Eastwood, o cineasta aos 90, em 15 filmes para homenageá-lo

Clint Eastwood faz 90 anos neste domingo (31).

Trago hoje uma seleção de 15 filmes dirigidos (em alguns, também é ator) por este grande cineasta.

Fica como sugestão para a quarentena.

PERVERSA PAIXÃO, 1971

O ESTRANHO SEM NOME, 1972

O CAVALEIRO SOLITÁRIO, 1985

BIRD, 1988

OS IMPERDOÁVEIS, 1992

UM MUNDO PERFEITO, 1993

AS PONTES DE MADISON, 1995

SOBRE MENINOS E LOBOS, 2003

MENINA DE OURO, 2004

A CONQUISTA DA HONRA, 2006

GRAN TORINO, 2008

INVICTUS, 2009

J. EDGAR, 2011

SNIPER AMERICANO, 2014

O CASO RICHARD JEWELL, 2018

Gilberto Dimenstein e o show de Bobby McFerrin que ele não viu

Meses atrás, o jornalista e escritor Gilberto Dimenstein deu uma admirável entrevista.

Estava com câncer no pâncreas, tinha total consciência da gravidade da doença, mas parecia nutrir alguma esperança.

Comprara até passagens para Nova York e ingressos para o show que Bobby McFerrin faria neste maio que está terminando, no Lincoln Center.

O grande cantor de jazz ia se apresentar nos dias 22 e 23.

O detalhe do show de McFerrin na entrevista de Dimenstein ficou retido na minha memória como um instantâneo do homem diante da morte.

Maio. É tão perto. Estarei vivo para voltar a Nova York e ouvir aquela voz maravilhosa ao vivo? – há de ter pensado.

O jornalista estava num trem em alta velocidade – era sua vida – e saltou para tentar ver o que não via. Coisas muito pequenas, como um passarinho na vegetação do seu quintal.

A morte não é o fim, é o começo – disse. Quase do mesmo jeito que ouvi o oncologista dizer a uma paciente terminal: a vida não acaba com a morte.

Ontem, cá com minhas intuições, pensei em Dimenstein. Maio está acabando, o show de McFerrin foi cancelado por causa da pandemia, como ele estará?

Nesta sexta-feira (29), Gilberto Dimenstein morreu.

Tinha 63 anos.

Paulistano, judeu, era um dos grandes jornalistas brasileiros.

Foi um dos grandes jornalistas da minha geração.

Quando tento ser sucinto e objetivo, dizer as coisas com poucas palavras, com clareza, penso muito nos seus textos.

Acho que é uma das suas lições.

O outro legado extraordinário de Dimenstein é o jornalismo preocupado e engajado em causas sociais.

Hoje, ouçamos Bobby McFerrin por ele.

Clint Eastwood faz 90 anos. É realizador de grande cinema

Clint Eastwood faz 90 anos neste domingo (31).

Ele começou a atuar como ator aos 25, mas só se projetou depois dos 30, quando foi fazer filmes na Itália, dirigido por Sergio Leone.

Um americano protagonizando westerns italianos – os cultores do gênero não gostaram.

Em seguida, vieram os trabalhos com Don Siegel, mestre do filme B. O Estranho que Nós Amamos é produto dessa parceria.

O Eastwood diretor começou muito tarde, aos 41 anos, mas com uma estreia promissora, o thriller Perversa Paixão.

O Estranho Sem Nome parecia mais com um Leone do que com os westerns americanos.

Dirigindo, Clint Eastwood seria, então, o encontro de Sergio Leone com Don Siegel?

A resposta até pode ser sim, mas a filmografia que o realizador construiu ao longo de quase meio século mostra que ele é muito maior do que os dois. Conquistou o direito de figurar entre os grandes diretores de cinema do mundo.

Eastwood é republicano e reacionário, mas não o seu cinema.

Juntos, os filmes que dirigiu compõem um admirável painel da América.

São retratos do seu processo civilizatório, das engrenagens do poder, do espírito bélico, da corrupção, da violência, do racismo, dos perdedores, dos seus artistas – de um lugar que tanto separa os homens pela cor da pele quanto lega ao mundo uma expressão musical do nível do jazz.

Amante da música e, particularmente, do jazz, Eastwood fez de Bird, cinebiografia do gênio Charlie Parker, um dos pontos altos da sua filmografia.

Os Imperdoáveis, Oscar de melhor filme, é uma obra-prima. Recupera o gênero western e atualiza seus temas centrais.

As Pontes de Madison é uma história de amor narrada com extraordinária sensibilidade.

Um Mundo Perfeito é vigoroso road movie. Como o recente A Mula, que, talvez, tenha mostrado o cineasta atuando como ator pela última vez.

Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro são pequenas obras-primas.

A Conquista da Honra, Gran Torino e Sniper Americano se debruçam sobre deep areas dos Estados Unidos.

J. Edgar fala dos subterrâneos da política, de sexo e poder.

Saindo da América, Invictus dá aula de política ao retratar um momento da trajetória de um líder da estatura de Nelson Mandela.

Clint Eastwood tem uma assinatura inconfundível.

Faz cinema impecável e sem excessos.

Muitas vezes, prefere o mínimo, a contenção. Como os breves temas musicais que ele mesmo escreve para seus filmes.

Com o mínimo, faz o máximo.

Cantora portuguesa convida, e Eric Clapton faz dueto com ela

Em 1991, Eric Clapton perdeu um filho de quatro anos. O garoto caiu do alto de um edifício em Nova York.

O guitarrista dedicou uma canção ao menino: Tears in Heaven.

A música apareceu em destaque no repertório do Unplugged, especial que Clapton gravou para a MTV, e, desde então, se transformou num número obrigatório em seus shows.

Agora, quase 30 anos depois, a jovem cantora portuguesa Maro, de 25 anos, convidou Eric Clapton para gravar Tears in Heaven em dueto com ela, e o guitarrista que já foi chamado de “Deus” topou.

Cada um no seu canto, como pedem os dias de hoje. Clapton ao violão. Maro ao teclado. As vozes dos dois. Uma sensível versão de uma bela canção.

Vejam o vídeo.

Sivuca 90 anos/Um autorretrato: o artista segundo suas palavras

No post anterior, falei sobre a última grande entrevista de Sivuca, que fiz, em novembro de 2006, a convite de Glorinha Gadelha.

Sivuca morreu poucos dias depois.

Nesta quarta-feira (27), posto uma série de trechos dessa entrevista.

O texto é longo, mas tem notável valor documental.

SIVUCA ARRANJADOR

O arranjador começou em 1950, quando o maestro Guerra Peixe veio para o Recife assumir a direção musical da Rádio Jornal do Commércio. Ele resolveu escolher alguns colegas para ensinar, e eu estava entre eles. Eu, o maestro Clóvis Pereira, o próprio Capiba. Aliás, o meu sonho começou quando escutei a Orquestra Tabajara pela primeira vez, lá em Itabaiana, em 1943, 1944, nos bailes que Severino Araújo fazia no Itabaiana Clube. Verifiquei que aquele tipo de arranjo era diferente do que eu escutava nas bandas, e aquilo era o que eu queria fazer. Tanto que a minha sanfona soava diferente das outras porque eu tocava o instrumento como se estivesse tocando um saxofone.

SANFONEIROS

Veja o “Sivuca Sinfônico”. Esteve aqui um grande compositor, ele ouviu tudo, olhou pra mim e disse: “Quem fez esses arranjos?”. Ora, eu quase que digo: sou um músico pobre, eu mesmo fiz. Mas isso tudo, com trabalho, com tenacidade e com convicção daquilo que a gente vai fazendo, a gente vai derrubando as muralhas, porque muralha não foi feita pra se derrubar facilmente. Por exemplo, se eu tocasse piano, todo mundo já sabia que eu seria um arranjador. Quem toca sanfona geralmente é tido como músico que não estudou. O que, aliás, no Brasil existem exceções. No Recife, nós temos um acordeonista (vamos chamá-lo assim), Toninho Ferraguti, ele faz arranjo para tudo quanto é forró, no entanto ele é um grande músico, é um grande arranjador. Osvaldinho sabe música. Agora, tem uns que não sabem. Dominguinhos não sabe uma nota de música, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. Quer dizer, Dominguinhos é pura intuição, mas é uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor deles, de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que Dominguinhos.

GONZAGÃO, A VIGA MESTRA

Tive o convite para fazer a primeira peça sinfônica propriamente dita, que foi para uma instituição de caridade da então primeira dama de Pernambuco, Madalena Arraes. Foi o maestro irlandês Eugene Egan que me pediu a música. Eu disse: tá bom, agora vou fazer, mas como se trata de um evento nordestino, vou trabalhar em cima de “Asa Branca”. Aliás, foi o primeiro concertino para sanfona e orquestra que eu fiz. A estreia foi no Teatro Santa Isabel, e no ensaio geral, Gonzagão estava lá e, com lágrimas nos olhos, me agradeceu o que fiz pela “Asa Branca”. Ele disse que gostou muito do trabalho, que gostaria de ter estudado para fazer a mesma coisa, mas que ainda bem que eu estava lá para dar continuidade ao trabalho dele. Gonzagão, para mim, é a viga mestra da expansão da música nordestina no Brasil e na América do Sul.

SIVUCA ANTES DO BAIÃO

Eu, por exemplo, tocava um pouco de jazz, copiava alguns arranjos de Severino Araújo para a sanfona, mas o principal era choro. Vamos dizer assim, seria um bom sanfoneiro aquele que soubesse tocar fluentemente “Saxofone, Por Que Choras?”, de Ratinho, e “Espinha de Bacalhau”, de Severino Araújo. O repertório era bem esse. E tinha os tocadores de fole de oito baixos. Esses sim, tocavam uma música que depois resolveram chamá-la de forró. Mas havia uma diferença entre quem tocava fole de oito baixos e aqueles que tocavam o acordeon com teclado de piano.

O VISTO PERMANENTE

Em 1964, meu irmão de Recife me trouxe de volta. Voltei a trabalhar na Rádio Jornal do Commércio. Foi quando Carmem Costa me convidou para ir para os Estados Unidos. Aí aconteceu uma coisa engraçada. Em 1946, fui para Fernando de Noronha, onde existia ainda um contingente americano. Fizemos algumas apresentações e notei que um soldadinho ficava sempre me observando. Pois quando foi na hora de tirar aqui o meu visto de entrada nos Estados Unidos, o cônsul me chamou e disse: “Mr. Sivuca, vou lhe dar aqui o visto permanente porque o que o senhor fez por mim lá em Fernando de Noronha matou muito a saudade da boa música. O senhor vai sair daqui com o visto permanente em agradecimento pelo o que fez por nós lá em Fernando de Noronha”.  

ESTADOS UNIDOS

Eu cheguei nos Estados Unidos em 1964. Ia passar uns seis meses lá, mas fui ficando porque tinha um visto permanente. Conheci Miriam Makeba, com quem comecei a trabalhar, e de repente assumi a direção musical dela. Trabalhei quatro anos e meio, depois fui contratado por Harry Belafonte, com quem trabalhei seis anos, mas eu cheguei à conclusão de que, apesar de tudo, lá eu era um forasteiro, sem poder exercer aquilo que sabia fazer, que era tocar a minha música. Ainda consegui organizar um grupo, todos porto-riquenhos e alguns americanos. Fiz dois shows magníficos no Village Gate, um dos quais foi gravado ao vivo. Mas, sabe de uma coisa, eu disse: prefiro ser músico onde posso tocar a minha música. Lá, a proteção musical é um fato. Não é como aqui. Aqui, chega um gringo, faz o que quer, depois vai embora. Lá não é assim. Eu quis levar dois músicos brasileiros para uma excursão com Belafonte, e o sindicato não deixou. Tudo isso você vê que faz diferença.

FEIRA DE MANGAIO

Eu, graças a Deus, conheci Glorinha e, pronto, foi um relacionamento magnífico. E foi Glorinha que me trouxe de volta para o Brasil, materialmente e espiritualmente, porque aqui a gente trabalhou junto. Tive a sorte de lançar logo dois grandes sucessos. Inclusive o que eu reputo um dos mais importantes, que, aliás, a música, Glorinha me deu de bandeja, “Feira de Mangaio”. A primeira gravação é nossa, foi naquele disco do Seis e Meia. Quando Clara Nunes ouviu a música, ela disse: “Sivuca eu quero gravar”. Eu disse que a música já tinha sido gravada, mas ela disse que não importava. Aí Clara explodiu “Feira de Mangaio”.

MÚSICO URBANO

Eu defendo os valores, que continuem e que o músico não esqueça que existem. Mas isso não pode impedir o músico de sair tocando e criando de acordo com suas próprias convicções musicais. Ora, sou um músico urbano, se me convidam para improvisar num festival de jazz, vou improvisar tranquilamente, sem nenhum preconceito. Agora, dou umas pinceladas de temas nordestinos, que é para mostrar a minha origem.

A SANFONA

A sanfona foi um instrumento inventado na Europa para matar a solidão dos fazendeiros. Lá, como aqui, você ainda hoje vai ao interior da Europa, em toda fazenda tem um acordeon, eles tocam à noite aquelas rancheiras. Pra mim, eu entendi que era um instrumento como outro qualquer e aí resolvi estudá-lo a ferro. Quer dizer, pegar o instrumento, ler partitura e adaptar algumas músicas que eram consideradas quase impossíveis. Eu comecei com o “Vôo do Besouro”, de Rimsky-Korsakov, isso ainda na década de 1940. Foi um dos sucessos que eu tocava. Eu era, na época, o único a tocar com orquestra essa música. Independente disso, tocava música com influência jazzística, improvisava, mas só que à minha maneira. Depois, quando fui para o exterior, eu levava a sanfona como contra-peso, porque sou registrado na União dos Músicos de Nova York como guitarrista.

MILES DAVIS

O acordeon é um instrumento altamente detestado pelos americanos. Fiz uma música incidental para a NBC, quando morava em Nova York, e recebi um telegrama de Miles Davis que dizia o seguinte: “Finalmente, encontrei alguém que me fizesse as pazes com este maldito instrumento, o acordeon”. 

A IMPROVISAÇÃO

O jazz está nos Estados Unidos em 4/4. O Brasil é o único país onde sua música popular é toda em cima do 2/4. As improvisações que nós fazemos no Brasil são em 2/4. O americano tem a tendência de fazer um 4/4 como se fosse 12/8. Essa é a diferença. O brasileiro, quando toca em 2/4, ele arredonda. Isso se deve ao choro. A improvisação do brasileiro é tão boa quanto a improvisão do músico americano, vamos dizer assim.

O ROCK

De todo movimento musical, sempre sai alguma coisa aproveitável. Pra mim, o rock foi uma abominação, mas, negar a competência de um John Lennon como compositor, seria burrice. Do movimento rock pintou coisa boa como aquelas músicas modais que os Beatles cantaram, um tipo de música que eles fizeram bem. Eu só não gosto definitivamente é do rock de Elvis Presley. É a anti-música, eles fizeram aquilo pra chocar. A partir do momento que você usa a música como trejeito, ela perdeu o valor pra mim. Ele usou aquela fórmula do blues o tempo todo. Como profissional, pegou a estrada e fez sucesso, mas sucesso, nos Estados Unidos, nem sempre corresponde ao verdadeiro valor.

HOMENAGEM À VELHA GUARDA

Eu tinha 25 anos, em 1955, quando sonhei com uma música. Aí despertei, peguei um pedaço de papel e escrevi os primeiros compassos. Dois meses depois, estava gravando “Homenagem à Velha Guarda” e, provavelmente, foi a primeira vez que se gravou choro com coral, o Coral de Joab. A gravação ficou linda. E “Homenagem” ganhou as rodas de choro e hoje é um clássico. Aquilo era uma homenagem que fiz a Pixinguinha. Numa noite, na casa dele, eu disse que fiz uma homenagem a ele e toquei. Ele disse: “Meu filho, não faça isso com o coração do velho, o coração do velho não aguenta, o seu choro é muito bonito mesmo e eu agradeço de coração ser homenageado com uma melodia como essa”.

PIXINGUINHA

Olha, Pixinguinha era um dos melhores melodistas que nós conhecemos, mas, infelizmente, não teve o trato merecido. Como arranjador, ele era muito chegado a arranjo de banda de música. Tanto que ele dizia: “Meu filho, eu faço música para vocês harmonizarem”. Ele não conseguiu estudar o que a mente dele sabia. Mas considero Pixinguinha uma espécie de Duke Ellington do Brasil. Sou fã incondicional das melodias de Pixinguinha. Acho que ele criou um estilo, deu conotação definitiva ao choro.

OS DISCOS DE SIVUCA

Esse “Seis e Meia” foi uma surpresa pra mim porque foi um disco quase feito de improviso e foi considerado um dos cem grandes do século passado. Um disco não chega a um ponto desse à toa. “Forró e Frevo” foi ótimo. Fiz um disco sofisticado chamado “Cabelo de Milho”. Quando terminei, o dono da gravadora pediu um disco mais popular. Me veio logo à cabeça “Forró e Frevo”. A gente aprontou em quatro dias e foi o disco da casa que mais vendeu. “Pau Doido” já foi da nova série da Kuarup. Ficou bom. É um disco feito para uma viagem à Europa. “Enfim Solo” não saiu como eu gostaria, mas tem, por exemplo, uma música chamada “Canção que se Imaginara”, que foi a última que cantei que eu gosto. “Cada um Belisca um Pouco” foi a brincadeira minha, do Dominguinhos e do Osvaldinho com a música do Gonzagão. Foi uma festa. 

Sivuca 90 anos/Última entrevista é retrato do artista perto do fim

Se estivesse vivo, Sivuca faria 90 anos nesta terça-feira (26).

Ele morreu aos 76, em dezembro de 2006.

Fiz a última grande entrevista de Sivuca, poucos dias antes da sua morte, e conto como foi.

*****

João Pessoa, novembro de 2006.

32 anos se passaram entre a primeira vez em que vi Sivuca ao vivo e a última em que estive perto dele. Não mais como espectador, sentado na poltrona de um teatro, a alguns metros do palco, mas na sala do seu apartamento, no bairro de Manaíra, com a missão de entrevistá-lo.

Dias antes, recebi o convite num telefonema que fiz a Glorinha para parabenizar o casal pelo lançamento do DVD O Poeta do Som.

Na conversa, ela disse que alguém precisava fazer uma longa entrevista com Sivuca.

Ele estava no fim (todos sabiam), e Glorinha tinha o desejo de que contasse histórias para a posteridade. De que desse uma extensa entrevista. Certamente, a última.

Cheguei ao apartamento no final da tarde de uma terça-feira, dois dias antes do concerto em que Sivuca se despediria da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Sivuca estava abatido, cansado, quase vencido pela doença que o consumiu durante mais de três décadas.

Tinha um fio de voz, perdera muito peso.

Vestia calças jeans e uma camisa xadrez, azul e branca.

Conversamos durante duas horas sobre temas que levei anotados num papel.

Uma conversa com pouca improvisação e, para poupar o entrevistado, menos extensa do que eu desejava.

Sivuca em suas próprias palavras – foi o conceito que me guiou quando fiz a pauta. Era esse o resultado desejado.

Já era noite quando a entrevista terminou.

Ainda falamos rapidamente sobre a homenagem que ele receberia, dois dias depois, da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Seria sua última performance ao vivo, numa breve apresentação no Espaço Cultural José Lins do Rego.

Voltei para casa dividido. Profissionalmente feliz com a sensação de que tinha feito uma boa entrevista. Triste pela confirmação de que Sivuca estava no fim.

Esgotavam-se todas as alternativas da luta contra o câncer, iniciada em 1974, quando Glorinha o conheceu, apresentados um ao outro pelo amigo comum José Bezerra Filho. Na época em que, vindo do Zaire, reencontrara seus conterrâneos naquela noite inesquecível, no palco do Teatro Santa Roza.

Três semanas se passaram até que, no final da noite de 14 de dezembro de 2006, Sivuca morreu no Hospital Memorial São Francisco, no bairro da Torre, em João Pessoa.

A última entrevista de Sivuca foi publicada no jornal O Norte na edição de 24 de dezembro de 2006.

Sivuca 90 anos/Aquela noite no Santa Roza confirmava a lenda

Se estivesse vivo, Sivuca faria 90 anos nesta terça-feira (26).

Ele morreu aos 76, em dezembro de 2006.

Conto hoje uma história que já contei outras vezes: a noite em que vi Sivuca ao vivo pela primeira vez.

***** 

João Pessoa, outubro de 1974.

A placa (como um pequeno outdoor), colocada no jardim do Teatro Santa Roza, anunciava a quem passava pela Praça Pedro Américo: Domingo, Sivuca.

Radicado em Nova York há uma década, Sivuca vinha de um show no Zaire, integrando a banda de Miriam Makeba na programação musical montada para coincidir com a luta entre Muhammad Ali e George Foreman.

De passagem pela Paraíba, receberia uma homenagem do governo do Estado no palco do velho teatro. Também tocaria para seus conterrâneos.

Tinha apenas 44 anos e já era uma figura lendária.

Severino Dias de Oliveira – sanfoneiro, violonista, pianista, compositor, arranjador.

Um músico completo que chamara a atenção de todos, ouvintes e colegas de ofício, por onde passara. Dentro e fora do Brasil. Desde que, aos 15 anos, saíra da sua pequena Itabaiana para tentar a sorte no Recife.

No domingo, o Santa Roza estava lotado. Poltronas, camarotes, corredores.

Sivuca chegou ao teatro num fusca branco dirigido por Glória Gadelha, estudante concluinte de medicina, compositora, que viria a ser sua mulher por mais de três décadas.

Ovacionado pela plateia, o homenageado recebeu uma placa da Secretaria da Educação e Cultura e depois tocou.

Nada ajudava. O som precário, o calor, o excesso de público. Mas a música se sobreporia a todos os obstáculos.

Sanfona, violão, voz, temas instrumentais, canções, histórias.

A versão multinacional do frevo Vassourinhas; o standard Moonlight Serenade, da orquestra de Glenn Miller; a já clássica Adeus, Maria Fulô, da parceria com Humberto Teixeira; a novíssima Reunião de Tristeza, letra e melodia escritas em Nova York por um homem com saudade de casa – estava tudo no set list daquele recital.

Um Sivuca solo raro de se ver.

Uma noite inesquecível que confirmava a lenda.

Elton John não seria Elton John sem o parceiro Bernie Taupin

Em 1969, quando lançou Empty Sky, seu álbum de estreia, Elton John tinha 22 anos.

Seu parceiro Bernie Taupin, o cara que escrevia as letras, estava com 19.

Houve uma ou outra separação, mas eles estariam juntos por toda a vida.

A química entre eles é perfeita.

Elton John & Bernie Taupin, autores de dezenas e dezenas de hits – uma marca poderosa da canção pop que o mundo ouviu durante a segunda metade do século XX. E continua ouvindo.

E uma parceria sem mistérios.

Quem faz o quê?

Com eles não há isso.

Elton John faz a melodia.

Bernie Taupin, a letra.

Elton John não seria Elton John sem Bernie Taupin.

Nesta sexta-feira (22), Taupin faz 70 anos.

*****

Mona Lisa and Mad Hatters está no álbum Honky Chateau, de 1972.

É uma das favoritas de Elton John. Sempre aparece no set list dos seus shows.

Também é uma das que prefiro.

Mário Frias vai para a Cultura? Estará à altura de Bolsonaro

Uma brevíssima trajetória:

O Ministério da Cultura foi criado no início do governo de José Sarney, em 1985.

Com Fernando Collor, foi transformado em Secretaria de Cultura, ocupada tristemente pelo paraibano Ipojuca Pontes.

Com Itamar Franco, recuperou o status de ministério.

Michel Temer rebaixou a pasta mais uma vez, mas voltou atrás.

Jair Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura.

Passou a ser Secretaria Especial de Cultura, vinculada estranhamente ao Turismo.

Com Bolsonaro, o secretário Roberto Alvim gravou um vídeo de nítida inspiração nazista, e o presidente foi forçado a demiti-lo.

Regina Duarte, bem, Regina Duarte foi essa novela que acabamos de acompanhar.

Cotado para o cargo está Mário Frias, um ator medíocre.

Se for ele, estará à altura de Bolsonaro.

Fecho com uma pequena galeria de ex-ministros da Cultura do Brasil:

José Sarney teve CELSO FURTADO (na foto, no tempo de João Goulart, com o presidente Kennedy).

Itamar Franco teve ANTÔNIO HOUAISS, nosso grande filólogo.

Fernando Henrique Cardoso teve FRANCISCO WEFFORT, intelectual ligado ao PT.

Lula teve GILBERTO GIL (na foto, em show na ONU, com o Secretário Geral Kofi Annan na percussão).

Regina Duarte foi desastre como secretária de Cultura. Já vai tarde!

O presidente Jair Bolsonaro anunciou nesta quarta-feira (20) que Regina Duarte está deixando a Secretaria Especial de Cultura.

Segundo o presidente, ela vai dirigir a Cinemateca de São Paulo.

A atriz (ou ex-atriz, como foi chamada em reportagem da Globo) assumiu o cargo no início de março.

A passagem de Regina Duarte pela Secretaria de Cultura foi um desastre.

Um desastre anunciado.

Era óbvio que não daria certo.

Deslumbrada, iludida com o governo, mas perfeitamente afinada com as ideias de ultradireita de Bolsonaro, Regina jogou no lixo da história a sua longa trajetória como atriz de televisão, cinema e teatro.

Em menos de três meses, foi duramente criticada pelos seus colegas de profissão e os envergonhou com o silêncio na morte de artistas importantes como Moraes Moreira e Aldir Blanc.

Regina Duarte foi fritada em praça pública pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, mas não teve a dignidade de entregar o cargo.

Pelo contrário, permaneceu e reafirmou seu discurso de extrema direita ao se mostrar nostálgica da ditadura militar e admitir a tortura durante uma entrevista à CNN.

Um final melancólico para aquela que já foi chamada de namoradinha do Brasil.

Da Secretaria de Cultura, já vai tarde!