O Oscar é domingo. Vamos mexer com a memória?

Domingo (26) é dia de Oscar.

Tive notícia da existência do prêmio na vitória de A Noviça Rebelde, na cerimônia de 1966. Mas só vi a festa da Academia pela primeira vez na televisão em março de 1972.

Ali, o que chamou mais minha atenção não foi a estatueta de Melhor Filme de 1971 entregue a Operação França, grande filme dirigido por William Friedkin, e, sim, a homenagem a Charles Chaplin.

Já pensaram? Um Oscar honorário para Chaplin, que, na foto, aparece ao lado de Jack Lemmon.

O genial criador de Carlitos, depois de uma longa ausência, voltava para a América que o defenestrou por considerá-lo comunista.

Foi comovente, belo e um pouco melancólico. Inesquecível também, a despeito de um artigo muito interessante que li, na época, dizendo que o que havia naquele tributo tardio a um artista com a sua dimensão era uma ponta de hipocrisia em cada um dos envolvidos. Inclusive no próprio Chaplin.

Enquanto editava esse post, fui mexer nos meus arquivos e aqui está um pequeno trecho do artigo assinado por Ralph J. Gleason:

Os atores são todos canastrões, mesmo os melhores, e vivem para o aplauso. Chaplin também caiu nessa. Tudo bem. Deus sabe o quanto ele merecia, mas foi um momento de suprema hipocrisia. Toda aquela conversa vazia sobre a sua genialidade vinda de pessoas que deveriam ter lutado, mas não lutaram, quando ele foi proibido de entrar no pais. 

Ao longo de décadas vi premiações justíssimas e também grandes injustiças. E vi, claro, momentos absolutamente antológicos da história do cinema.

De fazer inveja aos cinéfilos mais jovens.

Como gosto de vasculhar a memória, aí vai, só na categoria de Melhor Filme, uma lista pessoal (e por ordem cronológica) dos 12 melhores das cerimônias que vi a partir daquela de 1972.

Operação França – de William Friedkin

O Poderoso Chefão – de Francis Ford Coppola

Golpe de Mestre – de George Roy Hill

O Poderoso Chefão II – de Francis Ford Coppola

Um Estranho no Ninho – de Milos Forman

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa – de Woody Allen

Amadeus – de Milos Forman

Os Imperdoáveis – de Clint Eastwood

A Lista de Schindler – de Steven Spielberg

Forrest Gump – de Robert Zemeckis

Menina de Ouro – de Clint Eastwood

Os Infiltrados – de Martin Scorsese

Grande filme, Cabra Marcado Para Morrer permanece íntegro

Vejo que Cabra Marcado Para Morrer será exibido esta semana no campus da UFPb, em João Pessoa. É sempre bom rever o documentário de Eduardo Coutinho.

Em 1984, no lançamento, Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, dividiu espaço com outro documentário. Era Jango, de Sílvio Tendler. No Brasil que lutava pelas eleições diretas para presidente, os dois filmes contavam histórias pré-1964, mas tinham uma diferença básica. O de Tendler falava da luta política sob a perspectiva da elite. O de Coutinho se debruçava sobre os que ficaram à margem.

Em 1981, quando retomou o projeto (interrompido pelo golpe de 64) de filmar a história do líder camponês João Pedro Teixeira, Eduardo Coutinho não sabia direito o que fazer. Tinha imagens registradas em 1964 e algumas fotos de cena. O caminho não seria mais o da ficção, posto que as circunstâncias o levavam ao documentário. Agiu como um repórter. Voltou a Pernambuco à procura dos agricultores com quem havia filmado antes que os militares tomassem o poder. Fez mais: saiu em busca de Elizabete Teixeira, a viúva de João Pedro, que encontrou vivendo na clandestinidade numa cidadezinha do Rio Grande do Norte, onde era chamada de Marta. A reportagem de Coutinho é o que vemos em Cabra Marcado Para Morrer.

Poucos filmes brasileiros me impressionaram tanto quanto este. Mais até pela sua absoluta originalidade, do que pelo seu conteúdo político e ideológico. Um cineasta, com os restos de um filme inacabado, reencontra pessoas humildes que, 17 anos antes, tentou transformar em atores e mostra a elas as imagens do passado. Neste retorno, grava depoimentos cuja força vai muito além da luta na qual elas se envolveram. A miséria, as perseguições, a tortura, as tragédias familiares, a fé – as conversas de Eduardo Coutinho com seus personagens tocam em questões permanentes do homem. Não fala só de homens inseridos num determinado contexto histórico.

Claro que Cabra Marcado Para Morrer é importante porque resgata um pedaço da nossa história recente que poucos contaram. Lembro bem do dia em que o cineasta chegou à redação de A União à procura dos arquivos do jornal. Testemunhei a conversa dele. Não escondia que retomava um projeto interrompido em 1964, mas falava pouco de como seria esta retomada. Talvez ele próprio ainda não soubesse. Nunca imaginei que, naqueles dias de 1981, estava em gestação um dos grandes filmes brasileiros. Hoje, claro que não há mais o impacto da estreia em 1984. Mas Cabra Marcado Para Morrer conserva a sua integridade. E tudo o que tem de original.

DVDs da Versátil com grandes filmes remetem à morte do Blu-ray

Começo com uma experiência pessoal: reduzi drasticamente a compra de DVD quando, há cinco anos, aderi ao Blu-ray.

De repente, passado algum tempo, voltei a comprar DVD atraído por uma série de lançamentos da Versátil, distribuidora especializada em títulos que o consumidor não encontra tão facilmente no mercado.

Era um sinal claro de que havia algo errado com o Blu-ray.

Uma mera retração do mercado ou a morte próxima?

A resposta está com os fabricantes de equipamentos (os players praticamente sumiram das lojas) e com as distribuidoras de filmes.

Por enquanto, posso dizer que, indiretamente, esses lançamentos da Versátil apontam, sim, para o fim do BD!

Para que não fiquemos apenas na notícia ruim, eis algumas das sedutoras caixinhas da Versátil com filmes preciosos.

Na série A Arte de, temos Hitchcock, Penn, Fellini, Truffaut, Cassavetes, Altman, Fuller e outros mais.

Há também O Cinema de: Hitchcock, Welles, Cassavetes.

Além de especiais como Nouvelle Vague e Cinema da Nova Hollywood.

Os volumes dedicados aos filmes noir já estão no número sete, e os lançamentos não ficam por aí.

Uma tentação para os cinéfilos!

E uma má notícia para quem apostou no Blu-ray!

Filme sobre os Beatles termina com grande presente aos fãs!

Fui ao Recife ver os Beatles no cinema: Eight Days a Week, The Touring Years, o documentário de Ron Howard.

Começo com um registro: uma pena que João Pessoa, com suas 27 salas, tenha ficado de fora. O filme teve quatro dias de exibições nos cinemas brasileiros, e nós aqui não fomos contemplados.

Mas vamos ao que vi.

(Na foto, o diretor Ron Howard com Paul McCartney e Ringo Starr)

Antes de ver Eight Days a Week, o espectador que conhece os personagens faz uma pergunta crucial:

Ainda é possível oferecer algum ineditismo num filme sobre os Beatles?

Com suas 10 horas de duração, o documentário Anthology já teria esgotado o assunto em meados da década de 1990!

Os estagiários agora recrutados para procurar imagens inéditas conseguiram alguma coisa, mas terá sido suficiente? Certamente não!

O que há, então, de tão atraente no documentário de Howard?

O tema escolhido pelos realizadores! Esse é o segredo do filme. O tema e a competência com que foi tratado e transformado em cinema.

Eight Days a Weeks não é uma biografia dos Beatles com começo, meio e fim. É um retrato do quarteto tirado a partir dos anos loucos das turnês. E que retrato!

Quem conhece a trajetória do grupo entende, logo no início, que o filme deve terminar ali por volta de 1966, quando acabam as turnês. E é o que acontece. Mas resta algum tempo para o que veio depois: o Pepper, como disco mais importante e influente, e o que fizeram nos anos finais. Claro, porque era necessário dizer que, em 1969, já nos estertores, os rapazes tocaram ao vivo no telhado da Apple. Eight Days a Week termina com dois números do último show dos Beatles, dando a impressão de que estamos revendo, na tela grande, o documentário Let It Be.

A narrativa é ágil e eficiente. Entrevistas da época, shows, fãs, contexto histórico (o assassinato de Kennedy, a luta contra o racismo), além dos muitos depoimentos que comentam a cena de longe. Está tudo lá. A música conduz o filme. E puxa o espectador pelas mãos, entre a razão e a emoção, para que ele se deixe levar.

É irresistível!

E o desfecho, surpreendente, é um grande presente para quem ama os Beatles!

Depois que sobem os créditos, quando o filme acaba, há um bônus: o show do Shea Stadium restaurado em 4K com áudio remasterizado em Abbey Road!

Pois é! O show completo, com imagens inacreditavelmente belas e áudio que supera as limitações técnicas do registro original!

Ao jovem Paul, o repórter pergunta:

Qual será o papel dos Beatles na história da cultura ocidental?

O músico se surpreende:

Cultura? Isso é só diversão!

Já vimos que estava enganado! Felizmente!

Filme de Bertolucci é belo tributo ao cinema e a maio de 68

Quando vi “La La Land” (e não gostei), lembrei um pouco de “Os Sonhadores”. Lembrei por causa da brincadeira com o cinemascope (os dois usam a mesma referência – a comédia “Sabes o que Quero”).

Mas lembrei também porque o filme de Bertolucci (que me agrada muito) é cheio de homenagens ao cinema.

Fui rever.

Maio de 68. A geração que virou a França de cabeça para baixo está afetuosamente retratada por Bernardo Bertolucci em “Os Sonhadores”.

Trancados num apartamento, três jovens fazem as suas revoluções individuais, enquanto, nas ruas, milhares fazem a revolução coletiva. Quando eles descem e se encontram com a multidão, enfrentam uma das questões cruciais daquele momento: adotarão a violência ou a não violência?

Realizado em 2003, o filme de Bertolucci vê maio de 68 de longe. Mas não fica somente nele. Nem no desejo que se tinha de contestar o sistema e tomar o poder.

Seus personagens falam muito de cinema e música. Chaplin ou Keaton? Hendrix ou Clapton? Dylan, Garbo, Joplin, Godard. A cinemateca francesa, as imagens de Fuller. “Paixões que Alucinam”, crítica de filmes, cinema americano versus cinema europeu. O encontro de Belmondo e Seberg em “Acossado”.

Maio de 68 pode ser a síntese de tudo. O instante em que a geração que queria mudar o mundo se manifestou de forma mais eloquente e radical. Mas Bertolucci se debruça sobre questões que não estão circunscritas a um mês nem a um ano determinado.

Para mim, o trecho mais belo de “Os Sonhadores” é quando os namorados vão ao cinema. Não como transgressores, mas como jovens comuns. O filme é “Sabes o que Quero”, comédia adorável da década de 1950, direção de Frank Tashlin. No início, tem aquela brincadeira com o cinemascope – a meia tela se expande para os lados e a tela toda é tomada pela imagem. Bertolucci usa a cena dos Platters e a música deles (“You’ll Never Never Know”) para dar um clima romântico ao programa dos dois personagens.

Na volta, eles se deparam com a realidade. Numa praça, o saldo de mais um dia de confronto entre policiais e manifestantes. O mundo está convulsionado. Mataram Luther King, líder da não violência. Logo matarão Bob Kennedy.

Se formos em busca do Bertolucci do final dos anos 1960, vamos encontrá-lo fazendo “O Conformista”. Um cineasta jovem olhando para o passado (a Itália sob o fascismo) para compreender e explicar o presente. No salto de quase quatro décadas até “Os Sonhadores”, seu cinema tratou do individual e do coletivo. Dos personagens sem nenhuma perspectiva de “O Último Tango em Paris” aos revolucionários de “1900”.

Penso que “Os Sonhadores” é um filme que só poderia ter sido realizado por um homem velho. É isto que o torna mais belo, mais delicado, mais fiel como retrato de uma geração. É isto que o faz tão verdadeiro e, principalmente, justo com o espírito transgressor de uma época.

Quase meio século nos separa de maio de 68. A geração que foi às ruas está no poder, já faz tempo. O pragmatismo de hoje destoa dos sonhos juvenis. “Os Sonhadores” é uma revisão poética de maio de 68. Bertolucci dá ênfase ao cinema e à música.

Encanta, comove e faz pensar que o melhor que o homem produziu está na arte.

João Pessoa tem 27 salas de cinema, mas não exibe filme dos Beatles!

O documentário de Ron Howard sobre as turnês dos Beatles chega, afinal, aos cinemas brasileiros. Eight Days a Week será exibido durante quatro dias, de hoje (02) a domingo (05), e João Pessoa ficou de fora. A opção mais perto de nós é o Recife.

Não conheço mais os mecanismos de distribuição de filmes no Brasil. Conhecia décadas atrás, na época em que tentei fazer crítica de cinema nos jornais impressos de João Pessoa. Apenas lamento que o documentário de Howard não seja exibido aqui.

João Pessoa tem 27 salas de cinema. Não é pouco. São 11 no Manaíra Shopping, 06 no Tambiá, 05 no Mangabeira, 04 no Mag e 01 no Espaço Cultural.

Só o Cinépolis, que se apresenta como a quarta maior operadora do mundo e a maior da América Latina, possui 16 salas (as do Manaíra e as do Mangabeira Shopping).

Pois é! Com tantas salas, não vamos ver o filme dos Beatles no cinema.

Eight Days a Week – The Touring Years teve estreia mundial em setembro do ano passado. Mas não no Brasil. Agora, cinco meses depois, o documentário estreia nas salas brasileiras.

Fiquemos com o trailer. Torcendo por novas exibições, além dessas de hoje a domingo, e que João Pessoa seja contemplada.

Axé Music é fenômeno que não pode ser tratado com preconceito

Todo dia

O sol levanta

E a gente canta

Ao sol de todo dia

São os versos iniciais de Canto do Povo de um Lugar. É uma canção pouco conhecida de Caetano Veloso, que agorá dá título ao documentário sobre Axé Music.

Ficou bacana: Axé, Canto do Povo de um Lugar.

Vi o filme pensando no quanto já fui preconceituoso com o fenômeno musical e comercial que transformou o carnaval de Salvador. Lembrei muito do dia em que não dei qualquer importância a uma jovem cantora que estava de passagem pela redação da TV Cabo Branco para uma entrevista.

Era Daniela Mercury. Dias depois, ela cantou no vão do MASP e parou a Avenida Paulista.

O documentário busca as origens do axé, registra seu surgimento, a consolidação, trata do declínio e da necessidade de reinvenção.

Tem ótimas imagens de arquivo porque é um fenômeno recente (30 anos), todo acompanhado pela televisão. Tem depoimentos preciosos e muita música.

O filme vai se desenvolvendo, e o espectador vai constatando: isso não era tão ruim quanto me parecia na época!

Ou, em outros momentos: isso era muito bom, e eu ignorei solenemente!

Ou, ainda: não há como ignorar a força dessas manifestações!

Sim! Com virtudes e defeitos, com gente que veio e não conseguiu ficar, e com artistas talentosíssimos, o axé congrega, sob esse rótulo, expressões muito distintas da música popular que a Bahia produziu nas últimas três décadas. Além de ser um capítulo da história do carnaval brasileiro que não pode deixar de ser reconhecido.

A Axé Music passa por manifestações culturais e artísticas genuínas de um povo. Surge delas e depois percorre os caminhos inevitáveis de um grande negócio que envolve a indústria da música, os veículos de comunicação e a promoção de grandes e rentáveis festas populares.

O documentário Canto do Povo de um Lugar trata disso. É honesto, bem realizado e (porque guiado pela música) contagiante.

Abertura de La La Land é menos magistral do que estão dizendo!

Há alguns poucos anos, nos bastidores de uma emissora de televisão, um cara da área artística me disse que usaria um elemento novíssimo na gravação de uma chamada institucional. Novíssimo e já muito em voga. Quis saber que novidade era essa, e ele respondeu: o plano sequência. Fiquei tão sem jeito que respondi com o silêncio.

Lembrei disso ouvindo entusiastas de La La Land num papo divertido e interminável. Perguntei o que há de tão magistral na sequência de abertura.

A resposta mais frequente: o uso do plano sequência enquanto as pessoas cantam e dançam na rua, entre os carros!

A um deles, perguntei se conhecia Festim Diabólico, de Hitchcock, e ele disse que não. Mas conhece A Marca da Maldade, de Welles? Também não! E o Passageiro, Profissão: Repórter, de Antonioni? Não! E O Jogador, de Altman? Não!

OK! Descobrira plano sequência na abertura de Gravidade!

De outro, ouvi que o que há de absolutamente genial no início de La La Land é que o espectador acompanha um pouco da história da mocinha e depois volta para acompanhar a do rapaz. Depois, claro, daquele número musical “falso jazz” (o “falso jazz”é meu!) no meio da rua.

Você já imaginou o quanto isso tem de inovador? Iniciar a narrativa acompanhando o dia de um personagem e depois voltar um pouquinho no tempo para acompanhar o dia de outro? 

Foi o que ouvi! Sério!

Lembrei do Grande Golpe, de Kubrick. É todo assim. Ou do Jackie Brown, de Tarantino. Tem um trecho assim. Ou (exemplo de uma década atrás) da despedida de Lumet em Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto. Retoma magistralmente o elemento narrativo que Kubrick usou nos anos 1950. Não conhecia nenhum deles, me confessou o entusiasta de La La Land!

Mais um me disse que teve vontade de sair pulando dentro da sala escura quando viu todos em círculo dançando e cantando em volta de alguém. Pois é!

Tal como o Cristo de Superstar troca de roupa, de hippie para Jesus, cercado pelo elenco, na abertura do filme de Jewison. Mas, aí, há de ser uma das inúmeras homenagens de La La Land ao gênero musical.

Estou preocupado! O defeito há de ser meu! Não consigo entender esse fenômeno chamado La La Land!

Linduarte Noronha morreu há cinco anos

Hoje (30) faz cinco anos da morte do cineasta Linduarte Noronha, o realizador de Aruanda. Escrevi esse texto quando ele morreu.

Na noite seguinte à morte de Linduarte Noronha, sonhei com Antônio Barreto Neto. Sonhei porque fui dormir pensando neles. Os caras que me acolheram quando, adolescente, comecei a publicar artigos sobre cinema no velho Correio da Paraíba de Teotônio Neto, que funcionava na Barão do Triunfo. Barreto foi meu avalista. Jurandy Moura era o editor do jornal. Linduarte, procurei no Iphaep para pedir a lista dos melhores filmes do ano. É a primeira lembrança que tenho de um contato pessoal com ele. Fui recebido como se fizesse parte da turma. E falamos dos temas que frequentariam nossas conversas dali por diante: o cinema e os impasses brasileiros.

Em 1974, quando Antônio Barreto Neto me levou até Jurandy Moura na antiga redação do Correio da Paraíba, Linduarte Noronha já havia realizado seus três filmes e não atuava mais como crítico. Ainda muito jovem (tinha pouco mais de 40 anos), era visto com frequência nas salas exibidoras da cidade. Também participava ativamente dos eventos associados à produção cinematográfica paraibana. Era a época em que, no comando do Iphaep, começava a se dedicar à preservação do nosso patrimônio histórico, uma luta que sabia importante, fundamental, mas que o angustiava. E parecia aumentar as suas descrenças em relação ao nosso destino como Nação.

Quem primeiro me falou sobre a importância dele foi meu pai. Os dois se conheceram no Liceu Paraibano. Linduarte, professor de Geografia. Meu pai, estudante, seis anos mais jovem. Não precisei sair de casa para saber da existência de muita gente. As conversas cotidianas foram fundamentais na minha formação. Linduarte estava presente nelas. Ele e “Aruanda”. Comunista, meu pai gostava das questões que o filme abordava. Tinha uma natural identificação com as teses que o cineasta defendia. E o admirava por outras razões: a voz no rádio, os textos no jornal.

No início da década de 1980, Linduarte foi meu professor de cinema no curso de Comunicação Social, na UFPb. Paguei a disciplina, mas voltei à sua sala em outros semestres só como ouvinte. Era um privilégio ouvir suas divagações sobre filmes e cineastas. Lembro de uma manhã em que o tema da aula foi “Casablanca”, que ele revira numa madrugada qualquer na televisão. A análise do conteúdo, do roteiro exemplar, as explicações sobre a belíssima fotografia em preto e branco, as técnicas de montagem, uma minuciosa explanação a respeito da sequência final, o desempenho de Bogart e Bergman – nunca mais vi alguém falar de “Casablanca” com tamanha propriedade.

Nossa última conversa foi por telefone. Tentei marcar uma entrevista, mas ele disse que estava cansado. Não apenas o cansaço físico daquele momento. Era uma espécie de exaustão que tinha origem meio século atrás, na realização de “Aruanda”. O cineasta dava sinais de que precisava libertar-se do filme e das suas consequências. Pensei nisto enquanto editava o necrológio de Linduarte para o jornal noturno da TV. Fiquei comovido com o depoimento da filha sobre a dignidade do homem e as qualidades do pai. E enchi os olhos de lágrimas quando selecionei a cena em que ouvimos “ó mana deixa eu ir”. Com sua força e sua beleza, “Aruanda” atravessa o tempo como retrato dos nossos impasses.

La La Land é fofo, mas não vale o dó-ré-mi da Noviça Rebelde!

Fui ver La La Land e, antes de dizer qualquer coisa, peço aos amigos que estão encantados com o filme que não se aborreçam comigo.

Ao sair do cinema, me perguntei pelo último grande (grande mesmo!) musical que vi. Foi All That Jazz, de Bob Fosse. É do tempo em que o gênero experimentou alguma revitalização. Faz quase quatro décadas.

Pensei nisso porque tenho visto pessoas identificarem em La La Land um renascimento do musical. Pode até ser, mas precisaremos de tempo para que a avaliação seja feita.

Por enquanto, penso que há uma supervalorização.

La La Land é um bom filme?

Diria que é fofo!

Mas o tributo ao gênero, com incontáveis citações, me soa artificial e excessivo.

E, pelo que tenho visto, fascina mais a quem não ama o gênero.

“Não gosto de musicais, detesto esses diálogos cantados, mas adorei La La Land” – é o que as pessoas têm dito.

Pois eu adoro os musicais clássicos do cinema, não tenho nenhum problema com diálogos cantados e não vi nada de excepcional em La La Land.

Cada citação me dava saudade do original, acentuava a fragilidade do filme.

Saí do cinema pensando assim:

La La Land não vale o dó-ré-mi da Noviça Rebelde!

Ou o mambo de West Side Story!

Ou a sequência em que Gene Kelly desvenda os segredos do estúdio para Debbie Reynolds em Cantando na Chuva!

Aí me dei conta de que estava era sendo injusto com filmes intocáveis! Com clássicos absolutos de um dos grandes gêneros do cinema! E parei com a brincadeira!

Mas termino com uma torcida: que La La Land, ao menos, motive quem odeia os musicais a tentar amá-los!