Censor quis saber o que é reggae para liberar show de Caetano

Uma vez, nos anos 1970, acompanhei um amigo compositor numa ida à Censura.

Ele levava músicas que seriam examinadas para o repertório de um show.

A conversa do censor com o artista era tão absurda quanto inacreditável, mas as coisas funcionavam daquele jeito, sim.

Lembrei disso, dois dias atrás, quando vi artistas participando de um debate sobre censura no STF.

Caetano Veloso – um dos convidados pelo Supremo – contou uma história do tempo em que voltou do exílio.

Era o ano de 1972.

Antes, lembrou que, em 1968, compôs uma canção chamada É Proibido Proibir.

Em seguida, vieram o AI-5, a sua prisão, o confinamento em Salvador e, por fim, o exílio de dois anos e meio em Londres.

Na volta, percorria o Brasil com o show do disco Transa, que gravara na Inglaterra.

Nine Out of Ten – do repertório do disco e do show – é a primeira canção brasileira em que aparece a palavra reggae, o ritmo jamaicano que Caetano conhecera em Londres.

Walk down Portobello road to the sound of reggae
I’m alive

Quando o show chegou a Salvador, o artista foi chamado pela Censura.

Um dos seus professores da época em que cursou Filosofia na Universidade da Bahia havia se transformado em censor. Foi quem o recebeu.

O censor queria saber o significado da palavra reggae para poder liberar o show.

Caetano disse que reggae é um ritmo da Jamaica que ouvira na Inglaterra e que começava a se popularizar no resto do mundo.

O censor duvidou da explicação. Não encontrara a palavra nos dicionários, nem de gírias.

Caetano contra-argumentou: a palavra ainda não estava dicionarizada.

Ou seja: sob o AI-5, sob os mecanismos de censura advindos do endurecimento do regime, um show poderia ser proibido porque o censor não se convencera de que reggae é apenas um ritmo musical da Jamaica.

Esse relato de Caetano no Supremo não é uma mera curiosidade histórica do tempo da ditadura militar brasileira.

É, antes, a confirmação do quanto foi difícil aquele período.

E de que como é imprescindível atuar pela manutenção dos avanços obtidos a partir da redemocratização.

A presença de Caetano Veloso no STF enriqueceu o debate pelo grande artista que ele é.

Também por seu ativismo digno e corajoso.