Como se demite um ministro. Quem ensinou foi o general Geisel

O ministro Sylvio Frota, do Exército, quis cantar de galo.

O general era golpista e conspirava contra o presidente Ernesto Geisel.

Já tinha até apoio dentro do Congresso.

Geisel o chamou em seu gabinete.

Frota falou grosso.

O presidente recomendou que ele pedisse demissão.

O general disse que não pediria.

Geisel encerrou a conversa:

“O presidente sou eu, e o senhor não é mais ministro”.

Gosto dessa história. Sou contemporâneo dela.

Mostra como é que se demite um ministro.

Quem conta em detalhes naquele admirável conjunto de livros sobre a ditadura militar é o jornalista Elio Gaspari.

Sob Bolsonaro, a mentira agora é chamada de inadequação

No primeiro momento, era o currículo que fazia de Carlos Alberto Decotelli  um grande nome para o Ministério da Educação.

Nas redes sociais, bolsonaristas chegaram perto de orgasmos inenarráveis.

Estamos em êxtase!

Um tremendo acadêmico no MEC!

Coisas assim.

Nem precisava disso tudo.

Afinal, não é titulação acadêmica que fará do cara um grande ministro. Mas foi o que venderam depois do desastre chamado Weintraub.

Muito bem. Entre o anúncio e a posse adiada, houve a diluição do currículo. Como nunca testemunhamos.

Professor pela Fundação Getúlio Vargas?

Nem tanto, diz a própria FGV.

Mestrado pela Fundação Getúlio Vargas?

Sim, mas com suspeita de plágio na dissertação.

Doutorado na Argentina?

Créditos pagos, tese reprovada, informa a universidade. Ou seja: não é doutor.

Pós na Alemanha?

Claro que não, garante a universidade.

O ministro não empossado é chamado a dar explicações.

Foi ao Planalto e deve ter dito coisas que – convenhamos – o presidente não entende.

Inadequações, foi como Bolsonaro traduziu a coisa.

Vivemos para ver: a mentira agora pode ser chamada de inadequação.

Que tragédia é essa que cai sobre todos nós? é o brado de Milton

“Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”.

O verso era um brado poderoso de Milton Nascimento no Brasil de 1976.

Está na letra de Promessas do Sol, do álbum Geraes.

Na live deste domingo (28), Bituca trouxe o verso para os dias de hoje.

“Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”.

No Brasil de 2020, vivemos sob duas tragédias: a da pandemia do novo coronavírus, que, entre nós, já matou quase 60 mil pessoas, e a do país desgovernado, mergulhado em grave crise institucional.

Inevitável fazer essa associação vendo Milton na live Num domingo qualquer, qualquer hora, título subtraído da quase cinquentenária canção Nada Será Como Antes.

O artista cantou as nossas dores, mas também o amor em todas as formas que percorre o seu trabalho autoral.

Acompanhado por Christiano Caldas (teclado, piano e sanfona) e Wilson Lopes (violões e guitarra), esse gigante da música popular do Brasil levou para o ambiente intimista da live parte do repertório do show Clube da Esquina, cuja turnê percorreu o Brasil e vários países até o início de 2020.

O roteiro priorizou canções dos anos 1970, o período mais importante da carreira de Bituca, e também incluiu músicas das décadas de 1960 e 1980.

Aos 77 anos, Milton Nascimento é um homem frágil, marcado por um quadro severo de diabetes, mas nada macula a riqueza enigmática da sua música nem a beleza da sua performance ao vivo.

Milton é um dos mistérios de Minas.

Seu canto enriqueceu nossas vidas.

Raul Seixas era ou não era um plagiador? Cartas para a coluna

Se estivesse vivo, Raul Seixas faria 75 anos neste domingo (28).

Ele era ou não era um plagiador?

Dou minha opinião neste post.

Vindo de uma passagem pela Jovem Guarda, no início da década de 1970 ele deixou de ser chamado Raulzito para se projetar como uma das grandes expressões do rock brasileiro. O disco Krig-Ha Bandolo!, que o consagrou em 1973, não faz parte apenas das antologias do pop/rock nacional. É, com suas qualidades e seus defeitos, um dos discos fundamentais da nossa música popular.

Sou contemporâneo da explosão de Raul Seixas. Ouvi Krig-Ha Bandolo! com o entusiasmo da época e, logo em seguida, Gita. Mas não acompanhei sua trajetória com o interesse que tive pelos dois primeiros discos. Fui ouvi-lo de novo muito mais tarde. E já com o devido distanciamento.

Gosto de Raul sem concordar com alguns elogios que lhe são feitos. Não sou um admirador incondicional. Nem faço parte do grupo que o tem como um verdadeiro pensador, um filósofo. Claro que não. Prefiro enxergar nele um rocker talentoso e inteligente que promoveu o encontro de Elvis Presley com Luiz Gonzaga (dois dos seus ídolos) e obteve êxito nesta mistura maluca e improvável.

Antes de Krig-Ha Bandolo!, Raul Seixas frequentou as paradas com uma música que já confirmava esta fusão. Era Let Me Sing, Let Me Sing. Suas fontes eram de facílima identificação: de um lado, o rock primitivo dos anos 1950 e também as baladas da época; do outro, os ritmos nordestinos. No meio, um certo mau gosto (alguns chamarão de brega), oriundo do seu vínculo com a Jovem Guarda. Ou da admiração por um lado bem popularesco da nossa canção.

Os ingredientes que Raul jogava em seu caldeirão sonoro levaram muita gente a considerá-lo genial. Um exagero. Ele era apenas suficientemente habilidoso para fazer a mistura e superar suas limitações.

No blues, e depois no rock primitivo, os riffs e as melodias se repetem. Ganham novas letras, como se fossem outras músicas, e ninguém é chamado de plagiador. Raul Seixas usou e abusou do método.

Vamos conferir:

A Verdade Sobre a Nostalgia parece uma versão de My Baby Left Me. A introdução de Rock do Diabo é igual à de Honey Don’t. O refrão de Gita é como o de No Expectations, dos Rolling Stones. As Minas do Rei Salomão dá a impressão de que estamos ouvindo o Dylan de I Want You.

Tem mais:

S.O.S. remete a Mr. Spaceman, dos Byrds, e Dia da Saudade, a Get Back, dos Beatles. Meu Amigo Pedro lembra um dos temas que Dylan compôs para o filme Pat Garrett & Billy the Kid. Algumas vezes, ele exagerava. Ave Maria da Rua incomodará o ouvinte se este pensar em I’ll Be All Right.

Uma frase de Raul fala de quem ele era: “finjo que sou cantor e compositor e todo mundo acredita”.

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Este texto foi publicado anteriormente nos 30 anos da morte de Raul Seixas.

Live dos 78 anos de Gil foi belo tributo à música do Nordeste

Gilberto Gil passou a infância em Ituaçu, no interior da Bahia.

Foi lá que ele disse que queria ser “musgueiro”.

Foi lá que ele ouviu Luiz Gonzaga, sua primeira grande referência musical.

Os ritmos nordestinos, esses que Gonzaga botou no mapa da música popular brasileira, nunca mais saíram da sua vida.

Gil os leu, releu e reverenciou desde que se tornou um “musgueiro”.

O Nordeste e sua música estão presentes na formulação do Tropicalismo, na gestação do movimento. Tanto as guitarras dos Beatles quanto os sons que ele ouviu de perto na Banda de Pífanos de Caruaru, nos idos de 1967.

Nesta sexta-feira (26), o artista comemorou seus 78 anos com uma live na casa onde está recolhido por causa da pandemia, na região serrana do Rio.

Num show que se estendeu por quase duas horas, Gil seguiu um roteiro parecido com o que vimos tantas vezes nas temporadas juninas que realizou a partir do ano 2000.

Baião, xote, marchinha, música de duplo sentido – havia um pouco de tudo isso nessa noite que recriou o clima e o ambiente das nossas noites juninas do Nordeste.

Presencialmente privados delas nesse ano de 2020, podemos dizer que as reencontramos na live de Gil.

Foi uma festa em família. O artista e seus filhos. José na percussão, Bem na guitarra, Nara nos vocais, Preta fazendo dois números com o pai, Bela convocando para as doações que serão direcionadas à cadeia produtiva dos que trabalham com shows e agora estão parados.

Dois músicos se juntaram no palco à Família Gil: o percussionista Jorginho Gomes, que vem de longe, do tempo dos Novos Baianos, e o sanfoneiro Mestrinho, da nova geração de grandes acordeonistas brasileiros.

O sacro e o profano que se fundem nas festas de Santo Antônio, São João e São Pedro estavam naquele palco caseiro, sintetizados por Gil em sua festa de aniversário.

No final, ele mencionou nomes e mais nomes dos que fizeram a música nordestina ser o que ela é.

Tinha lágrimas nos olhos quando fechou a longa lista com Dominguinhos, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.

Nós também tínhamos.

Gilberto Gil, esse artista imenso, é uma das belezas do Brasil.

Andar com fé. Em vídeo, amigos festejam 78 anos de Gilberto Gil

Gilberto Gil faz 78 anos nesta sexta-feira (26).

Comemora com uma live às oito da noite.

No YouTube, amigos e familiares festejam o aniversário de Gil num vídeo em que todos cantam Andar Com Fé.

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GILBERTO DE PERTO. A PRIMEIRA VEZ

Primeiro de abril de 1975, cinco da tarde. Na sala da direção do Teatro Santa Roza, estavam os jornalistas Agnaldo Almeida e Carlos Aranha, os radialistas Francisco Ramalho e Walter Cartaxo, e dois adolescentes que davam os primeiros passos na imprensa paraibana, eu e Walter Galvão. O entrevistado foi pontual: Gilberto Gil, 32 anos, cinco discos autorais de estúdio, dois anos e meio de exílio em Londres após ser preso pelo governo brasileiro; oito de carreira, se tomarmos como referência o LP Louvação, de 1967.

Aos 15 anos, intimidado pelos mais velhos, não fiz perguntas. Na despedida, conversei um pouco com Gil. Perguntei pelo conjunto (ainda não usávamos banda) que o acompanhava. Era um trio inspirado no Jimi Hendrix Experience, me disse. Ele no violão (ou guitarra), Moacir Albuquerque no baixo, Chiquinho Azevedo na bateria.

Gilberto Gil tocava em João Pessoa pela segunda vez. Na primeira, em 1967, ainda não era nacionalmente conhecido. Fazia uma temporada no Teatro Popular do Nordeste, no Recife, e passara por aqui, no mesmo Santa Roza, para mostrar suas músicas pré-tropicalistas. Em 1975, estava prestes a fazer um dos seus discos mais importantes, o Refazenda. Naquela noite, fui vê-lo no palco.

O show começava com uma música cuja letra parece ter se perdido: The Sound of the End of a Time. Não está no livro Todas as Letras, organizado por Carlos Rennó. O registro que ficou conhecido é o da versão em Português, Ê, Povo, Ê, que apareceria logo depois em Refazenda. Outra música do set list esquecida pelo autor (também não está em Todas as Letras) contava a história verdadeira de um casal que subira numa árvore para que esta não fosse derrubada. Gil improvisava sobre o tema, acompanhando-se ao dúlcimer, instrumento semelhante ao tricórdio que o pernambucano Lula Cortes nos apresentou.

O show durava três horas. Procissão, do disco de estreia, anterior ao Tropicalismo, fora transformada em blues. Cantiga de Sapo, que ouvíamos com Jackson do Pandeiro, formava um medley com O Sonho Acabou, composta no exílio depois do dream is over de John Lennon. Expresso 2222, Oriente e Back in Bahia vinham do disco Expresso 2222, lançado na volta ao Brasil, em 1972. Lugar Comum, parceria com João Donato, estava no álbum ao vivo do ano anterior. As raízes se misturavam às antenas que o compositor apontava para o futuro, sintetizando o que ele é nos palcos e nos estúdios.

Ciência, religião, arte, política. Os pés fincados nas fontes. Os braços abertos para o novo. A vontade de unir, mais do que de provocar rupturas. O espírito conciliador em curioso contraponto ao desejo de mudança. Pensamos nestes temas e questões quando ouvimos suas canções. Ou sua fala articulada e fluente. O menino que queria ser “musgueiro” se transformou num dos grandes artistas do Brasil. E conquistou dimensão internacional. É um presente ser seu contemporâneo e tê-lo como amigo.

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Sigo com meus discos preferidos de Gil.

Vejam as capas.

GILBERTO GIL, 1968

EXPRESSO 2222, 1972

GILBERTO GIL AO VIVO, 1974

GIL E JORGE, 1975

REFAZENDA, 1975

REFAVELA, 1977

REALCE, 1979

RAÇA HUMANA, 1984

QUANTA, 1997

OK OK OK, 2018

João Carlos Martins faz 80 anos. Um mestre interpretando Bach

O pianista e maestro João Carlos Martins faz 80 anos nesta quinta-feira (25).

Quem o conheceu de uns 20 anos para cá, talvez pense mais em superação do que em música quando o vê atuando.

Porque foi isso mesmo o que aconteceu. Impedido de tocar piano com as duas mãos e com todos os dedos, João Carlos dedicou-se à regência e foi trabalhar com jovens carentes que pudesse levar para o mundo da música erudita.

Quem o conheceu antes, via nele o que fora interrompido em meados da década de 1990. Assaltado na Bulgária, o pianista lesionou uma das mãos. Ali começaram suas dificuldades com o instrumento.

João Carlos Martins não pôde mais prosseguir a carreira internacional de extraordinário pianista. Era conhecido como um dos maiores (talvez o maior) intérpretes do mundo de Bach ao piano.

Recentemente, luvas biônicas devolveram a João Carlos a alegria de tocar piano. Ele vem se readaptando, buscando resgatar a velocidade indispensável às execuções.

Vai mostrar como está numa live hoje à noite, comemorando seus 80 anos.

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Ilustrei a coluna com a capa de um disco incrível de João Carlos Martins e Arthur Moreira Lima, outro grande pianista brasileiro.

Num registro ao vivo em Nova York, os dois alternavam prelúdios.

Martins fazia os de Bach. Moreira Lima, os de Chopin.

Aquele vinil duplo trazia um diálogo belíssimo dos dois pianistas. Por sua vez, na execução daquele repertório, eles levavam o barroco Bach a dialogar com o romântico Chopin.

Além do jornalismo, o conteúdo local é estimulante em afiliadas

Desde que foram colocadas no ar, há mais de três décadas, a TV Cabo Branco, de João Pessoa, e a TV Paraíba, de Campina Grande, de vez em quando, foram além dos espaços jornalísticos a elas reservados pela Globo.

Cito dois bons exemplos ainda dos primórdios das duas emissoras.

A emissora campinense realizou a série A Paraíba e Seus Artistas, com documentários gestados e dirigidos pelo professor e jornalista Rômulo Azevedo.

A emissora pessoense fez Sinfônica Jovem em Concerto, com garotos e garotas tocando música clássica sob a regência do maestro Osman Gioia.

Lembro dessas produções agora que foi exibido o programa Papel de Bodega, um especial junino conduzido por Jessier Quirino, esse talentosíssimo artista de Itabaiana.

Do YouTube para a tela da TV, Papel de Bodega foi realizado com esmero pela equipe que o transformou num programa de televisão.

Tecnicamente bem acabado e bem apresentado por Jessier, o especial acertou também nos convidados (Zé Lezin, Biliu de Campina, Flávio José, Antônio Barros e Cecéu, Chico César) e nos diversos números musicais.

Também fez o certo quando respeitou as normas tão importantes e necessárias do isolamento social.

O que fica então de Papel de Bodega?

Fica, especificamente, a sugestão para que Jessier Quirino e seus convidados possam voltar num outro momento.

E, genericamente, fica o estímulo à produção de outros conteúdos.

Não é fácil porque emissoras como a Cabo Branco e a Paraíba foram primordialmente pensadas para a produção de jornalismo.

Mas é muito importante.

Ivete Sangalo faz álbum delicioso para este São João do isolamento

Muitos ouvintes de gosto mais refinado costumam não gostar de Ivete Sangalo.

Alguns, por puro preconceito.

Não sabem o que estão perdendo.

É ótima cantora, sabe tudo de palco e está entre o que a Bahia produziu de melhor nas últimas três décadas.

OK. Ela fez discos de estúdio irregulares, mas os diversos registros ao vivo – sobretudo esses! – são irresistíveis.

Em meu acervo, tenho todos e gosto de todos.

O mais recente – o duplo Live Experience, gravado em São Paulo – é uma delícia.

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Estamos na semana do São João com uma surpresa: nas plataformas digitais, lá está Ivete Sangalo com o álbum Arraiá da Veveta.

São 28 minutos – pena que tão pouco! – para ouvir e dançar neste atípico São João do isolamento social.

Ivete, nas escolhas que fez e no clima do disco, traz o passado para o presente.

A sanfona é protagonista, mas as guitarras estão sempre por perto.

O xote de ontem se mistura, aqui, acolá, com uma pitada do axé de hoje.

O repertório remete a Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Genival Lacerda, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Alceu Valença.

Tem Último Pau de Arara, Eu Só Quero um Xodó, Esperando na Janela, O Chevete da Menina, Dona da Minha Cabeça, Táxi Lunar e hits baianos como Vem Meu Amor e Flor do Reggae.

Neste arraial, Ivete Sangalo sai da sua praia com a categoria de quem sabe o que faz.

Hermeto Pascoal é um gigante que o Brasil ainda não conhece

Hermeto Pascoal faz 84 anos nesta segunda-feira (22).

Ele é um gigante da música brasileira.

Com seu virtuosismo, seus experimentos e sua extraordinária capacidade de improvisação, impressiona plateias por todo o mundo.

Também chama a atenção dos músicos que têm o privilégio de vê-lo ao vivo.

Não deixa nada a dever a grandes nomes do jazz.

Mas o Brasil não sabe quem é Hermeto Pascoal.

Ou sabe muito pouco.

Acho que nunca vai saber direito.

A quem ainda não parou para ouvir Hermeto, mas tem vontade de fazê-lo, sugiro cinco discos.

O primeiro é da segunda metade dos anos 1960. Os outros são da década de 1970.

QUARTETO NOVO

A MÚSICA LIVRE DE HERMETO PASCOAL

SLAVE MASS

ZABUMBÊ-BUM-Á

HERMETO PASCOAL AO VIVO MONTREUX JAZZ FESTIVAL