Música 10:55

SE VOCÊ AINDA NÃO LEU…

Se estivesse vivo, John Lennon teria feito 80 anos no dia nove de outubro.

Postei uma série de pequenos textos sobre seus discos.

Hoje, junto todos eles numa só postagem.

Para quem ainda não leu.

LIVE PEACE IN TORONTO, 1969

Um céu azul e uma pequena nuvem branca.

Nenhum nome.

Que capa é essa?

De quem é esse disco?

Foi o que muita gente pensou ao ver o LP nas lojas, no início de 1970.

Quem teve a curiosidade de perguntar, ficou surpreso: era um álbum ao vivo de John Lennon, embora os Beatles ainda estivessem juntos.

Live Peace in Toronto trazia o show de John, Yoko Ono e a Plastic Ono Band no Festival de Toronto, um evento pela paz mundial.

“Ladies and gentlemen! The Plastic Ono Band! John Lennon, welcome! Give peace a chance! Give peace a chance” – quase gritou o apresentador que subiu ao palco para chamar a grande atração do festival.

Lennon e seu power trio (Eric Clapton na guitarra, Alan White na bateria, Klaus Voorman no baixo) tocaram sem qualquer ensaio e não fizeram vergonha.

No lado A, um set de seis números misturou velhos rocks (Blue Suede Shoes), Beatles (Yer Blues) e novas canções de Lennon (Cold Turkey, Give Peace a Chance).

No lado B, em dois números, Yoko Ono exibiu suas experiências vocais de vanguarda acompanhada pela banda.

Live Peace in Toronto foi remixado para lançamento em CD, e a qualidade do registro ao vivo ganhou bastante em qualidade.

É um breve, mas muito interessante instantâneo do casal Lennon em seu ativismo político.

JOHN LENNON/PLASTIC ONO BAND, 1970

A capa revela pouco. Uma mulher sentada, encostada numa árvore, com um homem deitado sobre ela.

A fotografia não é muito nítida. Não há nenhum texto.

Tire o disco da embalagem e confira o título: John Lennon/Plastic Ono Band.

É o primeiro álbum de John gravado depois do rompimento dos Beatles, ainda em 1970.

Seria o melhor dos seus trabalhos individuais. E, quem sabe, o melhor de todos os discos lançados individualmente por seus ex-companheiros de banda.

Antes da primeira canção, há um sino lúgubre que toca algumas vezes.

“Mãe, você me teve, mas eu nunca lhe tive”

“Pai, você me deixou, mas eu nunca lhe deixei”

O artista está completamente nu, falando de suas dores.

Raros artistas fizeram isso, com tamanha intensidade, num disco.

No caso de Lennon, é resultado da terapia do grito primal do Dr. Janov.

Tem um piano aqui, outro acolá, mas os sons secos e sintéticos vêm de um power trio (Lennon nas guitarras, Klaus Voorman no baixo, Ringo Starr na bateria).

Sexo, política, drogas, religião, idolatria, solidão, amor, lembranças – os temas vão se sucedendo em canções simples e belas. Às vezes, desesperadas.

No final, antes de uma quase vinheta (“Minha mãe morreu”), há God.

“Deus é um conceito através do qual medimos nossa dor” – diz o primeiro verso.

Segue uma lista de negações do músico.

Ele não acredita mais nos símbolos religiosos, nos políticos nem nos Beatles.

Aí vem a frase de uma geração: “The dream is over”.

“O sonho acabou. O que é que eu posso fazer?”.

Faz 50 anos, seu autor teria 80, e cá estamos nós falando daquele disco.

Imaginem o impacto que representou ouvir John Lennon/Plastic Ono Band em 1970.

IMAGINE, 1971

Lançado em 1971, Imagine é o segundo álbum de John Lennon depois dos Beatles.

Não é nu e cru como o anterior (John Lennon/Plastic Ono Band).

Phil Spector, o produtor, trabalhou com uma banda maior e até colocou cordas nos arranjos.

A canção que dá título ao disco foi crescendo com o passar do tempo, sobretudo após o assassinato de Lennon.

Virou um hino pacifista, pela compreensão entre os povos, assim assimilado e cantado em escala planetária.

É uma bela balada, mas não é a melhor faixa do álbum.

Prefiro Gimme Some Truth, com sua letra desesperada e o solo impecável da guitarra de George Harrison.

O LP tem uma terna canção de amor feita para Yoko (Oh! My Love) e um ataque ressentido de John a Paul McCartney, seu parceiro nos Beatles (How Do You Sleep?).  

No disco anterior, John Lennon declarara o fim do sonho.

Em Imagine, ele não só se apresenta como um sonhador.

Também sugere que os outros sonhadores se juntem a ele.

O artista e suas contradições.

Lennon tinha muitas.

Imagine é um grande disco.

SOME TIME IN NEW YORK CITY, 1972

A capa é um primor.

A primeira página de um jornal. As “notícias” são as letras das canções.

O nome do disco – Some Time in New York City – é como se fosse o nome do jornal.

E brinca, naturalmente, com o New York Times.

O ano era 1972, e John Lennon e Yoko Ono começavam a morar em Nova York.

“O Papa toma droga todo dia”, diz a letra do rock New York City.

Lennon juntara-se ao grupo Elephant’s Memory Band para fazer seu álbum mais político.

Ficou assim: Plastic Ono Elephant’s Memory Band.

Um baladaço feminista abre o repertório. “A mulher é o negro do mundo” – cabia bem no debate daquela época. No de hoje, não tenho tanta certeza. A resposta fica para quem tem lugar de fala.

“Não há muita diferença entre Mao e Nixon se eles estiverem nus” – diz Yoko na letra de We’re All Water. Somos todos água de rios diferentes.

Uma montagem dos dois dançando nus ilustra a “notícia”.

O massacre de Ática, a prisão de Angela Davis, o domingo sangrento e a sorte da Irlanda – são temas das canções.

As vozes de John e Yoko se alternam, às vezes estão juntas.

Some Time in New York City é panfletário, sim, mas é um panfleto inteligente.

Um disco bônus reúne faixas ao vivo em Londres (Lennon, Yoko e uma all star band) e em Nova York (Lennon, Yoko e Frank Zappa).

Esse álbum é uma grande evocação do tempo em que foi gravado.

E um retrato fidelíssimo do encontro de John com Nova York.

“Que pasa, New York? Que pasa, New York?” 

MIND GAMES, 1973 

A capa diz alguma coisa.

Com uma pequena bolsa nas mãos, John Lennon foi embora.

Lá longe, no horizonte, o rosto de Yoko Ono parece uma montanha.

John se foi, mas Yoko mandou May Pang junto para tomar contar dele.

Depois do panfletarismo explícito de Some Time in New York City, agora é a vez dos jogos mentais e até de um projeto chamado Nutopia.

Algo como a sociedade alternativa proposta pelo nosso Raul Seixas.

Mind Games, de 1973, pode não ser um dos grandes discos de Lennon, mas tem ótimas canções.

Há, logo para começar, a faixa que dá título ao álbum.

Aisumasen, um pedido de desculpas a Yoko, com seu belo solo de guitarra.

E One Day at a Time, gravada também por Elton John, Intuition e Out the Blue.

Além de um rock delicioso chamado Tight A$.

Mind Games marca o início de um tempo louco na vida de Lennon.

O músico, mesmo em liberdade vigiada, cometeria muitos excessos.

Como no título original de um velho filme de Billy Wilder, viveria o seu lost weekend.

WALLS AND BRIDGES, 1974

Não foi fácil sobreviver ao lost weekend de John Lennon.

Ele e seus amigos, todos entregues a grandes excessos.

Mas bem que foi produtivo.

É fruto desse período o último grande disco de John, Walls and Bridges, de 1974.

A capa do vinil, com desenhos infantis de Lennon, é linda.

O repertório, então, é delicioso.

John Lennon estava afiadíssimo quando compôs as canções.

Há, sobretudo, baladas melodicamente muito bonitas (Bless You, Scared, #9 Dream).

Uma delas, Nobody Loves You (When You’re Down and Out), foi composta para Frank Sinatra, que nunca a gravou.

A faixa Whatever Gets You Thru The Night tem uma história interessante.

John convidou Elton John para dividir com ele os vocais.

Concluída a gravação, Elton John disse que a música chegaria ao topo das paradas.

O autor disse que não, e os dois fizeram uma aposta.

Se a canção conquistasse o primeiro lugar, Lennon daria uma “canja” no show do amigo no Madison Square Garden.

Foi o que aconteceu.

No dia do concerto, nos bastidores, John e Yoko se reconciliaram e voltaram a morar juntos.

Terminava, assim, o fim-de-semana perdido.

ROCK’N’ ROLL, 1975

Na capa, só há cor no letreiro de neon.

John Lennon. Rock’n’ Roll.

A foto, em preto e branco, flagra John em pé, em frente a uma porta.

Há três vultos na calçada.

São Paul McCartney, George Harrison e Stu Sutcliffe.

Quem assina a fotografia é Jurgen Vollmer.

Ela foi feita em Hamburgo (1961) e, em 1975, se transformou na capa do álbum de covers de Lennon.

O disco só foi lançado oficialmente porque havia um bootleg no mercado.

Também por uma demanda judicial, acusando John de ter plagiado Chuck Berry. Come Together seria similar a You Can’t Catch Me.

Rock’n’ Roll é uma declaração de amor à música que o artista ouviu, cantou e tocou na juventude, antes de ser famoso.

E é incrível como tal.

Os rocks e baladas regravados são standards de uma época.

Contemplam autores e intérpretes como Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley, Fats Domino, Gene Vincent e Buddy Holly, em arranjos geralmente fiéis (mas nem sempre) aos registros originais.

Stand By Me saiu em single e tocou muito.

O principal nesse disco, que antecede uma reclusão de cinco anos, é o fato de que, no estúdio, John Lennon atuou como o roqueiro visceral que nunca deixou de ser.

É o que dá beleza e autenticidade a um tributo que, não tivesse sido produzido, faria, sim, bastante falta à discografia de Lennon.

DOUBLE FANTASY, 1980

No dia nove de outubro de 1975, nasceu Sean, único filho de John Lennon e Yoko Ono.

Era a data em que John completava 35 anos.

Nos próximos cinco anos, num vasto apartamento no edifício Dakota, em Nova York, ele cuidaria da criança e da casa, enquanto Yoko ficaria com os negócios.

Lennon e sua guitarra só se reencontraram em 1980.

O músico voltou a compor e escreveu uma série de canções.

O resultado é o álbum lançado em novembro.

Double Fantasy é um disco de John Lennon e Yoko Ono.

Comovente como reunião de canções de amor partilhado.

Há um beijo dos dois na capa em preto e branco.

E, na contracapa, uma foto do casal na calçada do Dakota.

As músicas compostas e cantadas por Lennon têm sua inconfundível assinatura.

Elas se misturam às de Yoko num diálogo muito bem construído, que a gente ouve sem querer interromper.

Na sonoridade, o disco tem o clima da virada da década de 1970 para a de 1980.

Beautiful Boy e Woman são terníssimas canções de amor.

Uma para o filho. A outra para a companheira.

(Just Like) Starting Over, o baladaço que abre o repertório, traz uma visão otimista do recomeço.

Lembra o John dos Beatles. Ou até o que ele ouviu antes dos Beatles.

Mas não haveria recomeço.

Double Fantasy, em nossas memórias, acabou ficando como uma triste lembrança do Natal de 1980.