Filme de Clint Eastwood sobre atentado em Atlanta é magistral

Clint Eastwood já tinha 41 anos quando, com Perversa Paixão, fez sua estreia na direção.

Estreia tardia, mas promissora. O tempo confirmaria.

O ator dos filmes B de Don Siegel e dos westerns italianos de Sergio Leone logo se transformaria num dos maiores cineastas do mundo.

Aos 89 anos (90 em maio), continua trabalhando.

Há um ano, vimos Clint atuando e dirigindo o road movie A Mula.

Agora, nesses primeiros dias de 2020, está de volta dirigindo O Caso Richard Jewell.

Gosto de ver o cinema de Clint Eastwood como um grande painel da América.

A América e suas áreas profundas.

Cada filme é um pedaço significativo desse painel.

Primeiro, há os westerns.

A conquista dos territórios e o processo civilizatório em filmes que fundiam a influência de Leone com a tradição desse gênero extraordinário criado pelos americanos. A obra-prima é Os Imperdoáveis.

O jazz – outra incrível invenção dos americanos – está em Bird, cinebiografia do gênio atormentado Charlie Parker.

O blues, sem o qual o jazz não teria existido, aparece no documentário (sim! Clint dirigindo um documentário!) Piano Blues.

A guerra, os mitos do americanismo, sexo, poder & política – aí temos Sniper Americano, A Conquista da Honra, J. Edgar.

Numa filmografia extensa, há ainda vigorosos dramas contemporâneos (Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Gran Torino) e até uma incursão pelo mundo do cinema em Coração de Caçador.

E As Pontes de Madison?

E Um Mundo Perfeito?

A assinatura de Eastwood é inconfundível.

O rigor narrativo, uma certa contenção como antídoto a excessos, as marcas de um cinema clássico, mas também muito contemporâneo, os temas musicais mínimos a ilustrar as histórias sempre muitíssimo bem contadas.

O Caso Richard Jewell é um filme hitchcockiano.

Primeiro porque seu personagem principal é um homem acusado de um crime que não cometeu. Como em A Tortura do Silêncio, O Homem Errado e Intriga Internacional.

Depois porque o papel do espectador diante da trama é semelhante àquele estabelecido por Alfred Hitchcock em seu cânone.

O filme não tem heróis. Tem gente comum vivendo na América do final do século passado. O inverso dos heróis, os derrotados.

Tem a ameaça do terror e a cultura do medo, a força (para o bem e para o mal) da mídia, o poder discricionário do Estado e suas instituições.

É com esses elementos que Clint Eastwood conta a história de Richard Jewell, que foi do paraíso ao inferno, de herói a vilão no atentado das Olimpíadas de Atlanta, em 1996.

O drama de Jewell, se contado por outro diretor, talvez nem coubesse num grande painel da América. Cabe porque se transformou num filme de Clint Eastwood.

O Caso Richard Jewell é magistral!