A União mandou Gonzaga embora. A União é que precisa ir embora

Gonzaga Rodrigues não escreve mais seus artigos em A União.

Aos 86 anos, o nosso cronista maior foi mandado embora pela direção da EPC, a Empresa Paraibana de Comunicação, da qual, sob o comando da jornalista Naná Garcez, fazem parte A União e a Rádio Tabajara.

Em sua despedida, o próprio Gonzaga explicou, na edição deste sábado (28):

“Por embargo da comissão de acumulação do estado, desfaz-se, nas linhas de hoje, a presença regular da crônica que retomei há três anos, a convite de Albiege Fernandes, diretora de então. Naquele instante, encerrado o Jornal da Paraíba, penúltimo da minha peregrinação, mereci a lembrança de retornar ao jornal de minhas primeiras tentativas fora do batente comum”.

Se não entendi mal, Gonzaga é aposentado pelo estado e não pode ser remunerado para prestar serviço a uma empresa do estado. A lei e seus rigores. A lei e seus rigores que os governos (sabemos, não?) ignoram (ou resolvem) quando a eles efetivamente interessa.

“Gonzaga, Sitônio Pinto e Carlos Aranha (também atingidos pela decisão), esses caras não querem largar o osso” – teria dito, com seu sorriso habitual, uma dessas (me permitam a expressão) almas sebosas do jornalismo paraibano.

Não se manda Gonzaga Rodrigues embora. Sabem Cony na Folha (quando tínhamos Cony na Folha)? Gonzaga é dessa linhagem. Jornalismo e literatura juntos em extraordinários textos que a gente lê no jornal de hoje e que ficam para o livro de amanhã.

Ter Gonzaga na redação é um luxo absoluto. Há o texto primoroso que ele produz e, quando fisicamente presente, há lições permanentes que só um mestre como ele sabe dar. Se no texto dele temos a fusão do jornalismo com a literatura, em sua presença temos o encontro da experiencia profissional com a aventura humana.

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A União foi a minha primeiríssima escola de jornalismo. Por lá estive quatro vezes: em 1975/76; entre 1979/82; em 1985/86 e, por fim, em 2009/10. Fui comandado por professores: Antônio Barreto Neto e Gonzaga Rodrigues (como diretores técnicos) e Agnaldo Almeida (como editor). Vem deles muito do que aprendi.

A força que A União tinha em 1975/76 e entre 1979/82 já não era a mesma quando retornei em 1985. Muito menos em 2009. Da minha última passagem pelo jornal, na condição de editor geral, tenho duas lembranças marcantes: a repercussão nacional de uma entrevista que fiz com Caetano Veloso sobre cinema e o livro que lancei, como organizador, reunindo as críticas de Antônio Barreto Neto.

Mas não me engano. A União é, no fundo, uma ilusão dos que lá trabalham. Uma luta diária por um produto que não repercute, que poucos leem. Vivi essa ilusão.

Uma vez, há muitíssimos anos (nem sei quantos!), acompanhei Agnaldo Almeida numa visita a Hélio Zenaide em sua casa modesta no conjunto Pedro Gondim. O papel de A União já era o tema da conversa. O papel social, o papel político, a real utilidade, os caminhos possíveis.

Quanto custa para botar A União na rua? Quantos jornais são impressos diariamente? Quantos são de fato vendidos?

A quem realmente atende A União? Ao leitor? À vaidade dos que lá escrevem? Aos interesses políticos do governo?

Os governadores não têm coragem de enfrentar o problema. Manter ou suspender a circulação do jornal? Dizem que Cássio Cunha Lima quis fechar A União, mas não o fez porque foi convencido por Agnaldo Almeida.

O papel de A União precisa ser repensado, sobretudo nesse mundo atingido pelo furacão digital e com espaço cada vez menor para o jornalismo impresso. Quem o fará?

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A União é que precisa ir embora. Botei lá em cima, no título desse post.

Vou explicar: é o que penso sobre o momento atual.

Diante da pandemia do coronavírus, com repartições fechadas, com o comércio fechado, faz algum sentido manter a edição impressa de A União?

Não vejo.

Já devia ter sido interrompida pelo bom senso.