Música 8:00

RETRO2020/A Covid-19 levou Aldir Blanc antes da hora

A morte de Aldir Blanc (Ilustração: capa do CD Vida Noturna) faz a gente pensar em grandes parcerias da música popular brasileira.

Luiz Gonzaga & Humberto Teixeira e as canções rurais que puseram o Nordeste no mapa do nosso cancioneiro.

Tom Jobim & Vinicius de Moraes e os sambas que reinventaram o samba e projetaram o Brasil internacionalmente com uma música de altíssima qualidade.

Roberto & Erasmo Carlos com a leitura nacional de um fenômeno pop – o rock – que conquistou a  juventude em escala planetária.

João Bosco & Aldir Blanc com os sambas – novamente eles – que nasceram numa longa noite brasileira, mas que sobreviveram a esta graças ao que há de eterno nas suas histórias e personagens.

A morte de Aldir Blanc também faz a gente pensar que, na música popular, o Brasil é um país de extraordinários letristas.

Noel, Caymmi, Vinícius, Chico, Caetano, Gil, Brant.

Aldir era um deles.

Fez, em letras de música com status de poesia, a crônica de um tempo e de um lugar. Só que soube dar a essa crônica um caráter de permanência, de atemporalidade.

O trágico e o cômico do ser humano ele traduziu a partir do Rio de Janeiro, dos subúrbios, dos botequins, dos cabarés, dos terreiros, do futebol, das cenas de crime, dos amores.

Aldir Blanc fez coisas muito bonitas sem João Bosco.

João Bosco fez coisas muito bonitas sem Aldir Blanc.

Mas o gigante Aldir que fica guardado em nossa memória afetiva é o parceiro de Bosco.

Como esse artista excepcional que temos em Bosco é o parceiro de Aldir.

No fundo, no fundo, um só existe com o outro, formando a dupla João Bosco & Aldir Blanc.

O mineiro Bosco (um craque no violão e no canto) e o carioca Aldir (um psiquiatra que trocou a medicina pela vida boêmia e pela música popular) ainda encontraram pela frente uma intérprete da dimensão de Elis Regina.

Nossa maior cantora gravou várias músicas deles, algumas em versões definitivas.

Poucas músicas de João Bosco & Aldir Blanc me comovem tanto quanto O Rancho da Goiabada. Na gravação do autor, seguindo a fórmula clássica da marcha-rancho. Na de Elis, ganhando maior dramaticidade. É um retrato permanente do Brasil dos desvalidos, dos excluídos com seus sonhos irrealizáveis. Atualíssima.

Bodas de Prata é outra que sempre me tocou profundamente. A mulher, em casa, à espera do homem que tem uma amante. “É o tempo, Maria/Te comendo feito traça/Num vestido de noivado” – escreveu Aldir nos versos finais da canção.

Esses caras – João Bosco & Aldir Blanc – me pegaram lá no começo da carreira deles. No disquinho de bolso do Pasquim.

Agnus Sei. Lembram?

“Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã”.

Será? É o que me pergunto desde que, dentro de mim, o pessimismo foi tomando o lugar do otimismo.

Mas há o verso final: “Responderei não!”.

Era um brado forte, urgente e necessário na época em que a música foi lançada, no início dos anos 1970.

Na ditadura, Aldir Blanc lutou pela democracia.

Morreu num momento em que há gente na rua defendendo caminhos antidemocráticos.

Como na letra do seu samba com Maurício Tapajós, o Brasil pede socorro ao Brasil.