“Resistir à História é ser suicida”. Íntegra do discurso de Dom José

Segue, na íntegra, o discurso que o arcebispo Dom José Maria Pires escreveu para ler na Assembleia Legislativa ao receber o título de Cidadão Paraibano.

Dom José recusou o título quando foi procurado por um grupo de deputados para que submetesse o texto a uma censura prévia.

“Ilmos. Srs. Deputados,

A coincidência deste título de cidadão paraibano que me ofereceis nas proximidades das festas natalinas me lembra um fato que se torna a ideia mestra de toda esta minha palavra de agradecimento. Ela poderia chamar-se a dialética do universal e do particular, porque me lembro de Deus feito homem e no mesmo instante feito cidadão do Império Romano. Como homem, Deus assume a espécie humana, se faz parcela da humanidade, sem discriminação nem preconceitos. Assume uma tarefa histórica, destinada a qualquer ser onde se verifica a realidade humana. Dir-se-ia naqueles tempos: destinada a judeus e a gentios. Dir-se-ia, quatro séculos depois: destinados a romanos e bárbaros. Dir-se-ia hoje: destinada a negros e brancos, a homens de direita e de esquerda, do Oriente e do Ocidente, do capitalismo e do comunismo. E este é o elemento universal.

Mas o próprio nascimento do Cristo é marcado por um elemento particular. Ele não é apenas cidadão do mundo. Ele pertence a uma raça, a de Davi. Pertence a um império e é cidadão romano. E, por isso, Maria tem de ir a Belém, onde as leis do Império ordenam que se apresentem seus cidadãos e descendentes da família de Davi. Aí está o particular. Esta reflexão não vem ao acaso, quando um bispo católico se faz cidadão da Paraíba. Porque como católico se afirma o elemento que a própria etimologia da palavra exprime: universal. Como cidadão deste Estado, deste povo, desta porção da realidade brasileira, se afirma o elemento particular. Esse título que ora recebo visa a prestigiar decerto mais a Igreja que represento do que o homem que sou. E se algum mérito recair sobre mim mesmo, será, apenas, pelo fato de eu ter tentado ser aquilo que Cristo é: cidadão de um povo sem deixar de ser cidadão do mundo. Também pelo fato de minha vivência no meio de vós ter sido aquilo que a Igreja é: inspiradora universal das realidades particulares, banhando cada momento histórico que surge, sem se comprometer com ele, para não morrer com ele, porque tudo o que nasce com o tempo, morre com o tempo. E nós cremos numa Igreja que só é contemporânea de todos os homens porque é eterna.

De outra parte, esta mesma Igreja não se aliena do mundo, com medo de se comprometer com ele. Sei que ela vive impregnada de reflexões de eternidade e de riscos eternos. E por isso mesmo ela pensa no tempo e se engaja nas realidades temporais: porque o que vem depois do tempo é decidido no tempo. A eternidade do homem é apenas o eco dos seus passos no mundo, por isso o particular lhe interessa. Isto é um elemento essencial da Igreja. Esta é a novidade do Novo sobre o Velho Testamento, porque antes de Cristo o pensamento de Deus teve preferência por um tipo de civilização judaica, o regime teocrático. Com o Novo testamento surge a novidade da Igreja: ela é equidistante de qualquer civilização, de qualquer regime político. Não existe a civilização cristã, nem mesmo a medieval merece esse nome com exclusividade. Não existe o partido político cristão: nenhum se atribua esse título com exclusividade. Existe uma igreja universal, banhando realidades particulares. Nascem Pedro, Maria, João. A Igreja os batiza. Nascem as civilizações grega, romana, bárbara, medieval, moderna. A Igreja as batiza. E essa vontade de batizá-las, é bom que sempre se repita, é universal. Ensaia-se, por exemplo, hoje, uma civilização comunista. Ninguém pense que a Igreja se recuse a assumi-la. Antes espera que os extremistas do ateísmo oficial um dia tombem para a conversão e o batismo.

A Igreja crê que nenhuma realidade humana é tão satânica que nada de bom se possa salvar nela. E por não querer entender isto, é que muita gente se escandaliza ao ouvir de bispos elogios a aspectos positivos de realidades socialistas, seja em Cuba, China ou Moscou. A Igreja crê que nenhuma realidade humana é tão divina que nada de mau se possa apontar nela. E por não querer entender isto é que muita gente se escandaliza ao ouvir de bispos censura a aspectos negativos de regimes que se pretendem até cristãos ou defensores da cristandade, como os de Franco ou Salazar. Neste particular, ninguém entende a Igreja, como ela pensa, enquanto não entender o mundo, como ele é, porque ainda em nossos dias há quem imagine que o mundo está dividido entre bons, de um lado, e maus do outro, separados pelo muro de Berlim. A Igreja acredita que o mundo é o campo sobre o qual em cada palmo nasceram joio e trigo, o bem e o mal. Para assumir a imagem anterior, a Igreja pensa que o muro de Berlim passa por dentro de cada um de nós. E o bem e o mal se mesclam em nossos pensamentos, nossas palavras, gestos e passos. Só resta uma opção extra para a Igreja: ser universal e particular ao mesmo tempo. Assumir todos os homens, assumindo cada homem: o capitalista e o comunista, o patrão e o operário, o rico e o povo.

Nos últimos tempos, tem se dito que a Igreja vai passando para a esquerda. Diante dos princípios aqui enunciados, isto seria um contra-senso. Há joio e trigo de ambos os lados. Se, entretanto, nos afastássemos um instante das realidades concretas, dos homens que a dirigem, dos atos humanos, sempre falhos porque humanos, e nos ativéssemos a uma pouca conceituação do que seja direita e esquerda, talvez se ativéssemos pudesse dizer que a esquerda se aproxima mais do Evangelho. Repito – porque é melhor mil repetições do que uma ambiguidade –não falo de regimes vigentes, de realidades sociais ou políticas: falo de conceitos. A ideologia da direita se exprime como preocupação de promover alguns, privilegiar alguns, dar a alguns acesso às conquistas da humanidade. Em um segundo momento pensa no resto da humanidade para o qual procura dispensar gestos de compaixão e desejos de promoção humana, contanto que não fira seus privilégios, suas situações criadas.

Em teoria, a esquerda se apresenta como aquela tendência de pensar não apenas em alguns, mas no Homem. Não deseja a promoção de alguns, mas de todos. Mas há preço a banir da terra os privilégios vigentes. Nestes termos, a ideologia de esquerda, que não é necessariamente comunista, é e corre paralela com as ânsias da Igreja que deixaria de ser Igreja se deixasse de ser universal, que trairia a mensagem do Cristo se pensasse de preferência em alguns para privilegiá-los. E quando sua preferência se afirma pelos pobres – é esta uma nota do Evangelho – não é por desejar aos ricos uma condição infra-humana, é por desejar a todos os bens que ainda faltam a tantos.

Representante desses ideais evangélicos, vim eu, mineiro, para a Paraíba, e me torno, oficialmente, paraibano – sinal de que o Bispo deveria mesmo pensar no particular, em nossa terra, em nossos problemas. Aqui enxerguei desde o início a luta contra dois determinismos: um geográfico, outro histórico. No determinismo geográfico, no sentido mais lato, incluo o fenômeno das secas, a precariedade da agricultura, a falta da indústria, tudo o que condiciona o subdesenvolvimento. E, para que o mal não esteja apenas na terra, para lembrar o joio dentro do homem, penso nos que, em tempos não muito remotos, fizeram a indústria da seca, deixando a Paraíba mais subdesenvolvida. Penso no latifúndio improdutivo ou mal explorado. Penso na condição de miséria a que se reduziu o camponês e no pouco de indústria que temos. Penso na insegurança do trabalhador na hora atual. Para superar os condicionamentos geográficos, era preciso a boa vontade. Aqui encontrou seu lugar a voz do Evangelho. E para anunciá-lo a respeito dessas realidades, fui me fazendo cada vez mais paraibano. Como sinal dos tempos e resposta a esses males, surge, no plano histórico, a Sudene. Surge, nos anseios coletivos, a sede do desenvolvimento.

O outro determinismo, esse histórico, vem sendo rompido gradativamente. É que o povo simples de nossa Paraíba pensa espontaneamente como todos os povos simples. Imagina a História como uma realidade cíclica, fatal, inexorável. E se o desenvolvimento veio como sinal dos tempos, e em resposta aos determinismos geográficos, a conscientização vem como sinal dos tempos e como resposta aos determinismos históricos. Nosso povo vai se conscientizando. Vai sabendo que todo homem tem direito a uma condição humana e que os bens do mundo pertencem à humanidade (….) O mineiro que aqui veio ser paraibano quis, durante esta estadia, ajudar o povo nesse processo de conscientização. Desejou a alfabetização de todos os homens, para que todos pudessem exercer os direitos políticos e humanos que lhes assistem. Nunca me ocorreu o medo de que a conscientização das massas fosse uma tática comunista. Antes me parece ser a vocação histórica do homem, se conhecendo para se construir. E resistir à História é ser suicida. Os princípios universais do Evangelho encontram sua temática particular, nesse momento histórico e nesse recanto da terra, quando lembram aos homens de boa vontade o dever cristão de humanizar a Paraíba. Aí está, Srs. Deputados, como vejo e recebo esse título que ora me outorgais. O legislativo vem dizer de público que a Igreja tem razão, que o Evangelho e problemas humanos caminham pelos mesmos caminhos e que serei o mais paraibano dos cristãos quando for o mais cristão dos paraibanos. É isto o que me pareceis dizer neste momento. E vos respondo: muito obrigado”.