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Médico é retirado do cinema para atender homem que não erguia uma caixa de fósforos

Para Manoel Jaime, no Dia do Médico

Meu tio Amaury, um dos muitos irmãos da minha mãe, iniciava carreira na Aeronáutica.

O ano era 1953, e ele estava no Rio de Janeiro.

Teve um desmaio no meio da rua e, socorrido, foi diagnosticado com miastenia gravis, uma doença neuromuscular até hoje pouco mencionada por leigos.

Do médico que o atendeu, veio um prognóstico pouco animador para um homem de apenas 24 anos: “O senhor tem uns três anos de vida”.

Meu tio foi reformado e voltou para casa como tenente da Aeronáutica.

O “tenente”, assim todos passaram a chamá-lo.

Para ter alguma qualidade de vida, tomava diariamente não sei quantos comprimidos de Mestinon, acondicionados em vidrinhos pelo laboratório Roche.

O medicamento, que não era vendido nas farmácias de João Pessoa, vinha em grande quantidade pelos Correios.

Os três anos se passaram, e o paciente continuou vivo.

A miastenia e o Mestinon se incorporaram à sua rotina ao lado da cachaça que degustava nos domingos de praia, da paixão pelo Botafogo e das inacreditáveis oscilações ideológicas – foi do maoísmo à ultradireita.

O tempo passou. Por volta de 1966, a remessa do Mestinon atrasou, e o estoque caseiro acabou.

Meu tio teve, então, uma crise gigantesca.

Ficou paralisado numa cadeira de balanço.

Não tinha força para levantar uma caixa de fósforos.

Era preciso chamar um médico em casa, algo inédito na modesta família do meu avô.

Meu tio Roberto, pilotando a sua lambreta verde, e minha mãe, de carona, saíram em busca do socorro.

A escolha foi pelo doutor Edward Aguiar, meu pediatra.

O médico não estava em casa. Tinha ido a um casamento na capela do Pio X, informaram.

Minha mãe entrou no casamento e o convenceu da necessidade do atendimento.

Lá se foi doutor Edward para Jaguaribe, onde encontrou meu tio imobilizado na mesma cadeira de balanço.

“Não é caso para mim”, foi o que disse. “Procurem João Cavalcanti”.

Nem cobrou consulta. Voltou para o casamento.

Lá se foram, então, meu tio Roberto e minha mãe à procura do doutor João Cavalcanti, que morava perto, ali na Francisca Moura.

Noite de sábado, noite de ir ao cinema – doutor João não estava em casa. Fora à última sessão do Cine Plaza.

Já passava das nove horas, e minha mãe teve que bater à porta de vidro do hall para que alguém viesse atendê-la.

Explicou o caso para o gerente, seu Almeida, e ele foi objetivo: “Se a senhora quiser, eu interrompo a projeção”.

Sessão interrompida, lá se foram meu tio Roberto e minha mãe para a frente da tela, enquanto, na plateia, alguns gritavam: “Olha o roubo!”. Quem frequentou os velhos cinemas de rua sabe o que a frase significa.

“Doutor João Cavalcanti! Doutor João Cavalcanti! Por favor! Um caso de urgência!”.

E lá vem doutor João, pronto para atender ao chamado.

Com meus olhos infantis, acompanhei a consulta e vi de perto a rápida recuperação do meu tio Amaury.

Doutor João Cavalcanti passou a ser o nosso médico de família.

Na minha memória afetiva, ficou associado a uma medicina mais humana.

Meu tio Amaury morreu de câncer em 2003.

Sobreviveu 50 anos à miastenia gravis.