Gilberto Dimenstein e o show de Bobby McFerrin que ele não viu

Meses atrás, o jornalista e escritor Gilberto Dimenstein deu uma admirável entrevista.

Estava com câncer no pâncreas, tinha total consciência da gravidade da doença, mas parecia nutrir alguma esperança.

Comprara até passagens para Nova York e ingressos para o show que Bobby McFerrin faria neste maio que está terminando, no Lincoln Center.

O grande cantor de jazz ia se apresentar nos dias 22 e 23.

O detalhe do show de McFerrin na entrevista de Dimenstein ficou retido na minha memória como um instantâneo do homem diante da morte.

Maio. É tão perto. Estarei vivo para voltar a Nova York e ouvir aquela voz maravilhosa ao vivo? – há de ter pensado.

O jornalista estava num trem em alta velocidade – era sua vida – e saltou para tentar ver o que não via. Coisas muito pequenas, como um passarinho na vegetação do seu quintal.

A morte não é o fim, é o começo – disse. Quase do mesmo jeito que ouvi o oncologista dizer a uma paciente terminal: a vida não acaba com a morte.

Ontem, cá com minhas intuições, pensei em Dimenstein. Maio está acabando, o show de McFerrin foi cancelado por causa da pandemia, como ele estará?

Nesta sexta-feira (29), Gilberto Dimenstein morreu.

Tinha 63 anos.

Paulistano, judeu, era um dos grandes jornalistas brasileiros.

Foi um dos grandes jornalistas da minha geração.

Quando tento ser sucinto e objetivo, dizer as coisas com poucas palavras, com clareza, penso muito nos seus textos.

Acho que é uma das suas lições.

O outro legado extraordinário de Dimenstein é o jornalismo preocupado e engajado em causas sociais.

Hoje, ouçamos Bobby McFerrin por ele.