Mais Cultura 7:03

O presidente errou. Prefeitos e governadores também vão errar

Há muitos anos, numa das redações por onde passei, vi um secretário estadual defender a tese de que era preciso subnotificar os números de uma epidemia.

Os dados divulgados em boletins diários, segundo ele, prestavam um desserviço ao governo.

Mas não foi o governo que inventou a doença – disse alguém que tinha bom senso.

Lembrei desse episódio nesta quarta-feira (03) e nesta quinta-feira (04).

Por dois dias, o Ministério da Saúde atrasou a divulgação dos números da pandemia do novo coronavírus.

O que de fato provocou o atraso?

Os boletins só foram liberados por volta das 22 horas.

Tarde o suficiente para que não abrissem o Jornal Nacional? – podemos perguntar.

Os números foram alarmantes.

No primeiro dia, 1349 mortes registradas em 24 horas.

No segundo dia, 1473 óbitos registrados em 24 horas.

No Brasil, um morto por minuto – estampava a Folha em manchete ontem à noite, com seu site em fundo preto.

Semanas atrás, ficávamos chocados com 400 ou 500 mortes diárias na Itália, que já foi epicentro da pandemia e ofereceu ao mundo cenas de horror.

“A Covid-19 é uma gripezinha”.

Ou: “O vírus está indo embora”.

É tão óbvio. Desde o início, o presidente Jair Bolsonaro errou, estimulando seus apoiadores (são muitos!) a errar também e disseminar o vírus.

Erraram o presidente e o governo. Continuam errando.

Agora, são os prefeitos e governadores, que adotaram uma postura séria em relação à pandemia, que começam a errar.

Com o número de infectados e mortos crescendo, com o sistema de saúde operando com limitações gigantescas, será que é hora de, em nome da tragédia econômica que se avizinha, relaxar as restrições impostas à população?

O Brasil vai mesmo colocar a tragédia humana em segundo plano?

Parece que sim.