As redes sociais não são a vida real, diz Michael Haneke

As redes sociais não são a vida real, disse o cineasta austríaco Michael Haneke.

Com o filme Happy End, o austríaco disputa, no Festival de Cannes, a terceira Palma de Ouro de sua carreira.

Interessante a fala de Haneke, publicada em El País:

O mundo mudou muitíssimo nos últimos 20 anos. Submergiu em águas turbulentas. Não se pode descrever o mundo atual sem as rede sociais. As redes sociais não são a vida real. Sua superficialidade marca as relações atuais.

Michael Haneke ganhou a Palma de Ouro duas vezes: com A Fita Branca e com Amor.

Com Happy End, ele participa da edição de número 70 do Festival de Cannes.

Moore! Roger Moore!

Morreu o ator Roger Moore. Aos 89 anos, travou uma breve luta contra o câncer, informam as agências.

Moore se notabilizou no papel de James Bond, o agente 007.

Teve a difícil tarefa de substituir Sean Connery, o primeiro e o melhor de todos. O eterno Bond!

Cumpriu bem. Foi o segundo melhor da franquia.

Fez sete filmes. Quando deixou o papel, já tinha quase 60 anos.

Era Sir Roger Moore. Marcou uma época.

Fecho com Paul McCartney: Live and Let Die.

Com Brasília sob terremoto, lembrei de Vladimir Carvalho

Coisa de cinéfilo! O terremoto político em Brasília me trouxe a lembrança de Vladimir Carvalho. O sonho de JK, da construção ao rock dos anos 1980, reconstituído sob a ótica do grande documentarista paraibano.

Fui rever Rock Brasília. Resgato anotações que havia feito sobre o filme:

O título do documentário de Vladimir Carvalho é moderno. Rock Brasília. O subtítulo, Era de Ouro, parece antigo. Talvez porque o filme tem as duas coisas. Fala de roqueiros rebeldes, de suas letras contestatórias, de punks, de jovens que desafiaram a polícia. Só que o faz de uma maneira que o diferencia do jeito contemporâneo de filmar o rock. Por isto disseram, como crítica negativa, que a montagem é lenta. Não é um defeito, mas uma virtude.

Reza a lenda que, na juventude, quando foi estudar filosofia na Bahia, Vladimir insistia para que os amigos fossem ver Raul Seixas (ainda Raulzito) tocar. O comunismo não o impedia de ter antenas direcionadas ao rock. E contribuía para que misturasse Roberto Carlos e Lênin quando comentava a origem da expressão Jovem Guarda. Era a época dos primeiros documentários sobre rock. As matrizes do que temos em Rock Brasília – Era de Ouro.

Há pouca música em Rock Brasília. Como nos hoje clássicos Don’t Look Back e Gimme Shelter. Este é citado por Vladimir na longa e admirável sequência em que reconstituiu o tumultuado show do Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha. A música ilustra o filme. Mas o que realmente importa são as histórias que o cineasta vai reconstruindo através dos depoimentos captados e conduzidos por ele. Guiados por seu afeto e sua sensibilidade.

Vladimir passou mais de duas décadas pensando em realizar Rock Brasília. O tempo foi seu aliado. Possibilitou que ele enxergasse as coisas de longe, depois que elas aconteceram. E também deu distanciamento aos protagonistas. Os roqueiros rebeldes se transformaram em homens maduros. E a velhice permite que o pai de dois deles reconheça que aprendeu com os filhos. E tenha a fala embargada pelas lágrimas.

“Vermelho Russo” tem sessão com presença do diretor

O filme Vermelho Russo tem uma sessão especial nesta quinta-feira (18) em João Pessoa.

Será às sete da noite numa das salas do MAG Shopping.

O diretor Charly Braun vai estar presente e conversará com o público depois da edibição.

O filme conta a história de duas atrizes em crise com a profissão. Elas vão para a Rússia estudar o método de Stanislavski. Lá, suas personagens acabam por extrapolar os limites da cena e da amizade.

Vermelho Russo nasceu da experiência real das atrizes Martha Nowill e Maria Manoella. O roteiro foi inspirado no diário de viagem que Martha publicou na revista Piauí.

Impeachment, Nixon, Collor, Dilma, Trump e um filme

Há alguns filmes que todos os jornalistas deveriam ver.

Cidadão Kane, A Montanha dos Sete Abutres, Rede de Intrigas.

Imprensa, política, poder, notícia, audiência, sensacionalismo, investigação, verdades e mentiras. Podem até não interessar à geração Y, mas não estão superados, embora tantos anos nos separem do tempo em que foram realizados. Tratam de questões que o furacão digital (ainda) não varreu do mapa!

Kane, o mais velho e o melhor, logo terá 80 anos!

Todos os Homens do Presidente é um desses filmes para jornalistas.

Gosto de revê-lo sempre que se fala em impeachment.

Trata de um episódio ainda muito recente (pouco mais de 40 anos), se pensarmos na perspectiva da História: o processo que, em 1974, levou o presidente americano Richard Nixon à renúncia.

Não é um filme importante, transformador, como Cidadão Kane, mas é muito bom cinema assinado pelo veterano Alan Pakula. E uma verdadeira aula de jornalismo investigativo.

“O herói do filme é o repórter, essa mistura de curiosidade, timidez, modéstia, agressividade, coragem, paciência, obstinação e (por que não) sadomasoquismo”, escreveu o crítico Antônio Barreto Neto quando o filme passou por aqui na década de 1970.

Vamos ver (ou rever) Todos os Homens do Presidente?

Penso nele agora porque a palavra impeachment está de volta ao noticiário.

Trump, os russos, o FBI.

Vimos Nixon, de cuja queda o filme trata. Vimos Collor. E Dilma.

Veremos Trump?

O presidente americano está no poder há pouco mais de 100 dias e quase metade da população já quer que ele saia da Casa Branca!

A delação que atormentou Elia Kazan por toda a vida

Em seu tempo, Elia Kazan era reconhecido como um dos grandes cineastas do mundo. Atuando entre a década de 1940 e a de 1970, realizou pelo menos meia dúzia de filmes excepcionais que inseriram seu nome na história do cinema. Os críticos e os cinéfilos ainda se rendem ao seu talento e à sua importância. Nasceu na Turquia, filho de pais gregos, e se fez na América, onde chegou aos quatro anos – o que dá um caráter autobiográfico ao belíssimo A Terra do Sonho Distante, de 1963. É um dos momentos mais expressivos da sua filmografia, ao lado de Uma Rua Chamada Pecado, Sindicato de Ladrões, Vidas Amargas, Boneca de Carne e Clamor do Sexo.

Elia Kazan ajudou a mudar Hollywood. Não apenas com os filmes que dirigiu. Também com a escola de atores que fundou, o Actors Studio, que levou para a tela um modo diferente de intepretar. Foram muitos os filhos do “método”. O maior deles, Marlon Brando. Mas também Paul Newman, James Dean e Montgomery Clift. O seu cinema tem o teatro por onde iniciou a carreira (Uma Rua Chamada Pecado é a filmagem de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams) e a literatura (Vidas Amargas é a adaptação de uma parte de Ao Leste do Éden, de John Steinbeck), atividade que acabou abraçando ao publicar, em 1967, o romance Movidos pelo Ódio.

Mas nem tudo merece aplausos na história de Elia Kazan. Há um capítulo sombrio e nunca esquecido na sua biografia. Comunista na juventude, ele denunciou os companheiros ao Comitê de Atividades Antiamericanas, na caça às bruxas capitaneada pelo senador Joseph McCarthy. O grande cineasta era também um delator. E o fantasma da delação o acompanharia por toda a longa vida. Seus filmes falam do tema. Sindicato de Ladrões é um deles. Vidas Amargas mostra que o homem não é bom nem mau o tempo todo. Kazan tentava justificar o ato abominável. Utilizava o cinema como instrumento de superação, mas a recorrência sugere que o problema jamais foi resolvido.

O cinema de Elia Kazan e o tema da delação estão juntos em Os Visitantes. Seu penúltimo trabalho é um filme obscuro realizado com poucos recursos, em 1972, num padrão que lembra mais as produções independentes novaiorquinas do que o cinema de Hollywood. Conta a história de um homem que lutou no Vietnã e, lá, denunciou os companheiros que estupraram uma garota vietnamita. Na trama, anos após a guerra, ele está recolhido ao lar, levando uma vida tranquila com a família, quando recebe a inesperada visita daqueles a quem delatou. Toda a ação se passa durante o tenso reencontro, entre falas e silêncios.

Os Visitantes foi exibido uma única vez em João Pessoa, em 1974. As revisões que faço sempre confirmam o seu vigor e a sua beleza. E a força das questões que levanta em torno do tema que atormentava o cineasta. No fim da vida, ao receber um Oscar pelo conjunto da obra, Elia Kazan enfrentou o protesto de parte da plateia. Mas seu cinema é maior do que o episódio da delação.

Nelson Xavier morre aos 75 anos

Nelson Xavier morreu aos 75 anos.

O Brasil perde um dos seus grandes atores de teatro, cinema e televisão.

Quando soube da morte, lembrei dele dirigido por Ruy Guerra em Os Fuzis, Os Deuses e Os Mortos e A Queda.

Fico com a imagem do jovem Nelson Xavier em Os Fuzis.

“A Mulher que Amou o Vento” hoje no Cine Banguê

A Mulher que Amou o Vento será exibido nesta quarta-feira (10) no Cineclube Tintin, em João Pessoa. A entrada é gratuita.

A sessão, às 19h30, no Cine Banguê, do Espaço Cultural, contará com a presença da diretora Ana Moravi, que conversará com o público após a exibição.

O material de divulgação diz que A Mulher que Amou o Vento é uma construção audiovisual em forma de fábula e poesia em que o amor e o desejo estão vinculados intrinsecamente a uma força natural e invisível (e potencialmente tão potente, quanto invisível); uma experiência sinestésica de entrega e comprometimento entre a realizadora e o público.

A Mulher que Amou o Vento (2014) foi rodado em Nova União e Ipoema, interior de Minas Gerais. Estreou na Mostra Aurora da 17° Mostra de Cinema de Tiradentes e foi exibido em vários festivais nacionais.

Realizadora, produtora e pesquisadora, filha de mãe paraibana, Ana Moravi vive e trabalha em Belo Horizonte com vídeo, cinema, música, arte-educação e curadoria. Realizou e produziu filmes de curta e longa metragem exibidos em mostras e festivais do Brasil e do exterior. É mestre em Arte e Tecnologia da Imagem pela Escola de Belas Artes da UFMG.

Atualmente, Ana Moravi está desenvolvendo o projeto de um longa-metragem  chamado História Triste de Uma Praieira. É uma ficção que tem como mote uma música sobre uma praieira e um jangadeiro. A partir desses dois personagens, pretende abordar questões ligadas ao contexto cultural e social de Lucena, principalmente a pesca à baleia, por meio de alegorias e artifícios como imagens de arquivo, sonoridades e outras histórias de lá.

“Friends” é disco muito pouco conhecido de Elton John

“Amigos e Amantes” é o título de um filme que levou muita gente aos cinemas brasileiros no início da década de 1970, sobretudo espectadores com um pouco menos ou um pouco mais de 20 anos. No original, “Friends”. Contava a história de uma garota órfã que fugia com o namorado para viver numa casa abandonada, numa região paradisíaca da França. O rapaz se chamava Paul. A moça, Michelle. O diretor, o inglês Lewis Gilbert, a gente conhecia da série James Bond (“Com 007 Só se Vive Duas Vezes” é dele). Na época, já sabíamos que “Amigos e Amantes” era um filme menor, mas achávamos sensível e simpática aquela história de amor adolescente.

Nunca mais revi “Friends”. Não sei o que acharia dele hoje (nem da sua sequência, “Paul e Michelle”, também dirigida por Lewis Gilbert). É provável que não tenha resistido à ação do tempo. Uma coisa, no entanto, ficou na minha memória: a sua trilha sonora. Ela mistura canções de Elton John (letras de Bernie Taupin) com temas instrumentais escritos por Paul Buckmaster. A trilha teve um destino curioso na era do CD. Nunca foi lançada do jeito do LP, mas todas as suas faixas aparecem numa coletânea de Elton John chamada “Rare Masters”.

Faço parte de um grupo de consumidores de música popular que ouviu Elton John antes que ele fizesse sucesso. Fui contemporâneo dos seus primeiros discos, hoje considerados os “clássicos” da sua discografia. A trilha de “Friends” é daquele tempo. O músico tinha apenas 23 anos quando a compôs. Paul Buckmaster, o arranjador e autor dos temas instrumentais, era um ano mais velho. Rapazes talentosos fazendo música pop na Inglaterra pós Beatles. Buckmaster deixou sua marca nos discos do jovem Elton. Com suas cordas, ele valorizou as canções do compositor que despontava.

A trilha de “Friends” traz apenas cinco músicas da dupla Elton John/Bernie Taupin. Elas são semelhantes às que vamos encontrar nos discos gravados no início da década de 1970 (“Tumbleweed Connection”, “Madman Across the Water”, etc.). São baladas e rocks com sotaque soul, que o autor canta ao lado de uma pequena banda, acompanhando-se ao piano. “Seasons”, que aparece duas vezes no disco, tem uma melancolia indisfarçável e um verso que nunca saiu da minha memória (“É engraçado como jovens amantes começam como amigos”). Quem foi apresentado a Elton John depois do sucesso, talvez não o reconheça numa balada como “Friends”.

A trilha sonora de “Friends” não seria a mesma sem Paul Buckmaster. Nem o jovem Elton John. Buckmaster é um músico inglês que estudou desde a infância, teve formação erudita e se dedicou ao violoncelo, seu instrumento. Ele deu um leve toque erudito às canções de Elton John, acrescentando a elas os instrumentos de uma orquestra, com ênfase para as cordas. Em “Friends”, quatro temas de sua autoria formam a suíte “Four Moods”. Num deles, uma seção de cordas executa uma fuga que remete à música barroca. É rudimentar, se pensarmos no clássicos, mas soa bonito. A trilha de “Friends” atravessou bem o tempo que nos separa da sua gravação.

“Eles Não Usam Black Tie” evoca hoje mais sonho do que realidade

Neste primeiro de maio, vou lembrar de um filme brasileiro de que gosto imensamente:

Eles Não Usam Black Tie.

A peça de Gianfrancesco Guarnieri é do final da década de 1950, alguns anos antes do golpe de 64.

O filme de Leon Hirszman é do início da década de 1980, nos estertores da ditadura iniciada com o golpe.

Os dois – peça e filme – são de momentos de esperança.

Sou contemporâneo do filme. Evocava sonhos interrompidos (porque remetia ao original do paulistano Teatro de Arena), mas falava, sobretudo, de sonhos em construção.

Era comovente vê-lo ali no Brasil de 1981/1982. Por mais universal que seja sua temática, o que nos pegava mesmo era a conexão que fazia com a realidade brasileira de então.

Vindo do Cinema Novo, Hirszman superava as dificuldades que o movimento tivera de dialogar com o público. Em parte, talvez, porque a censura, que tantas vezes levara ao hermetismo, já fora distensionada quando o filme chegou às telas.

Quando vi, na estreia, Eles Não Usam Black Tie, tive a nítida sensação de estar diante de um filme anterior a 1964. Ainda que tudo o que ele mostrava nos lembrasse das greves recentes do ABC, da fundação do PT, do surgimento e ascensão da figura de Lula, etc.

Essa mistura de passado e presente só engrandecia o filme de Hirszman.

Foi com esse encantamento que voltei várias vezes ao cinema para revê-lo (naquele tempo, ainda não tínhamos filmes em casa).

E é assim que ele está muito bem guardado na minha memória afetiva.

Vê-lo outra vez, no Brasil de hoje, certamente confirmaria que Eles Não Usam Black Tie contém mais sonho do que vida real.