Flávio Tavares pergunta se artistas plásticos têm medo de protestos

O artista plástico paraibano Flávio Tavares tem participado ativamente das manifestações populares convocadas pela esquerda.

Neste domingo (07), ele estava no ato em defesa do ex-presidente Lula realizado na Lagoa.

Nesta segunda-feira (08), Flávio Tavares usou o Facebook para falar sobre a ausência dos artistas plásticos nessas manifestações.

O questionamento de Flávio:

FRIEZA? DESCASO? ALIENAÇÃO? MEDO? Talvez seja a clausura dos seus ateliês…

Ou um execrável auto polimento nos seus EGOS.

Sinto uma AUSÊNCIA quase total da “classe” de artistas plásticos nos múltiplos PROTESTOS atuais. 

1968 a coragem tinha CARA E COR. 

O jornalista tem alguma coisa a comemorar em seu dia?

Neste domingo (07), logo cedo, sou lembrado por alguns amigos: hoje é o dia do jornalista.

A pergunta que logo me ocorre:

O jornalista tem alguma coisa a comemorar em seu dia?

Sim e não.

*****

Começo pelo não.

um. O terremoto digital estabeleceu parâmetros que apontam para um futuro absolutamente incerto.

dois. Nas redes sociais, muitos imbecis pensam que são jornalistas.

três. As notícias falsas se confundem com as verdadeiras.

quatro. A redução de quadros atinge todas as redações, mesmo as maiores.

cinco. Os salários continuam baixos.

seis. Os jornalistas que se dedicam às piores práticas aprimoraram seus métodos.

*****

E o sim?

A liberdade de imprensa.

Mas isso não existe, muitos dirão.

O que existe é a liberdade de empresa, argumentarão.

Mesmo assim, o sim vai para a liberdade de imprensa. A que temos. A que é possível ter. Com todos os seus defeitos, com todas as suas limitações.

Sem ela, saberíamos muito pouco.

Quando ela foi suprimida, soubemos muito pouco.

Sem ela, não haveria um título assim:

“Os brasileiros botaram um idiota na presidência da República”.

Brasil é um abacaxi, e Bolsonaro não tem apetite para o cargo

Fulano não tem apetite para governar.

Como jornalista, desde cedo ouvi essa frase.

Diz respeito a políticos que, de fato, não conseguem se adaptar à dura rotina de um governante.

O óbvio ululante: governar é difícil. Um negócio de altíssima complexidade.

Na linguagem de hoje: governar não é para os fracos.

Ou, como diria Bolsonaro: governar o Brasil é um abacaxi.

Diria, não. Ele disse.

Disse e tentou corrigir.

*****

Surpresa?

Zero!

Tenho defendido essa tese desde o início do governo.

Bolsonaro não tem apetite para o exercício do cargo.

Ele queria chegar lá, mas, na prática, parece não se adequar a todos os rituais exigidos de um presidente da República.

Bolsonaro nunca foi tão verdadeiro. Nunca foi tão sincero.

Sabem aquelas coisas que a gente diz bem naturalmente, quase sem sentir que está dizendo? E que são de uma sinceridade absoluta?

Foi o que Bolsonaro disse sobre o abacaxi que é governar o Brasil e sobre a sua brevidade no cargo.

*****

Nesta quarta-feira (03), vi o ministro Guedes – agora articulador da reforma da Previdência – ser chamado de “tchuchuca” por um deputado e responder com um “tchuchuca é a mãe”.

Nesta quarta-feira, li a entrevista em que o ministro Vélez negou o golpe e a ditadura e defendeu a mudança progressiva nos livros de história.

Nesta quarta-feira, vi o presidente Bolsonaro admitir que governar o Brasil é um abacaxi.

O Brasil é que está com um gigantesco abacaxi para descascar!

Bolsonaro agride história quando diz que nazismo é de esquerda

O nazismo é de direita.

O fascismo é de direita.

Não resta dúvida alguma.

Os bons livros que se debruçam sobre a história do século XX sempre nos asseguraram.

É só lê-los.

O chanceler Ernesto Araújo andou dizendo que o nazismo e o fascismo são de esquerda.

Um vexame.

Foi ridicularizado por tal afirmação dentro e fora do Brasil.

Até no Jornal Nacional, que não é dado a esse tipo de discussão.

*****

Em Israel, Jair Bolsonaro visitou o Museu do Holocausto, onde depositou uma coroa de flores.

O museu, em seu site, define o nazismo como de direita.

Mas o presidente saiu de lá repetindo Araújo: O nazismo é de esquerda.

Não há o que fazer.

Essa onda de ignorância que varre o Brasil é assim mesmo.

Desmente a história.

Tenta transformar a verdade em mentira. E a mentira, em verdade.

Vê comunismo onde não há nenhum vestígio de comunismo.

Chega ao cúmulo de ver esquerda onde só há direita, como no nazismo e no fascismo.

*****

“Não houve golpe militar em 1964”.

“Não houve ditadura entre 1964 e 1985”.

“O nazismo é de esquerda”.

“O fascismo é de esquerda”.

A exaltação da ignorância e a sua banalização vão nos custar muito caro.

No Face, direita vai da ignorância à desonestidade intelectual

Estou farto de ler coisas vindas
De neuróticos, psicóticos, políticos de cabeça-de-porco,
Tudo que quero é a verdade, agora
Me dê só um pouco da verdade, agora

Uma postagem no Facebook chamou minha atenção.

Havia duas fotos.

Todas duas na orla do Rio de Janeiro.

Uma, provavelmente de uns 50 anos atrás, mostrava mulheres de biquini na calçada, carros no asfalto, gente à beira-mar, etc.

A outra, atual, registrava uma briga na areia da praia, talvez resultado de um arrastão.

A legenda da primeira dizia o seguinte:

Rio de Janeiro, anos 60. Segundo os comunistas, “cruel ditadura militar”. 

A legenda da segunda era assim:

Rio de Janeiro, 2016. “Socialismo”. “O maravilhoso mundo comunista”.

A primeira foto – uma cena bonita e comum de praia – poderia ter sido feita tanto num governo de direita quanto num de esquerda. Numa democracia ou numa ditadura.

A segunda foto – uma confusão na areia da praia – não guarda qualquer relação com “socialismo” ou “mundo comunista”.

Com o agravante de que, em 2016, sob Dilma ou sob Temer (tivemos os dois em 2016), o Brasil nem era comunista nem socialista. Aliás, nunca foi.

O post pode parecer uma bobagem, mas não é.

Retrata, com grande fidelidade, a triste realidade em que nós, brasileiros, estamos mergulhados.

Quem faz esse tipo de postagem pode ser simplesmente burro.

Quem posta essas coisas numa rede social pode ser apenas ignorante.

Muitos o fazem, no entanto, por desonestidade intelectual. O que é mais grave do que ser burro ou ignorante.

Desonestidade intelectual.

Sim, desonestidade intelectual a serviço das piores ideias.

Um problemão nesses tempos de tanta mentira.

O que leva, por exemplo, jornalistas – em tese, comprometidos com a verdade – a esses expedientes?

O que leva uma pessoa bem informada a agir desse modo?

Ontem, no primeiro de abril, o dia foi dedicado à mentira, uma tradição que tanto diverte quanto aborrece.

Prefiro crer que todos os dias do ano são dias dedicados à verdade.

*****

Os versos que abrem esse post são de John Lennon.

Estão em Gimme Some Truth

Têm quase 50 anos, mas continuam valendo. 

Golpe de 64: Bolsonaro quis fazer uma coisa, acabou fazendo outra

90 dias de governo neste domingo (31).

Nunca vimos nada parecido.

58 milhões de brasileiros elegeram um homem que dá todos os sinais de estar despreparado para ser presidente.

É impressionante o açodamento que há em suas decisões.

É incrível a capacidade dele de errar no que julga estar certo.

Vejam o episódio dos 55 anos do golpe militar de 64.

Bolsonaro mandou comemorar a “Revolução”.

Quis fazer uma coisa, acabou fazendo outra.

A determinação do presidente levou os que sabem que houve golpe e ditadura a manifestações muito mais contundentes do que era esperado.

O que se viu nas redes sociais indica que Bolsonaro se deu mal nessa tentativa grosseira de reescrever a História.

Neste 31 de março, a memória do golpe militar que houve se sobrepôs à da “Revolução” que não houve.

“Nelma, a vida não se acaba com a morte”

Neste sábado (30), faz um ano que Nelma Figueiredo morreu.

Escrevi esse texto em setembro do ano passado, no dia do aniversário dela.

Nelma me levou para perto da morte de um modo que eu nunca havia experimentado, a despeito de todas as perdas que já tive.

Nessa jornada que se estendeu por um ano e oito meses, fui puxado para junto dela e, igualmente, a quis junto de mim. Coisas que podem encontrar explicação nas religiões, para quem as tem, ou na força de uma amizade.

20 meses. Muito pouco tempo se pensarmos na sobrevida pela qual o paciente luta.

20 meses. Muito tempo se pensarmos no sofrimento de quem se vê consumido por uma doença devastadora como o câncer.

O diagnóstico inicial – um câncer de pulmão já com metástase – não deixava dúvidas sobre a gravidade do quadro. Não haveria cura. Uma cronicização da doença? Quem sabe?

Nelma era movida pela fé. Nela, encontrava forças para enfrentar o câncer. Trabalhava normalmente, tinha vida social ativa, aguardava ansiosamente o nascimento da neta Maria.

Eu não tinha qualquer otimismo, mas as nossas expectativas sobre a doença ficaram guardadas. Nelma vinha com a crença, eu ia com o silêncio. E ela parecia entender o quanto o meu silêncio era eloquente.

A metástase hepática, confirmada 40 dias antes da morte, trouxe a certeza de que não havia mais nada a fazer.

Vi minha amiga querida se entregar a uma tristeza profunda, a um recolhimento que não combinava com a sua natureza sempre muito inquieta.

Esperei que falasse comigo sobre a morte. O que eu diria? Que sim, que ela ia morrer? Não sei como seria essa conversa, mas estava certo de que ocorreria. E tentava estar pronto para enfrentá-la.

Houve um momento, numa das últimas consultas, em que Nelma perguntou ao oncologista:

E agora?

Ao que ele respondeu, com admirável serenidade:

A vida não se acaba com a morte.

Comigo, não. Nos dias finais, foi só silêncio.

Ou falas que não combinavam com a realidade:

E então, Sílvio, como foi o concerto de Geraldo Vandré?

Como se não quisesse ouvir o que eu, se abordado, não poderia deixar de lhe dizer.

Nelma se foi na tarde da sexta-feira santa. Vê-la morrer foi uma experiência dolorosa que só o tempo amenizará.

Sinto sua falta. Sobretudo das conversas diárias de anos e anos, já cheias de desencanto, sobre o ofício que escolhemos. Era o terreno das nossas maiores afinidades.

Nelma Figueiredo morreu há um ano

Neste sábado (30), faz um ano da morte da jornalista Nelma Figueiredo.

Às cinco da tarde, será celebrada uma missa na igreja São Pedro e São Paulo, no Brisamar.

Esse texto, que republico hoje, escrevi no dia em que Nelma morreu.

*****    

Nelma Figueiredo morreu.

Dizer que ela foi uma das melhores jornalistas da minha geração pode ser um clichê, mas é absolutamente verdadeiro.

Dizer que ela lutou bravamente contra o câncer que a consumiu em menos de dois anos é outro clichê, mas foi exatamente assim.

Nelma enfrentou a doença com uma força singular.

Sabia, desde o início, que a cura era uma impossibilidade.

A luta era por mais tempo de vida.

Movida pela fé, tinha uma esperança que só se foi nas últimas semanas, quando entendemos que não havia mais nada a fazer.

Quando entendeu que a batalha estava perdida.

Na juventude, éramos assim, como nessa foto do tempo da universidade.

1983. Ou 1984. Parecíamos felizes.

O Brasil que estava mudando.

Os sonhos com um exercício digno da profissão que escolhêramos.

Nelma está no centro.

Tinha 19 ou 20 anos.

Era uma garota inquieta que morava no mesmo bairro que eu e me levava para as aulas noturnas de fotografia.

A partir de 1988 – ela com 24 anos, eu com 29 – juntamos a amizade com a parceria no campo profissional.

Convergimos muito.

Também divergimos.

Tivemos grandes desencontros afetivos e profissionais.

Daqueles que o tempo e a capacidade de perdoar resolvem.

E que parecem confirmar as verdadeiras amizades.

Não serei modesto: quando começamos, na TV Cabo Branco, fizemos jornalismo pioneiro. A televisão acabara de chegar a João Pessoa, e tínhamos consciência de que fazíamos história no jornalismo paraibano. Abríamos caminho para o que viria em seguida. Brigávamos pelo cânone, mas temíamos, com razão, muita coisa ruim que mais tarde contaminaria nossas telinhas.

Nelma amava a profissão.

Respirava notícia.

Era jornalista o dia todo, onde quer que estivesse.

Tinha predileção pela editoria de política.

Gostava de cobrir os bastidores do poder, os processos eleitorais.

Adorava conversar sobre os cenários e seus personagens em longos telefonemas.

Era repórter por excelência. Ágil, brilhante, com um feeling extraordinário.

Tinha orgulho do que fazia porque fazia muito bem.

Amava estar na rua com sua equipe.

Quando retornava à redação, corria para a ilha de edição para compartilhar comigo o que conseguira.

Comumente, ia além da pauta, trazia o melhor.

Nessa foto, de 2017, ela aparece tão bonita.

Mas estava triste.

Segurava uma barra que optou por dividir com poucos, poupando família e amigos.

Na tarde desta sexta-feira santa, descansou.

É outro clichê.

Mas foi assim mesmo.

Com Nelma Figueiredo, experimentei ter uma amiga a quem a gente pode dizer que ama.

E ouve que é amado.

O Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo (2)

Retomo o tema do post anterior.

Aproveito os 70 anos do suplemento literário de A União.

Resumi assim: como o Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo.

*****

Geneton Moraes Neto fez no seu blog o que eu não quis fazer no Correio das Artes.

Para Geneton, o importante foi pinçar algo que estava lá no meio da entrevista com Caetano Veloso sobre cinema para – digamos – “esquentar” o conteúdo.

Para mim, o importante não era o que Caetano dizia sobre Woody Allen.

Para mim, o essencial era ter Caetano falando longamente – e tão bem – sobre um negócio que ele ama profundamente, o cinema.

*****

Uma manhã qualquer, estava na minha sala em A União quando fui chamado por Nelson Coelho, nosso superintendente.

Nelson lembrou que eu assumira a editoria do jornal e ainda não ligara para Sebastião Nery, aquele do folclore político, que era um dos nossos colunistas.

Nelson, então, ligou para Nery e passou o telefone para mim. Trocamos algumas palavras, e ele disse:

Você está de Parabéns!

Agradeci e perguntei o motivo. Será pela editoria de A União? – indaguei.

Ao que Nery respondeu:

A entrevista com Caetano no Correio das Artes repercute aqui no Rio e hoje é capa do Segundo Caderno de O Globo.

***** 

VAMOS COMER WOODY ALLEN era o título da matéria de capa, assinada por Arnaldo Bloch e Rodrigo Fonseca.

Lá estava: “Meio artístico responde a Caetano Veloso, que, em entrevista, chamou diretor americano de “careta”, “reacionário” e “cineasta pequeno”. 

O Globo resolvera repercurtir o blog de Geneton.

O texto de abertura citava a autoria da entrevista e o veículo onde fora publicado.

Gente como Domingos Oliveira, Murilo Salles, Flávio Tambellini, Walter Carvalho, Ana Maria Magalhães, Roberto Muggiati e Geraldo Carneiro, entre tantos outros, comentava as declarações de Caetano Veloso sobre Woody Allen.

*****

Minha opinião sobre o episódio:

Foi positivo que o nosso pequenino Correio das Artes tenha obtido visibilidade nacional.

Mas, desde o primeiro instante, discordei do tratamento que o querido Geneton Moraes deu à entrevista em seu blog. Nada, no entanto, que maculasse toda a admiração que eu tinha por ele.

O Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo (1)

O Correio das Artes está fazendo 70 anos.

É uma data a comemorar.

Tenho uma história a contar sobre o suplemento literário (ou cultural) de A União.

O resumo é: como o Correio das Artes foi capa do Segundo Caderno de O Globo.

*****

Em 2009, editor de A União, tornei concreto um velho projeto: fazer uma extensa entrevista com Caetano Veloso só sobre cinema.

A entrevista foi capa do Correio das Artes.

Caetano Cinevivendo era o título. Uma sugestão de Jomard Muniz de Britto, nosso guru nordestino do Tropicalismo.

Na capa, uma bela foto de Germana Bronzeado.

Um texto de abertura assinado por mim falava da relação de Caetano com o cinema, desde os tempos em que era estudante em Salvador e fazia crítica de cinema nos jornais da cidade.

*****

Numa feira literária no Recife, Jomard esteve com Geneton Moraes Neto e deu a ele um exemplar do Correio das Artes com a entrevista de Caetano.

Alguns dias depois, Geneton me ligou se desculpando por ter publicado, sem pedir autorização, um trecho da entrevista no blog Dossiê Geral, que mantinha no G1.

Eu respondi que ele não precisava se desculpar e fui ler o material.

Confesso que fiquei surpreso.

Transcrevo e, num próximo post, conto o resto da história.

WOODY ALLEN É UM “CINEASTA PEQUENO”, “UM CARETA” DE “VISÃO ESTREITA” E “FRASES BRILHANTES”. ASSINADO: CAETANO VELOSO

ter, 13/10/09
por Geneton Moraes Neto |

Woody Allen vem aí. Deve fazer um filme no Brasil. O Dossiê Geral publicou dois posts sobre o homem nos últimos dias.

O Festival Woody Allen ganha, hoje, um último acréscimo, graças a um acaso : um exemplar de um suplemento literário me foi entregue quando eu flanava pelos corredores da Bienal do Livro de Pernambuco.  

Por coincidência, justamente ele, Woody Allen, é um dos temas de uma entrevista que Caetano Veloso concedeu ao Correio das Artes, suplemento literário do jornal paraibano A União. Bem editado, o suplemento circula há sessenta anos. É gol da pequenina Paraíba! 

“É um careta, um cineasta pequeno”, declara Caetano Veloso sobre Woody Allen, em depoimento que se estende por onze páginas.  Assunto exclusivo da entrevista : cinema. 

Eis a íntegra do que Caetano Veloso diz sobre Woody Allen no depoimento a Sílvio Osias :

“Fizeram uma espécie de festival Woody Allen no Telecine Cult. Vi por acaso: passavam os filmes nas horas em que vou me deitar. Gostei de todos: dos que revi e dos que nunca tinha visto. Mas sei que ter saído de casa para ir ao cinema era um pouco demais para filmes tão estreitos. A TV é o perfeito veículo para Allen.O primeiro filme dele que vi foi Boris Gruschenko e achei que parecia um programa de TV meio malfeito”.

“Depois, ele melhorou a estrutura dos roteiros e o uso da câmera. Passou a fazer filmes melhores. Mas sempre muito anti-sixties,um tanto reacionário. Muito hétero, muito reverente com os amantes de ópera que vivem no Upper East Side, muito chegado a uma decoração creme por trás de roupa bege. Careta até não poder”.

“Gay, maconha, rock, Bob Dylan, tudo isso é desprezado por ele. Eu entendo: vemos peças da Broadway pós-rock (o pós-rock que se usa na Broadway) e pensamos em quão genial eram Porter, Gershwin e Rogers: essas baladas que se ouvem nos espetáculos novos ( dos 70 para cá) são chatérrimas- o mesmo se dando com os desenhos animados em longa metragem: em Branca de Neve, quando os personagens param para cantar é um alumbramento; em Aladim ou Moisés, Príncipe do Egito, é um bocejo: são uma mistura de campo com igreja, um negócio que sempre parece que a Mariah Carey vai cantar, com dramaticidade negra de igreja mas abastardada, sem a malícia e a urbanidade, a inteligência de uma canção de Berlin ou de Kern. Então, é gostoso que um cara velho seja sincero a esse respeito. E muitas das piadas ( “one liners”) são excelentes. Mas sempre se revela uma visão estreita”.

“O público que o adorava quando ele era uma novidade com filmes ruins não gosta nem dos bons que às vezes ele faz. Meu filme favorito dele é Bullets Over Broadway: é uma comédia de verdade. Diane Wiest está genial (nada da chatice que ela apresenta quando faz personagens “sensatos” em filmes de outros diretores: ela é falsa, parece uma maluca fingindo que é sã),tem situações ótimas. E Allen tem a grande elegância de dar a seus filmes a duração que os filmes tinham quando ele era menino. Talvez isso contribua para para o seu relativo frascasso comercial nos EUA: o público exige supersized movies”.

“Os produtores descobriram que o povo pensa que se um filme não dura mais de duas horas e quinze ele não está sendo “bem servido”. É como um restaurante vulgar – e como o ar-condicionado dos cinemas: os idiotas pensam que, quanto mais frio, melhor”.

“Allen faz filmes do tamanho de filmes. Adoro Nova Iorque – e ele a conhece e sabe filmar a arquitetura da cidade. Além disso, ele é o grande herdeiro do cinema novaiorquino, independente de Los Angeles. Ele não é nenhum Cassavetes, mas merece estar ligado à tradição que este iniciou. É um careta, um cineasta pequeno, mas é um cara legal, com frases brilhantes, com algunas cenas espetaculares como ator- e canta muito, muito bem na cena curta em que o faz, em Everybody Says I Love You. Considero uma conquista imensa ele ter o “final cut” dos seus filmes”.