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“Meu namorade reagiu estirando o dedo, recebeu uma chave de braço, e fomos levados pra Central de Polícia”

Ilustração: bandeira de autoria de Hélio Oiticica.

Publico, nesta quarta-feira (28), texto de Walter Arcela, estudante de jornalismo da UFPB.

DUAS GERAÇÕES

Walter Arcela

Aviso: esse texto possui linguagem neutra. Para mais informações, acesse Judith Butler. 

Quando recebi de Sílvio Osias oportunidade de um espaço nesta coluna, atinei logo pra curiosa relação entre nossas gerações. Me dou muito bem com pessoas que passaram a juventude, assim como eu, vendo o Brasil ruir.

No hiato de 40 anos das nossas idades, o Brasil se redemocratizou, montou uma constituição exemplar e mostrou que seu povo consegue tirar presidentes pintando a cara. Essa geração cresceu dentro de um sonho de progresso tão ideal quanto falível.

Da vez que vi Gilberto Gil, ensaiei minha fala. Por ter visto, semanas antes, o filme dos Doces Bárbaros, decidi que iria comentar como foi teatral e patético o julgamento em 1976, quando ele foi preso por portar maconha em Florianópolis. Aquela cena do promotor eloquente e verborrágico chamando Gil de criminoso tinha ficado pra mim como símbolo da falência institucional de todo o aparato estatal que é burro e de mau gosto.

No outro dia, quando eu nem tinha lavado a mão por tocar no deus Gil, saí com minhe namorade e uma amiga, da casa dos meus pais na Torre, ao lado da Pedro II, pra comer qualquer madrugadão de rua. Quando viramos a esquina, havia uma viatura policial linchando um homem. As cenas do homem sendo espancado pelos policiais me dão enjoo até hoje.

Meu namorade foi o mais decidide em confrontar aquela ação, e ficamos os três, eu, elu e a amiga, parados, vendo o absurdo da cena, numa rua escura cujas únicas pessoas além de nós era um casal de idosos olhando escondidos por trás de um muro.

O policial que liderava os espancamentos se dirigiu até nós, soberbo, deu boa noite e começou a listar os crimes do cidadão linchado. A lista era claramente inventada, ia de assalto a velhinhas, roubo de carro, até à acusação de que, antes de o pegarem, o criminoso planejava assaltar uma casa. Ao final de todas as acusações, o policial soltou o clássico “circulando” e fez uma piada idiota qualquer.

Meu namorade reagiu estirando o dedo, recebeu uma chave de braço, entre outras violências, e fomos levados pra Central de Polícia no Geisel, pois elu seria autuado num TCO por desacato, e nós, como testemunhas.

Na delegacia, fomos recebidos pelo delegado de plantão, dizendo que tivemos sorte já que o policial espancador tinha mão leve. Passamos por um interrogatório com o mesmo policial-carrasco, que fingia preencher uma ficha num papel nitidamente reaproveitado e rasurado, perguntando nossos nomes e endereços, entre outras informações. Perguntei se depois poderíamos ter acesso a essa ficha, ao que ele, nervoso, respondeu que não, pois se tratava de um procedimento interno. No meio do “procedimento interno”, eles jogaram o “criminoso” na sala em que estávamos e soltaram um “ele podia tá assaltando vocês”.

Cientes do esforço teatral dos policiais e delegado em montar toda uma mise-en-scène para nos aterrorizar, longe de nos meter medo, achávamos tudo entediante e de mau gosto.

Essa é a história amenizada de como fui parar na delegacia, testemunhar de perto o grotesco dos aparatos de poder sociais, os mesmos pelos quais passou Gilberto Gil na turnê dos Doces Bárbaros, e o assunto da breve interação que tivemos um dia antes.

Mesmo que não possamos falar numa falência política, quando, na verdade, a necropolítica, o arbítrio e a concentração de poder são fundamentos de qualquer estado, é nítido que essas fissuras estão mais inflamadas devido aos contornos que o fascismo em voga traz. 

Esta inflamação, por sua vez, catalisa na minha geração uma dose de ousadia e um sentimento político diferentes da superficialidade da geração do ‘‘que país é esse?” e do ‘‘Brasil, mostra tua cara’’.  

As Marielles e Matheusas da minha geração, das bichas e travestis pretas do subúrbio que chegam às universidades, são como os Herzogs e Henfis da geração de Sílvio. Em comum, vivemos em tempos punks.   

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Walter Arcela é graduando em jornalismo, estagiário do Museu Casa de Cultura Hermano José, extensionista voluntário da Galeria Lavandeira e integrante do grupo de pesquisa Historiografia da arte e da história da arte (CNPQ).