Quem gosta de crítica de cinema não pode deixar de ler Ebert

Volto sempre a Roger Ebert (1942 – 2013), um dos maiores críticos de cinema do mundo. Tão bom que recebeu o Prêmio Pulitzer por sua atuação.

Gosto de relê-lo em dois livros lançados no Brasil pela Ediouro: A Magia do Cinema e Grandes Filmes. No original, The Great Movies (2002) e The Great Movies II (2005).

Sou de uma geração que cresceu lendo crítica de cinema antes ou depois de assistir a um filme. Começávamos por um grande nome daqui, Antônio Barreto Neto. Gostávamos de confrontar as opiniões de Ely Azeredo e José Carlos Avellar nas páginas do Jornal do Brasil. Um parecia o oposto do outro. Azeredo, mais conservador. Avellar, nada conservador. Também líamos Sérgio Augusto. Depois, Inácio Araújo. Todos, certamente devedores de Antônio Moniz Vianna, cujos textos Ruy Castro compilou em Um Filme Por Dia. Os de fora chegaram pelos livros. A grande Pauline Kael (seu nome é sinônimo de crítica de cinema nos Estados Unidos) e François Truffaut, que trocou as páginas do Cahiers du Cinema pelas lentes da Nouvelle Vague. E, claro, o mestre André Bazin.

Também professor de cinema, Roger Ebert começou a atuar em 1967 e só deixou de escrever poucos dias antes de morrer, devastado por um câncer que deformou seu rosto e comprometeu seus movimentos. Quando lemos Ebert, o que temos é um parâmetro de excelência da crítica de filmes. Texto impecavelmente bem escrito. De conteúdo rico, nem um pouco superficial, mas de fácil leitura. E de perfeito equilíbrio entre os aspectos subjetivos do olhar do autor e a objetividade dos fundamentos teóricos a que ele recorre. Ebert fundia a emoção do espectador (ele próprio ou seus leitores) sentado na sala escura, assistindo a um filme, ao academicismo do professor que reunia seus alunos para rever um clássico restaurado e analisá-lo quadro a quadro.

A Magia do Cinema compila ensaios de Roger Ebert sobre 100 filmes. Não necessariamente os 100 maiores de todos os tempos na visão do crítico. Ele observa que “qualquer lista deste tipo redundaria numa tentativa insensata de sistematizar obras que têm o seu próprio valor intrínseco”. Mas, abrindo mão da modéstia, reconhece que, quem pretender fazer um circuito entre os marcos do primeiro século do cinema, poderá muito bem começar pelo seu livro. Mais 100 títulos estão nos ensaios de Grandes Filmes. Em dois volumes, 200 filmes analisados por Ebert com fotos de cena selecionadas por Mary Corliss. Um breve (e não tão breve assim) curso de cinema para quem não teve o privilégio de ser aluno do crítico do Chicago Sun-Times.

Ebert começou a atuar numa época em que o crítico de cinema escrevia diariamente no jornal sobre um filme a que acabara de assistir. Os ensaios escritos muito mais tarde para os dois volumes de The Great Movies são uma tentativa de romper com este modelo. De voltar ao passado no lugar de ficar preso ao presente. No fundo, ele não queria estar comprometido somente com os dias atuais. Os textos não contêm mais os equívocos de uma leitura feita sob a pressão do horário de fechamento do jornal. São distanciados, serenos, amadurecidos pela passagem do tempo. Enriquecidos pela dimensão que os filmes conquistaram à medida que envelheceram. Os bons fizeram de nós seres humanos melhores. Roger Ebert tinha certeza.

Peter Jackson, de O Senhor dos Anéis, fará filme sobre os Beatles

Nesta quarta-feira (30), a mídia dedicou espaço aos 50 anos da última apresentação ao vivo dos Beatles, o rooftop concert.

Mas todos foram surpreendidos pelo anúncio oficial de que o cineasta Peter Jackson, da triologia O Senhor dos Anéis, está se debruçando sobre 55 horas de material inédito de vídeo (+ 140 horas de áudio) dos Beatles – justamente aquelas filmagens de janeiro de 1969, agora cinquentenárias.

Ao longo do mês de janeiro de 1969, em Londres, os Beatles foram filmados pelas câmeras do diretor Michael Lindsay-Hogg. O resultado é o documentário Let It Be, lançado em 1970, quando a banda já havia se desfeito.

Let It Be, o filme, nunca foi oficialmente lançado em VHS, Laser Disc, DVD ou Blu-ray. As cópias disponíveis, inclusive no Youtube, são de má qualidade e não são oficiais.

Uma cópia restaurada de Let It Be, em DVD e Blu-ray, é o que os fãs dos Beatles esperam para 2020, quando o documentário fará 50 anos.

Mas a notícia desta quarta-feira foi ainda melhor. Além do relançamento do filme de 1970, haverá o documentário de Peter Jackson.

Enquanto se fala da morte das mídias físicas, os colecionadores que se preparem: ainda não acabou!

Cineasta que filmou Beatles e Stones é filho de Orson Welles

Michael Lindsay-Hogg.

Pouca gente sabe quem é ele.

Menos ainda que é filho de Orson Welles com uma atriz com quem o diretor de Cidadão Kane teve um relacionamento.

O cineasta Michael Lindsay-Hogg não tem uma obra relevante, mas colocou seu nome junto de gente muito importante do mundo da música popular.

Beatles e Rolling Stones. Simplesmente.

Lindsay-Hogg dirigiu Let It Be, documentário que registrou o fim dos Beatles.

As filmagens, em janeiro de 1969, incluíram o último show que o grupo realizou.

Um pouco antes, em dezembro de 1968, Michael Lindsay-Hogg dirigiu Rock and Roll Circus, uma maratona de shows comandada pelos Rolling Stones.

A filmagem não agradou à banda e ficou inédita até 1996.

Tem indiscutível valor histórico por reunir, além dos Stones, John Lennon, Eric Clapton e The Who.

Mais tarde, em 1981, já na era do VHS, vamos encontrá-lo dirigindo The Concert in Central Park, que documentou o reencontro da dupla Simon & Garfunkel num fabuloso show em Nova York.

Michael Lindsay-Hogg, quando fez televisão, foi pioneiro do promo, espécie de “pai” do videoclipe.

O cineasta dirigiu os Beatles e os Rolling Stones em vídeos promocionais tais como os de Revolution (Beatles) e Jumping Jack Flash (Stones).

Quem vê esses dois vídeos reconhece a assinatura do diretor.

Se não bastasse, o cara, hoje com 78 anos, ainda é filho de Orson Welles!

A bela música de um belo filme sobre cinema. Vamos ouvir?

O título:

Grand Choral de La Nuit Americaine.

O autor:

Georges Delerue.

Essa música é bonita demais!

Está guardada na minha memória afetiva há 45 anos.

Parece uma peça barroca, mas é música contemporânea.

Vamos ouvi-la?

Dura pouco mais de dois minutos.

O filme em que a música é ouvida:

A Noite Americana. La Nuit Americaine. Day for Night.

É sobre cinema. Conta a história de uma filmagem num estúdio na França.

François Truffaut é o diretor do filme de verdade e do filme dentro do filme.

O diretor da ficção sonha com o dia em que, garoto, roubou as fotos de Cidadão Kane de um cartaz de cinema.

O diretor da vida real veio da crítica e foi um dos artífices da Nouvelle Vague.

A Noite Americana é uma declaração de amor de um homem pelo seu ofício.

Linda Blair faz 60 anos. Êxito de O Exorcista não se repetiu

Esta é Linda Blair em 1973.

A garotinha possuída pelo demônio em O Exorcista tinha 14 anos.

Esta é a Linda Blair que, nesta terça-feira (22), chega aos 60 anos.

Ela se projetou internacionalmente com O Exorcista, mas não conseguiu construir uma carreira de sucesso.

O Exorcista é de 1973.

Chegou ao Brasil no final de 1974.

Longas filas. Casas cheias. Ambulância na porta do cinema. Era assim.

O livro de William Peter Blatty era um best seller.

O filme dirigido por William Friedkin (de Operação França) foi um sucesso absoluto.

Os críticos de cinema, de um modo geral, faziam restrições.

No fundo, parecia haver uma reação preconceituosa por causa do êxito comercial.

O tempo passou.

Hoje, O Exorcista é considerado um grande filme de terror. Um verdadeiro clássico do gênero.

Há quem diga que pode passar na Sessão da Tarde sem assustar mais ninguém, mas eu não tenho tanta certeza disso.

O cinema de terror feito atualmente é mais explícito. Tecnicamente, mais bem acabado. Só que carece de elementos subjetivos que há em O Exorcista e que mexem muito mais com o medo do espectador.

Quem, aos 54 anos, fez o padre chamado para tirar o demo do corpo de Regan, a menina interpretada por Linda Blair, foi Max Von Sydow, um dos atores preferidos de Ingmar Bergman. O cara que jogou xadrez com a morte em O Sétimo Selo.

Ellen Burstyn, com pouco mais de 40 anos, era a mãe da personagem de Linda Blair.

E ainda havia, no elenco, no papel do policial, o grande Lee J. Cobb.

*****

Linda Blair depois contracenou com Burt Lancaster numa sequência de O Exorcista.

Também atuou num dos filmes da franquia Aeroporto.

Mas a menina que, na tela, venceu o demônio, não viu, na vida real, sua carreira deslanchar.

Você vai de Bolsonaro, a Globo vem de Elis

O mundo tem muito mais possibilidades do que essa caretice que está aí

Elis, o filme de Hugo Prata, foi lançado há dois anos nos cinemas.

A cinebiografia não usou imagens reais, só a voz da cantora.

Andreia Horta brilhou fazendo Elis Regina num filme que não é excepcional, mas é muito necessário.

Agora, nesse início de 2019, Elis chega à Globo transformado numa minissérie de quatro capítulos que está em exibição desde terça-feira (08) e até amanhã (11).

A versão estendida é muito diferente do que vimos no cinema. Até o título foi expandido para Elis, Viver é melhor que sonhar, fazendo uso do verso da canção de Belchior.

Na TV, Elis é um docudrama. Mistura o filme de Hugo Prata com imagens reais de Elis Regina e do seu tempo, além de muitos depoimentos. Também há conteúdo ficcional que não está no cinema, como a entrevista que costura a narrativa.

Ficou melhor?

Ficou pior?

Ficou diferente.

E ainda mais necessário.

Na tela da Globo, depois da novela das nove, esse docudrama fala pra gente sobre coisas que continuam valendo na memória nacional, a despeito dessa estúpida onda ultraconservadora que atingiu o Brasil.

Elis Regina não é ficção. Muito menos a sua música. O tempo em que Elis viveu também não é ficção. A ditadura e a violência do regime de exceção eram muito mais reais do que vemos na tela da TV.

No Brasil real, 2019 começa com Bolsonaro chegando ao poder.

Nesse docudrama sobre Elis, temos um Brasil que foi real anos atrás.

Esse Brasil de ontem permite um contraponto com o Brasil de hoje.

É positivo que seja assim.

Enquanto você vai de Jair Bolsonaro, a Globo vem de Elis Regina!

RETRO2018/Bernardo Bertolucci

O cineasta Bernardo Bertolucci morreu nesta segunda-feira (26/11).

Tinha 77 anos.

Nascido em 1941 e diretor desde o início dos anos 1960, era um mestre do cinema contemporâneo.

Fascismo.

Fascistas.

Fascistoides.

A morte de Bernardo Bertolucci coincide com um tempo em que essas palavras são largamente usadas no Brasil.

Pela esquerda para falar de ultradireitistas. Às vezes, nem tão ultra assim.

Vou usar fascistoides.

Claro que a extrema direita brasileira está cheia de fascistoides. Mas também há comportamento fascistoide na esquerda.

O ambiente que conduz ao Fascismo é o que se tem em O Conformista (foto), que Bertolucci realizou quando ainda não tinha 30 anos.

Para mim, o seu melhor filme.

O Último Tango em Paris é o mais polêmico e foi muito marcante para nós, brasileiros, porque passou quase uma década proibido pela Censura. Símbolo da ação da Censura durante o regime militar, também simbolizou o fim dessa ação tão danosa quando então foi liberado.

O Último Imperador fez muito sucesso porque, além de ser um grande filme, saiu da América cheio de estatuetas do Oscar. Incluindo as de Melhor Filme e Melhor Diretor.

Bernardo Bertolucci é o último de um vasto conjunto de extraordinários diretores de cinema que a Itália legou ao mundo. E era o mais jovem deles.

Filho de um poeta, assistente de direção de Pier Paolo Pasolini, era por natureza um esteta. Ou um burguês romântico – assim classificado por Jean Tulard em seu Dictionnaire du Cinéma.

Bernardo Bertolucci morreu no ano em que o mundo lembrou os 50 anos de 1968. Os Sonhadores, um dos seus derradeiros filmes, é uma revisão poética de maio de 68.

No mundo do politicamente correto, houve uma discussão recente sobre a cena de sexo anal não consentido de O Último Tango em Paris.

Que o artista e a sua obra se sobreponham a esse debate improdutivo.

RETRO2018/Milos Forman

O cineasta Milos Forman morreu neste sábado (14/04) aos 86 anos.

Era tcheco, mas a maior parte da sua carreira foi nos Estados Unidos.

Em 1968, fugiu dos tanques soviéticos que acabaram com a Primavera de Praga.

Seu primeiro filme americano, vi na época, com sabor de estreia. É Procura Insaciável. Fala de pais e filhos, tem muita música e traz o olhar de um estrangeiro sobre conflitos específicos da América ali na virada dos anos 1960 para os 1970. Revi há pouco. Envelheceu, é ingênuo, mas conserva algo de singelo que faz com que não o esqueçamos.

O filme que projetou Forman internacionalmente foi Um Estranho no Ninho. Cinco prêmios Oscar, incluindo melhor filme e melhor diretor. A loucura tomada como metáfora da rebeldia do homem às pressões do sistema sobre suas prerrogativas individuais – resumiu, na época, o crítico Antônio Barreto Neto.

Milos Forman filmou Hair no final da década de 1970. O musical fizera sucesso 10 anos antes. É, portanto, um filme tardio. Belo, mas anacrônico. Quando chegou às telas, o sonho da era de aquarius já estava desfeito.

O maior triunfo de Milos Forman veio quando, afinal, voltou a Praga para rodar Amadeus. Teatro transformado em cinema com absoluta maestria. A vida de Mozart narrada pelo rival Salieri. Oscar de melhor filme. Estatueta de melhor diretor para Forman.

Há outros, mas esses quatro filmes podem apresentar o cinema de Milos Forman às novas gerações.

RETRO2018/Ingmar Bergman

Ingmar Bergman é tão importante que, nos 100 anos do seu nascimento, corre o mundo um documentário sobre o cineasta.

Ingmar é o homem.

Bergman é o artista.

Li em algum lugar e gostei da tentativa de separar o inseparável.

Fui ver Bergman, 100 Anos numa sessão de domingo e fiquei triste com a sala vazia. Só havia nove espectadores. Sinal desses tempos em que críticos e cadernos de cultura preferem os blockbusters e se deslumbram com filmes de super-heróis.

Continuo preferindo Bergman.

O documentário de Jane Magnusson, de 50 anos, traz um retrato de Ingmar e de Bergman.

É centrado em um só ano (já nos assegura o título original), 1957, o ano de O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, crucial para o artista e a consolidação do seu trabalho, mas recua e avança no tempo. Vai do nascimento à morte. Passa pela fase da juventude em que nutriu simpatia pelo nazismo, fala dos seus tormentos e da relação destes com os filmes que realizou e as peças que montou.

Não há Bergman sem Ingmar, filho de um pastor luterano. As muitas mulheres, os muitos filhos. As conexões entre a vida real e a arte. O caráter autobiográfico do seu cinema, do extraordinário legado.

O documentário tem presenças desnecessárias e ausências imperdoáveis. Barbra Streisend não faria falta. Max Von Sydow faz uma falta imensa. Liv Ullmann fala pouco.

Mas é um belo filme. Franco quando trata dos defeitos de Ingmar. Justo quando se debruça sobre o trabalho de Bergman.

Que homem atormentado!

Que artista excepcional!

Quando penso naqueles cinco ou seis cineastas que deram ao mundo o melhor dessa arte do século XX, Ingmar Bergman é um deles.

Seus filmes têm crescido ainda mais com a passagem do tempo.

Não são chatos nem difíceis de entender, como muitos dizem.

São apenas os mais contundentes entre os tantos que buscam desnudar o ser humano e suas dores que não têm cura.