Música 5:50

Vocês sabem o que é isso? Eleazar de Carvalho já foi regente titular da Orquestra Sinfônica da Paraíba!

Durante o segundo governo de Tarcísio Burity, Eleazar de Carvalho foi diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Imagino que devia custar caro ao Estado, mas que era incrível, era.

Eu adorava conversar com o maestro.

Diziam que era um chato, mas costumava ser cordial comigo.

Contava histórias maravilhosas.

Era amigo de Leonard Bernstein, um dos meus ídolos.

Bernstein, Lenny – maestro, pianista, compositor, homem de esquerda, gay, amante do jazz, louco pelos Beatles. Uma das figuras mais extraordinárias da música do século XX.

Eleazar e Bernstein foram alunos do mesmo professor, Serge Koussevitzky.

“Lenny vive um dilema”, me disse Eleazar.

“Não me diga, a essa altura, que tem a ver com a homossexualidade dele”, comentei.

“Não, não, o problema é com a música que compõe”, afirmou.

Puxa, que problema terá Bernstein com a sua música, compondo as peças maravilhosas que compõe?

E veio a explicação: “Ele acha que não há contemporaneidade, que a sua obra não é do século XX”.

Outro dia, falou sobre Zubin Mehta, que obtivera sucesso estratosférico ao reunir os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo num concerto.

“Fez tanto sucesso quanto os Beatles”, comentou Eleazar.

Como ele tinha fama de não gostar de música popular, perguntei:

“O senhor gosta dos Beatles?”.

E ouvi:

“É claro que gosto!”.

Foi ligeiramente ríspido, assim como quem diz: “Não faça perguntas idiotas!”.

Fui vê-lo reger a Orquestra Sinfônica da Paraíba executando Also Sprach Zarathustra.

Nietzsche traduzido por Richard Strauss.

Não é música fácil. A maioria das pessoas só conhece a abertura, popularizada por Stanley Kubrick no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço. E usada por Elvis Presley no inicio dos seus shows.

É um poema sinfônico belo e denso, e seu final não tem grandiloquência.

Justamente nos minutos finais da execução, numa noite em que a orquestra brilhou sob a condução de Eleazar, alguém gritou na plateia: “Dá-lhe, negão!”

O maestro, punhos fechados batendo sobre o peito (fazia parte do seu expressivo gestual), reagiu em voz baixa, porém indignado com tamanha inconveniência: “Estúpido!”.

Cearense, Eleazar de Carvalho nasceu em 1912. Morreu em 1996.

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Na foto, lá em cima, Eleazar (à esquerda) e Bernstein (à direita) com o mestre Koussevitzky (sentado, ao centro).