Política 5:44

Tomei a primeira dose da vacina e não senti qualquer emoção!

Fui vacinado neste sábado (03) em João Pessoa.

Tomei a primeira dose da Coronavac (Foto: divulgação), do Instituto Butantan, aquela que o presidente Jair Bolsonaro chamou de Vachina.

Escolhi a Escola Leonel Brizola porque soube que ali não havia um grande movimento, mas achei simbólico que tenha sido num lugar com o nome desse grande brasileiro – um político cujo sonho era educar muito bem as nossas crianças.

Também achei simbólico que o ex-governador Ricardo Coutinho estivesse na mesma fila que eu.

Já vacinado, ele passou por mim, e nos cumprimentamos brevemente, como mandava a ocasião.

A Ricardo podem ser atribuídos muitos defeitos e grandes erros, mas, quero ser justo, tenho a convicção absoluta de que, sob o seu governo, a Paraíba estaria enfrentando com muito maior eficiência e coragem a pandemia do novo coronavírus.

Acho importante que pessoas públicas – cantores, compositores, atores, atrizes, políticos – postem fotos sendo vacinadas, e que isto vire notícia.

Sim, porque, do outro lado, há um governo que tem grande responsabilidade sobre a dimensão dessa tragédia que ora enfrentamos.

Mas, sendo muito sincero, discordo dos anônimos – gente como eu e você – que fazem isso. É, em muitos casos, mais um gesto que faz parte dessa incontrolável necessidade de exibição do mundo atual.

Vacina, sim.

Viva o SUS.

Viva a ciência.

Aplausos para todos os profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate à Covid-19.

E – se quiserem – fora Bolsonaro.

Bolsonaro genocida.

Impeachment já.

Concordo com tudo isso.

Mas, me perdoem, tomar a vacina foi uma outra coisa para mim.

Emoção?

Zero!

Alegria?

Zero!

Apenas a consciência do quanto é imprescindível ser vacinado. Do quanto a população brasileira precisa ser vacinada em massa e de forma muito mais veloz do que está sendo.

Meu real sentimento, naquele ginásio da Escola Leonel Brizola e depois que saí dele, foi de tristeza.

Tristeza porque o Brasil perdeu o controle da pandemia.

Tristeza porque mais de 330 mil brasileiros perderam a vida e logo serão 400 mil.

Tristeza por causa do colapso hospitalar.

Tristeza por causa do quase colapso funerário.

Tristeza pelas pessoas próximas que morreram e pelas figuras públicas que amamos e que não estão mais entre nós.

Tristeza porque o Brasil não tem até hoje um plano de enfrentamento da pandemia elaborado pelo governo federal.

Não fosse a ação de governadores e prefeitos, estaríamos em situação muito pior.

Tristeza porque o presidente sabotou o combate à doença, sabotou a vacina e desautorizou (desautoriza) sistematicamente os seus ministros da Saúde.

Tristeza porque o presidente estimulou a população a não usar máscaras e a provocar aglomerações.

Tristeza porque o presidente defendeu o uso de medicamentos que a ciência comprovou ineficazes.

Tristeza porque, enquanto os hospitais estão cheios de pacientes intubados, o presidente está pensando em aventuras autoritárias.

Tristeza porque as instituições tardam em fazer algo para deter o presidente, evitando um desastre político, institucional e econômico ainda maior do que o que já temos.

Tristeza, em síntese, porque estou às vésperas dos 62 anos e jamais testemunhei no Brasil tragédia com a dimensão dessa de agora.

E, sobretudo, porque continuamos sem luz alguma no fim do túnel.

Deus nos proteja! – é o que, com as mãos para o alto, devem bradar o tempo todo os que creem.