Dois Papas é bela metáfora da condição humana, afirma Boff

Nos meus 20 anos de TV Cabo Branco, tinha o hábito de contemplar (sim, a palavra é esta mesmo!) grandes homens e mulheres que por lá passavam, geralmente como entrevistados.

Na sala de espera, na sala do editor geral, no estúdio, nas conversas informais antes e depois das entrevistas. Algumas vezes, apenas caminhando pelo corredor da emissora.

Artistas, políticos, religiosos, atletas, professores, cientistas. A lista é imensa.

Lembro disso agora por causa de uma dessas figuras sobre as quais lancei esse meu olhar de contemplação. Falo de Leonardo Boff, o teórico da Teologia da Libertação.

Que homem notável, digo eu.

Que homem notável, dirão igualmente os que foram atraídos de alguma forma pelas ações do clero progressista ali pelos anos 1960 e 1970.

Neste sábado (04), depois de ver o filme Dois Papas, Boff publicou um extenso texto sobre sua relação pessoal com os dois cardeais – Ratzinger e Bergoglio – que vieram a ser o Papa Bento XVI e o Papa Francisco.

Para quem se interessa pelo tema, é texto de leitura obrigatória nesses tempos de tão pouca leitura.

Leiam. Percam alguns minutos lendo.

Não, não.

Leiam. Ganhem alguns minutos lendo.

Fecho com os parágrafos finais do artigo de Leonardo Boff – um motivo a mais para que a gente não deixe de ver o filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles.

“O Papa Francisco abriu sua inteira humanidade, dando-se o direito à alegria de viver, de torcer pelo seu time de estimação o San Lorenzo, de apreciar a música dos Beatles até conquistar o Papa Bento XVI a dançar um tango, impensável para um severo acadêmico alemão. Aqui aparece não o Papa, mas o homem Bergoglio que desentranha a humanidade recolhida do homem Ratzinger. Ambos são diferentes, mas se integram na dança de um tango de pessoas idosas. A vida, afinal, é uma dança.

O filme é uma bela metáfora da condição humana, de dois modos diferentes de realizar a humanidade, que não se opõem, mas se compõem e se completam, uma com a ternura e a outra com o rigor. Vale ver o filme, pois nos faz pensar e nos oferece lições de mútua escuta, de um diálogo sincero, de verdades ditas sem rebuços e de uma amizade que vai crescendo na medida em que a relação se descontrai de encontro a encontro. O perdão que um dá ao outro e o abraço final, longo e carinhoso, demonstra o humano e o espiritual presentes em cada um de nós.”