Golpe militar é golpe militar, não é Revolução de 31 de março

Hoje é 31 de março.

Faz 56 anos da deposição do presidente João Goulart.

Revolução de 64. Era assim que oficialmente chamavam.

Meu pai me ensinou desde cedo: não foi uma revolução! Foi um golpe militar!

Aprendi a lição e nunca chamei de revolução.

Mas havia um problema: como fazer com os trabalhos escolares?

Meu pai também me ensinou: use um eufemismo! Chame de movimento militar!

As fotos são do mestre Evandro Teixeira.

Melancolia, de Lars Von Trier, é filme oportuno no ano de 2020

Pedi ao advogado e cinéfilo Antônio Barreto um texto sobre Melancolia, de Lars Von Trier.

O filme é muito oportuno no momento em que o mundo enfrenta a pandemia do novo coronavírus.

LARS VON TRIER E SEU MANUAL DA FRAGILIDADE HUMANA

Antônio Barreto

O ano é 2030. Domingo, 22h. Vai começar mais um episódio da elogiada série “Days of Confinement”, sobre uma pandemia que massacrou o mundo dez anos antes. No papel de um presidente que nega a letalidade do vírus, Kiefer Sutherland.

O pensamento hipotético e a referência ao ator americano me vieram à mente quando meu amigo Silvio Osias me convidou a escrever sobre um dos meus filmes do coração, no caso, Melancolia(2011), do dinamarquês Lars Von Trier, o melhor da “trilogia da depressão” (composta também por “Anticristo”, de 2009, e “Ninfomaníaca”, lançado em duas partes, em 2013 e 2014). Von Trier sempre usou seus personagens (mulheres singulares, principalmente), para escancarar o seu mal-estar com o mundo. Em “Dogville” (2003), Nicole Kidman é Grace, que vai perdendo seu brilho (sua graça) diante da estupidez humana. Em “Dançando no Escuro” (2000), a cantora Björk é uma mãe que enxerga todo o mal que o universo fará ao seu filho, apesar de estar ficando cega.

Voltando a Sutherland. Em “Melancolia”, ele é um ricaço que nega tanto o estado de grande tristeza e desencanto contemporâneos, como também o fato de que um planeta com o mesmo nome do estado de letargia, se dirige à Terra, em uma rota de colisão que extinguirá a vida por aqui. “São apenas os profetas do Apocalipse”, diz à sua esposa (Charlotte Gainsbourg), quando esta se refere ao noticiário do desastre. Sem querer dar spoiler, quando o fim realmente está para chegar, é justamente o machão, aquele que diz que a coisa toda não passa de histeria ou alarmismo, quem toma a atitude mais covarde.

Já a personagem principal, vivida por Kirsten Dunst, é uma mulher que não consegue reunir o ânimo mínimo, nem na sua cerimônia de casamento. Ela sabe que, em determinadas situações, é simplesmente ridículo achar que se deve manter a normalidade a qualquer custo. Justine, sua personagem, pede demissão na própria cerimônia de casamento. A expressão no rosto do seu chefe boçal, durante a cena, já valeria pelo filme inteiro. Quando a vida está acabando, ninguém pensa em comprar um videogame.

A partir da metade do filme, quando o fim já se apresenta como inevitável, Justine muda seu estado anímico. Está nitidamente mais leve. “Ninguém sentirá nossa falta”, ela diz, e esboça um sorriso. A força da personagem reside, justamente, em aceitar a sua fraqueza, sua pequenez diante do cosmos. Isso a tranquiliza. Reconhecer a fragilidade da vida é o primeiro passo para valorizá-la, mesmo que o fim seja inevitável. E como ele é, que chegue em paz.

“Meu filho foi para o céu”. Pais não deviam enterrar os filhos

Na sexta-feira (27) à noite, Eduardo Carlos me disse que seu filho mais velho, Matheus, de 34 anos, estava no Clementino Fraga.

Tinha todos os sintomas da Covid-19 e fora entubado no início daquela noite.

No sábado, uma insuficiência renal agravou o quadro.

No domingo, houve uma discreta melhora.

Na manhã desta segunda (30), Matheus se foi.

Os pais não nasceram para enterrar os filhos, ouvi uma vez de Gilberto Gil, que perdeu um filho muito jovem num acidente de carro.

Os pais não nasceram para enterrar os filhos – vi essa realidade estampada no sofrimento do meu pai na morte do filho caçula, Jairo, meu único irmão.

Eram 10 horas da manhã desta segunda-feira quando Eduardo Carlos me ligou.

Do outro lado, chorando, ele me disse:

“Sílvio, meu filho foi para o céu”.

As palavras são todas insuficientes. Não traduzem o que a gente tem vontade de dizer a ele nem vão diminuir a sua dor.

Eduardo, os pais não nasceram para enterrar o filhos.

Dois anos sem Nelma. “Nelma, a vida não se acaba com a morte”.

Nesta segunda-feira (30), faz dois anos da morte de Nelma Figueiredo. Acompanhar sua doença e vê-la morrer foram experiências muito dolorosas para mim. Hoje, lembrando dela, transcrevo um texto que escrevi em setembro de 2018:

Nelma me levou para perto da morte de um modo que eu nunca havia experimentado, a despeito de todas as perdas que já tive.

Nessa jornada que se estendeu por um ano e oito meses, fui puxado para junto dela e, igualmente, a quis junto de mim. Coisas que podem encontrar explicação nas religiões, para quem as tem, ou na força de uma amizade.

20 meses. Muito pouco tempo se pensarmos na sobrevida pela qual o paciente luta.

20 meses. Muito tempo se pensarmos no sofrimento de quem se vê consumido por uma doença devastadora como o câncer.

O diagnóstico inicial – um câncer de pulmão já com metástase – não deixava dúvidas sobre a gravidade do quadro. Não haveria cura. Uma cronicização da doença? Quem sabe?

Nelma era movida pela fé. Nela, encontrava forças para enfrentar o câncer. Trabalhava normalmente, tinha vida social ativa, aguardava ansiosamente o nascimento da neta Maria.

Eu não tinha qualquer otimismo, mas as nossas expectativas sobre a doença ficaram guardadas. Nelma vinha com a crença, eu ia com o silêncio. E ela parecia entender o quanto o meu silêncio era eloquente.

A metástase hepática, confirmada 40 dias antes da morte, trouxe a certeza de que não havia mais nada a fazer.

Vi minha amiga querida se entregar a uma tristeza profunda, a um recolhimento que não combinava com a sua natureza sempre muito inquieta.

Esperei que falasse comigo sobre a morte. O que eu diria? Que sim, que ela ia morrer? Não sei como seria essa conversa, mas estava certo de que ocorreria. E tentava estar pronto para enfrentá-la.

Houve um momento, numa das últimas consultas, em que Nelma perguntou ao oncologista:

E agora?

Ao que ele respondeu, com admirável serenidade:

A vida não se acaba com a morte.

Comigo, não. Nos dias finais, foi só silêncio.

Ou falas que não combinavam com a realidade:

E então, Sílvio, como foi o concerto de Geraldo Vandré?

Como se não quisesse ouvir o que eu, se abordado, não poderia deixar de lhe dizer.

Nelma se foi na tarde da sexta-feira santa. Vê-la morrer foi uma experiência dolorosa que só o tempo amenizará.

Sinto sua falta. Sobretudo das conversas diárias de anos e anos, já cheias de desencanto, sobre o ofício que escolhemos. Era o terreno das nossas maiores afinidades.

Governador desfaz decisão da EPC e manda Gonzaga Rodrigues, Sitônio Pinto e Carlos Aranha de volta para A União

Recebi há pouco telefonema do professor Damião Ramos, secretário estadual de Cultura e presidente da Academia Paraibana de Letras.

Ele informou, oficialmente, que o governador João Azevedo determinou a volta dos jornalistas Gonzaga Rodrigues, Otávio Sitônio Pinto e Carlos Aranha aos espaços que ocupavam em A União.

Os três haviam sido afastados de suas funções por Naná Garcez, que está à frente da EPC, a Empresa Paraibana de Comunicação, da qual fazem parte A União e a Rádio Tabajara.

O afastamento foi decidido a partir de um embargo da comissão de acumulação do estado.

O secretário Damião Ramos me disse que recebeu mensagem do governador João Azevedo com o seguinte teor:

“Professor Damião, diga a Gonzaga, e também a Aranha e a Sitônio, que determinei que fosse encontrada uma solução para o caso deles. Isso é uma questão minha”.

Damião Ramos ligou para os três jornalistas (que também são membros da Academia Paraibana de Letras) e transmitiu a eles a determinação do governador.

Vladimir Carvalho diz que esse golpe, antes de atingir Gonzaga, fere de morte a cultura paraibana

Acabo de receber esse texto do cineasta Vladimir Carvalho, esse imenso paraibano, e compartilho com vocês:

Como paraibano e leitor assíduo de Gonzaga Rodrigues, arrogo-me o direito de protestar contra a clamorosa atitude da direção da EPC dispensando os seus serviços como cronista de A União.

Esses anos todos vivendo eu fora da Paraíba, Gonzaga foi para mim uma espécie de filtro, um farol obrigatório por meio do qual eu vivia à distância todo o pulsar da vida paraibana, que ele sentia com a percepção de altíssimo poeta da crônica, como nenhum outro o conseguiu.

Esta é uma curtição que já vai para mais de sessenta anos e é coincidente com meus primeiros passos de escrevinhador, pois foi justamente no suplemento A União nas Letras e nas Artes que me iniciei escrevendo sobre cinema, lance básico do meu ingresso na prática de filmar.

Desde aí nunca mais perdi de vista o autor de Notas do meu lugar, estivesse ele onde estivesse, fosse em O Norte, de José Leal, no Correio, de Teotônio Neto ou no próprio jornal oficial do estado, sempre descobri um meio de lê-lo e apreciá-lo. Da mesma forma como toda a Paraíba habituou-se a fazê-lo.

Jamais esqueci o que me foi dito por Moacir Werneck de Castro, saudoso profissional da linha de frente do jornalismo brasileiro, editado em muitos livros, ao me saber conterrâneo de Gonzaga: “Para mim ele é um dos mais brilhantes cronistas deste país”. Amigo de Rubem Braga, de Fernando Sabino e de Paulo Mendes Campos, sabia do que estava falando. Estivera de passagem por João Pessoa e lera um dos mais recentes livros do autor de Café Alvear.

Por tudo isso senti-me indignado com essa notícia e não entro nas cogitações burocráticas desses sabujos, que buscam pífia e traiçoeira justificativa para desferirem esse golpe que antes de atingir Gonzaga Rodrigues fere de morte a cultura paraibana. Neste momento somos todos Gonzaga, nosso Neguinho, gênio da raça !

Governador, seja digno!, leve Gonzaga de volta para A União

A União mandou Gonzaga Rodrigues, nosso cronista maior, embora.

Decisão absurda, desumana, da direção da Empresa Paraibana de Comunicação, à qual pertence A União.

Já me debrucei sobre o assunto no post anterior.

Agora, volto ao tema para dizer algo bem simples e direto:

GOVERNADOR JOÃO AZEVEDO, SEJA DIGNO!, NÃO PERMITA QUE FAÇAM ISSO COM O SEU GOVERNO! LEVE GONZAGA RODRIGUES DE VOLTA PARA A UNIÃO!  

A União mandou Gonzaga embora. A União é que precisa ir embora

Gonzaga Rodrigues não escreve mais seus artigos em A União.

Aos 86 anos, o nosso cronista maior foi mandado embora pela direção da EPC, a Empresa Paraibana de Comunicação, da qual, sob o comando da jornalista Naná Garcez, fazem parte A União e a Rádio Tabajara.

Em sua despedida, o próprio Gonzaga explicou, na edição deste sábado (28):

“Por embargo da comissão de acumulação do estado, desfaz-se, nas linhas de hoje, a presença regular da crônica que retomei há três anos, a convite de Albiege Fernandes, diretora de então. Naquele instante, encerrado o Jornal da Paraíba, penúltimo da minha peregrinação, mereci a lembrança de retornar ao jornal de minhas primeiras tentativas fora do batente comum”.

Se não entendi mal, Gonzaga é aposentado pelo estado e não pode ser remunerado para prestar serviço a uma empresa do estado. A lei e seus rigores. A lei e seus rigores que os governos (sabemos, não?) ignoram (ou resolvem) quando a eles efetivamente interessa.

“Gonzaga, Sitônio Pinto e Carlos Aranha (também atingidos pela decisão), esses caras não querem largar o osso” – teria dito, com seu sorriso habitual, uma dessas (me permitam a expressão) almas sebosas do jornalismo paraibano.

Não se manda Gonzaga Rodrigues embora. Sabem Cony na Folha (quando tínhamos Cony na Folha)? Gonzaga é dessa linhagem. Jornalismo e literatura juntos em extraordinários textos que a gente lê no jornal de hoje e que ficam para o livro de amanhã.

Ter Gonzaga na redação é um luxo absoluto. Há o texto primoroso que ele produz e, quando fisicamente presente, há lições permanentes que só um mestre como ele sabe dar. Se no texto dele temos a fusão do jornalismo com a literatura, em sua presença temos o encontro da experiencia profissional com a aventura humana.

*****

A União foi a minha primeiríssima escola de jornalismo. Por lá estive quatro vezes: em 1975/76; entre 1979/82; em 1985/86 e, por fim, em 2009/10. Fui comandado por professores: Antônio Barreto Neto e Gonzaga Rodrigues (como diretores técnicos) e Agnaldo Almeida (como editor). Vem deles muito do que aprendi.

A força que A União tinha em 1975/76 e entre 1979/82 já não era a mesma quando retornei em 1985. Muito menos em 2009. Da minha última passagem pelo jornal, na condição de editor geral, tenho duas lembranças marcantes: a repercussão nacional de uma entrevista que fiz com Caetano Veloso sobre cinema e o livro que lancei, como organizador, reunindo as críticas de Antônio Barreto Neto.

Mas não me engano. A União é, no fundo, uma ilusão dos que lá trabalham. Uma luta diária por um produto que não repercute, que poucos leem. Vivi essa ilusão.

Uma vez, há muitíssimos anos (nem sei quantos!), acompanhei Agnaldo Almeida numa visita a Hélio Zenaide em sua casa modesta no conjunto Pedro Gondim. O papel de A União já era o tema da conversa. O papel social, o papel político, a real utilidade, os caminhos possíveis.

Quanto custa para botar A União na rua? Quantos jornais são impressos diariamente? Quantos são de fato vendidos?

A quem realmente atende A União? Ao leitor? À vaidade dos que lá escrevem? Aos interesses políticos do governo?

Os governadores não têm coragem de enfrentar o problema. Manter ou suspender a circulação do jornal? Dizem que Cássio Cunha Lima quis fechar A União, mas não o fez porque foi convencido por Agnaldo Almeida.

O papel de A União precisa ser repensado, sobretudo nesse mundo atingido pelo furacão digital e com espaço cada vez menor para o jornalismo impresso. Quem o fará?

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A União é que precisa ir embora. Botei lá em cima, no título desse post.

Vou explicar: é o que penso sobre o momento atual.

Diante da pandemia do coronavírus, com repartições fechadas, com o comércio fechado, faz algum sentido manter a edição impressa de A União?

Não vejo.

Já devia ter sido interrompida pelo bom senso.

Solidão de Francisco é metáfora da nossa solidão diante da morte

O mundo viu ontem algumas das mais belas imagens desse momento dramático e trágico que a humanidade vive enquanto é ameaçada pela Covid-19.

Falo da bênção do papa diante da imensa Praça de São Pedro – agora vazia, sem uma ovelha sequer do imenso rebanho que Francisco tenta guiar pelos caminhos da fé católica.

Havia um pouco de chuva, o chão estava molhado.

Havia uma luz azulada, como o céu que vemos daqui ou como a Terra que veem de fora.

A solidão de Francisco foi de uma tristeza profunda.

A solidão de Francisco foi um retrato da nossa solidão.

A solidão permanente e incurável do ser humano e a solidão de hoje – de homens e mulheres com medo da morte.

Paula, sugerindo nudez total, na cama com Chico Buarque

Paula.

O nome dela é Paula Priscila.

Jovem, bela, preocupada com direitos humanos.

Amiga virtual com quem estive duas ou três vezes em dias de show de Chico Buarque.

Paula ama Cauby Peixoto, Maysa, Dick Farney, Tom Jobim, a Bossa Nova.

Paula ama Vinícius e Nelson Rodrigues.

Mas acho que Chico Buarque é que é seu grande amor.

Em isolamento social, nos surpreendeu com essa foto postada no facebook.

Deitada sobre as obras de Chico, sugerindo estar completamente nua, mas coberta pelos CDs do artista.

O que o nosso amado Nelson Rodrigues diria dessa foto? – perguntei pra ela.

A resposta, muito inteligente, guardo comigo.