A morte de Heraldo Nóbrega e a abordagem do suicídio na mídia

Heraldo Nóbrega se matou. Amanhecemos a sexta-feira passada (29) com essa informação. O jornalista paraibano de 66 anos sofria de depressão, estava numa crise severa e pulou do décimo sexto andar do edifício em que morava.

A morte de Heraldo conduz a uma inevitável reflexão sobre um tema complexo para nós que somos jornalistas: de que modo o suicídio deve ser abordado pela mídia.

Aprendi logo cedo que, em televisão, mais até do que em outras plataformas, o suicídio é notícia que não deve ser dada. Salvo quando a dimensão que o morto tem – se for uma celebridade, por exemplo – torne o registro obrigatório.

O argumento é que noticiar o suicídio pode estimular outros suicídios. Está nas cartilhas, está nos manuais.

O músico Chet Baker, devastado pelos excessos, pulou de um prédio e morreu. O mundo inteiro noticiou. Era um grande nome do jazz.

O rapaz anônimo, por causa de uma desilusão amorosa, se atira de um edifício e morre. Os manuais vão recomendar que o fato seja ignorado.

E há uma derivação: às vezes, a morte é noticiada. A causa, não.

O que penso do assunto: tendo a discordar dos manuais. Se a morte é notícia, ainda que por sucídio, devemos dar.

Não vejo como estímulo a novos suicídios. Pelo contrário, vejo como alerta sobre uma questão importantíssima num mundo em que a depressão atinge um número cada vez maior de pessoas.

Já escondemos casos de câncer. Já evitamos falar de pacientes com AIDS. Não devemos falar de suicídio? Devemos, sim. Com responsabilidade, com respeito às vítimas, às famílias, aos amigos. Com a consciência de que é um problema que deve ser encarado sem subterfúgios.

Como Heraldo Nóbrega, as pessoas se matam.

Não há eufemismos para o suicídio.