Política 6:11

“Votaríamos para prefeito ou governador em alguém assumidamente LGBT?”

Nesta quinta-feira (15), abro espaço na coluna para artigo do psicoterapeuta e cronista Nelson Barros.
ALFA PARA GOVERNADORA!
Nelson Barros
Lembro perfeitamente da primeira vez que vi “um”. Era carnaval, e nós morávamos numa cidade do interior de Pernambuco. Os homens na frente da casa tomando caipirinhas, e ele passou na calçada. Maquiagem, roupa extravagante, colorida. Na minha memória tão remota, talvez uma fantasia de dançarina de frevo. Os homens soltaram gracejos que não compreendi direito, e que foram respondidos com outros gracejos atrevidos. Todos riram e, enquanto se afastava, escutei, das mesmas pessoas que soltaram piadinhas espirituosas, as coisas mais desagradáveis e agressivas que já tinha ouvido.
Anos depois eu o reencontrei (não era a mesma pessoa, claro), também no carnaval. Dessa vez, anos 1980, em Baía da Traição. Chamava-se Alfa. Não sei se ainda vive. Tinha passe livre no carnaval, mas, nas outras épocas do ano, era “feita pra apanhar, era boa de cuspir”.
Entre a primeira Alfa, lá do interior de Pernambuco em plena ditadura militar no país, e a de Baía da Traição, no início da chamada abertura política, conheci muitas. Quando não eram “bobos da corte”, eram serviçais.
Eu os via quando acompanhava minha mãe às lojas de tecidos, se tinha festa importante. Ali, rapazes de modos delicados desenhavam vestidos de gala. Eu gostava de ver a habilidade e rapidez com que tracejavam no papel linhas sinuosas que se transformavam em deusas diáfanas. Também estavam nos salões onde as mulheres mudavam a cor dos cabelos e faziam elaborados penteados.
Na época do carnaval (sempre o carnaval!), a televisão apresentava concursos onde eles se exibiam em fantasias elaboradas com pedras reluzentes e plumas. Clóvis Bornay, Evandro de Castro Lima e outros que não recordo do nome, desfilavam luxo, originalidade e amargura. Eu pensava que eram ricos. Mas não eram. Gastavam fortunas economizadas ao longo do ano para viver um momento de glória (reconhecimento?), aplaudidos por madames que iam para aqueles eventos como se vai ao zoológico para apreciar animais exóticos.
Rogéria, atriz e cantora, se autointitulava “a travesti da família brasileira” e se sentia bem porque não era tratada como Geni. Assim como Denner Pamplona. Afetado e mordaz, foi precursor da alta costura no Brasil e jurado do programa de Flávio Cavalcanti. Morreu aos 42 anos e vestiu primeiras damas.
Até os anos 1980, eu não conhecia Alfas que fossem médicos, engenheiros, contadores, militares. Apenas artistas exóticos, cabeleireiros, costureiros. Esses eram os lugares sociais permitidos, fosse num programa de televisão, no carnaval de uma cidadezinha do interior ou do Hotel Glória, para aqueles que viviam o amor que não ousava dizer o nome.
Na minha turma de medicina, eu reconhecia alguns colegas. Um cigano conhece outro, diz-se. Mas não nos identificávamos. Não éramos aliados.
Havia os rumores. Falava-se de algumas pessoas. Mas só rumores.
Médico não podia. Engenheiro não podia. Político então…
Clodovil Hernandes, em 2006, candidatou-se a deputado federal pelo Estado de São Paulo e venceu as eleições. Foi o primeiro deputado federal assumidamente gay do Brasil. Ganho para o movimento LGBT que ainda engatinhava? Não. Clodovil era antigay. Assim como o atual vereador de São Paulo Fernando Holiday. Negro e gay, segue a tradição de adotar nome de divas, nesse caso, da cantora Billie Holiday, mas tem o discurso conservador dos que buscam a “aceitação” daqueles que podem apedrejá-lo, como se faz com as Alfa/Genis ou com os “estranhos frutos” lamentados na mais triste canção de protesto antirracista que já foi escrita, eternizada na voz de Billie. Marielle Franco seria seu contraponto. Lésbica, negra e ativista, foi assassinada em 2018, num caso até agora sem solução. E Jean Willys, também defensor dos direitos das minorias, que sofreu mais ataques moralistas, do que por causa da sua atuação. O deputado David Miranda, casado com o jornalista Glenn Greenwald, criador do site The Intercept, ocupou o seu lugar, depois que o mesmo exilou-se no exterior, para se proteger das ameaças que vinha sofrendo na ditadura político/religiosa fundamentalista que ora vivemos.
Dentro do poder executivo, quase nada a declarar.
Alguém assumidamente LGBT+ que decida concorrer ainda entra no universo dos candidatos piada.
Curiosa essa relação enviesada entre sexualidade, moral religiosa e capacidade.
Pode corrupto, machista, tiririca, dono de inferninho e assassino convertido.
Mas não pode ser gay. E mulher, só pode há pouquíssimo tempo. Até porque o preconceito com homossexuais tem raízes no preconceito com o feminino.
Conheci isso de perto das mais diversas formas. Inúmeras vezes já nos perguntaram, a mim e ao meu marido, quem dos dois faz o papel da mulher. Quando nos casamos, perguntavam quem de nós dois iria vestido “de noiva”.  E a intenção da pergunta era de mostrar o “feminino” como inferior, menor, desqualificado.
O preconceito sempre vem junto da desinformação, como se homossexualidade fosse igual à negação do masculino. E que o “feminino” não é suficientemente capacitado para executar “trabalhos de macho”.
No Canadá, Glen Murray, entre 1998 e 2004, foi o primeiro gay do mundo a governar uma cidade com mais de 500 mil habitantes. Depois disso, Paris, Berlim e Nova York tiveram prefeitos gays. Em 2018 o Estado do Colorado elegeu o primeiro governador abertamente gay dos EUA. Poucos e recentes exemplos.*
E aqui?
Votaríamos para prefeito ou governador em alguém assumidamente LGBT?
Ou apenas faríamos disso uma piada, perguntando quem seria a “primeira dama”?
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Referências musicais:
1 – Geni e o Zepelim – Chico Buarque
2 – Strange Fruit – Abel Meeropol, professor judeu, escreveu essa letra sobre o linchamento de dois homens negros. Os “estranhos frutos” a que se refere na letra seriam os corpos enforcados em árvores.
*Existem políticos gays, lésbicas, travestis e trans pelo Brasil. A maioria em cargos do legislativo. Pouquíssimos no executivo, como é o caso de Edgar Souza, eleito em 2012 pela cidade de Lins, em São Paulo.
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Nelson Barros é psicoterapeuta e cronista.