O Papa não é comunista! Parem de ostentar burrice e ignorância!

O Papa não me representa porque é comunista.

Li algo assim nas redes sociais como comentário sobre o tapa que Francisco deu nas mãos de uma fiel, uma imagem difundida à exaustão dias atrás.

Deus queira (dirão os que creem) que esse processo de imbecilização que estamos testemunhando seja reversível.

Imbecilização somada à ostentação da burrice e da ignorância.

Vi Dois Papas depois do tapa e da reação dos que acham que o Papa é comunista.

Há algumas décadas, houve um (João XXIII) que, por sua doçura, ganhou num filme bela dedicatória de um cineasta ateu, marxista e homossexual.

Seu sucessor (Paulo VI) disse que o mundo estava doente. Imaginem agora!

Mais tarde, o outro (João Paulo II) era pop e agiu fortemente contra os países comunistas.

O anterior a Francisco (Bento XVI), de extraordinária erudição, foi chamado de nazista.

O atual é vermelho (risos!).

Ora!, não há papas vermelhos!

Ao falar de homens, os velhos homens de sempre, Dois Papas ilumina o que está escuro.

É um filme sobre a Igreja Católica, a figura do Papa, as relações de poder dentro do Vaticano, a fé, etc.

Mas é também um filme sobre as relações humanas, o diálogo necessário e possível entre forças antagônicas, o perdão, etc.

É um admirável filme realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles, que se projetou internacionalmente depois que fez Cidade de Deus.

Nem Ratzinger (Anthony Hopkins, brilhante!) é tão mau quanto dizem os que o chamam de nazista nem Bergoglio (Jonathan Pryce, que foi Perón em Evita) é tão bom quanto asseguram os seus defensores.

É o que Dois Papas parece nos dizer o tempo todo.

Ratzinger absolve Bergoglio, e Bergoglio absolve Ratzinger.

Bons e maus, naturalmente divididos entre o bem e o mal, entre as virtudes e os pecados, os dois se fundem nas longas conversas que compõem a narrativa.

Conversas muito bem escritas por Anthony McCarten e extremamente bem filmadas por Meirelles.

Bergoglio humaniza Ratzinger com “trivialidades”. O Abba, os Beatles, o futebol, o tango, a pizza e a fanta da vizinhança do Vaticano.

Ratzinger se permite humanizar, e a tradução está na cena em que ele abre a porta e vai ao encontro de um grupo de turistas. Está cansado de ser protegido por seguranças.

Vendo o filme, lembrei de Dom Hélder Câmara conversando com Paulo VI.

“Paulo, saia desse palácio e vá morar numa casinha na periferia de Roma. É mais compatível com o cristianismo” – sugeriu o então arcebispo de Olinda e Recife.

“Não posso, Helder. Eu sou um chefe de Estado” – respondeu o Papa.

Após a renúncia, como na canção de Paul McCartney, Ratzinger voa com suas asas quebradas, buscando a luz na noite escura.

Enquanto Bergoglio fica com o que nunca pareceu que um dia seria seu.

A Igreja de Francisco talvez tenha algo entre o sonho de Dom Hélder e o pragmatismo de Paulo VI.

Já será muito.