Fala de Dom José aos deputados ainda é assustadoramente atual

A Assembleia Legislativa realizou, nesta segunda-feira (18), sessão especial para outorga póstuma do título de Cidadão Paraibano a Dom José Maria Pires.

Em 1967, o arcebispo recusou o título porque não aceitou a censura prévia ao seu discurso que lhe foi proposta por um grupo de deputados.

Anos mais tarde, houve uma nova tentativa de entrega do título, mas Dom José recusou novamente, alegando que, àquela altura, já se considerava paraibano.

Há, portanto, quem questione, com alguma razão, que não faz muito sentido a homenagem que testemunhamos agora em 2019.

Entendo, mas, de todo modo, considero significativo o caráter de reparação histórica que teve o ato da Assembleia Legislativa.

Fui à sessão especial e fiquei especialmente honrado com a missão que me foi dada: ler, na tribuna, o discurso que Dom José foi privado de fazer para os deputados em seu tempo.

É um texto por tudo admirável. Excepcionalmente bem escrito. Assustadoramente atual. Enormemente lúcido. Traz um pastor falando do encontro do Evangelho com a vida real. Tem Cristo, sim. E tem capitalismo e comunismo, direita e esquerda, ricos e pobres, determinismos históricos e determinismos geográficos, muros concretos (como o de Berlim daquele momento) e muros interiores.

Dom José era comunista? Os bispos progressistas eram de esquerda? Em que medida eles se esquerdizaram quando defenderam uma igreja voltada prioritariamente para os pobres?

Com Dom José, as perguntas tinham respostas. Elas estão todas no discurso que os deputados paraibanos de então não ouviram.

Por 52 anos, estamos nós, aqui, separados do texto escrito pelo arcebispo.

Mas como ele permanece oportuno!

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Sigo com algo que publiquei no centenário de Dom José, em março último.

Com Dom José Maria Pires, foi amor à primeira vista!

Minha mãe me levou para a avenida João da Mata, onde o novo bispo passou em carro aberto. Sorridente, acenando para as pessoas nas calçadas.

Fiquei encantado, com o meu olhar infantil, por aquela figura.

Era março de 1966. Dom José começava o seu longo período de 30 anos à frente do rebanho católico da Paraíba.

“Para meu amiguinho Sílvio, com o abraço de José Maria”.

Essa foto, com dedicatória e data de 24 de maio de 1966, ele me deu depois de uma audiência pública na visita pastoral que fez à Igreja do Rosário, em Jaguaribe.

Minha mãe era católica, havia sido freira na juventude. Meu pai era comunista e ateu. Os dois, por motivos distintos, foram atraídos pela figura de Dom José. Posso dizer que fui junto com eles.

Trocávamos cartões, cartas. Até que um dia ele disse que queria ir à minha casa. O ano era 1968.

Chegou lá dirigindo um fusca, num sábado à tarde. Foi recebido por um coral infantil que meu pai e minha mãe formaram e ensaiaram com os meninos da vizinhança, meus amigos.

Dom José, sentado numa velha cadeira de balanço restaurada para recebê-lo e toda pintada de vermelho, conversou mais com as crianças do que com os adultos. Comportou-se como se fosse uma delas, só que dizendo coisas de gente grande.

O que guardo dele na minha memória afetiva não cabe num texto. Mas posso mencionar algumas coisas:

O sermão das sete palavras da sexta-feira santa de um ano qualquer, na Catedral Metropolitana. O arcebispo parecia dar novo significado ao texto evangélico.

O apoio aos estudantes que foram às ruas em 1968. Dom José foi ao encontro deles no centro da cidade.

A criação de um centro de defesa dos direitos humanos, que funcionava ali na Almirante Barroso, sob o comando do advogado Wanderley Caixe.

A luta pela terra em Alagamar. Entre as ligas camponesas e o MST.

A noite de Natal em que transferiu a missa da Catedral para a Praça João Pessoa e lá celebrou ao lado dos agricultores acampados.

A recusa de receber o título de Cidadão Paraibano quando entendeu que seu discurso passaria por uma censura prévia da Assembleia Legislativa.

A presença na Missa dos Quilombos, no Recife, ao lado de Dom Hélder, Dom Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento.

A fala na estreia da Cantata Para Alagamar – trabalho que, como lembrou, reunia três homens de nome José. Um pastor católico (ele próprio), um judeu (José Alberto Kaplan) e um ateu que não acreditava nem na existência histórica de Cristo (Waldemar José Solha).

Essa fala resume muita coisa daqueles tempos difíceis. Mas contém, sobretudo, uma grande lição de tolerância. A tolerância que anda tão escassa no Brasil.

Dom José Maria Pires foi firme e corajoso como pastor de uma igreja comprometida com os pobres, mas nunca perdeu a capacidade de dialogar. Com o sorriso que oferecia aos estudantes ou aos agricultores, se apresentava aos militares do Grupamento de Engenharia ou ao governador de plantão no Palácio da Redenção.

A voz era de uma beleza que parecia música. Quase sempre mansa, sem perder a firmeza.

Tenho a alegria de ter sido contemporâneo da sua passagem pela Paraíba.

Conheci poucos homens tão especiais quanto Dom José, Dom Pelé, Dom Zumbi!