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“Fui jogado numa solitária mínima onde só havia um cobertor velho no chão, uma latrina e um chuveiro”

“Quando eu me encontrava preso

Na cela de uma cadeia

Foi que eu vi pela primeira vez

As tais fotografias

Em que apareces inteira

Porém lá não estavas nua

E sim coberta de nuvens”

Lembro bem da primeira audição. Agosto de 1978, creio. Eu, aos 19 anos, e meu pai, aos 42, fizemos juntos. Muito, o disco novo de Caetano Veloso. Terra, a faixa de abertura.

O impacto dos versos da canção sobre a minha juventude e sobre a maturidade do meu pai. Meus sonhos misturados com os desencantos dele. Caetano, que admiramos juntos desde aquele festival de 1967, registrava na letra de uma música a lembrança de um episódio – a prisão dele e de Gilberto Gil pela ditadura – sobre o qual ainda havia um grande silêncio, mesmo quase uma década depois.

Astrônomo amador, meu pai guardara a revista com as tais fotografias. A Terra vista e fotografada de longe pelos astronautas de uma das missões do Projeto Apollo. Eles abriam caminho para o voo de julho de 1969, no qual Neil Armstrong seria o primeiro homem a pisar no solo lunar.

Ouvimos a canção. Revimos as fotografias. E meu pai disse que o trecho gente é outra alegria, diferente das estrelas” era o que mais tocava a sua sensibilidade.

Há uma outra lembrança da prisão de Caetano e Gil na minha memória. Em novembro de 1969, aos 10 anos, meu pai pediu que eu comprasse, numa banca próxima à nossa casa, a revista (Manchete, provavelmente) com a reportagem sobre a execução, em São Paulo, de Carlos Marighella, o líder da guerrilha urbana. A mesma revista que trazia, pela primeira vez, fotos dos dois artistas no exílio londrino.

Somente em 1997, quando tinha 55 anos, Caetano Veloso tornou públicas suas lembranças da prisão ocorrida no dia 27 de dezembro de 1968, 14 dias depois da decretação do AI-5. E o fez nas 62 páginas de um dos capítulos do livro de memórias Verdade Tropical.

O capítulo se chama Narciso em Férias. Se sustenta em pé, como um livro à parte – me disse um amigo que transita entre a crítica de cinema e as teorias literárias.

Narciso em Férias não é grande somente pela importância histórica do relato ou pela força extraordinária do testemunho. O capítulo é grande também pelos méritos que ostenta como literatura.

Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram um show de despedida, em Salvador, no dia em que o homem pisou na lua.

Caetano Veloso, já em Londres, escreveu para o Pasquim um artigo em que falava sobre a morte de Marighella, mas pouca gente entendeu.

Mais de 40 anos depois, Marighella e Londres e o texto do Pasquim apareceram na canção chamada Um Comunista.

Tudo isso nos prepara para o documentário Narciso em Férias, de Ricardo Calil e Renato Terra, que será exibido segunda-feira (07) no Festival de Veneza e, no mesmo dia, estará disponível no Globoplay.