Cinema 7:09

“Cinema é divertimento, mas também é protesto, reflexão, denúncia, enfrentamento”

Na coluna desta quarta-feira (30), abro espaço para artigo da professora Nadia Farias dos Santos,

O CINEMA E A LUTA CONTRA O RACISMO

Nadia Farias dos Santos

A invenção do cinema trouxe ao mundo uma nova perspectiva. Som e imagem em movimento transformaram a percepção das coisas a nossa volta. De imagens do cotidiano a universos fantásticos, o cinema colocou nossas cabeças nas nuvens, a imaginação em outros patamares e a realidade nua e crua como ela realmente se apresenta.

Para além da diversão, o cinema nos ajuda a compreender verdades que são difíceis de engolir ou tão naturalizadas que não conseguimos enxergar. É o caso do racismo nosso de todo dia, cuja resistência, num país que nega a sua existência, se dá por várias frentes, entre elas, o cinema.

O que o cinema me ensinou? São tantas respostas a essa pergunta que, na impossibilidade de responder todas, colocarei aqui algumas das reflexões e aprendizagens que a sétima arte me proporcionou e que pode nos proporcionar, se estivermos abertos para entender que o cinema é muito mais que uma máquina de sonhos. Ele reflete a realidade por diferente olhares e denuncia aquilo que custamos a perceber.

Em 12 Anos de Escravidão, compreendi que, mesmo livre, o sistema pode (re) escravizar e o faz sem pudores e sem respeito algum a um ser humano. Ser um negro/a livre ou liberto/a não era garantia da manutenção dessa liberdade.

Em Selma, a força da união e da luta organizada para alterar a realidade da segregação entre pretas/pretos e brancas/brancos. A branquitude sempre estabeleceu sua “suposta superioridade” em relação ao povo negro, determinando os lugares nos quais este deve estar, separando escolas, lugares nos ônibus, clubes específicos, espaços nas cidades e tantas outras separações, para que não houvesse oportunidades de estarem todos nos mesmos lugares, a não ser, é claro, quando os brancos eram servidos pelos negros. Esses são apenas alguns dos inúmeros filmes estrangeiros e das possibilidades que eles proporcionam de repensar a história e o cotidiano pela perspectiva das relações étnico-raciais.

E, falando em Brasil, o cinema nacional vem com excelentes produções que denunciam o racismo e nos revelam a sociedade que, de fato, temos. No filme Quanto Vale ou É Por Quilo?, aprendi que as formas de exploração da população negra permanecem, embora mudem de forma com o passar do tempo.

Em Besouro, pude entender que a capoeira, hoje patrimônio imaterial da humanidade, como coisa de negro, foi proibida por lei em total desprezo pela cultura negra e suas formas de expressão.

Em Menino 23: Infâncias Perdidas, é perceptível a ação higienista na cooptação de meninos negros levados de orfanatos para trabalhar em situação análoga à escravidão. Infelizmente, ainda hoje vemos notícias de trabalhadores explorados e expostos a essa condição pelo país.

Mas o racismo avança a passos largos e é expresso abertamente em nossa sociedade. Entender a luta do povo negro se faz necessário. Nesse sentido, Ganga Zumba, Xica da Silva e Quilombo são três filmes para discutir e aprender sobre resistência e as formas de (re) existência no período da escravidão. E, a partir deles, compreender as senzalas modernas e as novas formas de aquilombamento.

Cinema é divertimento, mas também é protesto, reflexão, denúncia, enfrentamento…Talvez por isso, alguns filmes venham sendo tão combatidos, especialmente quando eles trazem aquelas verdades que, como disse anteriormente, são “difíceis de engolir” ou revelam as facetas da sociedade em suas nuances mais nefastas.

Essa é uma pequena amostra de filmes capazes de nos provocar a pensar, a mudar a forma como vemos, pensamos e agimos no mundo. O cinema é um dos veículos de luta contra as opressões, contra as cegueiras que a hegemonia dominante nos impõe, contra o racismo escancarado de todos os dias. Muito mais que entretenimento, a sétima arte é um movimento para a liberdade de pensamento.

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Nadia Farias dos Santos é integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação, Gênero e Diversidade (Negedi) e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi), ambos do IFRN. Pedagoga, mestre em ensino (UERN), doutoranda em educação (UFPB) e docente do IFRN, campus Apodi.