Federico Fellini nasceu há 100 anos. Quem ainda vê seus filmes?

Nesta segunda-feira (20), faz 100 anos que Federico Fellini nasceu.

O cineasta morreu em 1993.

Foi um imenso, grandiosíssimo realizador de filmes.

No século XX, houve poucos tão extraordinários como ele.

*****

“Esse personagem é felliniano“.

“Isso aí é algo felliniano“.

Felliniano.

Tomemos o velho e bom Aurélio e – como chapliniano, kafkiano e shakespeariano – lá está:

Felliniano – Adj. 1. Pertencente ou relativo a Federico Fellini (1920 – 1993), cineasta italiano, ou próprio dele e/ou de sua obra. 2. Que é admirador e/ou profundo conhecedor da obra de Fellini.

Não é só cinéfilo que diz felliniano. O fato da palavra estar dicionarizada não diz respeito somente à importância artística da obra de Federico Fellini. A sua dicionarização aponta para o quanto Fellini e seus filmes foram populares em seu tempo.

A “pegada” neorrealista dos filmes que vão até o final dos anos 1950 (Os Boas-Vidas, La Strada, Noites de Cabíria) até explica essa popularidade, porque eram obras de fácil assimilação.

Mas Fellini continuou atraindo grandes plateias mesmo quando mudou radicalmente seu jeito de se expressar por meio dos filmes que fazia.

A partir de A Doce Vida, que inaugura a década de 1960, o cinema felliniano é menos linear, mais delirante, mais fantasioso. Permanece, porém, fortemente pessoal.

Fellini não conta histórias com começo, meio e fim do modo que as temos, por exemplo, no cinema americano. Em seus filmes, há episódios soltos, e é a reunião deles que constrói as suas narrativas.

Se o espectador não tiver intimidade com a gramática felliniana, dificilmente sentirá prazer vendo A Doce Vida, Oito e Meio e Amarcord.

Não existe Federico Fellini sem Nino Rota, o grande compositor que escreveu os temas musicais para muitos dos seus filmes.

Não existe Federico Fellini sem Giulietta Masina. Ela foi sua mulher por 50 anos, e muito da indescritível beleza de La Strada e Noites de Cabíria deve-se às suas atuações.

Também não existe Federico Fellini sem Marcello Mastroianni, esse ator gigantesco, o inesquecível Marcello de A Doce Vida, o angustiado personagem de Oito e Meio.

Fellini foi mais do que um dos maiores cineastas do mundo.

Fellini era um poeta maravilhoso.

Fellini conseguiu filmar a poesia que havia dentro dele.

Por falar em nazismo, seis filmes excepcionais e imprescindíveis

Filmes nos lembram:

Nazismo, nunca mais!

A lista é infinita.

Escolhi seis títulos que me são muito caros.

O GRANDE DITADOR

De Charles Chaplin

O JARDIM DOS FINZI CONTINI

De Vittorio De Sica

UM DIA MUITO ESPECIAL

De Ettore Scola

A LISTA DE SCHINDLER

De Steven Spielberg

O PIANISTA

De Roman Polanski

BASTARDOS INGLÓRIOS

De Quentin Tarantino

Nazistas? Admiradores de Hitler? Conheci muitos bem de perto!

O vídeo que levou à exoneração de Roberto Alvim não me surpreendeu.

Vindo de gente como Alvim, estava dentro do roteiro.

Mérito na decisão de Bolsonaro? Não enxergo nenhum. O presidente não teve outra saída.

Alvim está fora, mas governos de ultradireita estão cheios de pessoas que defendem o nazismo, que admiram Hitler, etc.

Nazistas?

Fãs de Hitler?

Conheci muitos.

Creio que ainda conheço.

Alguns confessavam sem qualquer cerimônia e até se empolgavam na hora da confissão.

Outros – os que dominavam o alemão – ouviam os discursos de Hitler no som do carro.

Chegavam – estou falando sério! – perto do orgasmo.

Os mais discretos se protegiam na palavra germanófilo.

Sim, eu sei. Os germanófilos são anteriores aos nazistas. São admiradores da Alemanha, sua gente, sua cultura.

Mas estou me referindo aos caras que tinham noção de que não deveriam assumir a simpatia por essa coisa abominável chamada nazismo e se abrigavam, digamos, num eufemismo.

Germanófilo. Palavra bonita.

Nunca me enganaram.

De sexta-feira para cá, durante e depois da queda de Roberto Alvim, as redes sociais se encheram de manifestações de caráter indisfarçavelmente nazistas.

Os nazistas de 2020 nem se resguardaram sob a germanofilia.

Eles saíram do armário e fecharam a porta!

Caetano recebe clarinete de Ivan Sacerdote em álbum de sutilezas

Caetano Veloso, 77 anos, é um mestre da música popular brasileira que dispensa qualquer apresentação.

Ivan Sacerdote, 32 anos, nascido no Rio de Janeiro e radicado na Bahia, é um jovem clarinetista em atividade na cena musical contemporânea de Salvador.

Os dois estão juntos num disco lançado nesta quinta-feira (16) nas plataformas digitais.

Chama-se Caetano Veloso & Ivan Sacerdote.

Quando penso na presença do clarinete na música do Brasil, lembro de Abel Ferreira, Severino Araújo e Paulo Moura.

Abel, vinculado principalmente à tradição do choro.

Severino, ao choro, ao frevo pernambucano e, na condição de grande band leader, ao jazz.

Em Paulo, há Abel, há Severino e há a modernidade da música brasileira que veio depois da Bossa Nova.

Ao puxar Ivan Sacerdote para o seu lado, Caetano Veloso dá novo protagonismo ao instrumento e nos apresenta a um notável músico.

Os sons do clarinete de Ivan, no diálogo com a voz e o violão de Caetano, revelam intimidade com o choro, o samba, o jazz e traz ainda algo do instrumentista de formação acadêmica.

Caetano e Ivan tocavam em casa, informalmente. A ideia de levá-los para o estúdio veio da sensibilidade de Paula Lavigne.

O disco foi gravado em Salvador e em Nova York. Transpõe para o estúdio a espontaneidade de quando eles apenas “faziam som” (não era assim que a gente dizia muitos anos atrás?).

Só que imaginem vocês a qualidade desses dois “fazendo som”!

São nove faixas. Caetano canta em todas e toca violão em oito. Cézar mendes toca violão em uma. Mosquito canta e toca cavaquinho em duas. Ivan põe os sons do seu clarinete em todas elas.

É um disco de grandes sutilezas. Quando não faz improvisações jazzísticas, o clarinete comenta as canções de Caetano, suas linhas melódicas, suas harmonias.

No repertório, há uma bela e melancólica canção que Caetano nunca havia gravado (Você Não Gosta de Mim). Onde o Rio É Mais Baiano e Desde que o Samba É Samba, adornadas pela voz e o cavaquinho de Mosquito, expande os laços que o autor enxerga entre a Bahia e o Rio quando o assunto é o samba. O Ciúme e Peter Gast são duas canções extraordinárias do Caetano dos anos 1980. Trilhos Urbanos é a música mais antiga do disco. Está originalmente em Cinema Transcendental, de 1979. Aquele Frevo Axé, Minha Voz, Minha Vida e Manhatã completam o repertório.

Caetano Veloso & Ivan Sacerdote soa como uma pequena (e nada óbvia) antologia. Canções que não são novas, mas renovadas pela juventude do convidado de Caetano.

Ao dividir um álbum inteiro com Ivan Sacerdote, Caetano Veloso reafirma, mais uma vez, sua atenção permanente aos que vieram depois dele.

A Doce Vida? Oito e Meio? Amarcord? Qual o seu Fellini?

Federico Fellini nasceu em 20 de janeiro de 1920 – 100 anos na próxima segunda-feira.

O grande cineasta italiano morreu em 1993.

Quais são os filmes de Fellini que você prefere?

Os meus são os seguintes:

A DOCE VIDA

OITO E MEIO

AMARCORD

NOITES DE CABÍRIA

OS BOAS-VIDAS

Direita entende mais de cinema do que Academia de Hollywood

No Brasil de hoje, somos testemunhas de um assustador e gravíssimo processo de imbecilização.

Tomem, como ilustração do que estou dizendo, as reações da direita brasileira desde que Democracia em Vertigem, de Petra Costa, foi indicado como um dos cinco filmes que disputam o Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem.

Muitos reagiram. Até o presidente da República (que disse não ter visto o filme), com a incontinência verbal que é marca do seu estilo. E, obviamente, incontáveis pessoas anônimas que se manifestaram nas redes sociais.

Entre uma pretensa ironia e uma indisfarçável falta de inteligência, usaram basicamente o mesmo argumento: como o filme de Petra Costa concorre à estatueta de Melhor Documentário se não é um documentário?

Justo – diz a direita brasileira – seria enquadrá-lo como obra de ficção, posto que distorce a realidade, manipula os fatos.

Os muitos comentários que li deixam dúvida sobre o que é ironia e o que é ignorância mesmo.

Fiquei pensando na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que existe há mais de 90 anos.

O Oscar, cobiçadíssimo prêmio por ela concedido anualmente aos melhores do cinema, também existe há mais de 90 anos.

A julgar por todas essas cabeças pensantes da direita brasileira, a Academia, que já foi presidida por Frank Capra, Gregory Peck e Robert Wise, não sabe distinguir entre um filme de ficção e um documentário (risos!!).

Erra na hora de classificar, por categorias, quem vai disputar as suas estatuetas (mais risos!!).

Somos, então, levados humildemente a concluir: a ultradireita brasileira, esta que chegou ao poder em 2018 levada pelo voto de 58 milhões de eleitores, entende mais de cinema do que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Direitopatas, falta vocês dizerem que Oscar é coisa de comunista!

Nesta segunda-feira (13), Democracia em Vertigem, de Petra Costa, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem.

O documentário de Petra é um grande filme engajado.

É de esquerda, é lulista, é dilmista?

É tudo isso.

E ostenta méritos excepcionais como cinema documental.

Ser parcial não é um pecado. Petra Costa é. Do mesmo modo – querem exemplo melhor? – que Michael Moore lá nos Estados Unidos.

Seu filme chamou a atenção do público e da crítica fora do Brasil. Chamou a atenção de gente que nem conhece direito a realidade política brasileira. E isso ocorreu porque estamos todos diante de um grande filme.

Democracia em Vertigem merece estar na disputa do Oscar de Melhor Documentário. Como merece!

E nós, brasileiros que acreditamos na democracia, merecemos que essa indicação tenha ocorrido. Sim. Porque ela acontece num momento em que o governo brasileiro demonstra que não tem qualquer respeito pelos que fazem cultura e persegue o nosso cinema.

O homem da cultura do governo Bolsonaro foi irônico ao comentar a indicação. Disse que esta faria sentido se fosse na categoria “ficção”. Somente exibiu sua ignorância e sua incapacidade de ocupar o cargo que ocupa. Devia ter ficado calado.

O Oscar é um prêmio importantíssimo e representa a indústria do cinema.

A Europa tem seus grandes festivais de cinema.

Os Estados Unidos têm o Oscar da Academia.

Do jeito que, no Brasil, estamos mergulhados nesse mar de ignorância, não será surpresa se os direitopatas chegarem à conclusão que o Oscar é coisa de comunista!

A direita esperneia. Democracia em Vertigem é indicado ao Oscar

Divulgada nesta segunda-feira (13) a lista dos que concorrem ao Oscar.

Entre as indicações, uma notícia muito importante: o Brasil está na festa.

Democracia em Vertigem, de Petra Costa, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário.

Nesta categoria, outros quatro filmes (American Factory, The Cave, For Sama e Honeyland) disputam a estatueta.

Os vencedores do Oscar 2020 serão conhecidos no dia nove de fevereiro.

Reproduzo texto que escrevi quando vi Democracia em Vertigem.

DEMOCRACIA EM VERTIGEM É FORTE RETRATO DE UM PAÍS DIVIDIDO

O documentário político tem tradição no cinema brasileiro.

Vou destacar um ano em especial: 1984, o ano da campanha pelas eleições diretas para presidente. Em 1984, Jango, de Sílvio Tendler, e Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, chegaram aos cinemas. Eram visões distintas do Brasil da ditadura militar. Jango, sob a perspectiva da elite. Cabra Marcado Para Morrer, do povo.

A cineasta mineira Petra Costa é de julho de 1983. Tinha, portanto, menos de um ano quando esses filmes foram apresentados ao público com êxito superior ao que os documentários costumavam ter. Podemos dizer também que ela tem quase a mesma idade do ciclo democrático iniciado, em 1985, com o fim do regime militar e a volta dos civis à presidência.

Hoje, aos 36 anos, ao realizar Democracia em Vertigem (disponível na Netflix), Petra não só se insere no grupo dos que lançaram mão da linguagem documental para levar a política brasileira ao cinema, como exibe admirável domínio do formato.

Que ninguém cobre imparcialidade de Petra Costa. Não havia no Tendler de Jango nem no Coutinho de Cabra Marcado Para Morrer (ou, para sairmos daqui, muito menos no Michael Moore de Fahrenheit 9/11). Democracia em Vertigem é um filme de esquerda, um documentário que toma partido e precisa ser visto como tal.

O avô de Petra foi fundador da construtora Andrade Gutierrez. Já o pai e a mãe enfrentaram a clandestinidade na luta contra a ditadura. O Petra do seu nome é uma homenagem ao Pedro do líder comunista Pedro Pomar, executado em 1976. A cineasta tem os dois olhares e elementos que outros não têm para se colocar dentro da história.

Democracia em Vertigem é narrado na primeira pessoa. Começa e termina naquele sete de abril de 2018 em que Lula foi preso, depois de passar quase 24 horas dentro da sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, com o prédio cercado por centenas de militantes.

O filme reconstrói essa história recentíssima do Brasil. De vez em quando, revisita o passado. JK e Brasília. A deposição de Jango. As greves do ABC. Mas se debruça mesmo sobre os últimos anos. Lula, Dilma, Temer, as manifestações de 2013, a Lava Jato, Moro, o impeachment, os escândalos, os vazamentos, as prisões.

Reúne grandes imagens e preciosos depoimentos numa narrativa irresistivelmente ágil, no estilo do melhor cinema documental . Emociona quando vemos Brasília do alto ao som da Bachiana de Villa-Lobos ou quando Lula se movimenta entre os políticos no dia da posse, e a música que se ouve é um pequeno trecho da protofonia de O Guarani, de Carlos Gomes. Sons que vão fundo nas raízes do Brasil e no seu destino como Nação.

O PT decepcionou Petra Costa. Isso está no filme. Gilberto Carvalho faz a autocrítica que o PT não fez. Isso também está no filme. Bolsonaro entra em cena com a narrativa já adiantada. Bolsonaro sendo Bolsonaro, defendendo o torturador Ustra, um fenômeno subestimado pela esquerda, pelas forças progressistas, pelo campo democrático.

Jair Bolsonaro foi eleito seis meses depois da prisão de Lula. Sérgio Moro é o ministro da Justiça de Bolsonaro. Lula permanece preso. É o que temos ao final de Democracia em Vertigem. O que o futuro reserva para a democracia brasileira? Esse filme de Petra Costa é muito necessário.

Geraldo Azevedo faz 75 anos. Celebro com a Suíte Correnteza

O compositor Geraldo Azevedo fez 75 anos neste sábado (11).

É um dos grandes nomes entre os nordestinos que conquistaram dimensão nacional na década de 1970.

Geraldinho é inspirado melodista e toca seu violão com invejável habilidade.

É daqueles artistas que, ao vivo, não precisam de banda.

Com repertório autoral que conquistou um público muito fiel, tem domínio total do formato voz & violão.

Tenho particular admiração pelo seu disco de estreia, aquele da Som Livre.

É lá que está a Suíte Correnteza, depois registrada ao vivo no Cantoria 2.

A Suíte Correnteza reúne três músicas: Caravana, Talismã e Barcarola de São Francisco.

Com ela, celebro os 75 anos de Geraldo Azevedo.

Toffoli derruba censura ao Porta dos Fundos. Fez o que é certo

Na quarta-feira (08), um desembargador do Rio de Janeiro censurou o especial natalino do grupo Porta dos Fundos.

Mandou que a Netflix não mais disponibilizasse aquele conteúdo.

O desembargador rasgou a Constituição de 1988.

Não existe censura no Brasil.

É conquista fundamental da democracia.

O texto constitucional é claro:

“é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”

“é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” 

Nesta quinta-feira (09), o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, concedeu liminar autorizando a Netflix a manter o especial em sua programação.

Toffoli apenas fez o que é certo.

O ministro seguiu a Constituição.

Não adianta estrebuchar!