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No Dia do Músico, Moacir Santos, afetos e Nanã

Para Teco Cardoso e Mônica Salmaso

Em 1985, estava na redação de A União quando fui abordado pelo compositor Livardo Alves. Ele me chamava para ir a uma loja na Guedes Pereira conhecer Moacir Santos. Não acreditei que fosse verdade. Mas era. Moacir, pernambucano com uma passagem pela João Pessoa da década de 1940, ficara conhecido, no Rio, como arranjador, autor e saxofonista. Foi professor de músicos como Baden Powell, João Donato e Sérgio Mendes, parceiro de Vinícius de Moraes e morava na Califórnia desde a segunda metade da década de 1960. Àquela altura, beirando os 60 anos, estava no Brasil para tocar, como homenageado, no Free Jazz Festival.

Livardo Alves me levou ao lugar onde Moacir conversava com velhos amigos. Entrei na roda e marquei uma entrevista para o dia seguinte, na redação de A União. Pedi que levasse o sax. Chegou lá com o instrumento na mão e começamos a conversar. Disse que estava em João Pessoa para o cumprimento de uma paixão da sua sensibilidade. E explicou: “Os dois lugares que mais marcaram a minha vida são Flores, onde me criei e tive a primeira noção da vida, e João Pessoa, onde me tornei cidadão”. Na entrevista, Moacir me disse que, se o rock não contivesse alguma verdade, não teria durado tanto tempo. Mas que preferia o jazz porque suas células musicais são mais desenvolvidas.

Na segunda metade da década de 1990, Moacir Santos veio algumas vezes a João Pessoa. Ficamos muito próximos. Adorava ouvi-lo contar histórias intermináveis em Jaguaribe, no terraço da casa de Vicente, um amigo que fez na juventude. Eu quase não falava. Os seus relatos eram tão significativos que bastava escutá-los. “Sílvio, os afro-sambas de Baden e Vinícius me incendiaram…”, e lá se punha a falar do ex-aluno Baden Powell. “Eu não dava aula, nós ficávamos tocando durante horas…”, contava com a voz mansa, o olhar perdido em algum lugar do passado. Quando Baden, Jobim e Donato iam à sua casa no Rio e passavam a madrugada procurando “aquele” acorde.

Moacir quis me levar para a Sociedade Teosófica. Recomendou a leitura de um livro de Helena Blavatsky e combinou que, na próxima viagem ao Brasil, conversaríamos sobre o assunto. Um dia, recebi um telefonema. Estava em João Pessoa e queria saber minhas impressões sobre o livro. Com muita delicadeza, expliquei que respeitava profundamente suas convicções, mas que elas não me interessavam. Enquanto falava, o suor desceu pelo meu rosto. Não queria decepcionar o amigo na sua tentativa de me converter. Moacir ouviu em silêncio meus argumentos e disse em seguida: “Sílvio, todos os homens são irmãos, mas agora, diante da sua sinceridade, posso dizer que somos irmãos duas vezes. Uma, porque já somos naturalmente. Outra, pelo quanto você foi verdadeiro comigo”.

Em nosso último encontro, recebi dele o álbum Ouro Negro. No encarte, fez uma dedicatória com letras douradas. Ainda nos falamos algumas vezes por telefone. Os temas eram ligados à música: o refinamento das canções de Duke Ellington, o grito de I Wanna Hold Your Hand, a dificuldade de cantar o Hino Nacional, a riqueza rítmica de In The Mood, os modos litúrgicos em Luiz Gonzaga. Conversas inesquecíveis. Moacir Santos, que os americanos chamaram The Maestro, morreu aos 80 anos, em agosto de 2006. Não resistiu a um segundo AVC. O primeiro o impedira de tocar piano e sax.