Em 69, frevo de Caetano Veloso fez Brasil descobrir o trio elétrico

Salvador, 16 de março de 1980.

Sábado de carnaval.

Era quase noite quando o caminhão posicionou-se na Praça Castro Alves.

As pessoas se aproximaram, e os primeiros sons ainda não eram do frevo.

O cantor do trio começou, numa cadência lenta:

“Vem, meu amor feito louca, que a vida tá pouca e eu quero muito mais”.

Logo, logo, a coisa virou frevo e o grupo jogou luz, muita luz, sobre a multidão:

“Pra libertar meu coração, eu quero muito mais que o som da marcha lenta”.

*****

Essa foi a primeira – e inesquecível! – visão que eu tive do fenômeno ao vivo.

Era o Trio Elétrico Dodô & Osmar, com Armandinho na guitarra principal e Moraes Moreira como cantor.

Àquela altura, a invenção que tanto orgulha o povo baiano completava 30 anos.

Até 1969, estava restrita à Bahia.

A dimensão nacional foi conquistada a partir do frevo Atrás do Trio Elétrico, que Caetano Veloso gravou quando estava confinado em Salvador, antes de partir para o exílio em Londres.

O que foi se consolidando nos anos seguintes, o Brasil inteiro conhece: a transformação do carnaval de Salvador numa gigantesca festa popular. Sim. E um grande negócio movido pela música que os baianos produzem.

Uma série de LPs lançados anualmente pela Continental a partir de meados da década de 1970 registra toda a beleza do trabalho do Trio Elétrico Dodô & Osmar.

Nesses discos, há muitos temas instrumentais e contagiantes frevos cantados por Moraes Moreira.

O primeiro, gravado para o carnaval de 1975, festejava o jubileu de prata.

Quando vi ao vivo, o trio fazia 30 anos.

Agora, neste carnaval de 2020, comemora seus 70 anos. Já se aproxima dos 80 carnavais da letra de Bloco do Prazer.

O tempo passou, mas a invenção sobreviveu.

O trio elétrico é um argumento eficaz contra os que querem cortar o barato da música popular brasileira, disse Caetano Veloso.

Viva Dodô & Osmar!

É meu bonde, é meu bonde, meu bom. Esse funk é bom demais!

Margem, de Adriana Calcanhotto, é um dos melhores discos brasileiros do ano passado.

Depois de lançar o CD, ela saiu em turnê.

O show foi gravado ao vivo.

Nesta sexta-feira (21), conhecemos o primeiro resultado: o vídeo oficial e o single com o funk Meu Bonde.

É arrebatador!

Recife adormecia, ficava a sonhar, ao som da triste melodia

Música de carnaval é feita para dançar nas ruas e nos salões.

Dispensa as discussões sobre “qualidade”.

Mas, se quisermos debater, algo me parece claro: entre todos os gêneros musicais carnavalescos, o frevo pernambucano é o mais rico.

O frevo de bloco que prefiro? Evocação No 1, de Nelson Ferreira.

E o frevo de rua? Último Dia, de Levino Ferreira.

Vamos ouvi-los?

Zé Mojica/Zé do Caixão era um lixo que passou a ser cultuado

O cineasta José Mojica Marins, o criador de Zé do Caixão, morreu nesta quarta-feira (19) em São Paulo.

Aos 83 anos, estava hospitalizado com uma broncopneumonia.

Com problemas renais e a memória comprometida por uma demência senil, tinha a saúde bastante deteriorada desde um enfarte sofrido em 2014 .

O primeiro filme de Mojica que vi foi O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Mas nenhum dos seus filmes é tão festejado quanto À Meia-Noite Levarei sua Alma, de 1964.

Claro, há O Despertar da Besta, que foi interditado pela Censura e, mais tarde, deixou muita gente impactada.

Como comecei a ver Mojica muito cedo, alcancei o tempo em que ele não era respeitado. Era tratado como verdadeiro lixo. E, anos depois, testemunhei o instante em que passou a ser cultuado dentro e fora do Brasil.

José Mojica Marins, o criador, e Zé do Caixão, a criatura, muitas vezes pareciam uma só pessoa.

Zé Mojica e Zé do Caixão eram, na verdade, um grande personagem.

Mojica, com seus filmes toscos, morre com o status de mestre do cinema brasileiro de terror. Criou um estilo, criou um tipo original, tinha uma assinatura marcante.

Anos atrás, estive com ele nos bastidores de uma entrevista, na TV Cabo Branco.

Fui conquistado por sua simplicidade e por uma conversa pra lá de agradável.

Prostituta oferece três furos ao cliente. Bolsonaro diz que repórter da Folha quis dar o furo. Quem, afinal, vai conter o presidente?

O vídeo que reproduzo em seguida é chamado de Jornalista da Folha.

Nele, uma prostituta oferece três furos ao cliente e se sente profundamente ofendida quando é confundida com uma jornalista da Folha.

O vídeo é inqualificável como violento ataque ao exercício jornalístico e à liberdade de imprensa, mas precisa ser visto por aqueles em quem ainda resta algum bom senso.

Nesta quarta-feira (19), a Folha de S. Paulo completa 99 anos.

Nesta terça-feira (18) à noite, o jornal iniciou as comemorações do seu centenário com a exibição, num cinema paulistano, de Cidadão Kane, de Orson Welles.

Um debate ressaltou os méritos do filme e a sua atualidade.

Horas antes, a edição online da Folha mancheteava:

Bolsonaro insulta repórter da Folha com insinuação sexual

A matéria referia-se à entrevista que o presidente dera pouco antes na frente do Palácio da Alvorada.

Sua fala continha um ataque inaceitável à repórter Patrícia Campos Mello.

O dia foi de duras reações ao que Bolsonaro disse.

Alguém classificou (muito bem) como repugnante.

Mais tarde, num necessário e contundente editorial, a Folha de S. Paulo afirmou que o presidente “faz carga contra o edifício institucional da democracia brasileira”.

E mais: que “o chefe de Estado comporta-se como chefe de bando. Seus jagunços avançam contra a reputação de quem se anteponha à aventura autoritária”.

O comportamento do presidente Jair Bolsonaro, frequentemente incompatível com o cargo que ocupa, é muitas vezes banalizado, tratado como algo perfeitamente aceitável.

Não é.

O insulto à repórter da Folha é pior e muito mais grave do que tudo o que já ouvimos dos homens que governaram o Brasil.

Ninguém vai conter o presidente?

As instituições democráticas estão funcionando em sua plenitude ou será que elas já começam a perder a função que de fato têm?

Há uma aventura autoritária em curso?

Não minimizemos o que está acontecendo.

É um momento grave da vida nacional e da democracia brasileira.

“Chupa toda!”. Ivete Sangalo é uma das belezas do carnaval

O Trio Elétrico Dodô e Osmar é um argumento eficaz contra os que querem cortar o barato da música popular brasileira.

Li isso, por volta de 1975, num texto de Caetano Veloso.

Naquela época, celebrava-se o jubileu de prata do trio elétrico, essa invenção que mudou o carnaval brasileiro e que nasceu depois de uma exibição do frevo pernambucano na cidade de Salvador de 70 anos atrás.

A música popular brasileira é muito diversa, e nessa diversidade cabe o que a gente acha que é bom e o que a gente acha que é ruim.

Essa, aprendi com Egberto Gismonti, há quase 40 anos.

Tudo isso só pra dizer: estou aqui mexendo nos meus discos (ainda tenho muitos discos físicos!) de Ivete Sangalo.

Como são bons!

O mais recente (duplo) se chama Live Experience e foi gravado ao vivo em São Paulo.

É irresistível.

Ivete canta muito e tem um domínio extraordinário do palco.

Atualizando a frase de Caetano, os que reagem mal a ela podem estar entre os que querem cortar o barato da música popular brasileira.

Eu não quero!

Salve Ivete!

Chupa Toda/Ivete Sangalo e Gilberto Gil

 

“Cabelo ok, sobrancelha ok, maquiagem ok, a unha tá ok”

Leio que Tudo OK será (já é) um dos grandes hits do carnaval 2020.

Acho tão natural que seja assim quanto acho estranho que Jonas Esticado abra o Folia de Rua.

Dá para entender?

“Cabelo ok, marquinha ok, sobrancelha ok, a unha tá ok”

Ou:

“É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez”

Uma coisa é um cantor com o perfil de Jonas Esticado abrir uma festa cujo perfil pede outro tipo de atração.

Outra coisa é fechar os olhos (e os ouvidos) para as transformações da música de carnaval.

Do frevo (tão belo e refinado!) que os pernambucanos inventaram há mais de um século ao funk carioca.

São os caminhos da música popular.

E não adianta reclamar.

Se tiver disposição, é só cair na folia.

*****

Segue a letra:

Tudo Ok
Esse é o arrocha-funk ha ha ha da ex que tu perdeu
É o Thiaguinho MT e a a Mila no controle, vai
É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez
É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez
Cabelo ok, marquinha ok, sobrancelha ok, a unha ‘tá ok
Brota no bailão pro desespero do seu ex
Brota no bailão pro desespero do seu ex
É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez
É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez
Cabelo ok, sobrancelha ok, maquiagem ok, a unha ‘tá ok
Brota no bailão pro desespero do seu ex
Brota no bailão pro desespero do seu ex
(Brota-brota no bailão pro desespero do seu ex)
Brota-brota no bailão pro desespero do seu ex
Se ele te trombar, vai se arrepender
Uma bebê dessa, nunca mais ele vai ter
Uma-uma bebê dessa, nunca mais ele vai ter…

Por que tiraram Chico Noronha do comando da Casa da Pólvora?

O jornalista Chico Noronha não está mais à frente da programação cultural da Casa da Pólvora.

Ele mesmo anunciou no Facebook.

Disse que a justificativa foi contenção de despesas.

O salário não chegava a três mil e quinhentos reais.

Chico Noronha vem de Jaguaribe.

Filho de Seu José e Dona Quintila, gente simples do bairro.

Chico deixou sua assinatura na vida cultural de João Pessoa uns 30 e poucos anos atrás.

Sim. Ele trabalhava no Sesc, ali na Desembargador Souto Maior. E foi lá que botou para funcionar e comandou um belíssimo programa de atividades culturais.

Sem qualquer exagero, quando o assunto era cultura, o Sesc estava no topo, na vanguarda. E isto se devia, primordialmente, a Chico Noronha.

Chico é criativo.

Chico é corajoso.

Chico é ousado.

Chico não é careta.

Chico sabe agregar.

Chico sabe puxar os talentos para junto dele.

Chico tem sensibilidade para enxergar as novidades.

Como tudo passa, o seu tempo no Sesc também passou.

Ultimamente, Chico Noronha estava num outro projeto cultural. A ele, cabia coordenar a programação da Casa da Pólvora.

Logo seu trabalho se tornou visível no velho monumento da nossa cidade antiga.

Música, teatro, artes plásticas.

Carros e mais carros estacionados nas redondezas, gente fazendo fila para entrar, público ávido por eventos culturais.

Era Chico Noronha expondo a assinatura dele mais uma vez.

Cheguei a comentar com os irmãos Luciano e Lucélio num breve café junino que tomamos no ano passado. Falei sobre o acerto de ter Chico na Casa da Pólvora. Não sei se eles guardaram o meu comentário. Eu guardei.

Pois bem. Agora leio, com tristeza, que Chico Noronha foi dispensado da Casa da Pólvora por contenção de despesas.

Foi isso mesmo?

Perde a Prefeitura Municipal.

Perde a cidade de João Pessoa.

*****

José Hilton da Silva é o substituto de Chico Noronha na Casa da Pólvora, me informa a direção da Funjope.

Paulo Guedes tem a mesma “doença” de Jair Bolsonaro

Aprendi ainda muito cedo com meu pai.

Incontinência verbal.

É uma verdadeira “doença”.

Faz um mal danado não só ao portador, mas também a todos os que por este são atingidos.

O presidente Jair Bolsonaro sofre de incontinência verbal.

É estratégia – dizem alguns.

É método – dizem outros.

Às vezes, pode até ser.

Mas não o tempo todo.

Quase sempre é falta de controle sobre o que vai dizer.

Já era demais ter um presidente da República com incontinência verbal, mas não era surpresa: Bolsonaro sempre exibiu esse “traço” desde que surgiu na vida pública nacional.

Agora, vemos que, além do presidente, temos sofrendo de incontinência verbal o ministro da Economia, o poderoso ministro da Economia, o Posto Ipiranga de Bolsonaro.

As falas sobre funcionários públicos parasitas e empregadas domésticas na Disney são as provas cabais da “doença” de Paulo Guedes.

E são declarações graves. Muito graves. Inaceitáveis.

Você pode até concordar com a necessidade das reformas, mas, com um pouco de bom senso, fica muito difícil acreditar que elas venham de um homem que pensa e fala como Guedes.

Com a sua inabilidade, com a sua frieza, com a sua insensibilidade, Paulo Guedes não cabe nem no mundo que ele julga ser o ideal.

Quem teve a ideia de abrir o Folia de Rua com Jonas Esticado?

Houve um tempo em que o Folia de Rua era uma festa muito bacana.

João Pessoa se enchia de blocos nos dias que antecediam o carnaval.

A festa nasceu espontaneamente, cresceu e foi adotada pela cidade.

A abertura era na sexta-feira que ficava a nove dias do domingo de carnaval.

Nos últimos anos, é na quinta. Hoje (13), portanto.

O Folia de Rua começa no centro. É tradição.

E quem é a grande atração nesse ano de 2020?

Jonas Esticado.

Sim! Jonas Esticado!

Os pernambucanos fazem um (grande) carnaval multicultural.

Cabe tudo. Do rock ao frevo.

Mas eles têm juízo.

Aqui, parece que não temos.

Jonas Esticado é a grande atração da abertura do Folia de Rua!

É verdade?

Ou será que é fake?

Quem é Jonas Esticado?

O que o credencia a abrir o nosso Folia de Rua?

Eu não sei.

De quem foi, afinal, essa ideia absurda de abrir o Folia de Rua 2020 com Jonas Esticado?