Século XX foi o século do jazz, não dos Beatles ou da guitarra

Hoje (30) é o Dia Mundial do Jazz.

Reproduzo o que, certa vez, contou-me um amigo.

Ele estava na casa de um profundo conhecedor de música erudita e ouviu deste o seguinte comentário:

“O século XX foi o século de Herbert Von Karajan”.

Karajan, o fabuloso maestro da Orquestra Filarmônica de Berlim e, até o advento do CD, poderosa marca da indústria do disco.

Meu amigo ousou discordar do anfitrião:

“O século XX foi o século dos Beatles e da guitarra”.

Gostei da história, mas não fiz nenhum comentário.

Depois foi que pensei:

“Que nada! O século XX foi o século do jazz!”

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Gilberto Gil me disse, numa conversa sobre Thelonious Monk e Miles Davis, que o jazz é o homem no abismo da improvisação.

Moacir Santos – ouvi dele – preferia o jazz ao rock porque, segundo o maestro, aquele tem células musicais mais desenvolvidas do que este.

Eric Hobsbawm, grande historiador marxista, assim definiu o jazz:

“Não é um gênero autocontido ou imutável, não é uma linha divisória, mas uma vasta zona fronteiriça que o separa da música popular comum”.

Ouço jazz pensando que é a mais rica e importante expressão da música popular do mundo.

Hitchcock morreu há 40 anos. Um top 5 para a quarentena

Nesta quarta-feira (29), faz 40 anos que Alfred Hitchcock morreu.

Aos 80 anos, deixava extensa filmografia.

53 filmes (o último, Trama Macabra) realizados na Inglaterra, onde nasceu, e nos Estados Unidos, para onde foi atraído pela grande indústria do cinema.

Cineasta da angústia e do medo – assim foi chamado por François Truffaut.

É boa classificação, espécie de contraponto aos que, em Hitchcock, só queriam enxergar méritos comerciais.

Mestre do suspense é um rótulo para sempre colado ao seu nome.

É verdadeiro, mas insuficiente para dimensionar o tamanho do seu cinema.

Alfred Hitchcock, como Ford, Bergman ou Fellini, foi um dos maiores cineastas do mundo.

É sob essa perspectiva que devemos ver e rever seus filmes.

Sugiro cinco para a quarentena.

UM CORPO QUE CAI

JANELA INDISCRETA

PSICOSE

INTRIGA INTERNACIONAL

PACTO SINISTRO  

Depois do foda-se a vida!, não tem desculpa para Gabriela Pugliesi

Umberto Eco foi um grande escritor e pensador contemporâneo.

Ele estava coberto de razão quando disse que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.

Vejam um eloquente exemplo brasileiro dos últimos dois dias.

A influenciadora digital Gabriela Pugliesi, seguida por milhões que ouvem suas dicas sobre como ter um corpo e uma alimentação saudáveis, teve Covid-19.

Foi infectada pelo novo coronavírus durante a festa de casamento da irmã, em Trancoso, na Bahia.

Ela e outros convidados.

Gabriela está curada.

Que bom.

Era recomendável que tivesse juízo.

Parece não ter.

No final de semana, numa afronta às regras de isolamento social, reuniu amigos e amigas para uma festa, uma noitada em casa.

Achou pouco.

Tornou público o encontro, num vídeo em que diz:

“FODA-SE A VIDA!”.  

O Brasil tem mais de 4.500 mortos pela Covid-19, mais de 65 mil infectados, problemas gravíssimos no sistema de saúde, um quadro que já começa a afetar a estrutura funerária de algumas cidades, a economia sob ameaça – e Gabriela Pugliesi, que conquista as pessoas como influenciadora digital, nos oferece, como comentário sobre a pandemia, um “foda-se a vida!”.

A fala dela traduz tudo.

É típica desse mundo de ostentação em que tantos vivem.

Mostra quem é Gabriela Pugliesi.

Após as as reações negativas, houve um pedido de desculpas.

Os que, como Gabriela, influenciam tanta gente, deviam pensar antes de dizer besteira.

Depois, sinceramente!, fica difícil desculpar!

Raphael Rabello, mestre do violão de 7 cordas, morreu há 25 anos

Nesta segunda-feira (27), faz 25 anos que morreu Raphael Rabello.

O músico tinha apenas 32 anos.

Era um mestre do violão de 7 cordas e um dos grandes violonistas brasileiros.

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Raphael ainda era adolescente quando apareceu como integrante do grupo Os Carioquinhas.

Ali, na segunda metade dos anos 1970, estava no meio de uma garotada que fora seduzida pelo choro, essa música incrível criada pelo povo do Rio de Janeiro.

O grupo, que gravou um LP e excursionou com Nara Leão, era pequeno para o violonista.

Ele logo partiu para o solo, ou para dividir palcos e estúdios com intérpretes como Elizeth Cardoso, Gal Costa e Ney Matogrosso.

Aluno de Meira, discípulo de Dino, guiado por Radamés Gnatalli e Tom Jobim, Raphael era um gigante do seu instrumento.

Tinha técnica, velocidade, emoção, virtuosismo.

Seu ocaso foi triste: uma suposta contaminação pelo HIV, durante uma transfusão, e um mergulho sem volta nas drogas.

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Se há uma dinastia do violão brasileiro de 7 cordas, ela passou de Dino para Raphael.

E, felizmente, segue com Yamandu Costa.

Diretas Já! Uma lembrança do Brasil que lutou pela democracia

O dia 25 de abril traz a lembrança da votação da Emenda Dante de Oliveira.

Republico neste sábado (25) texto postado um ano atrás.

Acho que continua valendo.

Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão

Chico Buarque

Era início de 1984.

Em João Pessoa, na Praça do Povo do Espaço Cultural, o público assistia ao show do Trio Elétrico Dodô & Osmar.

Da beira do palco, alguém jogou um bilhete para Osmar, o patriarca da família Macedo.

Ele abriu o bilhete e, entre uma música e outra, leu em voz alta o que estava escrito:

Osmar! Pede diretas já para presidente! 

Nem precisou. A leitura do bilhete já era um pedido.

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A campanha pela volta das eleições diretas para presidente começou em 1983.

Mas só conquistou dimensão nacional em 25 de janeiro de 1984, dia do aniversário de São Paulo, quando um comício reuniu 300 mil pessoas na Praça da Sé.

Dali a três meses, a Câmara votaria a Emenda Dante de Oliveira, que devolveria ao povo o direito de escolher pela via direta o presidente da República.

A última eleição, de Jânio Quadros, havia sido realizada em 1960.

A ruptura foi em 31 de março de 1964, quando um golpe militar depôs o presidente João Goulart, o vice que assumira na renúncia de Jânio.

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Diretas Já. Eu quero votar para presidente!

Era assim que estava escrito naquelas camisas amarelas que usávamos com orgulho cidadão e alguma esperança.

Foram três meses de intensas atividades.

Um pedaço expressivo da sociedade civil abraçou a causa.

A Folha de S. Paulo botou na capa:

Vista amarelo pelas diretas já!

Mas a emenda do deputado peemedebista Dante de Oliveira não foi aprovada.

Faltaram 22 votos naquela noite/madrugada com Brasília sitiada pelas tropas do general Newton Cruz.

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Perdemos, mas ganhamos.

A campanha das diretas abriu caminho para a volta dos civis à presidência, no ano seguinte, com a eleição (ainda indireta) da chapa Tancredo Neves/José Sarney. Seguiram-se a promulgação da Constituição de 1988 e a retomada das eleições diretas para presidente em 1989.

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Foi bonita a festa – faço meu o verso de Chico sobre a lusitana Revolução dos Cravos.

Quem foi às ruas com aquela camisa amarela sabe do que estou falando.

Os Rolling Stones são demais, mas música nova não empolga

Os Rolling Stones lançaram uma música inédita nesta quinta-feira (23).

“Eu sou um fantasma, vivendo numa cidade fantasma” – canta Mick Jagger logo no primeiro verso.

Eles vinham trabalhando na canção de Jagger e Richards há algum tempo, mas fizeram adaptações para que Living in a Ghost Town ficasse como um breve retrato desses tempos de pandemia do novo coronavírus.

Faz tempo (15 anos!) que os Stones não lançam um disco autoral de canções inéditas.

E – convenhamos! – faz mais tempo ainda que não lançam um disco autoral de canções inéditas realmente arrebatador.

Mas isso não os torna menores. É normal para quem tem quase seis décadas de carreira.

Os Rolling Stones são demais, são o máximo, e confirmam isso permanentemente em suas magníficas performances ao vivo.

Sobre Living in a Ghost Town?

Ruim não é porque a banda não sabe fazer ruim.

Mas é comum, é banal.

Não empolga!

LP de estreia de McCartney faz 50 anos. É disco feito em casa

Em 1970, Paul McCartney não esperou por maio para colocar no mercado seu primeiro disco sem os Beatles.

Em maio, seria lançado Let It Be, último LP dos Beatles, mas, já em abril, Paul botou nas lojas o álbum McCartney.

O mesmo abril em que anunciou o fim do quarteto.

John Lennon/Plastic Ono Band. O primeiro John sem os Beatles é excepcionalíssimo. É lá que está o verso “o sonho acabou”.

All Things Must Pass. O primeiro George Harrison sem os Beatles é uma preciosíssima coleção de canções reunidas numa caixa tripla.

Paul McCartney não fez um grande disco de estreia.

Dizem que andava deprimido.

Gravou em casa, tocou todos os instrumentos – feito que repetiria uma década mais tarde em McCartney II.

É meio tosco.

Mas tem uma grande balada, à altura das melhores que escreveu: Maybe I’m Amazed.

Até hoje, está no repertório dos seus shows, a enternecer as plateias.

Tem Junk. Autenticamente, McCartney. Em duas versões: uma cantada, outra instrumental.

E tem Every Night. Melodia triste e bonita.

Quase sempre, no entanto, McCartney soa como um álbum de rascunhos que poderiam ter sido melhorados.

Pagador de Promessas é grande legado de Anselmo Duarte

Nesta terça-feira (21), faz 100 anos que Anselmo Duarte nasceu.

Tinha 89 quando morreu, em 2009.

A beleza e o charme o transformaram num irresistível galã do cinema brasileiro na década de 1950.

A estreia na direção foi com Absolutamente Certo, e a consagração, com O Pagador de Promessas.

A turma do Cinema Novo não gostava dele.

Ele não gostava da turma do Cinema Novo.

Havia insanáveis divergências estéticas e ideológicas.

Foram determinantes no Anselmo posterior a O Pagador de Promessas.

Em 1962, o filme baseado no texto teatral de Dias Gomes conquistou Cannes e fez história, levando a Palma de Ouro.

É um filme excepcional.

Diria mais: é um dos pontos altos da cinematografia nacional.

Presidindo o júri de Cannes, o jovem François Truffaut, que há pouco migrara da crítica para a direção, apertou as próprias mãos e gritou para o realizador brasileiro, que estava na plateia:

“Très bien, Duarte! Très Bien!”.

O Pagador de Promessas atravessa o tempo como o grande legado de Anselmo Duarte.

Roberto Carlos manda ficar em casa na live dos seus 79 anos

Roberto Carlos fez 79 anos neste domingo (19).

Comemorou com uma live, aderindo à tendência mundial nesse tempo de pandemia do novo coronavírus.

O artista em seu estúdio na Urca, dois músicos nos teclados (o maestro Eduardo Lages e Tutuca), 11 canções, uma performance de 50 minutos.

A abertura quebrou uma tradição. Como É Grande o Meu Amor Por Você entrou no lugar de Emoções.

Seguiram-se É Preciso Saber Viver e Detalhes. Nesta, o Rei não se acompanhou ao violão, como sempre faz. Apenas cantou.

Caminhoneiro veio como homenagem a quem não pode parar de trabalhar durante a pandemia, depois da fala de Roberto sobre os profissionais da saúde.

Canzone Per Te foi dedicada à Itália e aos italianos devastados pela Covid-19. Grande e nostálgica canção.

As cordas de Tutuca adornaram Nossa Senhora, primeira das quatro músicas religiosas do roteiro.

Os fãs dos países de língua espanhola foram brindados com uma versão bilíngue de Amigo.

Eu Te Amo Tanto trouxe a lembrança de Maria Rita.

Jesus Salvador, pouco comum nos shows do artista, juntou-se a Todos Estão Surdos e Jesus Cristo, petardos da sua fase soul. Nessas duas, uma bateria pré-gravada adicionou suingue aos teclados de Lages e Tutuca.

O que dizer da performance vocal de Roberto Carlos?

O óbvio: permanece maravilhosa.

Não foi diferente na live deste domingo.

O dia era de comemoração (o aniversário de 79 anos), mas a consciência do momento trágico que a humanidade atravessa imprimiu uma indisfarçável tristeza no semblante desse artista imenso a quem nós, brasileiros, tão justamente chamamos de Rei.

Além de cantar, Roberto Carlos nos deu uma verdadeira ordem:

“Fiquem em casa e usem máscara”.

Bolsonaristas afrontam governador. Polícia para quem precisa de polícia

No início da tarde deste domingo (19), recebi vários vídeos gravados (os áudios sugerem) por bolsonaristas.

Eles foram às ruas realizar uma carreata.

Seria um protesto contra as medidas que o governo estadual tomou na luta contra a propagação do novo coronavírus.

O governo está certo.

Os manifestantes estão errados.

Numa situação de normalidade, é legítimo esse tipo de manifestação.

Faz parte da democracia.

Mas não estamos numa situação de normalidade.

Sob os efeitos de uma pandemia, os governos tomam medidas de exceção, e estas têm que ser cumpridas.

É simples assim.

Não é permitido sair por aí em carreata, provocando aglomerações e afrontando o que foi decidido pelo governo.

A solução é botar a polícia na rua para impedir o protesto.

Polícia para quem precisa de polícia!

Os policiais tentam negociar.

Se for o caso, notificam os veículos e seus condutores.

Se houver desacato, prendem.

Polícia para quem precisa de polícia!

Num dos vídeos que recebi, havia manifestantes ajoelhados em frente ao Grupamento de Engenharia.

São fanáticos!