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Gilberto Gil diz que tomou uma sacudidela quando ouviu disco de Lennon com o “dream is over”

Sigo nesta terça-feira (06) com a série de posts sobre John Lennon.

Se estivesse vivo, o músico completaria 80 anos no dia nove de outubro.

John foi assassinado aos 40 anos em oito de dezembro de 1980, na entrada do edifício onde morava, em Nova York.

Em 1970, Gilberto Gil (na foto, no festival da Ilha de Wight) estava exilado em Londres quando foi lançado o disco John Lennon/Plastic Ono Band.

A frase de Lennon – “The dream is over” – que está na letra de God, inspirou Gil a compor O Sonho Acabou.

Por email, quis ouvi-lo sobre o “dream is over”, Lennon e o legado do artista.

É o que se segue:

“Havia ali, naquilo tudo, um convite ao despertar”

Gilberto Gil

Sílvio – Em 1970, você estava exilado em Londres quando Lennon lançou o álbum John Lennon/Plastic Ono Band, de Mother, Working Class Hero, God. Do grito primal e do “dream is over”. Que lembranças você tem do impacto daquele momento de Lennon?

Gil – O que permanece daquele momento, ainda que já meio esmaecido pelo tempo, é o sentimento de um certo esgotamento de toda aquela experiência audaciosa e libertária que vivemos na época. Eu, pessoalmente, muito interessado que estivera em tudo aquilo que nos associava ao traço expansivo da mentalidade hippie tão bem representada pelos jovens do rock’n roll, tomei uma sacudidela com aquele disco do Lennon. Aquelas canções mais de desistência que de resistência me sugeriam cansaço; fim de uma viagem extenuante; esgotamento de um entusiasmo juvenil que a rebeldia havia alimentado em nós, entusiasmo a que agora era preciso renunciar.  “O sonho acabou” era a canção-emblema daquele disco que apontava para a necessidade de uma versão amadurecida do nosso desejo. Ao tempo em que nos convidava a mergulhos mais profundos nas águas escuras do ser. Canções como Mother ou God me remetiam a territórios mais densos como os da yoga ou da psicanálise. Enfim, havia ali, naquilo tudo, um convite ao despertar.

Sílvio – O “dream is over” da letra de God lhe inspirou a fazer O Sonho Acabou. Você já disse que é uma música discipular, em relação a Lennon. O que ficou dos sonhos da sua geração, 50 anos depois?

Gil – Os sonhos? Creio que eles passaram a ser sonhados, transmutados e reproduzidos pelas novas gerações que nos sucederam. As novas gerações com suas novas infâncias e suas novas buscas por maturidade. Acho que é sempre assim que a História constrói o seu caminho.

“O compositor deixa um léxico, um vasto dicionário de compassos, melodias e versos…”

Gilberto Gil  

Sílvio – Qual o legado de Lennon (o cara que inventou os Beatles, o compositor, o homem do seu tempo)?

Gil – O cara que inventou os Beatles deixou uma escola ou uma fábrica (uma linha de montagem) ou um imenso “Lego” que os meninos vêm montando e remontando através  dos tempos do rock. O compositor deixa um léxico. Um vasto dicionário de compassos, melodias e versos que continuamos a usar como referência para novas criações (novos bandos, novas bandas). E um homem dos nossos tempos utópicos para os tempos pós-utópicos que o futuro aponta.