O Irlandês vai para a lista dos melhores filmes de Scorsese

É difícil ver O Irlandês sem pensar nas críticas de Martin Scorsese aos filmes da Marvel.

Vendo O Irlandês, é fácil entender porque Martin Scorsese disse que os filmes da Marvel não são cinema.

Mas não quero me prender a essa questão.

O Irlandês é um grande filme. Não vai esperar décadas para se transformar num clássico. Já nasce assim, como grande cinema.

Martin Scorsese precisou de três horas e meia para contar a história dos seus personagens. É o mais longo dos seus filmes de ficção. Tem o mesmo tempo dos documentários que fez sobre Bob Dylan (No Direction Home) e George Harrison (Living in the Material World).

Mas tempo não é problema. A narrativa flui tão naturalmente que o fato de ser extensa não representará um incômodo para o espectador.

Scorsese é um mestre do seu ofício. Faz cinema e pensa o cinema.

Os gângsters que ele mostrou quando era jovem em Caminhos Perigosos, ou quando era maduro em Os Bons Companheiros, agora são vistos na velhice por um homem igualmente velho.

Somente um homem velho (Scorsese já se aproxima dos 80) faria um filme assim. Ele aborda temas permanentes da vida – não necessariamente da vida de gângsters – com um olhar que só os velhos conseguem ter. E o faz com homens velhos em atuações absolutamente excepcionais: Robert De Niro, Joe Pesci e, sobretudo, Al Pacino, com quem nunca havia trabalhado.

Essa pode ser uma das chaves do filme. A reunião desses homens postos numa trama que mostra a passagem do tempo, em idas e vindas admiráveis como construção narrativa. E há o fato de que, muito provavelmente, nunca mais veremos Scorsese, De Niro, Pesci e Pacino juntos num mesmo filme.

O Irlandês trata do homem inserido no macro – a política, o poder, a corrupção – e mostra esse mesmo homem como indivíduo, com suas ambições, suas culpas, seus arrependimentos tardios. As duas coisas se misturam, se confundem na trama.

Hoffa – como o assassinato de Kennedy – é real. O Hoffa de Pacino mistura realidade com ficção.

O Irlandês dá a sensação de que, nele, há dois filmes.

O primeiro, mais ágil, lembra outros filmes de Scorsese.

O segundo, o do desfecho, é contemplativo.

Na terceira parte de O Poderoso Chefão, o epílogo reservado ao mafioso Michael Corleone é trágico, mas é rápido.

Em O Irlandês, a velhice do personagem de Robert De Niro é melancólica e se arrasta numa incômoda lentidão.

O Irlandês vai direto para a lista dos melhores filmes realizados por Martin Scorsese.