Mulher é o negro do mundo em canção feminista de Lennon e Yoko

Uma garota da geração Y me fala do feminismo como grande novidade dos dias atuais. Argumentei que ela estava equivocada e que as lutas feministas vêm de longe, marcaram todo o século XX com importantes conquistas.

A conversa me fez lembrar de uma canção feminista muito ouvida no início da década de 1970. É a balada Woman Is the Nigger of the World, de John Lennon e Yoko Ono. Faixa de abertura do disco duplo Some Time in New York City.

Antes, um pouco do disco. Olhem a capa.

Some Time in New York City é de 1972. Tem, portanto, 45 anos. É um dos discos mais panfletários do rock. Traz na capa uma montagem com Nixon e Mao nus, dançando. As letras falam do Vietnã, da Irlanda, de Ática, dos negros, das mulheres, da esquerda americana, de John Sinclair, Angela Davis.

Woman Is the Nigger of the World é a faixa lançada em single na época. Um baladaço! Tipicamente Lennon!

A mulher é o negro do mundo!

Sim, ela é! Pense nisso!

A mulher é o negro do mundo!

Sim, ela é! Faça algo a respeito!

Vamos ouvir?

Primeiro, com Lennon.

Para encerrar, com a nossa Cássia Eller.

John Lennon/Plastic Ono Band é o melhor disco solo de um ex-beatle

No Facebook, alguns amigos me convocam para escolher um disco que me marcou. Trago o desafio do Face aqui para a coluna.

Eis a capa:

John Lennon Plastic Ono Band, de John Lennon

Um pequeno texto sobre o disco:

Em 1970, “John Lennon/Plastic Ono Band” surge como um dos grandes discos do rock. A crueza das melodias, a concisão das letras, os arranjos mínimos, o grito primal transportado do divã de Arthur Janov para o estúdio, os temas cruciais que afligiam o artista e sua geração.

Após a dissolução dos Beatles, ninguém (nem o George Harrison de “All Things Must Pass”, nem o Paul McCartney de “Band on the Run”, muito menos Ringo Starr) fez nada parecido.

E ainda havia “God”, em cuja letra negava tudo e todos. A religião, os mitos, os heróis, os ídolos. Elvis, Dylan, Beatles – ninguém é poupado.

Na parte final da canção, John pronuncia a frase que se tornaria emblemática para uma geração: o sonho acabou.

As ideias generosas que marcaram a década de 1960 não seriam postas em prática num mundo pragmático e desigual.

E o vídeo com a canção “God”:

Mal gravado, mas antológico

CAETANO E CHICO JUNTOS E AO VIVO

Caetano Veloso e Chico Buarque

Cae e Chico

De 1972. Miseravelmente mal gravado, incompleto, adulterado pela ação da censura, mas absolutamente antológico. O disco registra um encontro que parecia improvável cinco anos antes, na época em que muitos viam no jovem Chico Buarque o inverso do Caetano Veloso tropicalista.

O show foi no Teatro Castro Alves, em Salvador, no dia em que o poeta Torquato Neto, importante nome do Tropicalismo, se matou.

Chico canta Caetano (“Janelas Abertas No 2”), Caetano canta Chico (“Partido Alto”), os dois apresentam novidades (“Esse Cara”, “Bárbara”) e voltam ao começo (“Tropicalia”, “A Rita”).

No ponto alto do disco, fundem “Você Não Entende Nada” com “Cotidiano”. Deu tão certo que ninguém consegue mais separá-las.

Hermeto Pascoal é melhor mesmo ao vivo!

MONTREUX JAZZ FESTIVAL

Hermeto Pascoal

Hermeto Mont.

De 1979. Hermeto Pascoal tem ótimos discos de estúdio, mas, como os grandes músicos de jazz, ele é melhor mesmo quando flagrado ao vivo. O álbum duplo com o registro do seu show no Festival de Jazz de Montreux é excepcional.

Hermeto e banda improvisam sobre temas tão nordestinos quanto o seu autor (que nasceu em Alagoas há 80 anos) e criam outros na hora, numa exibição que está à altura dos melhores músicos de jazz do mundo.

No sax, na flauta, nos teclados, o bruxo de Alagoas faz coisas inacreditáveis. Numa escaleta, toca um samba-choro endiabrado, cheio de virtuosismo.

A performance de Hermeto Pascoal na edição de 1979 do Festival de Montreux produziu um dos maiores discos da nossa música instrumental.

Sir Paul maduro e um pouco triste

Na sessão “Meus discos”, vou escrever sobre aqueles discos que me são mais caros. Os que têm um lugar especial na minha discoteca. Começo com um de Paul McCartney, aniversariante do dia.

TUG OF WAR

Paul McCartney

De 1982. Para mim, está na lista dos melhores discos de Paul McCartney. Marca o reencontro dele com o produtor dos Beatles, George Martin, e é o primeiro trabalho depois da morte de John Lennon. Sempre me pareceu muito maduro e um pouco triste. Tem os duetos com Stevie Wonder e Carl Perkins, tem a balada “Wanderlust” (que soa como se fosse Beatles) e a declaração de amor a John em “Here Today”. Rock, balada, country, soul, um pouco de funk – McCartney lida com uma diversidade de gêneros com igual competência. Composições, vozes, arranjos, execuções, é tudo primoroso no disco. Ainda mais sob a batuta do maestro George Martin.

Tug