SOBRE é por cima. SOB, por baixo

Em 1979, já quase morta, a TV Tupi quis reeditar a era dos festivais. Um ano antes do MPB 80 da Globo.

Não deu muito certo, mas aconteceu.

Caetano Veloso participou cantando Dona Culpa Ficou Solteira, uma música de Jorge Ben.

Foi vaiado pela plateia. Era o tempo das patrulhas ideológicas.

Nos bastidores, a repórter perguntou como ele se sentia saindo do palco sobre vaias.

Caetano questionou o português ruim da moça, que não sabia a diferença entre sobre e sob, mas disse que, ao errar, ela acabou acertando.

Claro! Caetano sempre está sobre as vaias!

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Sobre e sob.

Isso a gente sabe desde a infância, quando aprende a falar.

Antes mesmo de ir para a escola.

Mas vamos ao dicionário (o “pai dos burros”, o velho e bom Aurélio que tem aqui em casa):

SOBRENa parte superior de; em cima, por cima ou acima de. Acerca de, a respeito de, em relação a. 

SOBDebaixo de. Ao abrigo de. Debaixo de autoridade de. No tempo de.

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Sob Bolsonaro, tem ministro que confunde sobre com sob.

Ministro com curso superior.

Vergonha alheia!

Dos meus comunistas, cuido eu!

Antes da Copa de 70, o presidente Médici quis escalar Dadá para a Seleção Brasileira.

O técnico João Saldanha, que era comunista, reagiu:

O presidente escala os seus ministros, eu escalo os meus jogadores.

Saldanha foi demitido, e o Brasil foi tri no México com a equipe que ele montou.

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O jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, foi questionado pelo governo militar:

Tem muito comunista nas suas redações.

Dr. Roberto, reconhecidamente um homem de direita, reagiu:

Dos meus comunistas, cuido eu.

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João Saldanha foi um dos comunistas de Roberto Marinho.

As duas histórias são parecidas.

E são ótimas histórias.

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Não se faz bom jornalismo sem comunistas, assim como não se faz boa dramaturgia sem homossexuais.

A frase é atribuída a Roberto Marinho.

Realidade?

Lenda?

Não importa.

Quando a lenda é melhor do que a realidade (aprendemos com John Ford), imprima-se a lenda.

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Durante boa parte do século XX, o mundo era dividido em duas bandas.

Numa, estavam os Estados Unidos.

Na outra, a União Soviética.

O mundo sem essa divisão não cabia na cabeça de ninguém.

Digamos que a direita tinha razões de sobra para temer os comunistas porque de fato havia comunistas.

Hoje, temos no Brasil gente que vê comunistas onde não há comunistas.

A exaltação da ignorância está na moda.

Só mesmo um imbecil pode acreditar que a Terra é plana!

SÓ MESMO UM IMBECIL PODE ACREDITAR QUE A TERRA É PLANA!

Acordei pensando nisso.

Sabem o motivo?

É que nesta sexta-feira (12) faz 58 anos que Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a voar em órbita da Terra.

A Terra é azul.

Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin pronunciou a frase ao se transformar no primeiro homem que orbitou nosso planeta.

Eu tinha dois anos, claro que não tenho nenhuma lembrança do feito, mas cresci ouvindo meu pai falar da sua importância científica, do seu significado histórico e da força poética da frase.

A Terra é azul. 

A simplicidade do comentário de Gagarin não destoa da dimensão do seu voo pioneiro.

Antes, parece a mais perfeita tradução do impacto que aquela visão provocou.

O planeta visto de fora, como ninguém o havia observado antes.

Com seus próprios olhos, Gagarin viu também que a Terra é redonda.

E agora, em 2019, tem gente defendendo a tese de que a Terra é plana.

Não quero ser grosseiro, mas só mesmo os imbecis acreditam que a Terra é plana!

É uma pena que tudo aquilo tenha dado em Jair Bolsonaro!

10 de abril.

Nesta quarta-feira, faz 35 anos que, no Rio de Janeiro, foi realizado o comício da Candelária pela aprovação da emenda que restabelecia as eleições diretas para presidente.

Estavam todos lá. Ulysses, Tancredo, Lula, Brizola, Montoro – os líderes políticos unidos na luta pela redemocratização.

As diretas não passaram, mas o país se redemocratizou a partir da eleição, ainda indireta, de Tancredo/Sarney.

Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer. Dois presidentes derrubados pela via do impeachment. Foi o caminho que percorremos.

Agora estamos sob Bolsonaro.

Ele será varrido. Li hoje na Folha. Quem disse foi Jorge Mautner.

Bolsonaro é um homem sincero. Eis a grande tragédia nacional

O presidente Jair Bolsonaro é um homem sincero.

Sempre achei que ele, comumente, fala a verdade.

Diz o que pensa. Sem traquejo. Sem reflexão. Sem pensar no que está dizendo.

Lembro de um vídeo dele, bem mais jovem, defendendo a tortura num programa de televisão.

É isso mesmo. Ele defende a tortura. Ele tem Ustra como um herói nacional.

Já vimos Bolsonaro em falas completamente inaceitáveis.

Racismo. Machismo. Homofobia.

Tudo isso já vimos em Bolsonaro.

Ataques às instituições, à liberdade de imprensa, à Constituição. Também já vimos.

Ninguém falou por ele. Ninguém inventou nada. Ninguém colocou palavras na sua boca.

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Quarta-feira que vem (10), o governo alcança a marca dos 100 dias.

É uma marca simbólica, muito usada.

Os governantes (prefeitos, governadores, presidentes) comemoram 100 dias.

Pensemos nos 100 dias de Bolsonaro.

As coisas estão indo bem?

Estão dando certo?

As primeiras promessas estão sendo cumpridas?

A equipe é boa?

O diálogo com o parlamento é produtivo?

O desemprego está diminuindo?

A popularidade continua em alta?

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Bolsonaro admitiu que está com um abacaxi nas mãos.

O abacaxi é governar o Brasil.

O abacaxi é ser presidente da República.

Foi mais longe.

Bolsonaro disse que não nasceu para ser presidente. Nasceu para ser militar.

É uma confissão gravíssima para um homem que, há pouco mais de cinco meses, foi eleito presidente com 58 milhões de votos dos brasileiros.

É uma confissão gravíssima para um homem que governa o Brasil há pouco mais de três meses.

O problema é que, num tempo em que tudo é banalizado, não é dada a uma fala como esta a dimensão que ela de fato tem.

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O presidente Jair Bolsonaro é um homem sincero.

Ele disse a verdade.

Bolsonaro não nasceu para ser presidente.

Esta é que é a grande tragédia nacional.

O pior dele ainda não me surpreenderá.

Flávio Tavares pergunta se artistas plásticos têm medo de protestos

O artista plástico paraibano Flávio Tavares tem participado ativamente das manifestações populares convocadas pela esquerda.

Neste domingo (07), ele estava no ato em defesa do ex-presidente Lula realizado na Lagoa.

Nesta segunda-feira (08), Flávio Tavares usou o Facebook para falar sobre a ausência dos artistas plásticos nessas manifestações.

O questionamento de Flávio:

FRIEZA? DESCASO? ALIENAÇÃO? MEDO? Talvez seja a clausura dos seus ateliês…

Ou um execrável auto polimento nos seus EGOS.

Sinto uma AUSÊNCIA quase total da “classe” de artistas plásticos nos múltiplos PROTESTOS atuais. 

1968 a coragem tinha CARA E COR. 

O jornalista tem alguma coisa a comemorar em seu dia?

Neste domingo (07), logo cedo, sou lembrado por alguns amigos: hoje é o dia do jornalista.

A pergunta que logo me ocorre:

O jornalista tem alguma coisa a comemorar em seu dia?

Sim e não.

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Começo pelo não.

um. O terremoto digital estabeleceu parâmetros que apontam para um futuro absolutamente incerto.

dois. Nas redes sociais, muitos imbecis pensam que são jornalistas.

três. As notícias falsas se confundem com as verdadeiras.

quatro. A redução de quadros atinge todas as redações, mesmo as maiores.

cinco. Os salários continuam baixos.

seis. Os jornalistas que se dedicam às piores práticas aprimoraram seus métodos.

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E o sim?

A liberdade de imprensa.

Mas isso não existe, muitos dirão.

O que existe é a liberdade de empresa, argumentarão.

Mesmo assim, o sim vai para a liberdade de imprensa. A que temos. A que é possível ter. Com todos os seus defeitos, com todas as suas limitações.

Sem ela, saberíamos muito pouco.

Quando ela foi suprimida, soubemos muito pouco.

Sem ela, não haveria um título assim:

“Os brasileiros botaram um idiota na presidência da República”.

Brasil é um abacaxi, e Bolsonaro não tem apetite para o cargo

Fulano não tem apetite para governar.

Como jornalista, desde cedo ouvi essa frase.

Diz respeito a políticos que, de fato, não conseguem se adaptar à dura rotina de um governante.

O óbvio ululante: governar é difícil. Um negócio de altíssima complexidade.

Na linguagem de hoje: governar não é para os fracos.

Ou, como diria Bolsonaro: governar o Brasil é um abacaxi.

Diria, não. Ele disse.

Disse e tentou corrigir.

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Surpresa?

Zero!

Tenho defendido essa tese desde o início do governo.

Bolsonaro não tem apetite para o exercício do cargo.

Ele queria chegar lá, mas, na prática, parece não se adequar a todos os rituais exigidos de um presidente da República.

Bolsonaro nunca foi tão verdadeiro. Nunca foi tão sincero.

Sabem aquelas coisas que a gente diz bem naturalmente, quase sem sentir que está dizendo? E que são de uma sinceridade absoluta?

Foi o que Bolsonaro disse sobre o abacaxi que é governar o Brasil e sobre a sua brevidade no cargo.

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Nesta quarta-feira (03), vi o ministro Guedes – agora articulador da reforma da Previdência – ser chamado de “tchuchuca” por um deputado e responder com um “tchuchuca é a mãe”.

Nesta quarta-feira, li a entrevista em que o ministro Vélez negou o golpe e a ditadura e defendeu a mudança progressiva nos livros de história.

Nesta quarta-feira, vi o presidente Bolsonaro admitir que governar o Brasil é um abacaxi.

O Brasil é que está com um gigantesco abacaxi para descascar!

Bolsonaro agride história quando diz que nazismo é de esquerda

O nazismo é de direita.

O fascismo é de direita.

Não resta dúvida alguma.

Os bons livros que se debruçam sobre a história do século XX sempre nos asseguraram.

É só lê-los.

O chanceler Ernesto Araújo andou dizendo que o nazismo e o fascismo são de esquerda.

Um vexame.

Foi ridicularizado por tal afirmação dentro e fora do Brasil.

Até no Jornal Nacional, que não é dado a esse tipo de discussão.

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Em Israel, Jair Bolsonaro visitou o Museu do Holocausto, onde depositou uma coroa de flores.

O museu, em seu site, define o nazismo como de direita.

Mas o presidente saiu de lá repetindo Araújo: O nazismo é de esquerda.

Não há o que fazer.

Essa onda de ignorância que varre o Brasil é assim mesmo.

Desmente a história.

Tenta transformar a verdade em mentira. E a mentira, em verdade.

Vê comunismo onde não há nenhum vestígio de comunismo.

Chega ao cúmulo de ver esquerda onde só há direita, como no nazismo e no fascismo.

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“Não houve golpe militar em 1964”.

“Não houve ditadura entre 1964 e 1985”.

“O nazismo é de esquerda”.

“O fascismo é de esquerda”.

A exaltação da ignorância e a sua banalização vão nos custar muito caro.

No Face, direita vai da ignorância à desonestidade intelectual

Estou farto de ler coisas vindas
De neuróticos, psicóticos, políticos de cabeça-de-porco,
Tudo que quero é a verdade, agora
Me dê só um pouco da verdade, agora

Uma postagem no Facebook chamou minha atenção.

Havia duas fotos.

Todas duas na orla do Rio de Janeiro.

Uma, provavelmente de uns 50 anos atrás, mostrava mulheres de biquini na calçada, carros no asfalto, gente à beira-mar, etc.

A outra, atual, registrava uma briga na areia da praia, talvez resultado de um arrastão.

A legenda da primeira dizia o seguinte:

Rio de Janeiro, anos 60. Segundo os comunistas, “cruel ditadura militar”. 

A legenda da segunda era assim:

Rio de Janeiro, 2016. “Socialismo”. “O maravilhoso mundo comunista”.

A primeira foto – uma cena bonita e comum de praia – poderia ter sido feita tanto num governo de direita quanto num de esquerda. Numa democracia ou numa ditadura.

A segunda foto – uma confusão na areia da praia – não guarda qualquer relação com “socialismo” ou “mundo comunista”.

Com o agravante de que, em 2016, sob Dilma ou sob Temer (tivemos os dois em 2016), o Brasil nem era comunista nem socialista. Aliás, nunca foi.

O post pode parecer uma bobagem, mas não é.

Retrata, com grande fidelidade, a triste realidade em que nós, brasileiros, estamos mergulhados.

Quem faz esse tipo de postagem pode ser simplesmente burro.

Quem posta essas coisas numa rede social pode ser apenas ignorante.

Muitos o fazem, no entanto, por desonestidade intelectual. O que é mais grave do que ser burro ou ignorante.

Desonestidade intelectual.

Sim, desonestidade intelectual a serviço das piores ideias.

Um problemão nesses tempos de tanta mentira.

O que leva, por exemplo, jornalistas – em tese, comprometidos com a verdade – a esses expedientes?

O que leva uma pessoa bem informada a agir desse modo?

Ontem, no primeiro de abril, o dia foi dedicado à mentira, uma tradição que tanto diverte quanto aborrece.

Prefiro crer que todos os dias do ano são dias dedicados à verdade.

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Os versos que abrem esse post são de John Lennon.

Estão em Gimme Some Truth

Têm quase 50 anos, mas continuam valendo.