No quesito música, abertura da Olimpíada calou os que criticaram por antecipação

Nos dias que antecederam a abertura da Olimpíada, li muitas críticas à escalação dos artistas que participariam da cerimônia.

Uma delas chamou minha atenção. Dizia mais ou menos assim: Londres teve Paul McCartney, o Rio vai ter Anitta, Ludmilla e Wesley Safadão.

Escrevi a respeito. Disse que a geração de Paul McCartney estaria muito bem representada por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola. E que o funk era uma manifestação legítima da cidade do Rio de Janeiro.

Passada a festa, volto ao tema.

A cerimônia calou os que criticaram por antecipação. Vou me ater ao quesito música.

A Copa do Mundo tem um país como sede. Os jogos olímpicos têm uma cidade. Nada mais natural, portanto, que o Rio mostrasse sua música ao mundo. E que música!

Do Gilberto Gil de Aquele Abraço ao Marcos Valle de Samba de Verão. Ou ao Chico Buarque de Construção.

Tom, o maestro soberano, foi lembrado pelo neto Daniel Jobim. Garota de Ipanema, voz e piano. Enquanto Gisele Bundchen desfilava evocando a Helô que inspirou Tom & Vinícius.

Mestres do samba em cena. Paulinho da Viola cantando o Hino Nacional. Jorge Ben, que modernizou o gênero, trouxe a extraordinária força rítmica de País Tropical. Zeca Pagodinho veio como uma voz mais contemporânea. E Wilson das Neves chamou as entidades.

Elza Soares, que é de ontem e de hoje, releu o Canto de Ossanha, de Baden & Vinícius. “O homem que diz dou, não dá”. Um afro-samba com a pegada do pop atual do Rio de Janeiro.

No final, a apoteose. Ary Barroso, o mineiro que melhor cantou o Rio, nas vozes tropicalistas de Caetano e Gil. Com Anitta cantando e dançando entre os dois. Por que não?

Sim. Londres teve Paul McCartney. O Rio teve a grande música popular ali produzida. Por mestres cariocas ou não cariocas que adotaram a cidade para viver.

Ao mostrar a nossa força e as nossas belezas, a cerimônia de abertura da Olimpíada acaba falando do Brasil que não deu certo.

A vaia a Temer não é diferente da vaia a Dilma na Copa do Mundo. Os dois, mesmo que em lados opostos, estão vinculados a um modelo que precisa ser superado.

Só assim, teremos, de fato, uma promessa de vida em nossos corações! 

 

 

 

Tem MPB e funk na abertura da Olimpíada. Não vejo problema algum!

Leio no Facebook críticas à escolha dos artistas que vão se apresentar na cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio.

Uma delas dizia algo mais ou menos assim: em Londres tinha Paul McCartney, no Rio tem Anitta e Ludmilla.

Procurei a lista dos convidados. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Diogo Nogueira, Zeca Pagodinho, Ludmilla, Anitta e Marcelo D2.

Não vejo problema algum!

A geração de Paul McCartney (para ficar no argumento que li no Facebook) está muitíssimo bem representada por Caetano, Gil e Paulinho da Viola. Paulinho cantará o Hino Nacional acompanhado ao violão.

Tem o samba de Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira. Duas gerações. Diogo, filho de João Nogueira.

Tem o rapper Marcelo D2. E as duas representantes do funk carioca (Anitta trilhando um caminho mais pop). Por que não?

O motivo das críticas é a presença do funk? Se for, a visão me parece preconceituosa. O funk – gostem ou não dele – é uma expressão legítima da música popular que se produz atualmente no Rio de Janeiro. Não há porque ignorar.

 

A música e Tacy de Campos são o melhor de “Cássia Eller, o Musical”

O público de João Pessoa está vendo “Cássia Eller, o Musical” neste final de semana (29, 30 e 31) no Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural José Lins do Rego.

É mais um espetáculo (depois de Tim Maia, Cazuza, Elis Regina) que mistura teatro e música para contar a história de um grande nome da canção popular do Brasil.

Por coincidência, na madrugada deste domingo, vi o ator Ney Latorraca, no programa “Altas Horas”, se queixar, mesmo que sutilmente, do excesso de comédias em pé e musicais biográficos na atual cena teatral brasileira, em detrimento de uma dramaturgia mais clássica e vigorosa.

O comentário dele talvez aponte para soluções narrativas e dramáticas que, aos olhos do consumidor mais exigente de teatro, estão fartamente presentes e comprometem espetáculos como este que conta a vida de Cássia Eller.

De todo modo, na outra ponta, há algo de muito positivo nesses musicais, na medida em que eles cumprem o papel de mexer com a memória e a emoção do público, trabalhando num universo tão rico e expressivo quanto o da nossa canção popular.

“Cássia Eller, o Musical” tem uma estrutura simples. Uma eficiente banda no fundo do palco e um pequeno elenco que encena, em ordem cronológica, alguns episódios da vida de Cássia Eller, grande intérprete da cena musical dos anos 1990.

As questões da sexualidade, os excessos que podem ter levado à morte prematura aos 39 anos, a opção por se manter à margem a despeito do êxito comercial – o musical trata abertamente desses temas.

Mas o principal (e o melhor mesmo!) é a música. As canções vão se incorporando à narrativa para também contar a história. E, no conjunto, oferecem um retrato dessa artista tão extraordinariamente talentosa do Brasil de apenas duas décadas atrás.

Muito mais cantora do que atriz, Tacy de Campos brilha intensamente e engrandece o espetáculo. Impressiona, convence, arrebata. E, por vezes, nos dá a sensação de que Cássia Eller está ali no palco, a poucos metros de nós, que estamos na plateia.

Discurso de Michelle Obama resume uma longa caminhada da América

Fui menino nos anos 1960 e lembro bem das lutas contra o racismo nos Estados Unidos.

A chegada de Obama à Casa Branca tem uma força simbólica extraordinária. E, quase oito anos mais tarde, creio que ele não decepcionou, a despeito de todas as dificuldades que enfrentou, dos erros que possa ter cometido e das promessas que não cumpriu.

O presidente Obama é um dos poucos que ainda nos fazem crer nas relações políticas.

E há Michelle ao seu lado. Sua fala na convenção do Partido Democrata diz muito sobre o significado da presença desse casal na cena política da América.

O trecho em que ela fala sobre acordar todos os dias numa casa construída por escravos e ver as filhas negras no jardim é comovente. Resume uma longa caminhada.

Que os americanos tenham o bom senso de não colocar Donald Trump na Casa Branca!

 

De João Para João. A Paraíba ainda se divide entre liberais e perrepistas

No dia (26/07) do aniversário de morte do presidente João Pessoa, uma postagem do teatrólogo Tarcísio Pereira no Facebook chama minha atenção. Ele diz que, apesar dos convites, não quis apresentar nesta data o espetáculo “De João Para João”.

As razões do autor e ator: fez um espetáculo com um compromisso artístico e não em função de data; e o respeito a familiares e admiradores do ex-presidente. Muito digno.

Outra postura digna a mencionar: dias atrás, o jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras Abelardo Jurema, que é sobrinho-neto de João Pessoa, escreveu sobre a peça. Discordou, criticou, mas o fez com absoluto respeito ao trabalho do teatrólogo. Postura, aliás, compatível com o perfil de Abelardo.

Tarcísio Pereira, por sua vez, respondeu às críticas do jornalista, mas recomendou a leitura do artigo de Abelardo Jurema.

Tolerância é algo que chama minha atenção. Sobretudo quando o assunto é João Pessoa. Sim, porque a Paraíba ainda tem traços marcantes da velha divisão entre liberais e perrepistas.

Quando fui editor de A UNIÃO, em 2010, não enxerguei, no governo, nenhum grande desejo de marcar os 80 anos do assassinato de João Pessoa. E vi a divisão dentro do próprio jornal: o superintendente (Nelson Coelho) era perrepista, e o diretor técnico (Wellington Aguiar), liberal.

Ariano Suassuna – claro – era perrepista. Nos anos 1980, o filme “Parahyba, Mulher Macho” desencadeou uma onda perrepista. O debate sobre a mudança do nome da capital volta sempre embalado pelo perrepismo.

Os liberais, há muito, me parecem em desvantagem. Como se as conquistas de 30 de nada tivessem valido.

 

 

 

 

Erialdo Pereira e suas lições

Erialdo

Morreu Erialdo Pereira.

O amigo, conheci em 1978. Um colega de escola me disse: “você, que vai fazer jornalismo, precisa conhecer meu irmão”.

Era Erialdo. Estava voltando do Rio, anos no Jornal do Brasil, recomeçando a vida em João Pessoa. Tinha o cabelo black power, a barba fechada e a ideia de fazer um filme sobre nosso poeta Caixa D´Água. Tomávamos cerveja e comíamos pipoca num lugar chamado La Cave, ali na Padre Meira.

O profissional, conheci na TV Cabo Branco. Foram 18 anos de convivência e muito aprendizado. Ele, na editoria geral. Eu, na chefia de redação.

Quando olho, de longe, para aquele tempo, me vem o ensinamento: “nunca devemos ser açodados”. Sempre que sou, na vida ou no trabalho, fico profundamente arrependido.

Erialdo formou equipes. Mais do que isso: formou profissionais. E desempenhou papel fundamental na consolidação do jornalismo das TVs Cabo Branco e Paraíba. Sempre guiado – e a nos guiar – por valores e conceitos permanentes, mas cada vez mais escassos.

O gosto pelo bom texto. A informação correta. O esforço contínuo contra o erro. O senso ético. A ponderação. O debate permanente sobre os conteúdos produzidos.

E a frase que sempre voltava nas conversas, a voz por vezes quase inaudível: “nunca devemos ser açodados”.

Tínhamos uma brincadeira: um dizia que faria o necrológio do outro. Estou eu aqui tentando fazer o dele. Mas as palavras não são suficientes.

 

No Dia do Futebol, Gil e Dominguinhos em “Meio de Campo”

Não gosto de futebol. Costumo dizer que é um dos meus defeitos. Mas presto atenção naqueles craques que são verdadeiros “artistas” da bola. E presto mais atenção ainda na relação da música com o futebol.

Os hinos que Lamartine Babo compôs, a marcha do tri (que nem o ufanismo da Era Médici conseguiu tirar da nossa memória afetiva) e o que compuseram Jorge Ben, Chico Buarque, Milton Nascimento, Os Novos Baianos. Tantos e tantos mais.

Escolhi Gilberto Gil e sua “Meio de Campo”, com Dominguinhos à sanfona, para marcar o Dia Nacional do Futebol (18) aqui na coluna:

 

 

Morre aos 75 anos o apresentador de TV Eliakim Araújo

Eliakim e Leila

Ele veio do rádio. Ela era repórter de TV. Eliakim Araújo e Leila Cordeiro formaram o primeiro casal de apresentadores da televisão brasileira. Eliakim, de 75 anos, morreu neste domingo (17) nos Estados Unidos, onde morava. Tinha câncer no pâncreas.

Quem viu televisão no Brasil dos anos 1980 tem a lembrança de Eliakim e Leila na bancada do Jornal da Globo. Depois na Manchete, mais tarde no SBT.

Eles começaram num tempo em que os apresentadores ainda eram meros leitores de tp. Mas já havia nos dois um tom mais leve, uma certa informalidade que apontava para o padrão que temos hoje.

No currículo, Eliakim Araújo tinha o plantão da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961. Sua voz ficou conhecida através da Rádio Jornal do Brasil. Mas sua imagem conquistou dimensão nacional quando, ao lado de Leila Cordeiro, formou o simpático casal de apresentadores da Rede Globo.

W.J. Solha diz que política tem muito de religião. E que não adianta discutir

Começo, hoje, transcrevendo texto que o escritor W.J. Solha postou no Facebook. Faz parte da série “Cenas Indeléveis”.

Com a palavra, W.J. Solha:

QUANDO SUA OPINIÃO DIFERE DA DE TANTA GENTE QUE VOCÊ ADMIRA

Chico Buarque é o gênio criador – entre muitas outras coisas – da Ópera do Malandro e da música de Morte e Vida Severina. Kleber Mendonça Filho foi o roteirista e o diretor – entre outros filmes – de O Som ao Redor, de que tive a honra de participar: também gênio. Bastam-me esses dois exemplos.

Porque abomino Lula e Dilma, que os dois veneram, e ao me perguntar por que não me sinto desconfortável com isso, respondo-me que política tem muito, muito de religião, inclusive com seus relapsos, adeptos e fanáticos, e não adianta discutir nenhuma das duas.

O fato de T.S. Eliot – imenso poeta, e Tólstoi – romancista maior – terem alardeado suas conversões ao cristianismo, não me fez retroceder um passo do que escrevi a respeito do evangelho, nem de minha enorme admiração pelos dois.

Velhos exemplos: Pound, grande poeta, grande teórico da poesia: fascista. Heidegger, o filósofo: nazista. Coisas do ser humano.

Saliento o que digo em meu último livro publicado – DeuS e outros quarenta PrOblEMAS:
 -
 um bilhão e duzentos milhões de muçulmanos têm fé absoluta de que os quinze milhões de judeus – contra os quais são irados – estão errados,
 e de que também estão errados os dois bilhões e cem milhões de cristãos 
e os ateus e os pagãos, 
além dos trezentos e trinta milhões de budistas, novecentos milhões de hinduístas.

Assim como os dois bilhões e cem milhões de cristãos têm fé em que os outros é que estão errados, e isso vale pra todos os lados.

 

Vídeo da BBC sobre Olimpíadas do Rio é preconceituoso e estereotipado

A emissora britânica BBC divulgou vídeo que produziu para as Olimpíadas do Rio. É The Greatest Show on Earth.

Bonito e tecnicamente impecável, o vídeo, no entanto, é estereotipado e preconceituoso. Ao mostrar animais praticando as modalidades olímpicas dentro da floresta, reforça a imagem de que o Brasil ainda é um país selvagem.

Vejam e tirem suas conclusões.