Centenário de Severino Araújo não tem espaço no jornalismo cultural

Severino Araújo é um nome importante para a música da Paraíba?

Severino Araújo é um nome importante para a música brasileira?

A Orquestra Tabajara é importante para a história das orquestras populares brasileiras?

O centenário de Severino Araújo, neste domingo (23), deveria ser lembrado?

Antes, uma historinha. Não se surpreendam. Vou falar de Michael Jackson!

Noite de 25 de junho de 2009. Um amigo, editor de cultura, está na minha casa. Juntos, vemos no Jornal Nacional a notícia da morte de Michael Jackson. Ele troca um telefonema com a editora chefe do jornal em que trabalha. E permanece na minha casa. Pensei que ia sair correndo para cuidar do necrológio do artista.

Naquela noite, fui dormir me perguntando: o jornalismo cultural está morto?

Mas o assunto aqui é Severino Araújo!

Hoje cedo, fui ler A União certo de que encontraria excelente material sobre o centenário do maestro. A União tem tradição no jornalismo cultural.

Fiquei surpreso: nada!

Depois, o Correio da Paraíba. Nada também!

Em seguida, saindo do jornalismo cultural, lembrei da Rádio Tabajara. Foi lá que a Orquestra Tabajara nasceu. Foi de lá que saiu para conquistar dimensão nacional.

Liguei para uma pessoa amiga que trabalha na emissora, perguntando se haveria alguma homenagem ao maestro na programação deste domingo. A resposta que recebi:

Realmente, não vamos dar nada.

Paraíba com memória? Paraíba sem memória?

Preciso comentar?

Viva Severino Araújo! Viva a Orquestra Tabajara!

Desabafo de Mayra Barros sobre São João é corajoso e necessário

A cantora Mayra Barros divulgou através das redes sociais um vídeo em que se posiciona sobre a programação das festas juninas.

É um desabafo contundente, corajoso e muito necessário! Vale para Campina Grande ou qualquer outra cidade!

Mayra é filha de Antônio Barros e Cecéu, ícones da música do Nordeste.

Nessa fala, ela representa os pais.

Vejam o vídeo.

 

São João de Campina dá uma saudade danada do São João de Campina!

Fui pela primeira vez ao São João de Campina Grande em 1985. O prefeito era Ronaldo Cunha Lima. Naquele ano, a festa estava começando. Digamos que era um prenúncio do que viria a se transformar no Maior São João do Mundo.

O anúncio, nesta quarta-feira (19), do “novo” (chamo assim?) São João de Campina Grande me remeteu a alguns momentos guardados na memória afetiva.

Vi Luiz Gonzaga e Elba Ramalho grávida. Os dois no mesmo palco.

Vi Marinês revisitando seus grandes sucessos.

Vi Dominguinhos mostrando porque podia ser chamado de herdeiro do Rei do Baião.

Vi Gilberto Gil fazendo seu show junino.

Vi Alceu Valença, Zé Ramalho. Vi tanta gente que atualizou os ritmos nordestinos.

Vi o passado e o presente juntos numa grande festa popular.

Em 2017, o São João de Campina Grande dá uma saudade danada do São João de Campina Grande!

Não me chamem de nostálgico. É que há valores a preservar. Ainda não perdi essa crença!

Olha pro céu, meu amor/vê como ele está lindo!

“Os Dias Eram Assim” não precisa dizer que Globo apoiou a ditadura

Em 1992, Anos Rebeldes situou seus personagens entre os momentos que antecederam o golpe de 1964 e as primeiras lutas que se seguiram à volta dos exilados.

Foi marcante. Ajudou a colocar os caras pintadas nas ruas. O Brasil se redemocratizara, e, pela primeira vez, a Globo dedicava uma obra de ficção ao período da ditadura militar. Os que estiveram no poder eram os vilões. Os que lutaram pela redemocratização eram os mocinhos.

No momento em que Anos Rebeldes foi ao ar, o primeiro presidente eleito depois de 64 estava prestes a sofrer um impeachment.

Passados 25 anos, uma nova série da Globo trata do período em que o Brasil esteve sob governos de exceção.

Os Dias Eram Assim é chamada de super série. No fundo, tem as características de uma novela. No texto, na atuação do elenco, na fotografia, edição, uso de músicas que compõem a trilha sonora, etc. Tem as virtudes do padrão que a Globo há muito atingiu na sua teledramaturgia e, naturalmente, tem as limitações que os críticos das telenovelas costumam enxergar.

Os dois primeiros capítulos se passam durante a conquista da Copa do Mundo do México, em 1970, no Brasil do Ame-o ou deixe-o. A trama se estenderá até a primeira metade dos anos 1980, à época da campanha pelo restabelecimento das eleições diretas para presidente.

Os Dias Eram Assim coincide com um momento em que alguns (muitos?, poucos?) defendem a volta dos militares ao poder. Se Anos Rebeldes ajudou a botar os caras pintadas nas ruas, Os Dias Eram Assim reforçará o argumento tão imprescindível de que as ditaduras são sempre indesejáveis.

Entre os artigos que li sobre a super série, ao menos um afirmava, desqualificando a produção, que a Globo não dirá, na trama, que apoiou a ditadura. Ora, isso não é segredo para ninguém. Os méritos das empresas da família Marinho existem a despeito desse apoio – raciocínio que vale para outros grupos brasileiros de comunicação.

A Globo, ao retratar os anos da ditadura do jeito que está fazendo em Os Dias Eram Assim, não precisa fazer nenhum mea culpa. Inaceitável seria se, a essa altura, produzisse uma série para enaltecer os governos militares.

No Dia do Índio, viva o índio do Xingu!

Em 1977, na turnê Refavela, no momento em que ficava sozinho no palco, Gilberto Gil cantava uma música nova. Era Um Sonho.

Uma moda de viola composta como manda o figurino das modas de viola.

Foi gravada, na época, por Marcelo, um cantor que acabou não construindo uma carreira sólida.

Gil só veio a gravá-la em 1991, no disco Parabolicamará.

Quatro décadas se passaram desde a turnê Refavela, e a moda de viola de Gil continua me emocionando com seus versos que atravessam o tempo.

Hoje, Dia do Índio, lembro dela por causa do verso final:

Viva o índio do Xingu!

Ouçam (vejam) nesse vídeo de cinco anos atrás. Dediquem alguns minutos do seu tempo a Um Sonho.

Professora quis denunciar aluno de 14 anos. Os dias eram assim!

João Pessoa, início dos anos 1970.

Um colégio da rede estadual.

Os alunos, todos adolescentes, tinham dificuldades com o aprendizado da matemática e se queixavam da ausência de diálogo com a professora. Havia, certamente, erros e acertos dos dois lados, mas havia um conflito que necessitava de solução.

Sete alunos procuraram o diretor, um ex-padre que não se furtava ao diálogo. Ele recebeu cordialmente os garotos, ouviu as queixas, pareceu compreendê-las e disse que conversaria com a professora.

A conversa não deu resultado. Pelo contrário, ampliou o conflito.

A professora citou os nomes dos sete alunos durante a aula e anunciou que, a partir daquele momento, seria implacável com eles.

A professora de OSPB – provável aliada da colega – fez um contundente discurso sobre coação. Coação moral. Coação física.

Na véspera da prova trimestral de matemática, a professora foi clara:

Não estamos mais em 68! Se vocês insistirem, serão denunciados ao Grupamento de Engenharia!

O conflito fora ideologizado!

O garoto de 14 anos que tivera a ideia de conversar com o diretor voltou assustado para casa.

Horas depois, ouviu dos pais a solução: a partir do dia seguinte, não voltaria mais ao colégio. Perderia o ano, mas não correria o risco de ser entregue à repressão.

Os dias eram assim!

Inteligência de Roberto Campos faz muita falta ao Brasil

Um breve registro:

Nesta segunda-feira (17), faz 100 anos que Roberto Campos nasceu.

Em seu tempo, o liberal apelidado de Bob Fields era odiado pela esquerda. Mas era uma das grandes inteligências brasileiras, um intelectual brilhante, desses que nos fazem muita falta.

Em sua coluna no G1, Hélio Gurovitz lembra que Campos soube enxergar as ameaças do totalitarismo, fosse de esquerda, fosse de direita.

“Sua formação econômica o mantinha distante das ideologias utópicas”, diz o articulista.

Ainda Gurovitz: os cinco “ismos” contra o quais Roberto Campos lutou – nacionalismo, protecionismo, estatismo, corporativismo, patrimonialismo.

Os dias eram assim! O triste é que, hoje, não há festa a fazer!

Os Dias Eram Assim.

É a nova série da Globo. Estreia nesta segunda-feira (17).

O título é um verso da canção Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins e Vítor Martins.

Foi magistralmente gravada por Elis Regina.

Se pensarmos nos compositores que se posicionaram contra a ditadura (Chico Buarque, Gonzaguinha, João Bosco e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vítor Martins, Milton Nascimento e seus parceiros) e escolhermos as canções engajadas que compuseram sobretudo ao longo da década de 1970, Aos Nossos Filhos é uma das mais fortes.

É uma canção de ninar. Nas três primeiras estrofes, a letra fala do presente (o momento em que foi escrita) como se ele já fosse passado. Perdoem por isso, perdoem por aquilo, os dias eram assim. Quem ouviu na época sabe o efeito que tinha!

As três últimas estrofes falam do futuro como se o autor (ou a intérprete) não fosse mais estar vivo. Quando ocorrer isso, quando ocorrer aquilo, façam a festa por mim.

A morte prematura de Elis Regina, intérprete definitiva da canção, acabou conferindo mais beleza e melancolia à letra de Vítor Martins.

Nos últimos tempos, sempre que ouço Aos Nossos Filhos, o “façam a festa por mim” cola nos meus ouvidos.

O verso vem sempre acompanhado por uma pergunta:

Que festa podemos fazer?

Nome de John Lennon é uma homenagem a Winston Churchill

Na quinta-feira (13), assisti a uma palestra do professor Felipe Negreiros sobre Winston Churchill. Aula de história sobre o homem que conduziu o Reino Unido durante a II Guerra. Churchill (e seu tempo) traduzido por um estudioso.

Tomo a palestra de Felipe Negreiros como “gancho” para falar duas ou três coisas sobre Churchill, Orson Welles, Peter Lorre e John Lennon! Mas o que há de comum entre eles?

Orson Welles. Pode não ter sido um gênio, mas realizou um dos maiores filmes do mundo. Para tanta gente, o maior! O diretor de Cidadão Kane lembra Churchill! Ou não?

Peter Lorre. O grande ator que vimos em M, Relíquia Macabra e Casablanca, também tem alguma semelhança fisionômica com Churchill.

Quando vejo Churchill, sempre lembro de Welles e Lorre. Mas, sobretudo, de John Lennon. Não por causa do dedo em V, que o político inglês usava, mas por causa do nome. O beatle foi batizado como John Winston Lennon. A guerra mal começara quando ele nasceu, em outubro de 1940, mas Churchill já conquistara a admiração dos britânicos de tal modo que muitas crianças nascidas naquela época tiveram o seu Winston no nome.

Muitos anos mais tarde, no casamento com Yoko Ono, Lennon mudou o nome. Passou a se chamar John Ono Lennon. E ela, Yoko Ono Lennon.

“A Terra é azul”. Frase de Gagarin está repleta de poesia!

A Terra é azul. Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin pronunciou a frase ao se transformar no primeiro homem que orbitou nosso planeta. Eu tinha dois anos, claro que não tenho nenhuma lembrança do feito, mas cresci ouvindo meu pai falar da sua importância científica, do seu significado histórico e da força poética da frase. A Terra é azul – a simplicidade do comentário de Gagarin não destoa da dimensão do seu voo pioneiro. Antes, parece a mais perfeita tradução do impacto que aquela visão provocou. O planeta visto de longe, como ninguém o havia observado antes.

Yuri Gagarin foi um dos heróis da minha infância. Talvez o maior deles, numa época em que sonhávamos com a conquista do espaço. Os soviéticos largaram na frente. Lançaram o primeiro satélite artificial (o Sputnik) em outubro de 1957. Colocaram animais em órbita da Terra (a cadelinha Laika foi e não voltou) e, por fim, um homem. Os Estados Unidos demoraram um pouco mais, mas deram passos semelhantes até transformar John Glenn no primeiro astronauta americano a voar em órbita da Terra.

Meu pai era comunista e, naturalmente, torcia pelos feitos soviéticos. Mas o amor à ciência nunca o afastou dos americanos. Tanto que rastreou satélites para um instituto que fornecia informações à NASA. Somente dois brasileiros participaram do programa de rastreamento: um padre em Minas Gerais e meu pai, que parava a rua onde morávamos, em Jaguaribe, para fazer suas anotações de altíssima precisão e dividir com nossos vizinhos a visão privilegiada: pontos luminosos que cruzavam o céu, como estrelas em movimento.

Guardo como uma relíquia o cronômetro suíço analógico que os americanos mandaram para que meu pai fizesse suas observações. O que a NASA queria era saber se os seus satélites artificiais cruzavam o céu de vários países no momento exato em que isto deveria ocorrer. Com a tecnologia da época, não havia outro modo de saber, a não ser espalhando observadores por todo o mundo. Como meu pai, voluntário instalado num posto de observação de madeira que ele construiu no fundo do quintal com o dinheiro do décimo terceiro salário.

O aniversário do voo de Gagarin me leva a esta viagem sentimental pela década de 1960. E me remete não só à sua frase, mas à que o americano Neil Armstrong pronunciou quando pisou o solo lunar pela primeira vez, em julho de 1969: um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade. Oito anos separam uma da outra. De certa forma, se a de Gagarin abre, a de Armstrong fecha a década de 1960. As duas podem fazer a síntese daquele tempo em que a Guerra Fria movia a corrida espacial.