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O que importa mesmo é o gênio Pelé, e não o homem Edson Arantes do Nascimento

Ariano Suassuna dizia que a palavra gênio não devia ser banalizada. Claro. Para que fosse usada com propriedade em quem de fato a merece.

Pelé, que, nesta sexta-feira (23), completa 80 anos, é um gênio consumado no seu ofício. Nelson Rodrigues sabia disso em 1958, quando o atleta ainda não tinha 18 anos e acabara de conquistar a primeira das suas três Copas do Mundo.

Até os que não gostam de futebol, como eu, devem se curvar ao gênio Pelé. Em 1969, aos 10 anos, fui ao Estádio Olímpico, aqui em João Pessoa, ver o Botafogo receber o Santos. Foi a única vez em que um jogo me levou a um estádio de futebol. Só para ver Pelé jogar.

Ele estava às vésperas do milésimo gol. “Fará aqui” – diziam alguns. Óbvio que não. Deixou para fazer dias depois no Maracanã. Após o gol, beijou a bola e disse algo sobre as crianças do Brasil. Disse bem, porque não tardaria, e milhares delas vagariam abandonadas pelas ruas do país.

Tem gente que fala mal de Pelé. Coisa de brasileiro que torce contra o êxito das pessoas. Penso que os erros do homem Edson Arantes do Nascimento, tantas vezes invocados por seus detratores, não podem se confundir com os feitos do atleta Pelé.

Pelé representa um belo projeto de Brasil, jamais o país em desconstrução que temos hoje. Um Brasil afirmativo, foi isso o que ele levou para o mundo com seu talento extraordinário.

“No momento em que a bola chega aos pés de Pelé, o futebol se transforma em poesia”, disse dele o grande cineasta italiano Pier Paolo Pasolini.

Pelé deu status de arte ao futebol.