Valdemar, Zé Bolinho, Antônio, Seu Biu

VALDEMAR.

ZÉ BOLINHO.

ANTÔNIO.

SEU BIU. 

Quem frequentou de verdade (mais do que como mero espectador) o Teatro Santa Roza, sabe de quem estou falando.

Quem se envolveu diretamente com teatro, música ou dança, aí é que sabe mesmo.

Valdemar, Zé Bolinho, Antônio, Seu Biu.

Eram os funcionários do teatro.

Homens simples, com suas fardas de trabalho, sempre receptivos a esses frequentadores.

Seu Biu era o mais velho. Se foi há muitos anos.

Zé Bolinho também se foi, faz tempo.

De Antônio, com seu grupo folclórico, nunca mais tive notícia.

Valdemar, cenotécnico e carpinteiro, morreu neste sábado (16).

Os filhos do presidente não se meteram no governo

O presidente nasceu no Rio de Janeiro em 1931.

O pai era militar.

Trocou o Rio por São Paulo. Lá, iniciou sua vida acadêmica.

Sociólogo, professor, escritor, exilado, aposentado precocemente pelo regime militar.

Político, senador constituinte, novamente senador, ministro das Relações Exteriores, ministro da Fazenda.

Presidente.

Casou jovem com uma colega de universidade.

O casal teve três filhos.

Já eram adultos nos oito anos da presidência.

Alguém lembra dos nomes deles?

Sim, e haveria um filho fora do casamento. Mais tarde, um exame de DNA provou não ser filho.

O presidente – faz tempo – é um ex-presidente.

Quando foi presidente, o que os filhos fizeram no governo?

“O problema não é ser de direita. O problema é ser burro”

Em 1989, fui à Mesbla comprar o disco novo de Paul McCartney.

Flowers in the Dirt era o título.

Paul, até então, nunca tinha vindo ao Brasil. Permanecia como uma figura inacessível para todos nós (diferente do cara que, mais tarde, eu vi de perto, a uma distância de dois metros). Bem como era razoável pensar que ele também vivia desconectado dos problemas brasileiros.

Pois bem, fui ouvir Flowers in the Dirt, que, com My Brave Face, começava de um jeito tão Beatle. Sabem aquela audição cuidadosa, faixa a faixa, lendo o encarte? Foi o que fiz.

Quando cheguei na faixa 11, um reggae de branco chamado How Many People, vi que havia uma dedicatória:

Dedicated to the memory of Chico Mendes, brazilian rain forest campaigner 

Traduzindo: Dedicada à memória de Chico Mendes, ativista brasileiro da floresta pluvial.

Claro! McCartney é um artista do mundo, preocupado com a vida do planeta. Cidadão engajado nas lutas pela preservação do meio ambiente e pela sobrevivência dos animais. Daí a dedicatória a Chico Mendes.

Paul McCartney veio pela primeira vez ao Brasil em abril de 1990, em duas noites inesquecíveis no Maracanã. Eu estava lá.

No último show, em 21 de abril, houve um momento em que ele falou do seu engajamento e bradou:

CHICO MENDES!

A plateia (pouco mais de 180 mil pessoas, está no Guinness), traumatizada semanas antes com o confisco da poupança pelo presidente Collor, respondeu com um inequívoco “Lula-lá”.

*****

Conto essa história por causa de Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro (vejam/ouçam a entrevista dele ao Roda Viva).

O resumo – simples assim – é:

Há 30 anos, Paul McCartney, cidadão do Reino Unido, sabia o que, em 2019, o ministro brasileiro do Meio Ambiente (sim!, do Meio Ambiente!) não sabe.

Ou finge não saber.

Serei mais enfático:

Ao desconsiderar a importância de Chico Mendes e sua luta, Ricardo Salles se revela um ignorante na área em que está atuando.

Ignorante. Aquele que ignora.

O ministro do Meio Ambiente ignora Chico Mendes.

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Fecho com o que ouvi de um amigo:

“NO BRASIL DE HOJE, O PROBLEMA NÃO É SER DE DIREITA. O PROBLEMA É SER BURRO”. 

“Um filho da puta a menos para criticar o Bolsonaro”

01

No domingo (10), passei a tarde conversando com um amigo querido, um dos meus mestres no jornalismo.

Fomos do show de Gal ao Brasil sob Bolsonaro.

Quando falamos das redações de hoje, ele resumiu: “É a morte do jornalismo”.

“Morreu?” – perguntei.

Ao que ele respondeu: “Ainda não”.

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02

A morte das profissões está em Harari, lembrou meu amigo, leitor do autor de Sapiens.

Bancários logo serão desnecessários.

Médicos? Devem durar um pouco mais.

Jornalistas? Agonizam.

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03

Comecei a segunda (11) lendo, num grupo, histórias desanimadoras sobre práticas do jornalismo paraibano.

Não vou mencioná-las. Muito menos comentá-las.

Mas fica a pergunta: é assim que estamos?

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04 

No começo da tarde, veio a notícia da morte de Ricardo Boechat.

Era um cara brilhante no que fazia. No impresso, na televisão, no rádio.

E uma dessas vozes muito necessárias.

Mais ainda no atual momento brasileiro.

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05

Segui acompanhando, na mídia e nas redes sociais, a repercussão da morte de Boechat.

Eis que algo chamou minha atenção.

Um economista, defensor de Bolsonaro, postou no Twitter (é verdade?):

“Carlos Bolsonaro, o Boechat acabou de morrer na queda de um helicóptero. Pena que a Mônica Bérgamo não estava junto. Um filho da puta a menos para criticar o Bolsonaro”.

Depois, pediu desculpas:

“Fui péssimo, e desculpem o comentário. Odeio jornalistas de esquerda, nem por isso a morte se justifica. Sou do bem e falei merda. Desculpe realmente ao povo do Tweeter”.  

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06

Preciso comentar?

Teatros deviam adotar bloqueadores de celulares

Fui ao Pedra do Reino no sábado (09) ver Gal Costa.

A Pele do Futuro. Maravilha de show.

Depois comento.

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Na fila atrás da minha, alguém usava um celular.

Um homem disse em voz alta:

Devia ter ficado em casa vendo novela!

Alguns números depois, ele voltou a falar em voz alta:

Plateia sem educação! 

E retirou-se.

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Querem saber o que acho do uso de celulares em teatro?

UM INFERNO! 

Algumas pessoas usam de forma absolutamente ridícula.

Traço das graves enfermidades contemporâneas.

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Simples.

Teatros deviam adotar bloqueadores de celulares.

Anchieta Maia ligou para Dom Hélder Câmara, e ele nos recebeu

Dom Hélder Câmara nasceu no dia sete de fevereiro de 1909.

Por isso, lembrei dele hoje.

E quis contar uma pequena história.

O ano era 1978.

Cajá estava preso em Pernambuco.

Quem era Cajá?

Um estudante ligado a Dom Hélder, arcebispo de Olinda e Recife.

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Em João Pessoa, estudante do Colégio e Curso União, eu me preparava para o vestibular.

Perseguido pelo regime militar, o professor (depois deputado estadual) Antônio Augusto Arroxelas, um dos donos do colégio, nos deixava à vontade para fazer coisas que não eram permitidas em outros estabelecimentos.

Uma delas: trazer Dom Hélder para fazer uma palestra.

*****

Anchieta Maia, muito antes do Moçada que agita, era o responsável pelo Centro Cívico, cuidava dos eventos.

Uma manhã, ele nos surpreendeu: “Liguei para Dom Hélder, e ele nos recebe hoje à tarde”.

E lá fomos nós para o Recife: o professor Ronaldo (um baiano que dizia ser primo de João Gilberto e, deste, tinha o sobrenome Oliveira), Anchieta e três alunos (eu, Dida Fialho e Euni Santos).

Levávamos o convite para que o arcebispo viesse a João Pessoa conversar com os nossos colegas.

*****

Quando chegamos a Manguinhos, a primeira coisa que chamou minha atenção foi a absoluta simplicidade do lugar onde Dom Hélder trabalhava.

Uma figura com a dimensão dele, de projeção internacional, vivia ali pobremente. Que bom! Vivia como um verdadeiro cristão!

Logo fomos recebidos.

Lá veio o arcebispo de braços abertos a nos acolher: “Meus filhos, o que vocês querem de mim?”.

E fizemos o convite.

Dom Hélder foi claro em sua resposta:

“Eu não vou. Não posso ir. Cajá está preso por minha causa e não quero que isto aconteça com outros estudantes”.

Na recusa de Dom Hélder ao nosso convite havia a confirmação do que muitos diziam: a prisão do estudante era uma represália do regime militar à sua atuação como clérigo progressista.

*****

Voltamos frustrados porque ouvimos um “não”.

Mas o encontro foi inesquecível.

A voz, o abraço, a franqueza, a simplicidade, a firmeza.

Tudo apontava para a grandeza daquele homem.

“ROGER WATERS, ESSE SAFADO DO PINK FLOYD!”

Mother should I run for president?
Mother should I trust the government?
Mother will they put me in the firing line?
Is it just a waste of time?

Roger Waters defende Maduro.

É legítimo.

Você não defende Maduro.

Também é legítimo.

Li nas redes sociais:

“Vou riscar o nome de Waters de todos os discos do Pink Floyd que eu tenho”.

Li mais:

“Roger Waters, esse safado do Pink Floyd…”. 

Roger Waters passa a ser “esse safado do Pink Floyd” porque defende Maduro?

Para mim, concordando ou não com as opiniões dele, Roger Waters será sempre um dos caras do Pink Floyd, uma das grandes bandas do rock. Ele e sua bela música.

Transformá-lo em “esse safado do Pink Floyd” por causa de divergência política faz pensar no quanto estamos enfermos.

Se quisermos, faz pensar na legião de imbecis que Eco enxergou nas redes sociais.

Pelo legado musical, Roger Waters será sempre melhor do que Bolsonaro!

Por que A União de hoje não olha para A União de 40 anos atrás?

O compositor Dida Fialho falou mal do som ao participar de um show promovido pela PBTur.

O jornalista Luiz Augusto Crispim, presidente da PBTur, respondeu ao artista com palavras inaceitáveis.

Na página de opinião de A UNIÃO, publiquei um artigo contra Crispim e a favor de Dida.

Com o artigo publicado, Crispim me ligou. Disse que reconhecia o erro e que marcara um encontro com Dida para se desculpar.

Isso aconteceu ali na virada da década de 1970 para a de 1980.

Quando lembro do episódio, penso no pessoal e no coletivo.

No pessoal, creio que, na hora das críticas, houve açodamento tanto em Dida quanto em Crispim. Mas enalteço o gesto de Crispim ao admitir o erro, bem como a aceitação do pedido de desculpas por Dida.

No coletivo, reflito sobre o papel de A UNIÃO, o jornal do governo da Paraíba.

A história que contei é da época do primeiro governo de Tarcísio Burity. Ele dizia não entender democracia sem imprensa livre.

Natanael Alves era o superintendente de A UNIÃO. Gonzaga Rodrigues, o diretor técnico. Agnaldo Almeida, o editor. Grandes cabeças à frente de um jornal do governo que deveria ser tratado como se não pertencesse a quem está no poder.

Havia esse esforço em A UNIÃO de 1979, 1980, 1981.

O suplemento JORNAL DE DOMINGO foi o ponto alto desse esforço.

Reconhecidas as limitações do próprio DNA do jornal, buscaram-se alternativas.

O JORNAL DE DOMINGO, gestado por Agnaldo Almeida, era uma espécie de território livre dentro do jornal do governo.

Gregório Bezerra, aquele que os golpistas de 64 arrastaram pelas ruas do Recife, voltou do exílio na União Soviética.

Será que A UNIÃO poderia entrevistá-lo? Afinal, Gregório era reconhecidamente um comunista, e, de simpatia por comunista, o governo da Paraíba de então não tinha absolutamente nada!

Claro que A UNIÃO pode! – deve ter dito o editor, e lá estávamos nós diante de Gregório, na sala da editoria.

Ele, sentado num sofá. Nós, ao seu redor, alguns espalhados pelo chão. Os mais velhos e experientes e também os bem jovens.

Outro dia, foi Tancredo Neves, ouvido por Wellington Fodinha.

“Viveremos dias de muita turbulência”, disse Dr. Tancredo, líder moderado, mas imprescindível, da oposição à ditadura.

No JORNAL DE DOMINGO, A UNIÃO ia além de um mérito a ela sempre atribuído: de que pode tudo quando o assunto é cultura. Naquele suplemento, ela podia tudo na cultura e conseguia ultrapassar esse limite.

*****

A história que contei no início – do episódio envolvendo Crispim e Dida – pode ser resumida assim:

Em A UNIÃO de 40 anos atrás, era possível, com responsabilidade, publicar um artigo contra o presidente da PBTur, auxiliar importante do governo.

É um bom parâmetro para se pensar A UNIÃO de qualquer tempo.

Saída de Edilane Araújo encerra capítulo fundador da televisão em JP

Erialdo Pereira, nosso editor regional, uma vez me disse, lá no comecinho de 1987:

Osias, a televisão em João Pessoa será o que nós fizermos dela.

Sabedor do meu amor pelos Beatles, ele brincou com a frase (“o rock será o que nós fizermos dele”) de Lennon. É claro que Erialdo tinha senso de proporção e tão somente adaptou a fala do músico à nossa diminutíssima realidade.

Mas, ao afirmar que a televisão em João Pessoa seria o que nós fizéssemos dela, ele chamava minha atenção para a importância daquele momento que vivíamos e para a responsabilidade que tínhamos nas mãos.

O anúncio de que Edilane Araújo está deixando o vídeo me faz pensar naquele tempo de 32 anos atrás. Na tela da TV Cabo Branco, ela é a última remanescente do grupo fundador da televisão em João Pessoa.

O que foi feito, o que se construíu, o que ficou estabelecido como cânone – tudo vem daquela equipe que pôs a emissora no ar e a fez crescer.

À frente do telejornal de maior audiência da televisão paraibana, entrando nas casas de milhares de pessoas todas as noites e “conversando” com elas, Edilane se transformou num ícone, num símbolo, num verdadeiro marco de competência e credibilidade.

O legado do que foi sedimentado ao longo dos anos encontrou nela a sua melhor tradução.

Quem mais tarde fez televisão como se estivesse fazendo rádio popular, seguiu outro caminho, bastante diferente do nosso. E muito menos crível.

O jornalismo no qual críamos era rigoroso com alguns parâmetros que foram caindo em desuso desde que o terremoto digital mudou a vida do homem do século XXI.

Vinda do teatro e do rádio, Edilane chegou muito cedo à TV (tinha apenas 22 anos). Sempre penso que o estúdio passou a ser o seu palco. Como Arnaldo Jabor, que, ao deixar de dirigir filmes, disse que seu cinema eram os comentários que fazia na televisão.

Edilane Araújo foi difusora da informação correta, precisa, bem checada. O inverso do que temos hoje na era das notícias falsas, que contaminam não apenas os não jornalistas soltos nas redes sociais, mas também jornalistas e até veículos de comunicação.

A âncora do telejornal noturno da TV Cabo Branco sai do ar num instante em que não se sabe como será o futuro da televisão. Nem do jornalismo.

Descobrir e pô-lo em prática não são mais nossos desafios. Nos próximos anos, com erros e acertos, os garotos e garotas que estão chegando às redações vão cuidar disso.

Da geração de Edilane, os que quiserem ainda permanecerão conectados, ligados nas transformações, atentos aos sinais. Ela própria, ao cuidar agora de uma gerência de qualidade na Rede Paraíba de Comunicação. Mas – como na bela canção de Milton Nascimento – nada (nunca mais) será como antes.

Edilane Araújo deixa apresentação do JPB depois de 32 anos no ar

Edilane Araújo vai deixar de ser apresentadora da TV Cabo Branco.

A âncora do JPB 2a Edição se despede do vídeo em fevereiro.

Ela será substituída por Larissa Pereira na apresentação do telejornal de maior audiência da televisão paraibana.

A Rede Paraíba de Comunicação usou as redes sociais nesta sexta-feira (11) para fazer o anúncio.

Segue o comunicado sobre a saída de Edilane do vídeo:

Edilane Araújo vai deixar de apresentar o JPB 2ª Edição da TV Cabo Branco, afiliada Globo em João Pessoa.

A despedida dela do vídeo já tem data marcada: será em fevereiro.

A saída de Edilane do vídeo vem sendo amadurecida há algum tempo. É resultado de um caminho construído, conjuntamente, pela direção da Rede Paraíba de Comunicação e pela própria apresentadora.

Edilane Araújo é apresentadora da TV Cabo Branco desde que a emissora entrou oficialmente no ar, em janeiro de 1987. A maior parte desse tempo, como âncora do telejornal noturno.

A história de Edilane se confunde com a história da televisão paraibana. Como apresentadora, ela acompanhou os avanços tecnológicos no modo de fazer televisão, as primeiras transmissões ao vivo e encarou o desafio de se adaptar às mudanças de linguagem do jornalismo de TV.

Ao longo desses 32 anos, Edilane entrou na casa dos paraibanos e levou a informação correta, isenta e responsável produzida por toda a equipe da TV Cabo Branco. Nesse período, ela conquistou a maior marca que um jornalista almeja: a credibilidade.

Edilane deixa a bancada do JPB 2ª Edição, mas permanece na Rede Paraíba de Comunicação como gerente de Qualidade, cargo que ocupa há mais de um ano. Nessa função, Edilane coloca toda sua experiência na execução de novos projetos da rede, como foi a implantação da Rádio CBN em Campina Grande em 2018.

A apresentadora será substituída por Larissa Pereira, que já foi repórter da TV Cabo Branco e hoje está na Globo, no Recife. Larissa traz na bagagem a experiência da reportagem de rua e volta com o desafio de ancorar o telejornal de maior audiência da televisão paraibana.