataram Luther King, líder da não violência. Logo matarão Bob Kennedy.

Se formos em busca do Bertolucci do final dos anos 1960, vamos encontrá-lo fazendo O Conformista. Um cineasta jovem olhando para o passado (a Itália sob o fascismo) para compreender e explicar o presente. No salto de quase quatro décadas até Os Sonhadores, seu cinema tratou do individual e do coletivo. Dos personagens sem nenhuma perspectiva de O Último Tango em Paris aos revolucionários de 1900.

Penso que Os Sonhadores é um filme que só poderia ter sido realizado por um homem velho. É isto que o torna mais belo, mais delicado, mais fiel como retrato de uma geração. É isto que o faz tão verdadeiro e, principalmente, justo com o espírito transgressor de uma época.

A geração que foi às ruas em maio de 68 chegou ao poder, já faz tempo. O pragmatismo de hoje destoa dos sonhos juvenis. Os Sonhadores é uma revisão poética de maio de 68. Bertolucci dá ênfase ao cinema e à música.

Encanta, comove e faz pensar que o melhor que o homem produziu está na arte.

CABRA MARCADO PARA MORRER

Se estivesse vivo, Eduardo Coutinho teria feito 85 anos nesta sexta-feira (11).

O cineasta foi morto pelo filho esquizofrênico em fevereiro de 2014.

Excelente documentarista, exímio contador de histórias reais, Coutinho realizou um dos grandes filmes do cinema brasileiro:

Cabra Marcado Para Morrer.

Em 1984, no lançamento, Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, dividiu espaço com outro documentário. Era Jango, de Sílvio Tendler. No Brasil que lutava pelas eleições diretas para presidente, os dois filmes contavam histórias pré-1964, mas tinham uma diferença básica. O de Tendler falava da luta política sob a perspectiva da elite. O de Coutinho se debruçava sobre os que ficaram à margem.

Em 1981, quando retomou o projeto (interrompido pelo golpe de 64) de filmar a história do líder camponês João Pedro Teixeira, Eduardo Coutinho não sabia direito o que fazer. Tinha imagens registradas em 1964 e algumas fotos de cena. O caminho não seria mais o da ficção, posto que as circunstâncias o levavam ao documentário. Agiu como um repórter. Voltou a Pernambuco à procura dos agricultores com quem havia filmado antes que os militares tomassem o poder. Fez mais: saiu em busca de Elizabete Teixeira, a viúva de João Pedro, que encontrou vivendo na clandestinidade numa cidadezinha do Rio Grande do Norte, onde era chamada de Marta. A reportagem de Coutinho é o que vemos em Cabra Marcado Para Morrer.

Poucos filmes brasileiros me impressionaram tanto quanto este. Mais até pela sua absoluta originalidade, do que pelo seu conteúdo político e ideológico. Um cineasta, com os restos de um filme inacabado, reencontra pessoas humildes que, 17 anos antes, tentou transformar em atores e mostra a elas as imagens do passado. Neste retorno, grava depoimentos cuja força vai muito além da luta na qual elas se envolveram. A miséria, as perseguições, a tortura, as tragédias familiares, a fé – as conversas de Eduardo Coutinho com seus personagens tocam em questões permanentes do homem. Não fala só de homens inseridos num determinado contexto histórico.

Claro que Cabra Marcado Para Morrer é importante porque resgata um pedaço da nossa história recente que poucos contaram. Lembro bem do dia em que o cineasta chegou à redação de A União à procura dos arquivos do jornal. Testemunhei a conversa dele. Não escondia que retomava um projeto interrompido em 1964, mas falava pouco de como seria esta retomada. Talvez ele próprio ainda não soubesse. Nunca imaginei que, naqueles dias de 1981, estava em gestação um dos grandes filmes brasileiros. Hoje, claro que não há mais o impacto da estreia em 1984. Mas Cabra Marcado Para Morrer conserva a sua integridade. E tudo o que tem de original.

Num filme, o poder que a música tem de mexer com o homem e fazê-lo melhor

Morreu Charmian Carr, a filha mais velha do capitão Von Trapp em A Noviça Rebelde. Vamos falar um pouco sobre o filme?

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A Noviça Rebelde é um dos grandes musicais do cinema. O último dos clássicos, realizado quando o gênero já não era atraente como fora nas décadas de 1940 e 1950. O filme é de 1965. Um pouco antes, temos os êxitos de My Fair Lady e de West Side Story (do mesmo Robert Wise). Como estes dois, A Noviça Rebelde ganhou o Oscar de melhor filme. Foi um campeão de bilheteria. O nosso amor por este musical não se baseia, contudo, no seu êxito, mas na sua beleza, no seu encanto, na sua imensa alegria. No fascínio exercido por esta história que, movida pela força da música, há décadas está sobrevivendo à passagem do tempo

Robert Wise era um mestre. Montou Cidadão Kane, de Orson Welles. Dirigiu Punhos de Campeão e Marcado pela Sarjeta, ambientados no mundo dos boxeadores, mas não apenas sobre lutas de boxe. Também é dele O Dia em que a Terra Parou, clássico da ficção-científica, realizado numa época em o cinema falava de temas cruciais da guerra fria, contando histórias de seres que vinham de outros planetas. Em West Side Story, com a música extraordinária do maestro Leonard Bernstein, modernizou o musical sem romper totalmente com a tradição. Em A Noviça Rebelde, foi menos ousado, mais ortodoxo. E se deixou guiar pelo cuidado de não ser piegas, de não se exceder no sentimentalismo.

A esquerda detestava A Noviça Rebelde. Mas havia gente que ia escondida ao cinema, sem revelar para os companheiros de luta. E chorava na sala escura. O curioso é que os patrulheiros de plantão não percebiam que, por trás da história de Maria, do capitão Von Trapp e dos seus filhos, havia uma outra história: a de um homem nacionalista, que defendia bravamente a soberania do seu país e que fugiu para não aderir às forças nazistas. Valores que deveriam agradar a quem execrava o musical.

O título em Português nos distancia do original em Inglês: The Sound of Music. No fundo, A Noviça Rebelde é um filme sobre o poder da música, sua força, sua beleza, sua capacidade de mexer com o homem, de redimi-lo, de fazê-lo melhor. O filme conta a história de uma família que se reencontrou quando alguém a reaproximou da música. Este tema me parece mais significativo do que o outro, da resistência do personagem ao Nazismo. A cena em que o capitão canta com os filhos, rompendo o silêncio que os separava, é comovente. E é regida pela ternura da canção que dá título ao musical.

Um Corpo que Cai, de Hitchcock, é um filme contemplativo. E para ser contemplado

No Facebook, sou convocado a escolher um filme que me marcou. Trago o desafio do Face aqui para a coluna.

Eis o cartaz criado por Saul Bass:

vertigo

Um pequeno texto sobre o filme:

“Um Corpo que Cai” (Vertigo) é obra de um artista maduro. Alfred Hitchcock estava perto dos 60 anos quando o realizou e já tinha feito quase todos os seus grandes filmes. Na Inglaterra e na América.

Mas era detestado por uma parcela considerável da crítica americana, que só enxergava seus méritos comerciais, e ainda não havia sido recuperado pelos críticos franceses da geração de François Truffaut.

“Vertigo” não tem nada de revolucionário. Não veio para reescrever gramática nenhuma, nem para transformar nada. Mas, a despeito de não ter provocado rupturas, exerceu uma gigantesca influência sobre muito do que se viu no cinema depois dele. Para o bem e para o mal.

“Vertigo” tem a assinatura de um realizador com total domínio do seu ofício. Hitchcock conhecia há muito todos os segredos do cinema e fez um filme para ser contemplado. Em sua narrativa que se desenvolve lentamente, enquanto James Stewart segue Kim Novak pelas ruas de São Francisco. No tom onírico que justifica o que na trama atenta contra a verossimilhança.

Hitchcock pode ter feito dois ou três filmes tão bons quanto “Vertigo” em sua longa trajetória. Não mais.

Quando “Vertigo” bateu “Cidadão Kane”, de Orson Welles, numa dessas escolhas dos melhores filmes de todos os tempos, fiz a seguinte comparação:

“Kane” rompe. “Vertigo” consolida. Welles sacode. Hitchcock entorpece.

E o trailer oficial:

 

 

 

 

“American Graffiti” é George Lucas antes de “Star Wars”

AMERICAN GRAFFITI

George Lucas

De 1973. O título em português é “Loucuras de Verão”, mas, nesse caso, prefiro o original. O jovem George Lucas, em seu segundo filme, já fizera ficção científica (em “THX 1138”), mas ainda não iniciara a franquia “Star Wars”, que o tornaria multimilionário.

A história de “American Graffiti” se passa em 1962, durante uma noite agitada numa cidadezinha da Califórnia. Rapazes e moças se divertem num ritual de despedida. Alguns vão para a universidade no dia seguinte.

Parece banal, mas não é. Fala do momento em que encaramos as responsabilidades da vida adulta. Fala também da geração de Lucas.

Harrison Ford faz sua estreia, numa ponta. Richard Dreyfuss, um dos rapazes, ficaria famoso em seguida. E Ron Howard trocaria a carreira de ator pela de diretor.

A trilha sonora é uma delícia!

George Lucas dizia que queria ganhar dinheiro com coisas como “Star Wars” para voltar a realizar filmes como “THX 1138” e “American Graffiti”. Não cumpriu a promessa.

Graffiti