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O amor de Paulinho da Viola no Recife era uma mulher empoderada e à frente do seu tempo

A razão porque mando um sorriso
E não corro
É que andei levando a vida
Quase morto
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que voltarei depressa
Tão logo a noite acabe
Tão logo este tempo passe
Para beijar você

Paulinho da Viola está fazendo 78 anos nesta quinta-feira (12).

Já contei e conto de novo uma história que muitos não conhecem.

Em janeiro de 1986, no camarote de um show de Gilberto Gil, no Recife, Jomard Muniz de Britto, apontando para uma senhora que estava ao meu lado, me disse:

Venha conhecer Dedé Aureliano!

Fiquei emocionado e, antes de conversarmos um pouco, beijei a mão dela e falei:

Puxa, que honra!

Era a professora para quem Paulinho da Viola compôs Para um Amor no Recife.

Dedé Aureliano era uma mulher à frente do seu tempo, asseguram os que conviveram com ela.

Independente, feminista, de esquerda. Trabalhou com Dom Hélder Câmara.

Uma mulher empoderada, diríamos na linguagem de hoje.

Paulinho da Viola a conheceu no início da carreira, quando foi ao Recife fazer show. O Recife de tantas tradições culturais, de muitas lutas políticas. Foi e ficou um pouco mais.

Foi hóspede dela. Construíram uma amizade que se estendeu até à morte de Dedé.

Dedé Aureliano, uma vez, pediu à mãe de Paulinho permissão para chamá-lo de filho. E obteve.

Essa é uma bela história de amor e amizade, registrada nas cartas que ela escreveu para ele e que o músico guarda até hoje.

Eternizada numa das músicas mais bonitas e delicadas do repertório de Paulinho.

Para um Amor no Recife parece exclusivamente uma canção de amor. Mas vai além disso. Tem uma letra de cunho político que a insere entre as grandes canções compostas contra a ditadura militar.

A referência, na letra, à noite brasileira iniciada com o golpe de 64 é tão sutil quanto o próprio engajamento de Paulinho da Viola.

A elegância que vemos permanentemente em Paulinho – na obra, na fala mansa, no vestir, na postura no palco – se estendeu também ao modo como ele se posicionou politicamente durante a ditadura.

Suas músicas têm muitas referências ao momento histórico que o Brasil vivia, remetem à sua discreta militância, mas nada é explícito, tudo combina com a nobreza desse príncipe do samba.