Perdemos Eva Wilma, estamos de luto, e eu quero contar uma pequena história dela com Carlos Zara

Nós todos, que amamos o que os artistas produzem e que sem a arte não vivemos, estamos de luto.

Neste sábado (15), o Brasil perdeu uma das suas grandes atrizes.

Eva Wilma, 87 anos, morreu de câncer num hospital em São Paulo.

Eva Wilma, que era do teatro, da televisão e do cinema, foi casada com o ator Carlos Zara. E é sobre o casal que quero contar uma pequena história, coisa de uns 30 anos atrás.

Os dois estavam em João Pessoa para apresentar, no Teatro Paulo Pontes, o espetáculo Cartas de Amor.

Era final da tarde, e eu estava no hall do teatro em busca de um convite que havia sido reservado para mim, quando vi Eva Wilma e Carlos Zara chegando.

Sozinhos, procuraram a porta de entrada e desceram em direção ao palco.

A sala estava praticamente escura, havia alguma luz no palco.

Eu os segui e sentei na plateia.

Sabem aquele momento que você sente que deve ser contemplado?

Uma grande atriz, um grande ator, chegando com horas de antecedência para – vou usar a expressão que os músicos usam – “passar o som”.

Às vezes, a “passagem do som” é mais rica e mais bonita do que o próprio espetáculo porque revela segredos que a direção deixou de fora. Ou porque desnuda os artistas, as convergências, as divergências, o que eles são de fato.

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Em resumo, porque os humaniza ali diante dos nossos olhos.

O cenário, se não estou enganado pelo tempo que me separa dessa experiência, era uma mesa.

O homem numa ponta. A mulher na outra. Cada qual lendo suas cartas.

Vi o que o público que, mais tarde, lota o teatro, não vê. Nem ao menos imagina a infinita grandeza contida naquilo.

Eles liam partes do texto. Discutiam um pouco, discordavam, achavam que ainda não estava bem.

Registrei na minha memória o que sabia que seria único. Que, ao menos diante dos meus olhos, jamais se repetiria.

Vou confessar:

Foi tão belo, foi tão deslumbrante vê-los ali, Eva Wilma e Carlos Zara – fundidos entre os grandes artistas que eram e as pessoas de carne e osso iguais a nós – que, no momento em que eles se retiraram do cenário e desceram para o camarim, fui para casa e não mais voltei.

Anos depois, quando ele já não era mais vivo, contei para ela essa história, nos bastidores de uma entrevista na TV Cabo Branco.

E ela, com lágrimas nos olhos, me disse:

“Como eu o amei!”.