Chico Buarque faz música porrada sobre nosso apartheid social

Muita gente critica Chico Buarque por ele apoiar o PT, Lula, Dilma.

Muita gente não quer mais ouvir suas músicas por causa disso.

Acho uma confusão própria desse momento de intolerância que estamos vivendo. Uma pena.

Lembrei disso ouvindo pela enésima vez Caravanas, o novo disco de Chico.

Ele não leva preferências partidárias para seu cancioneiro. Pois é. E, quando sai do pessoal para o coletivo, escolhe outro caminho. É o que temos em As Caravanas, última faixa do CD.

As Caravanas é o que a gente pode chamar de música porrada!

Sim! Uma música porrada sobre nosso apartheid social!

Forte! Contundente! Corajosa! Admirável!

Chico Buarque no seu melhor!

Ouçam.

No início dos anos 1980, fui ao cinema e vi o trailer de A Idade da Terra, que era o novo filme de Glauber Rocha.

Uma frase do grande cineasta brasileiro, que ouvíamos na voz dele naquele trailer, ficou na minha cabeça:

“Na verdade, o que existe é o mundo rico e o mundo pobre”.  

Capitalistas ricos, capitalistas pobres. Socialistas ricos, socialistas pobres.

Parecia Dom Hélder Câmara, mas era Glauber Rocha.

A frase, jamais deletada, remete a um problema crucial do Brasil tanto quanto a música de Chico: as (até aqui) insolúveis desigualdades sociais. A necessidade de uma melhor distribuição de renda.

Tema antigo, permanente, mas sempre colocado em segundo plano. Como agora, enquanto quadrilhas de diferentes matizes ideológicas assaltam o Estado sem que precisem disfarçar que o fazem.

As Caravanas é sobre os pobres do subúrbio ou da favela que “invadem” a praia da classe média no domingo.

No verso “a culpa deve ser do sol”, a melodia se confunde intencionalmente com a de Caravan, clássico do repertório de Duke Ellington.

O arranjo tem o toque contemporâneo do funkeiro Rafael Mike, do Dream Team do Passinho. Quer dizer que Chico não está alheio ao funk carioca. Nem contaminado pelo preconceito que atinge as pessoas de “bom gosto” que idolatram sua música, mas fecham os olhos para manifestações que não deveriam ignorar.

A letra é devastadora!

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
É, diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné

As Caravanas ficará, no futuro, como uma das grandes músicas de Chico Buarque?

Espero que sim!

Em “Os Dias Eram Assim”, ditadura militar não foi ficção

Para Bete Mendes

O último capítulo de Os Dias Eram Assim foi exibido na noite desta segunda-feira (18).

Desfecho de novela é sempre insatisfatório. Muita coisa para resolver de uma só vez. Na supersérie do horário das 11, não foi diferente.

Alice sobreviveu ao tiro que levou de Vítor, que morreu num acidente de carro. O filho de Rimena e Gustavo nasceu durante a missão humanitária na América Central. Nanda morreu em consequência da AIDS. Ernesto cumpriu pena pelo assassinato de Arnaldo e voltou para os braços de Vera. Amaral e Natália, em lados opostos, viraram deputados constituintes.

A trama terminou no país que se redemocratizava, na segunda metade dos anos 1980. Mas um salto no tempo (resumido com alguns fatos marcantes, reais, do Brasil e do mundo) jogou o casal Alice e Renato no Brasil de hoje.

Nós e nossos impasses. Vou traduzir assim. Ou: nós e nossas eternas esperanças.

Os Dias Eram Assim passou cinco meses no ar. Vi todos os capítulos.

É uma novela igual às outras. Com virtudes e defeitos.

Para mim, a grande contribuição foi falar claramente sobre a ditadura militar.

É preciso falar. Tem gente defendendo a volta dos militares. Tem gente defendendo a tortura. Tem gente dizendo que nem houve ditadura!

É importante, então, ver como foi numa trama que mistura ficção com realidade.

No último capítulo, a personagem Cátia lançou um documentário chamado Os Dias Eram Assim. A personagem foi presa e torturada. A mãe dela, Natália, foi estuprada na prisão.

O documentário começa com uma fala da atriz Bete Mendes e segue com depoimentos de outras vítimas da ditadura. Essa parte não é ficção. É realidade!

O bom é que o documentário não está só na trama. Ele existe de verdade e está disponível na Globo Play. Dura 10 minutos.

É a ficção nos dizendo que aquilo tudo não é ficção.

Novelas como Os Dias Eram Assim servem pra isso.

Uma espectadora de 80 anos, fã de novelas, me disse que gostava de ver a supersérie.

Ela, carinhosamente, batizou Os Dias Eram Assim com suas palavras: a novelinha da ditadura.

A luta continua!

Nunca houve um guitarrista como Jimi Hendrix!

Para Alex Madureira, que levou os sons de Hendrix para Jaguaribe

Jimi Hendrix é o maior guitarrista de todos os tempos. Um lugar comum. Mas está certo!

Os garotos que hoje estudam o instrumento e têm às mãos todos os recursos tecnológicos farão coisas inacreditáveis com uma Fender semelhante à de Hendrix. Mas não inventarão nada. Não escreverão a gramática, nem a história, como Jimi fez numa carreira tão intensa quanto meteórica, entre 1966 e 1970.

Ele foi descoberto em Londres, na época em que os Beatles e os Rolling Stones comandavam a cena roqueira da cidade, e impressionou todos os que puderam vê-lo ao vivo. Os melhores guitarristas – gente como Eric Clapton e Jimmy Page – ficaram perplexos. E quiseram desistir.

Dizer que a guitarra é extensão do corpo de Jimi Hendrix é outro lugar comum. Tanto quanto classificá-lo como o maior de todos os guitarristas. Mas também é verdade. Com o instrumento colado ao corpo, ou dando voltas ao redor deste, às vezes tocando com a boca, Hendrix ultrapassa os limites das convenções musicais.

Produz ruídos que se misturam ao que não é ruído. Notas certas no lugar certo fundidas a notas que poderiam ser consideradas incorretas. Acordes que não estão nos manuais, dedos pressionando cordas e trastes como ninguém ousaria fazer. Invenção pura. Resultado excepcional.

Como as cores que um gênio da pintura joga numa tela.

Hendrix lançou três discos gravados em estúdio antes de morrer aos 27 anos, em 18 de setembro de 1970. Mas a discografia é extensa. Alguns dos muitos discos póstumos estão à altura da sua importância. Há fabulosos registros ao vivo. Também em estúdio.

Todo o material foi recuperado, restaurado à luz dos mais avançados recursos tecnológicos disponíveis nos estúdios da era digital. A família cuida bem da memória e do legado musical.

Os sons que produziu na guitarra Fender já atravessaram quase cinco décadas desde que Jimi Hendrix morreu, há 47 anos. E permanecem ousados e modernos.

Se tiverem boa vontade (e bons ouvidos), os garotos de hoje facilmente confirmarão!

Zezé Di Camargo, eu vi a ditadura sexta à noite na Rede Globo!

Para mim, foi um dos assuntos da semana:

Zezé Di Camargo, em entrevista a Leda Nagle, disse que não houve ditadura no Brasil.

Para ele, foi militarismo vigiado.

Fez pior: defendeu que os militares voltem para arrumar a casa e depois devolvam aos civis.

Repito o que já escrevi aqui:

O cantor perdeu uma grande chance de ficar calado!

Vendo TV, nesta sexta (15) à noite, pensei na entrevista de Zezé, a quem respeito como representante do nosso sertanejo pop.

Primeiro, por causa do penúltimo capítulo da super série Os Dias Eram Assim.

Durante uns cinco meses (vi todos os capítulos!), o tema ditadura militar no Brasil esteve presente na trama das 11 da noite da Globo.

É importante! É uma história que não pode ser apagada!

Antes que muitos repitam por aí o que Zezé Di Camargo disse.

Depois, vi Pedro Bial entrevistando Caetano Veloso.

Uma conversa que se estendeu por 60 minutos. Caetano e seus filhos, Moreno, Zeca e Tom, agora reunidos num show que estreia em outubro.

E lá estava também o tema ditadura militar no Brasil.

Conversando com Bial sobre a nova edição do livro de memórias Verdade Tropical, Caetano falou do período em que foi preso pelos militares. Ele e Gilberto Gil.

O episódio da prisão é minuciosamente narrado num dos capítulos do livro.

Pois bem, Zezé, houve ditadura militar no Brasil, sim!

A foto que escolhi para fechar esse post é uma das mais fortes imagens da violência do regime de exceção que se estendeu por 21 anos:

O jornalista Vladimir Herzog morto no DOI-CODI, em São Paulo.

Domingos Montagner morreu há um ano

Nesta sexta-feira (15), faz um ano que morreu o ator Domingos Montagner, na reta final da novela Velho Chico. Aos 54 anos, por afogamento no Rio São Francisco.

A morte de Montagner comoveu os brasileiros.

Republico o que escrevi naquele dia.

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A precocidade, a circunstância trágica, o talento, a beleza física, o sucesso, o reconhecimento, a força do personagem. Tudo se mistura em meio à perplexidade até de quem não acompanhava tão atentamente a novela, mas o suficiente para perceber quantos diferenciais há nela.

A morte de Montagner fala da relação afetiva que construímos com atores e atrizes e seus personagens. E do quanto são dolorosas essas perdas. Como se elas ocorressem bem perto de cada um de nós. Mortes assim assustam porque falam do imprevisível e da brevidade da vida.

Lembro aqui de Jardel Filho, o grande ator de Terra em Transe, levado por um ataque cardíaco durante Sol de Verão. Ou de Sérgio Cardoso, o eterno Antônio Maria, que nos deixou antes de terminar O Primeiro Amor. Ou, ainda, da jovem Daniela Perez, assassinada por um colega de elenco e pela mulher dele quando fazia De Corpo e Alma.

A arte imita a vida é um clichê.

Na trama, Santo desapareceu nas águas do Velho Chico para ressurgir lá na frente.

Na vida real, Montagner morreu nas águas do São Francisco.

A vida a imitar a arte – não há como fugir da inversão do clichê!

Nem do verso de Tom Jobim, que a gente ouvia na trilha de uma novela, uns 25 anos atrás:

Longa é a arte, tão breve a vida!

Exposição dos Beatles é viagem numa cápsula do tempo

Em 1972, aos 13 anos, perguntei ao meu pai:

Será que ainda vamos ouvir os Beatles daqui a 30, 40 anos?

E ele respondeu:

Em 30, 40 anos, os Beatles serão estudados nas universidades!

Pensei nessa conversa quando entrei, nesta quinta-feira (14), na exposição Beatlemania Experience, aberta ao público a partir desta sexta (15), no Shopping Recife.

Tocava Strawberry Fields Forever.

Vi logo as roupas usadas em I Am the Walrus e a capa de A Hard Day’s Night aumentada.

No lugar de uma das fotos de George, o visitante bota a sua cara.

Começa a viagem.

O caminhão que serviu de palco para John tocar em 1957, no dia em que Paul conheceu o futuro parceiro.

O Cavern. Ah, o Cavern! Seu palco diminuto, os instrumentos prontos para o show.

Os discos, os instrumentos.

As roupas. Os terninhos, os fardões.

A cabine do trem de A Hard Day’s Night. Irresistível!

O submarino amarelo. Você dentro dele. Os mares passando nas escotilhas. Mar dos monstros. Mar do tempo. O tempo da gente passando. “Quando eu tiver 64 anos!”.

A faixa de pedestres de Abbey Road.

O sitar de George.

O piano branco de John.

A multidão aos gritos no Shea. Você dentro dela. Os quatro caras ali, na sua frente!

Beatlemania Experience é uma bela viagem. Mexe com os fãs. Produz alegria e tristeza. E é bom que seja assim. Faz passar o filme que está guardado em nossa memória afetiva. Rebobina muita coisa. O significado que tudo aquilo teve. Tem! As canções que atravessam as décadas, as ideias generosas dos anos 1960. O contraste com esse mundo pragmático em que vivemos, meio século depois do Pepper.

O mundo dos Beatles representa sua época.

A exposição tenta traduzir esse mundo, colocando-o dentro de uma cápsula por onde a gente passeia por duas, três horas.

Nada é real! Tudo é real!

Depende dos nossos ouvidos! E dos nossos olhos!

Retrato do artista diante da morte

Mexendo no Youtube, reencontro esse vídeo que muito me comoveu quando o vi pela primeira vez, em 2010, por ocasião da morte do músico Paulo Moura.

Resgato, então, o texto que escrevi na época.

Comovente a imagem de Paulo Moura tocando Doce de Coco dois dias antes de morrer, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Ele se foi na segunda, 12 de julho. A gravação é do sábado, 10. Sentado, com o braço direito ligado ao soro, Moura executa ao clarinete o tema composto por Jacob do Bandolim e é acompanhado por um piano elétrico. Parece estar na varanda de um quarto da clínica onde passou seus últimos dias.

A execução é imprecisa, os improvisos não soam como nos discos que gravou ou nos palcos em que se apresentou, mas não importa. O que procuramos ali não é mais o homem no abismo da improvisação. O que temos naquelas imagens e naqueles sons é um homem diante da morte. E certamente consciente da proximidade dela.

O músico que o acompanha não aparece. A câmera se detém em Paulo Moura, enquadrado sempre em primeiro plano. Às vezes, num big close que nos deixa ver seus olhos claros. O chapéu remete a Tom Jobim, de quem, em seu último disco, gravou algumas composições num formato que chamou de AfroBossaNova. É Moura ao lado do bandolinista Armando Macedo, relendo Tom com uma “pegada” afro-baiana. Dialogando – quem sabe? – com os afro-sambas de Baden e Vinícius. Ou com os precursores destes (Água de Beber, O Morro Não Tem Vez).

Vi Paulo Moura ao vivo pela primeira vez no Teatro Santa Roza, no Projeto Pixinguinha de 1978. Na última vez em que esteve aqui, trouxe o AfroBossaNova para a Praça do Povo do Espaço Cultural, numa noite de chuva torrencial e pouco público. Durante o show, disse a um amigo que estava ao meu lado: “Contemple. É Paulo Moura aos 75 anos, tocando Tom”.

Nos bastidores, conversamos sobre música: os sambas de Jobim que parecem antecipar os afro-sambas de Baden e Vinícius; as lembranças do histórico show da Bossa Nova no Carnegie Hall; a sua presença no palco, a de Oliver Nelson na plateia. Nelson e The Blues and the Abstract Truth, disco extraordinário do jazz.

E lembrei dos discos que gravou. Dos que prefiro: Confusão Urbana, Suburbana e Rural, que tem Espinha de Bacalhau, de Severino Araújo; e Mistura e Manda, que inverte o formato usualmente adotado pelos músicos de jazz, do improviso dando sequência ao tema. Em Chorinho pra Você, também de Severino Araújo, o improviso vem antes do tema.

Volto à Clínica São Vicente. No final da execução de Doce de Coco, os amigos ao redor aplaudem. Wagner Tiso chega perto e lhe dá um abraço. Paulo Moura beija o clarinete. A mulher que está ao seu lado também beija o instrumento. Vejo a imagem pensando que apenas dois dias separavam o artista da morte.

David Gilmour ao vivo em Pompeia é somente hoje nos cinemas

Nesta quarta-feira (13) à noite, os cinemas vão exibir, uma única vez, o concerto que o guitarrista do Pink Floyd, David Gilmour, fez no ano passado na arena de Pompeia.

O mesmo lugar onde, no início da década de 1970, o Pink Floyd tocou e teve a performance filmada.

O acesso fácil permitido pelos avanços tecnológicos banalizou essas coisas. Mas não era assim no tempo em que vimos a banda tocando em Pompeia.

Faço parte de uma geração que viu num programa chamado Sábado Som, da Rede Globo.

Com ou sem estímulos outros, foi uma “viagem”, como dizíamos na época.

Agora, vemos um pedaço do Pink Floyd no cinema com áudio e vídeo impensáveis há quarenta e tantos anos.

Um dia desses foi Havana Moon, dos Rolling Stones, mas João Pessoa ficou de fora.

Hoje é David Gilmour Live at Pompeii, e João Pessoa está entre as cidades que exibirão o concerto, antecipando em duas semanas o lançamento do CD, DVD e Blu-ray de David Gilmour.

O show de Gilmour em Pompeia tem três horas de duração.

O set list mistura clássicos do Pink Floyd com músicas da carreira solo do guitarrista.

Em João Pessoa, a sessão será às oito da noite numa das salas do Cinépolis Manaíra.

Os ingressos estão esgotados.

Fiquem com um preview do concerto.

Baterista do Pink Floyd compartilha vídeo de brasileiro que canta em falso inglês!

Parece mentira, mas não é!

O baterista do Pink Floyd, Nick Mason, compartilhou no Facebook o vídeo do brasileiro que canta o hit Another Brick in the Wall em falso inglês.

Vejam o vídeo que viralizou:

Está aí! Este é o piauiense José da Cruz Silva, o Gleyfy Brauly!

E este é o compartilhamento na página oficial do baterista Nick Mason:

Zezé Di Camargo perdeu uma grande chance de ficar calado!

Virou notícia. Li hoje (12) cedo na Folha.

Numa entrevista a Leda Nagle, o cantor Zezé Di Camargo, da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano, disse que não houve ditadura militar no Brasil.

Começo com uma ilustração: foto de Evandro Teixeira das manifestações de 1968.

Está na antologia do fotojornalismo brasileiro. A imagem ganhou o mundo.

Mas Zezé Di Camargo acha que não houve ditadura militar no Brasil entre abril de 1964 e março de 1985.

O que houve, segundo o cantor, foi um militarismo vigiado.

Ditadura, para Zezé, é outra coisa!

Não reconhecer que o Brasil passou 21 anos sob uma ditadura militar não é a única barbaridade dita pelo cantor na entrevista a Leda Nagle (a jornalista, aliás, é prima de Fernando Gabeira, preso, torturado e exilado pela ditadura).

A outra barbaridade é defender uma intervenção no momento atual. Algo assim: os militares entram para arrumar a casa e depois entregam aos civis.

Foi com esse argumento que eles depuseram Jango em 1964.

E mergulharam o Brasil numa longa noite que durou 21 anos!