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Joan Baez apertou minhas mãos com força, sorrimos, e eu pedi uma canção de Bob Dylan

“Cantei essa música em Woodstock, cantei para Martin Luther King, cantei ao redor do mundo. Agora, canto para vocês”. Foi o que Joan Baez disse antes de fazer Swing Low, Sweet Chariot para a plateia do Recife. O ano, 2014.

A fala trouxe a cantora e sua história para junto de nós numa noite mágica e inesquecível. Não mais a capela, como em Woodstock, mas com voz e violão, o spiritual pode resumir o que é ver Baez de perto. Grandeza e absoluta simplicidade. A sua dimensão projetada ali num concerto de pouco mais de uma hora. A voz de soprano, já com registros menos agudos, mas igualmente bela. O violão com suas cordas de aço e uma sonoridade muito familiar. A mesma que ouvimos através das décadas do nosso tempo. E continuamos a ouvir. Depois de todos esses anos.

Vi Joan Baez a três dias da data em que o golpe de 64 completaria meio século. A coincidência teve uma força simbólica. Baez é parte dos sonhos e das ideias generosas de uma geração. A impossibilidade de realizá-los tornou ainda mais bonito o seu recital. Uma evocação. Nostálgica, sim. Melancólica, por que não?

Baez, sua voz, seu violão, dois músicos, 21 canções. Dos spirituals ao Vandré de Caminhando ou ao nosso Cálice, que os censores impediram Chico e Gil de cantar em 1973. De Dylan a Lennon. Do folk de lá ao folk de cá, em Muié Rendeira. Mais a latinidade de Gracias a la Vida, que remete a Violeta Parra, Mercedes Sosa e Elis.

Fiz com Joan Baez o que nunca havia feito em tantos anos de amor à música e de muitos shows ao vivo. Na reta final do programa, corri para a beira do palco e me pus a fotografá-la com o celular. Olhei nos olhos dela, contemplei as expressões do seu rosto e os movimentos da sua boca em Imagine e Blowin’ in the Wind. Também no spiritual Amazing Grace, feito a capela com as vozes de uma plateia emocionada.

Fui recompensado. Depois de abraçar um rapaz ao meu lado e de ouvir um “quero também” no meu Inglês precário, ela estendeu as duas mãos e apertou as minhas com força. Quando as soltou, olhou para mim, sorrimos, e ela repetiu o gesto. Entre um aperto e outro, a foto sem qualidade tenta eternizar o momento.

Mãos quentes e firmes.

As dela.

As minhas estavam geladas.

“I don’t believe it!”, foi tudo o que consegui dizer, antes de pedir uma canção de Dylan que ela, prontamente, cantou.