Cinema 6:21

Jean-Luc Godard, cineasta da ruptura e da reinvenção, faz 90 anos

Jean-Luc Godard faz 90 anos nesta quinta-feira (03).

Não é possível ver os seus filmes sem enxergar neles a assinatura de um dos maiores cineastas do mundo.

Em Godard, a criação se deu através da ruptura com a tradição e da reinvenção da linguagem do cinema.

Ele não é, portanto, da linhagem também imprescindível dos que formularam a escrita, mas do grupo que a reformulou.

Acossado, seu primeiro longa, foi realizado em 1959 por um homem de 29 anos.

Não seria o que é sem o que houve antes: a crítica exercida nos Cahiers du Cinéma, publicação que teve Godard – e também François Truffaut, Claude Chabrol e Jacques Rivette – como um dos seus colaboradores.

Aqueles jovens cineastas que, na França da virada dos anos 1950 para os 1960, migraram com êxito da crítica para a realização ofertaram ao mundo do cinema uma das suas revoluções: o movimento que ficou conhecido como Nouvelle Vague.

Quando vemos Acossado, a estreia de Godard, e Os Incompreendidos, a estreia de Truffaut, percebemos logo que os dois nomes principais da Nouvelle Vague trilharão caminhos não apenas distintos, mas opostos.

Em Truffaut, está longe de haver a ruptura que há em Godard.

Os Incompreendidos é quase canônico, ainda que extraordinário. Acossado, não. É um negócio absolutamente novo, transformador, influenciador de muito do que se viu no cinema dali por diante.

O melhor do cinema de Jean-Luc Godard está nos anos 1960.

Acossado é o verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague, escreveu Jean Tulard em seu Dicionário de Cineastas.

Seguem-se A Mulher é uma Mulher e Viver a Vida e O Desprezo e Bande à Parte e Uma Mulher Casada e Alphaville e O Demônio das Onze Horas e Masculino-Feminino e A Chinesa e Weekend à Francesa.

São filmes essenciais à compreensão do cinema dos anos 1960. Alguns, à própria compreensão daquela década turbulenta. Mas não são filmes fáceis.

O cinema de Godard é de difícil assimilação, e o tempo o tornou cada vez mais árido. O cineasta é um inquieto ativista no campo da estética e um artista permanentemente movido pelas incertezas ideológicas.

Em meados da década de 1980, Je Vous Salue, Marie escandalizou os católicos do mundo ao atualizar a história da concepção em Maria. No Brasil, pressionado pelo clero, o governo Sarney interditou o filme, episódio vergonhoso num país que dava os primeiros passos rumo à redemocratização. Todos acabaram vendo este Godard menor em seus aparelhos domésticos de vídeo.

Godard envelheceu fazendo cinema. Os cinéfilos que amam os filmes da sua juventude, com certeza, permanecem enxergando a beleza dos seus trabalhos recentes. Por mais herméticos que eles sejam. Como não se deixar seduzir, por exemplo, pelas imagens de Filme Socialismo, de uma década atrás? É algo semelhante a amar o Glauber Rocha de Deus e o Diabo na Terra do Sol e não compreender o delírio final de A Idade da Terra.

Godard, nós – que amamos o cinema – o saudamos!