Eastwood é um grande reacionário que faz grandes filmes

Por acaso, revi um trecho de As Pontes de Madison na TV. Justamente na cena em que Francesca, a personagem de Meryl Streep, fala de uma foto de Robert Kincaid, interpretado por Clint Eastwood. As pessoas flagradas pela máquina se comportam de modo tão natural que não parece que elas estão sendo fotografadas. O comentário dela leva a um dele sobre a dificuldade de publicar o seu trabalho. E, em seguida, vem uma frase crucial a respeito da dimensão dos artistas. Os que conseguem se projetar e os que não conseguem. Muita gente pode ver o filme e não se deter no conteúdo da conversa. Mas é evidente que ela tem um significado especial. Traz uma reflexão do artista sobre o seu ofício. Não está ali gratuitamente. É Clint que nos fala.

As Pontes de Madison não é um filme comum. Sensível, delicado, sem excessos. Essencialmente belo. Eastwood o conduz como um mestre. E atua ao lado de Streep. Ele, um fotógrafo cumprindo pauta da National Geographic: registrar as pontes do condado de Madison. Ela, uma dona de casa, com marido e filhos, envolvida numa arrebatadora aventura extraconjugal. A história é contada pelos filhos após a morte dela, a partir das anotações deixadas pela mãe. Não há soluções fáceis na narrativa, nem qualquer traço de pieguismo. A história flui tão naturalmente quanto parecem naturais e espontâneas as pessoas anônimas da foto de Kincaid que Francesca admira.

Clint Eastwood é um dos raros cineastas que me fazem sair de casa para ir a um desses cinemas de shopping. Sou contemporâneo da sua estreia na direção, no thriller Perversa Paixão, e o acompanho desde então. Quando começou a dirigir, já passara dos 40 anos e era um ator de sucesso. Os méritos dos primeiros trabalhos (após Perversa Paixão, veio o western O Estranho Sem Nome) ainda não indicavam que se transformaria num dos grandes cineastas do mundo. O ator dirigido na juventude por Sergio Leone e Don Siegel logo superaria os dois professores e realizaria filmes muitos melhores do que os westerns italianos do primeiro e as produções B do segundo.

Como cinéfilo, cultuo os westerns americanos. Meus tios diziam que eles eram bons porque tinham poucos tiros. Sempre detestei os italianos (que tinham tiros em demasia), inclusive os de Leone. Nunca os compreendi. Eastwood se tornou conhecido filmando com Leone, mas, uma vez diretor, acabou ajudando a retirar o gênero do ostracismo em que se encontrava quando realizou ao menos um western à altura dos clássicos: Os Imperdoáveis. Republicano e reacionário, Clint dedicou o filme a Leone e a Siegel. Mas poderia ter dedicado a John Ford, tão republicano e reacionário quanto ele. Premiado com o Oscar, Os Imperdoáveis já chegou aos cinemas com a feição de verdadeiro clássico.

O cinema de Clint Eastwood cresceu à medida em que ele envelheceu. Seja em Bird, retrato de Charlie Parker, o atormentado gênio do bebop, seja no drama As Pontes de Madison. Também no extraordinário Sobre Meninos e Lobos, em Menina de Ouro e Gran Torino. Ainda nos dois filmes sobre a Segunda Guerra, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima. Gêneros distintos, temas diversos tratados por um cineasta americano que faz, sim, cinema de autor no sentido que os europeus dão ao termo. Seus filmes são clássicos contemporâneos. O estilo de narrar é seco e direto, lição que aprendeu mais com Siegel do que com Leone. Sem excessos, como os temas minimalistas que compõe.

Harrison Ford faz 75 anos. Vamos vê-lo jovem e desconhecido?

O ator Harrison Ford fez 75 anos nesta quinta-feira (14).

O Han Solo da saga Star Wars e o Indiana Jones dos filmes de Spielberg são os personagens que o eternizam. Mas há ainda o Deckard de Blade Runner.

Muita gente não sabe que Ford fez um pequeno papel em American Graffiti, de 1973, do mesmo George Lucas que o levou para fazer Star Wars.

Ele é o visitante caipira que, na cidadezinha da Califórnia onde se passa o filme, desafia o rebelde John Milner para um “pega” ao amanhecer.

Eis a sequência.

Revendo “Raul” em homenagem a Walter Carvalho

O cineasta Walter Carvalho está entre os brasileiros que vão participar da escolha do Oscar. Um orgulho para nós, paraibanos.

Em sua homenagem, revi o documentário Raul, O Início, O Fim e O Meio.

Comento.

Vladimir Carvalho era um jovem comunista sem preconceito com o rock. Estudando na Bahia, no início dos anos 1960, queria que os amigos fossem ver Raulzito tocar num velho cinema.

Em João Pessoa, Walter, seu irmão, dançava rock’n’ roll quando era rapaz. A mãe se preocupava, e o irmão mais velho dizia que aquilo era normal.

Os dois ficaram famosos fazendo cinema. Vladimir, grande documentarista. Walter, grande fotógrafo. Mais tarde, diretor. Fez ficção, filmando a vida de Cazuza. E documentário, contando a história de Raul Seixas.

O músico morreu há quase 30 anos, mas permanece vivo na memória de milhares de fãs. E eles não são comuns. Alguns caracterizados como o ídolo, cultuam Raul como se ele tivesse sido um filósofo, um grande pensador. Reúnem-se às centenas para homenageá-lo todos os anos. Não reconhecem nele apenas um rocker. Sim, um roqueiro talentoso e esperto que viveu intensamente a sua loucura e foi tragado por ela. Como tantos outros do mundo do rock’n’ roll.

Raul, O Início, O Fim e o Meio é um belo documentário. Walter Carvalho brinca deliciosamente com o cinema em algumas sequências. Numa delas, com Easy Rider. O sósia de Raul segue pela estrada como os personagens de Peter Fonda e Dennis Hopper, que aparecem rapidamente. Noutra, com King Creole. Elvis Presley dança, e um dos amigos da juventude de Raul tenta imitá-lo, dançando e cantando num inglês precaríssimo. Mais na frente, o dentista que cuidou dos dentes de Raul e escreveu uma biografia de Elvis projeta (como em Cinema Paradiso) King Creole na parede do edifício em que mora. Notáveis menções à relação entre rock e cinema.

Walter Carvalho contou tudo. Da vida privada e da carreira do artista. O seu retrato de Raul Seixas enaltece o roqueiro, mas também trata dos seus defeitos. Por exemplo: o péssimo hábito de se apropriar de músicas alheias. Sobretudo do pop/rock anglo-americano. As muitas mulheres, a relação com as filhas, os parceiros, a família, as drogas, o alcoolismo que o levou à morte, os fracassos no mercado fonográfico e no mundo dos shows, o suposto pacto com o diabo – está tudo em O Início, O Fim e O Meio. Numa narrativa ágil, cheia de depoimentos, mas igualmente repleta de músicas. As canções que marcaram tão fortemente o Brasil dos anos 1970.

Curioso que o documentário de Walter Carvalho chegou aos cinemas na mesma época de Rock Brasília, em que seu irmão se debruça sobre as bandas brasilienses dos anos 1980. São os irmãos Carvalho no rock, com visões distintas do fenômeno e dos seus protagonistas. Vladimir com seu olhar de homem de esquerda. Walter mais solto. Vladimir sobrepondo a fala à música. Walter guiado pela força do rock de Raul.

Retrato de Chico Buarque mostra o grande artista que ele é

No dia em que Chico Buarque faz aniversário, que tal rever o documentário Chico, Artista Brasileiro?

Vinícius e Chico, Artista Brasileiro são muito parecidos na estrutura narrativa. Realizados por Miguel Faria Jr., os documentários fogem um pouco do formato clássico do gênero por causa dos trechos encenados.

Em Vinícius, música e poesia se misturam num pocket show para uma pequena plateia. Em Chico, Artista Brasileiro, dez números são apresentados num galpão/estúdio sem plateia. Nos dois, os números são intercalados por entrevistas produzidas para os filmes e material de arquivo. O segundo repete a fórmula e os méritos do primeiro.

Vinícius é sobre um homem morto. Daí, talvez, o grande número de entrevistas gravadas para o documentário. Em algumas (Chico, Gil, Caetano), há música à base de voz e violão. Os depoimentos montam o retrato do artista.

Chico é sobre um homem vivo e em atividade, dividido entre a música e a literatura. Os depoimentos são em menor número e sem ilustração musical. Quem conta a história é o próprio Chico numa longa entrevista que conduz a narrativa. O filme é, então, um retrato do compositor tirado por Miguel Faria Jr., mas, sobretudo, um autorretrato do artista.

Chico, Artista Brasileiro não é o primeiro documentário sobre o autor de Construção. Há um outro, inferior: Certas Palavras com Chico Buarque, que Maurício Berú realizou em 1980. Faria Jr. utiliza cenas de Berú, como as imagens de Maria Bethânia cantando Olhos nos Olhos em estúdio, com o autor ao seu lado.

Em Certas Palavras, a encenação das canções empobrece o filme. Em Chico, os números gravados o engrandecem.

As dez músicas, mesmo que de épocas distintas, têm a feição do Chico dos últimos anos. Certamente, por causa dos músicos da sua banda (à frente, o guitarrista Luiz Cláudio Ramos), a quem há de se atribuir a sonoridade e a concepção dos arranjos executados em palcos e estúdios.

As escolhas não são óbvias, nem os intérpretes. A versão de Sabiá, com a portuguesa Carminho, é comovente. As imagens de Chico e Tom no palco do FIC são preciosas. Chico reconhece que, no Brasil de 1968, a canção de exílio composta com Jobim era alienada. O tempo a conservou bela.

Chico dá um depoimento corajoso e sem preconceito sobre a diversidade da música popular que se produz no Brasil. A canção popular como representação do que somos. Não deve agradar a uma parcela significativa dos seus fãs, mas eles fingem que não veem. O artista se apresenta como um homem que não sente saudade, não tem medo da solidão e não é tímido. Para ele, o presente é melhor do que o passado.

Vladimir Carvalho debate cinema e cineclubismo na FCJA

O cineasta Vladimir Carvalho chega nesta quarta-feira (07) a João Pessoa para dois compromissos na Fundação Casa de José Américo.

A Fundação comemora os dois anos do cineclube O Homem de Areia, que é o nome do documentário de Vladimir sobre José Américo de Almeida. O presidente da FCJA, Damião Ramos, disse que a comemoração, mais do que festiva, será cultural e histórica.

Nesta quarta, as sete e meia da noite, será exibido o filme A Juventude, de Paolo Sorrentino. Em seguida, Vladimir Carvalho e o psicanalista Luis Andrade debatem o filme.

Na quinta-feira (08), às nove e meia da manhã, será exibido o curta Diálogo de Vladimir Com Zé Américo e o Cinema. Depois, o documentarista participa de uma mesa redonda sobre cinema e cineclubismo na Paraíba.

Vladimir Carvalho é um artista que orgulha a Paraíba. E uma grande figura humana. Tê-lo por perto é sempre uma alegria!

Xuxa seduz garoto dentro do contexto de um filme

Recebi um vídeo com imagens de Amor, Estranho Amor.

Xuxa seduzindo um garoto no bordel de luxo onde se passa o filme de Walter Hugo Khouri.

O vídeo está editado. Sobre as imagens, foi colocada uma voz (de Xuxa?) gravada para uma campanha que alerta sobre a violência sexual praticada contra crianças e adolescentes.

De vez em quando, volto a esse filme do início dos anos 1980.

Sempre lamentei a luta de Xuxa para tirá-lo de circulação.

Melhor seria ter assumido que fez o filme. A então Rainha dos Baixinhos teria sido mais verdadeira. Não foi. Preferiu esconder.

Amor, Estranho Amor, ao mostrar uma adulta seduzindo um garoto, não está fazendo necessariamente a defesa da pedofilia.

O filme deve ser encarado como expressão artística. Foi realizado por um cineasta brasileiro importante que fez seus melhores filmes sobretudo nos anos 1960 e 1970.

Walter Hugo Khouri atuava em São Paulo, realizando filmes sofisticados que geralmente mostravam as angústias de um personagem chamado Marcelo. O personagem apareceu em muitos filmes, vivido por diversos atores. Era o alter ego de Khouri.

A “censura” acabou superdimensionando Amor, Estranho Amor. Virou um atraente fruto proibido.

Os baixinhos de ontem já devem tê-lo visto muitas vezes.

Hugo Cabret e os que foram salvos pelo cinema

Revi A Invenção de Hugo Cabret.

Seguem algumas anotações a propósito do filme.

A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, me traz a lembrança de François Truffaut. Principalmente na cena em que o personagem central leva a menina para ver os filmes mudos. A alegria deles é como a da família desajustada de Antoine Doinel depois de uma ida ao cinema em Os Incompreendidos. O cinema salvou Truffaut de uma vida marginal do mesmo modo que tirará o garoto Hugo da miséria em que vive, escondido na estação de trem de Paris. Doinel e Cabret, em tempos diferentes, remetem ao universo de Dickens tanto quanto O Garoto, de Chaplin, que Scorsese mostra rapidamente no filme. Todos foram salvos pelo cinema. François Truffaut, Charles Chaplin, cuja infância em Londres não é diferente da dos personagens de Dickens. E Martin Scorsese, menino pobre em Nova York, vivendo a um passo do mundo do crime.

Hugo Cabret e Antoine Doinel se protegem do frio nas ruas de Paris. Um foge do bedel na estação. O outro, da repressão na escola. A Torre Eiffel é vista de longe. Parcialmente, sobre os telhados, em Os Incompreendidos. Inteira e iluminada, através do mostrador do grande relógio da estação, em A Invenção de Hugo Cabret. Truffaut começou pelo universo infantil e voltou a ele em O Garoto Selvagem e Na Idade da Inocência. Scorsese esperou pela velhice. E o fez estimulado pela filha de 11 anos, que lhe cobrou um filme que ela pudesse ver. Pais e filhos. Era o pai de Marty que o levava ao cinema na infância em Nova York. Era o pai de Hugo Cabret que o apresentava aos filmes em Paris. Quando ele conta isto à menina, quem está falando é Scorsese. Para sua filha pequena. Ou para nós, os espectadores.

É bom ver A Invenção de Hugo Cabret pensando nessas coisas, tentando percebê-las por trás da história que o filme narra. Claro que elas não são o essencial, mas constituem aspectos extremamente prazerosos neste tributo de Martin Scorsese ao seu ofício. Tomemos, por exemplo, o Alfred Hitchcock de Janela Indiscreta. O personagem imobilizado na cadeira, a observar a vida dos vizinhos. Pequenas histórias se desenvolvem sob seu olhar. Do mesmo jeito que em Hugo Cabret. O garoto vê através dos relógios. E lá estão as pequenas histórias. A do bedel com seu cachorro. A da florista que ele corteja. A da mulher solitária com seu cãozinho. A do homem que quer conquistá-la. Elas vão se desenvolvendo paralelamente à trama central. Scorsese também repete Hitchcock ao entrar na cena. Ele é o fotógrafo no estúdio de Méliès. Apenas por dois ou três segundos.

Martin Scorsese é um dos maiores cineastas do mundo. E um homem que pensa o cinema. A Invenção de Hugo Cabret é um grande Scorsese, belo e deslumbrante como a fantasia primitiva de Georges Méliès que ele evoca. Sem ela, o cinema não seria o que é. Uma imagem resume o salto, dos rudimentos à alta tecnologia: a que vemos o cenário de teatro ao fundo e o aquário jogado diante dos nossos olhos, graças à fotografia em 3 D. Àquela altura, os segredos do filme estão quase todos revelados. Mas seu encanto irá até o desfecho. Hugo Cabret se passa numa estação de trem. Por isto, faz recordar o cinematógrafo de Lumière. Mas o fantástico e o onírico conduzirão necessariamente à criação de Méliès. Como matriz do que temos quando vemos um filme como A Invenção de Hugo Cabret.

O que restou da crítica de cinema gosta mesmo é de blockbuster!

Andei lendo uns textos sobre a Mulher Maravilha.

Um deles me deu saudades da crítica de cinema.

Do tempo em que havia crítica de cinema.

A sessão de imprensa da Mulher Maravilha tinha até jornalistas, diz o cara que escreveu o texto. O que tinha mesmo era gente do mundo digital fazendo selfie no cartaz do filme.

O crítico de cinema é uma espécie em extinção, diz o texto.

Vejam o exemplo da Paraíba. Atualmente, só há um crítico de cinema em atividade. É João Batista de Brito, um professor aposentado com mais de 70 anos que publica no seu blog (Imagens Amadas) e depois compartilha no Facebook. Não estou exagerando: João escreve de acordo com o cânone da melhor crítica de cinema do mundo. Conhece o objeto da crítica, tem admirável domínio do texto, sabe fundir o olhar afetivo do cinéfilo que é com o saber acadêmico que tem. Sua crítica pode ser lida em qualquer lugar pelo leitor mais exigente.

No passado, tínhamos isso todos os dias nos jornais. Lembram? João Batista é “filho” desse tempo.

Abríamos o Jornal do Brasil e tínhamos a dupla Ely Azeredo e José Carlos Avellar!

Abríamos A União, aqui tão perto de nós, e tínhamos Antônio Barreto Neto!

Abríamos o Diário da Borborema e tínhamos o jovem (e já brilhante) Bráulio Tavares!

Quem leu Paulo Emílio e Truffaut e Moniz Vianna e Kael e Ebert, agora vai ler o quê?

Gente que prioriza o blockbuster, o super herói, a franquia!

É triste, mas foi o que restou!

“Star Wars” continua detestável aos 40 anos!

Hoje, peço licença aos leitores para admitir que não gosto de algo que muitos consideram intocável, quase sagrado.

Como é (quase) sagrado, tratarei como pecado.

Vou, então, confessar um dos meus pecados:

Detesto Star Wars!

Star Wars

Sou contemporâneo de George Lucas antes de Star Wars. Primeiro, THX 1138, belo e estranhíssimo filme de ficção científica.

Depois, American Graffiti. Sim! A serena poesia daquela noite de verão na Califórnia!

Aí veio Star Wars. O primeiro episódio, que depois virou quarto. E que nós, no Brasil, chamávamos mesmo de Guerra nas Estrelas. Uma Nova Esperança, só muito mais tarde!

Nesta quinta-feira (25), faz 40 anos da estreia nos Estados Unidos. Por aqui, passou em março do ano seguinte.

Vi na primeira sessão do primeiro dia, num Cine Municipal lotado.

Antônio Barreto Neto, nosso melhor crítico de cinema, escreveu no dia seguinte:

Ele (o filme) não ambiciona mais do que ressuscitar no espectador a ingênua sensação de torcer pelo triunfo do herói e pela derrota do vilão, como nas antigas matinês de domingo nos cineminhas de bairro da infância.

Disse mais:

Guerra nas Estrelas é uma súmula do velho cinema escapista de Hollywood. Um cinema assexuado e antisséptico, exuberante e descompromissado, feito com o propósito deliberado de satisfazer a uma necessidade vital do homem: a necessidade do mito. 

Nem Barreto me convenceu. Nem Roger Ebert, que adorava Star Wars.

Essa coisa de gostar ou não gostar, às vezes não carece de explicação.

Vou fechar com uma lembrança:

George Lucas disse, certa vez, que queria fazer filmes como Star Wars para ganhar muito dinheiro e poder realizar filmes como THX 1138 e American Graffiti.

Bem, ele ficou bilionário com sua franquia, que é, artística e comercialmente, um indiscutível marco do cinema.

Mas não cumpriu a promessa:

Nunca mais fez nada como THX 1138 e American Graffiti.

Terra em Transe é nosso maior filme político. Quem quer vê-lo?

Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!

A fala do personagem de Jardel Filho ecoa há 50 anos!

Para mim, o nosso maior e mais instigante filme político é o agora cinquentenário Terra em Transe.

O Brasil continua muito parecido com o Eldorado de Glauber Rocha.

Unidos em Glauber, o gênio do construtor e o mito do demolidor gestaram um filme que fala das nossas questões cruciais. Falava em 1967. Continua falando agora, meio século depois.

Esquerda, direita, populismo, messianismo, o papel dos intelectuais, o povo, a desigualdade, o autoritarismo, o nosso destino enquanto Nação. O que quisermos mais.

Terra em Transe, se tudo isso fosse pouco, ainda é absolutamente devastador como delírio estético. Não é à toa que tem a admiração de Martin Scorsese.

O problema é que, para muitos, o filme de Glauber Rocha é tosco. Hermético. Incompreensível.

Quase ninguém quer enfrentá-lo.

Mas o problema pode ser o empobrecimento intelectual das nossas plateias. A ausência de uma crítica como a que se tinha na época em que o filme foi lançado. A falta de um ambiente propício a esse tipo de cinema.

Vejam o trailer.

Em 2001, tentei reunir amigos para uma sessão caseira de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Achei que seria o máximo ver o filme de Stanley Kubrick em pleno ano de 2001. Um deles me disse assim: não passaremos da sequência dos macacos. Ninguém topou.

Que tal, então, vermos Terra em Transe agora, com o Brasil mergulhado num dos seus grandes impasses políticos?

Acho difícil que alguém queira nesses tempos de tanta superficialidade!