Filme sobre agonia de Tancredo é ruim, mas precisa ser visto

Neste domingo, 21 de abril, faz 34 anos que Tancredo Neves morreu.

O hábil político de Minas não viveu para ser o primeiro presidente civil depois de 21 anos de presidentes militares.

Para os contemporâneos dessa tragédia nacional, a sua morte ainda é um acontecimento que está bem guardado na memória. Para os garotos e garotas de hoje, deve ser uma história remota muito pouco conhecida.

O filme O Paciente, de Sérgio Rezende, se debruça sobre a agonia de Tancredo. Começa às vésperas da posse e termina com a sua morte.

Tem algumas virtudes e muitos defeitos. O maior deles: parece demais com televisão feita para a gente ver no cinema. No ritmo, nos enquadramentos, na montagem, no uso de imagens reais da época.

Uma das virtudes: o Tancredo Neves de Othon Bastos. Grande ator, Bastos recria com notável fidelidade o político que todos nós, seus contemporâneos, vimos em ação.

(Aliás, o Tancredo que vi de perto na sede do PMDB em João Pessoa, numa entrevista coletiva em outubro de 1984, já me pareceu uma pessoa doente, embora ninguém imaginasse que estaria morto seis meses mais tarde.)

O melhor seria se um filme como O Paciente pudesse cumprir um papel educativo, didático. Se pudesse ser visto por jovens, sobretudo nas escolas. Se suscitasse debates.

Sim. Jovens debatendo política nas escolas.

O inverso do que quer o presidente Bolsonaro.

O Rei dos Reis tem a melhor música de uma Paixão de Cristo

Em O Evangelho Segundo São Mateus, Pasolini usou música erudita e o spiritual dos negros americanos.

Em A Maior História de Todos os Tempos, Stevens botou a Aleluia, de Handel, na cena da ressurreição de Lázaro.

Em Jesus Cristo Superstar, Jewison transpôs para a tela as canções da ópera-rock original.

Em A Última Tentação de Cristo, Scorsese trabalhou com um homem do rock, o ex-Genesis Peter Gabriel.

Em O Rei dos Reis, Ray teve Miklos Rozsa como autor dos temas musicais.

O húngaro Rozsa era um gigante no seu ofício. Fazer música para cinema foi sua especialidade.

A trilha de Ben-Hur é dele. A de El Cid, também.

A música de O Rei dos Reis é a melhor escrita para uma Paixão de Cristo.

Quem não a conhece?

Quem não a associa imediatamente à Semana Santa e aos dramas da Paixão?

Morreu Bibi Andersson, uma das musas de Ingmar Bergman

Eu ainda era um menino quando fui atraído pela beleza de Bibi Andersson.

Na frente do Cine Santo Antônio, lá estava ela nas fotografias em preto & branco do cartaz de Persona (Quando Duas Mulheres Pecam, título horrível no Brasil).

Mas me faltava idade para ver o filme. Ficou para alguns anos mais tarde.

Neste domingo (14), li a notícia triste:

Bibi Andersson morreu. 

Tinha 83 anos e não se recuperara de um AVC.

Bibi Andersson foi uma das musas de Ingmar Bergman, o grande diretor sueco.

Ela está em O Sétimo Selo, em Morangos Silvestres, em Persona.

Também foi dirigida por John Huston e Robert Altman.

Em Bibi, sobravam talento e beleza.

A Paixão de Cristo para ver (ou rever) na Semana Santa

Ver a Paixão de Cristo (ou um drama épico) no cinema era tradição na Semana Santa. Mas isso acabou, faz tempo.

Grandes cineastas (Ray, Stevens, Pasolini, Scorsese) filmaram a vida de Jesus.

Escolhi seis filmes que podem ser revistos em casa durante a Semana Santa. Ou – quem sabe? – apresentados à garotada.

O REI DOS REIS

Direção de Nicholas Ray. Jesus é Jeffrey Hunter. Tem um sermão da montanha filmado magistralmente. O narrador é Orson Welles. De 1961.

O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS

Direção de Pier Paolo Pasolini. Jesus é um ator amador. Versão neorrealista da vida de Cristo filmada por um homossexual, marxista e ateu. De 1964.

A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS

Direção de George Stevens. Jesus é Max Von Sydow, um dos atores de Bergman. A Aleluia de Handel dá rara beleza à sequência da ressurreição de Lázaro. De 1965.

JESUS CRISTO SUPERSTAR

Direção de Norman Jewison. Jesus é Ted Neeley. A Paixão de Cristo transformada num musical polêmico. A cena do Getsêmani é a mais bela do filme. De 1973.

JESUS DE NAZARÉ

De Franco Zeffirelli. Minissérie de televisão exibida nos cinemas em duas partes. Jesus é Robert Powell. de 1977.

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO

De Martin Scorsese. Jesus é Willem Dafoe. Os dilemas da fé num filme que não agradou aos católicos. De 1988.

Ele já foi Jesus, jogou xadrez com a morte e enfrentou o diabo

Todo mundo lembra que ele tirou o diabo do couro de uma menininha rechonchuda.

Muita gente lembra que ele jogou xadrez com a morte.

Há, mas em menor quantidade, os que lembram que ele já foi Jesus Cristo.

Max Von Sydow, o grande ator sueco dos filmes de Ingmar Bergman, faz 90 anos nesta quarta-feira (10).

Para os cinéfilos, o melhor de Sydow é seu trabalho com Bergman.

Foram parceiros em muitos filmes.

O Sétimo Selo, certamente, é o mais importante.

Max Von Sydow se projetou internacionalmente filmando com Ingmar Bergman.

Da Suécia para a América.

Em Hollywood, foi Jesus em A Maior História de Todos os Tempos, belíssima Paixão de Cristo dirigida pelo mesmo George Stevens de Um Lugar ao Sol e Os Brutos Também Amam.

Em O Exorcista, de grande sucesso comercial, fez o padre Merrin, convocado para salvar uma garotinha possuída pelo demônio.

Em Hannah e Suas Irmãs, como um irascível artista plástico casado com uma bela mulher, levou algo de Bergman para o cinema de Woody Allen.

Sob Steven Spielberg, vimos Sydow em Minority Report. Sob Martin Scorsese, em Ilha do Medo.

Grande trajetória a de Max Von Sydow.

Maior mérito de Coppola foi ter realizado O Poderoso Chefão

O cineasta americano Francis Ford Coppola faz 80 anos neste domingo (07).

Seu maior mérito foi ter realizado O Poderoso Chefão, um dos maiores filmes do mundo.

Coppola é muito diferente de Steven Spielberg e Martin Scorsese, seus contemporâneos. Ele filmou menos e tem uma obra mais irregular.

Mas até Spielberg e Scorsese, a despeito dos grandes filmes que realizaram, não fizeram nada que se compare a O Poderoso Chefão.

A primeira parte da trilogia baseada no romance de Mario Puzo é um desses filmes perfeitos.

Realizado em 1972, O Poderoso Chefão é extraordinariamente bem construído, tem um grande elenco (do experiente Marlon Brando ao jovem Al Pacino) e temas musicais marcantes do mesmo Nino Rota dos filmes de Federico Fellini.

O Poderoso Chefão fala dos subterrâneos do poder muito mais do que da máfia, daí a permanente atualidade da sua trama e dos seus personagens.

Na filmografia de Francis Ford Coppola, destaco também as duas sequências de O Poderoso Chefão (sobretudo a segunda parte), A Conversação e Apocalypse Now.

Há ainda a bela versão do Drácula de Bram Stoker.

O Brasil não quer mais saber de Glauber, que hoje faria 80 anos

Se estivesse vivo, o cineasta Glauber Rocha faria 80 anos nesta quinta-feira (14).

Ele morreu aos 42 anos, em agosto de 1981.

Em 1964, aos 25 anos, estarreceu o mundo do cinema com Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Em 2019, o Brasil não quer mais saber de Glauber Rocha, seu mais importante cineasta.

Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!

A fala do personagem de Jardel Filho ecoa há mais de 50 anos!

Para mim, o nosso maior e mais instigante filme político é Terra em Transe.

O Brasil continua muito parecido com o Eldorado de Glauber Rocha.

Unidos em Glauber, o gênio do construtor e o mito do demolidor gestaram um filme que fala das nossas questões cruciais. Falava em 1967. Continua falando agora, mais de meio século depois.

Esquerda, direita, populismo, messianismo, o papel dos intelectuais, o povo, a desigualdade, o autoritarismo, o nosso destino enquanto Nação.

Terra em Transe, se tudo isso fosse pouco, ainda é absolutamente devastador como delírio estético.

A questão é que, para muitos, o filme de Glauber Rocha é tosco. Hermético. Incompreensível.

Quase ninguém quer enfrentá-lo.

Mas o problema pode ser o empobrecimento intelectual das nossas plateias. A ausência de uma crítica como a que se tinha na época em que o filme foi lançado. A falta de um ambiente propício a esse tipo de cinema.

*****

Lembro que, no dia seguinte à morte de Glauber, o Jornal do Brasil circulou com textos assinados pelos críticos Ely Azeredo e José Carlos Avellar.

Um deles mencionava o gênio do construtor, o cineasta que levou o cinema brasileiro a obter grande prestígio internacional com os filmes que realizou, sobretudo Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.

O outro artigo falava do mito do demolidor, a figura de opiniões polêmicas e discurso muitas vezes incompreendido, principalmente quando enxergava nos militares que tomaram o poder em 1964 um caminho que levaria o país à redemocratização.

Lembro das duas imagens registradas por Azeredo e Avellar porque temo que, ao longo dos anos, o mito do demolidor tenha se sobreposto ao gênio do construtor. O que, se é verdade, representa uma profunda injustiça com um cineasta do tamanho de Glauber.

O homem que fez Deus e o Diabo na Terra do Sol com 25 anos e estarreceu os europeus com seu filme não pode ser lembrado só pelas falas desesperadas dos últimos anos de sua vida curta. O realizador que retratou o Brasil no país imaginário de Terra em Transe não pode ser avaliado como se ainda nos guiássemos só pelos confrontos entre esquerda e direita.

Prefiro a percepção que, de longe, Martin Scorsese tem do significado de Glauber Rocha. Cineasta e pensador do cinema, o americano de origem italiana vê e revê os filmes de Glauber e os apresenta aos seus atores.

É um contraponto  aos cinéfilos e homens de cinema que, entre nós, detratam Glauber, subdimensionam a sua obra e reforçam a tese de que, nele, o mito do demolidor é mesmo muito maior do que o gênio do construtor.

Melhor fundir os dois, enxergando em Glauber um cinema que nasceu da sua profunda inquietação criativa e da combinação desses elementos. O construtor e o demolidor, ambos movidos por uma grande ambição e um extraordinário desejo.

Nas imagens e nos sons que trazem Ford, Kurosawa e Villa-Lobos para o Sertão da Bahia em Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Nas questões cruciais ainda não superadas pelo Brasil nessas mais de cinco décadas que nos separam de Terra em Transe.

No delírio de A Idade da Terra, síntese do seu desespero e também da sua ousadia estética.

A ambição e o desejo de Glauber falam do cinema brasileiro e do nosso destino como Nação

Bob Dylan já foi mulher, eu sei! Seu Jorge pode ser Marighella!

I’m Not There.

Não Estou Lá.

Já viram?

É um filme incrível sobre Bob Dylan.

Direção de Todd Haynes.

Se quisermos, tem algo de cinebiografia, mas é evidente que não é uma cinebiografia do artista.

Falta linearidade para que seja.

Melhor dizer que é uma grande “viagem” pela vida privada, pela persona pública, pela música e pelo universo poético de Dylan.

Jamais será devidamente compreendido e saborosamente degustado por quem não tem intimidade com o que ele produziu.

Quanto mais intimidade, melhor.

Cinco atores e uma atriz (!) intepretam Bob Dylan em Não Estou Lá.

Destaco que o Dylan criança não é branco.

E que o Dylan de meados dos anos 1960 não é homem.

Sim! É uma mulher!

Cate Blanchett, em impecável performance, é o Dylan tal como vimos o artista no documentário Don’t Look Back, clássico do gênero, dirigido por D.A. Pennebaker. Lembram?

Cate Blanchett é o Dylan que trocou o violão folk pela estridência da guitarra elétrica. O cara que dialogou com os Beatles e com o poeta Ginsberg.

Em Não Estou Lá, há cinco homens fazendo Dylan, mas ninguém faz tão bem quanto Blanchett.

É impressionante!

Vejam o trailer.

Roma é um bom filme, mas estão exagerando nos elogios

Quando vi Gravidade, lembrei muito de Marooned, mas fiquei sem saber se Alfonso Cuarón também lembrou quando realizou o filme.

Agora, vendo Roma, confirmei que Marooned marcou a infância de Cuarón tanto quanto a minha. É o filme que os garotos vão ver, e lá está uma cena com Gene Hackman e David Jansen soltos no espaço.

A gente se identifica com essas referências quando elas são nossas também.

Há a cena final de A Grande Escapada, divertida comédia de guerra, no momento em que a personagem central,  grávida, é abandonada pelo namorado dentro de um cinema.

E há o disco que roda na vitrola, na festa de ano novo. É a primeiríssima versão de Jesus Christ Superstar. A canção que se ouve é I Don’t Know How To Love Him.

Pois bem, mas nem essas referências, que mexem tanto com a memória afetiva de quem as tem, foram suficientes para que Roma me seduzisse completamente.

O tempo todo, tive a sensação de estar diante de um filme superestimado.

Ou de um filme realizado para que a gente diga: “Cuarón é foda!”.

Roma é bacana, é sensível, é bonito. Mas não é extraordinário.

O tributo ao neorrealismo italiano é evidente, mas Roma é asséptico demais para parecer neorrealista.

Cuarón fez bom cinema de autor, como fazem os europeus. Além da direção, aqui seu nome está na fotografia, na montagem e no roteiro.

Roma evoca o México da sua infância (ele é de 1961, o filme se passa uma década mais tarde), mas fala de coisas que permanecem atuais, de relações que não têm se modernizado.

Alguém disse que passado e presente, aliás, estão juntos nessa experiência de Cuarón.

Seja na fotografia, a cores e em 65 mm, mas convertida para o preto e branco que vemos na tela.

Seja na explícita homenagem ao velho neorrealismo, a despeito da adesão a novos meios de se fazer e difundir cinema.

Roma ia arrasar na festa do Oscar.

Já pensaram?

A principal estatueta dada a um filme em preto e branco, com atores desconhecidos, falado em espanhol e lançado na Netflix.

Mas não foi bem assim.

Roma levou os prêmios de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia. E Cuarón, mais uma vez, ficou com a estatueta de Melhor Diretor. Foi de ótimo tamanho.

A Academia foi conservadora. Optou, ainda, pelo cinema feito para ser visto no cinema.

Muitíssimo obrigado, Stanley Donen!

Morreu o cineasta Stanley Donen.

A morte foi anunciada pela família neste sábado (23).

Tinha 94 anos.

Quando li a notícia da morte de Donen, pensei que um filme – apenas um! – teria sido o suficiente para inseri-lo entre o que o cinema produziu de melhor.

Sim! Um filme!

Cantando na Chuva, realizado em parceria com Gene Kelly.

Aliás, nem precisava o filme inteiro, que é uma obra-prima do musical e um dos maiores filmes do mundo.

Bastava a sequência em que Kelly dança sob a chuva.

Mas Stanley Donen fez muitas outras coisas.

Dançou e coreografou antes de dirigir.

Como diretor, há Um Dia em Nova York, também dividido com Kelly.

E Núpcias Reais.

E Sete Noivas Para Sete Irmãos.

Todos clássicos absolutos do gênero musical.

E, mais tarde, há ainda o charmoso e deliciosamente hitchcockiano Charada, no qual dirigiu Audrey Hepburn e Cary Grant.

Era um mestre absoluto no seu ofício!