Leila Pinheiro encerra festival neste sábado em João Pessoa

Dois discos associaram a cantora paraense Leila Pinheiro à Bossa Nova.

O primeiro – Bênção Bossa Nova – foi lançado em 1989.

Com faixas em formato de medley, era uma produção de Roberto Menescal direcionada ao mercado japonês.

O segundo – Isso é Bossa Nova – é de 1994.

Fortaleceu a imagem de Leila como intérprete de Bossa Nova.

Mas ela fez muitas outras coisas ao longo de sua carreira, a partir do momento em que foi projetada num daqueles festivais da década de 1980.

Leila dedicou discos a Guinga, Ivan Lins, Gonzaguinha e ao seu contemporâneo Renato Russo.

Tem uma bela voz e – muitos não sabem – também se acompanha ao piano.

Neste sábado, Leila Pinheiro se apresenta no encerramento do Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa. Coincide com o instante em que gravou músicas de Cazuza em ritmo de bossa.

Ela dividirá o palco com a Orquestra Sinfônica Municipal, regida pelo maestro Laércio Diniz.

Como, em sua edição 2019, o festival faz uma homenagem aos 60 anos da Bossa Nova, é a Leila da bossa que veremos em João Pessoa.

Ela cantará acompanhada pela sinfônica e fará alguns números ao piano.

O repertório prioriza canções da Bossa Nova.

O concerto/show gratuito será às cinco da tarde no Parque Solon de Lucena.

O Irlandês vai para a lista dos melhores filmes de Scorsese

É difícil ver O Irlandês sem pensar nas críticas de Martin Scorsese aos filmes da Marvel.

Vendo O Irlandês, é fácil entender porque Martin Scorsese disse que os filmes da Marvel não são cinema.

Mas não quero me prender a essa questão.

O Irlandês é um grande filme. Não vai esperar décadas para se transformar num clássico. Já nasce assim, como grande cinema.

Martin Scorsese precisou de três horas e meia para contar a história dos seus personagens. É o mais longo dos seus filmes de ficção. Tem o mesmo tempo dos documentários que fez sobre Bob Dylan (No Direction Home) e George Harrison (Living in the Material World).

Mas tempo não é problema. A narrativa flui tão naturalmente que o fato de ser extensa não representará um incômodo para o espectador.

Scorsese é um mestre do seu ofício. Faz cinema e pensa o cinema.

Os gângsters que ele mostrou quando era jovem em Caminhos Perigosos, ou quando era maduro em Os Bons Companheiros, agora são vistos na velhice por um homem igualmente velho.

Somente um homem velho (Scorsese já se aproxima dos 80) faria um filme assim. Ele aborda temas permanentes da vida – não necessariamente da vida de gângsters – com um olhar que só os velhos conseguem ter. E o faz com homens velhos em atuações absolutamente excepcionais: Robert De Niro, Joe Pesci e, sobretudo, Al Pacino, com quem nunca havia trabalhado.

Essa pode ser uma das chaves do filme. A reunião desses homens postos numa trama que mostra a passagem do tempo, em idas e vindas admiráveis como construção narrativa. E há o fato de que, muito provavelmente, nunca mais veremos Scorsese, De Niro, Pesci e Pacino juntos num mesmo filme.

O Irlandês trata do homem inserido no macro – a política, o poder, a corrupção – e mostra esse mesmo homem como indivíduo, com suas ambições, suas culpas, seus arrependimentos tardios. As duas coisas se misturam, se confundem na trama.

Hoffa – como o assassinato de Kennedy – é real. O Hoffa de Pacino mistura realidade com ficção.

O Irlandês dá a sensação de que, nele, há dois filmes.

O primeiro, mais ágil, lembra outros filmes de Scorsese.

O segundo, o do desfecho, é contemplativo.

Na terceira parte de O Poderoso Chefão, o epílogo reservado ao mafioso Michael Corleone é trágico, mas é rápido.

Em O Irlandês, a velhice do personagem de Robert De Niro é melancólica e se arrasta numa incômoda lentidão.

O Irlandês vai direto para a lista dos melhores filmes realizados por Martin Scorsese.

Um Dia de Chuva em Nova York é bom, mas nem tanto

Um Dia de Chuva em Nova York, o novo filme de Woody Allen, está em cartaz em João Pessoa.

E bom ver seus filmes, mesmo que não sejam os melhores dos muitos que realizou. É bom porque tem a singularidade da sua assinatura. Tem uma marca, um estilo que logo você identifica como sendo o de Woody Allen.

Ver Annie Hall, nos idos de 1978, ou Manhattan, lá por volta de 1980, era melhor. Muitíssimo melhor! Havia uma novidade, um frescor de quem estava definindo um modo de fazer cinema que o destacaria entre os cineastas da sua geração.

Ali, entre as décadas de 1970 e 1980, Woody Allen fez seus filmes mais importantes (Annie Hall, Manhattan, A Rosa Púrpura do Cairo, Zelig, Hannah e Suas Irmãs). Os mais originais, criativos, inteligentes.

Depois, com frequência, mostrou-se refém de uma fórmula que, com o passar do tempo, perdeu muito do seu charme, deu claros sinais de esgotamento.

Nos últimos anos, Allen trocou sua Nova York pela Europa. Match Point e Meia-Noite em Paris talvez sejam os pontos altos da sua filmografia europeia. Um drama e uma comédia.

Em Um Dia de Chuva em Nova York, o título já assegura, Woody Allen está em casa. Gatsby, o narrador, pode até ser o jovem Allen, mais jovem ainda do que o diretor/ator que vimos em tantos filmes.

Os personagens, as situações, os diálogos, os dilemas – tudo lembra muito outros filmes do realizador. Só que tudo encanta menos. Como se Woody Allen se autoplagiasse.

Mas ainda é bom ir ao cinema ver Woody Allen. Os letreiros brancos sobre o fundo preto e todo aquele jazz nos asseguram, de cara, que estamos diante de um novo episódio de uma longa trajetória. E essas longas trajetórias merecem respeito, devem ser celebradas.

Amor de Mãe bota Bob Dylan no horário nobre da TV aberta

Bob Dylan tocando no horário nobre da TV aberta brasileira.

Que Luxo!

Hurricane, um dos grandes sucessos de Dylan, está na trilha sonora de Amor de Mãe, a nova novela das nove da Rede Globo.

Bob Dylan lançou Hurricane em janeiro de 1976.

Com mais de oito minutos de duração, é a faixa de abertura de Desire, um dos seus melhores discos.

A letra de Hurricane foi escrita a partir da história real do boxeador Rubin Carter, que foi condenado por assassinato.

No Brasil, ganhou uma versão de Zé Ramalho chamada Frevoador.

Quarteto Jobim preserva música escrita por um homem imenso

O Quarteto Jobim e a Orquestra Sinfônica Municipal, sob a regência do maestro Laércio Diniz, abriram, neste domingo (24), a sétima edição do Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa.

O evento está homenageando a Bossa Nova.

Em 2019, faz 60 anos que João Gilberto lançou o LP Chega de Saudade.

Em 2019, aos 88 anos, João Gilberto nos deixou.

Em 2019 (oito de dezembro), faz 25 anos da morte de Tom Jobim.

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Antônio Carlos Jobim.

Tom Jobim.

Antônio Brasileiro.

Maestro soberano.

As suas músicas foram compostas há tanto tempo (algumas têm mais de seis décadas), mas permanecem com o frescor do momento em que nasceram. Como se fossem novíssimas.

Melhor: são permanentes, não dependem da ação do tempo.

O que temos é um repertório imenso escrito por um homem imenso, o nosso mais importante compositor popular, o que melhor projetou internacionalmente a música produzida pelos brasileiros.

O Quarteto Jobim preserva e celebra a música de Tom Jobim. Leva suas canções a muitas partes do mundo. Mostra às plateias o quanto elas estão vivas, como elas são necessárias.

O grupo é formado por Daniel Jobim (neto de Tom), Paulo Jobim (filho de Tom), Jaques Morelenbaum e Paulo Braga. Daniel toca piano e canta com um timbre vocal que lembra muito o do avô. Os outros três foram integrantes da banda que acompanhou Jobim em sua última década de vida.

Paulo Jobim não participou do concerto de João Pessoa. Foi substituído por um jovem violonista. A despeito da sua ausência, tivemos uma grande noite no adro da Igreja de São Francisco.

Esses músicos que, ao final da performance, desceram para a plateia e ali receberam as pessoas, fazem a música de Tom Jobim como ninguém. Com absoluta fidelidade, com inquestionável legitimidade.

Vê-los ao vivo alegra, encanta, revigora. Faz um bem danado ao espírito. Como são belas e perfeitas essas canções.

Vê-los ao vivo também dá saudade do Brasil. A música de Tom Jobim é a música de um Brasil imaginado, sonhado, projetado pelos que são nossos fundadores.

Não é – jamais seria – a música desse Brasil que hoje vemos em desconstrução.

Quarteto Jobim vai abrir festival no domingo em João Pessoa

O Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa começa neste domingo (24).

A abertura – às sete da noite no adro da Igreja de São Francisco – será com o Quarteto Jobim e a Orquestra Sinfônica Municipal (regência do maestro Laércio Diniz).

Em sua edição 2019, no habitual encontro do erudito com o popular, o festival vai homenagear a Bossa Nova.

Motivos não faltam:

Exatos 60 anos nos separam do lançamento do LP Chega de Saudade, de João Gilberto.

No dia oito de dezembro, são 25 anos da morte de Antônio Carlos Jobim.

E, em 2019, perdemos João Gilberto. O artista morreu aos 88 anos.

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Aos que não conhecem o Quarteto Jobim, vou resumir assim, sem qualquer exagero:

No mundo inteiro, é o grupo que melhor interpreta a música de Antônio Carlos Jobim.

O grupo é formado por Paulo Jobim (filho de Tom) ao violão, Daniel Jobim (neto de Tom) ao piano e vocais, o violoncelista Jaques Morelenbaum e o baterista Paulo Braga.

Daniel, com timbre vocal muito parecido ao do avô, ainda trabalhou com Tom em seus último disco, Antônio Brasileiro.

Os outros três integrantes do quarteto faziam parte da Banda Nova, o grupo que acompanhou Jobim durante nove anos, entre 1985 e a morte do artista, em 1994.

Paulo Jobim é compositor e arranjador e faz um extraordinário trabalho de preservação da obra do pai.

Jaques Morelenbaum e Paulo Braga estão entre os instrumentistas mais requisitados da música popular brasileira.

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Um pouco de história:

Tom Jobim só se apresentou no Nordeste uma vez.

Foi no Teatro Guararapes, no Recife, em julho de 1991.

Tom e a Banda Nova tocaram duas noites.

Eu estava lá. Foi inesquecível!

Ver o Quarteto Jobim neste domingo em João Pessoa será incrível.

O grupo proporcionará um grande encontro com a música de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Ninguém faz melhor do que esses caras.

Ninguém está mais autorizado do que eles.

Gugu Liberato morreu? Reinaldo Azevedo “matou” Gugu Liberato?

Nesta quinta-feira (21), Reinaldo Azevedo abriu o programa O É da Coisa, na Band News FM, lamentando a morte de Gugu Liberato.

Fui em busca de detalhes e, no G1, encontrei uma notícia sobre o acidente que o apresentador sofrera em sua casa, em Orlando. Morte, nada.

Procurei na Folha. Nenhuma informação sobre a morte de Gugu.

Reinaldo Azevedo, tão cioso que é com a veracidade do que noticia, errou?

Lembrei da lição de Erialdo Pereira, meu editor chefe durante quase duas décadas na TV Cabo Branco: no jornalismo, não devemos ser açodados.

Com morte, então, é que não devemos mesmo!

“Matar” quem está vivo é imperdoável.

O SBT “matou” o governador Antônio Mariz na noite da sexta-feira 15 de setembro de 1995, e ele só morreu na noite do sábado 16 de setembro.

Noticiar errado? É melhor não noticiar – ouvíamos sempre de Erialdo Pereira.

As redes sociais estão cheias de irresponsáveis escrevendo o que querem escrever. Compromisso com a verdade? Zero!

No jornalismo, continua valendo a lição do meu editor: nada de açodamento.

No final do programa, Reinaldo Azevedo mandou um recado aos que quiserem atribuir a ele o desejo de dar furo com um assunto como a morte de uma pessoa. Não é o seu estilo.

Gugu Liberato morreu?

Reinaldo Azevedo foi açodado?

Reinaldo Azevedo “matou” Gugu Liberato?

Aguardemos as próximas notícias.

Fábio Barreto, de Lula, o Filho do Brasil, passou 10 anos em coma

O cineasta Fábio Barreto morreu nesta quarta-feira (20) no Rio de Janeiro.

Ele passou quase 10 anos em coma por causa de um acidente de carro ocorrido em dezembro de 2009.

Quando sofreu o acidente, Fábio acabara de realizar Lula, o Filho do Brasil, uma cinebiografia do então presidente Lula.

O filme foi visto por muitos como peça de propaganda política para a campanha de 2010, que elegeria Dilma presidente.

O cineasta tinha 52 anos na época do acidente. Morreu aos 62.

Ele cresceu no mundo do cinema.

Era filho de Luiz Carlos e Lucy Barreto, casal de produtores, grandes figuras do cinema brasileiro.

E era irmão do também cineasta Bruno Barreto, o cara que fez Dona Flor e Seus Dois Maridos.

Fábio dirigiu Índia, a Filha do Sol, O Rei do Rio e O Quatrilho, com o qual concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Dizem sempre que os pais não foram feitos para enterrar os filhos.

O que aconteceu com Fábio é um episódio muito triste na trajetória da família Barreto.

Ben Jor fez grande música sobre a presença dos negros no Brasil

EU QUERO VER

QUANDO ZUMBI CHEGAR

O QUE VAI ACONTECER

Nesta quarta-feira (20), celebra-se o Dia da Consciência Negra.

É uma data importantíssima para nós que vivemos num país fortemente marcado pelo preconceito racial. Um país felizmente tão miscigenado, mas tristemente tão racista.

O negro tem extraordinária presença na música popular brasileira, e essa presença está expressa num vasto cancioneiro.

Poderia aqui citar muitas canções (Refavela, de Gilberto Gil, é uma das que mais me tocam), mas escolhi apenas uma: Zumbi, de Jorge Ben Jor, gravada no tempo em que ele ainda era Jorge Ben.

Zumbi foi gravada originalmente em 1974, no álbum A Tábua de Esmeralda.

Reapareceu, um pouco mais tarde, numa versão pesada e quase recitativa, no LP África Brasil.

Também há um registro ao vivo com o autor no evento Phono 73.

Posto a versão ao vivo com Caetano Veloso, no show Noites do Norte.

“Resistir à História é ser suicida”. Íntegra do discurso de Dom José

Segue, na íntegra, o discurso que o arcebispo Dom José Maria Pires escreveu para ler na Assembleia Legislativa ao receber o título de Cidadão Paraibano.

Dom José recusou o título quando foi procurado por um grupo de deputados para que submetesse o texto a uma censura prévia.

“Ilmos. Srs. Deputados,

A coincidência deste título de cidadão paraibano que me ofereceis nas proximidades das festas natalinas me lembra um fato que se torna a ideia mestra de toda esta minha palavra de agradecimento. Ela poderia chamar-se a dialética do universal e do particular, porque me lembro de Deus feito homem e no mesmo instante feito cidadão do Império Romano. Como homem, Deus assume a espécie humana, se faz parcela da humanidade, sem discriminação nem preconceitos. Assume uma tarefa histórica, destinada a qualquer ser onde se verifica a realidade humana. Dir-se-ia naqueles tempos: destinada a judeus e a gentios. Dir-se-ia, quatro séculos depois: destinados a romanos e bárbaros. Dir-se-ia hoje: destinada a negros e brancos, a homens de direita e de esquerda, do Oriente e do Ocidente, do capitalismo e do comunismo. E este é o elemento universal.

Mas o próprio nascimento do Cristo é marcado por um elemento particular. Ele não é apenas cidadão do mundo. Ele pertence a uma raça, a de Davi. Pertence a um império e é cidadão romano. E, por isso, Maria tem de ir a Belém, onde as leis do Império ordenam que se apresentem seus cidadãos e descendentes da família de Davi. Aí está o particular. Esta reflexão não vem ao acaso, quando um bispo católico se faz cidadão da Paraíba. Porque como católico se afirma o elemento que a própria etimologia da palavra exprime: universal. Como cidadão deste Estado, deste povo, desta porção da realidade brasileira, se afirma o elemento particular. Esse título que ora recebo visa a prestigiar decerto mais a Igreja que represento do que o homem que sou. E se algum mérito recair sobre mim mesmo, será, apenas, pelo fato de eu ter tentado ser aquilo que Cristo é: cidadão de um povo sem deixar de ser cidadão do mundo. Também pelo fato de minha vivência no meio de vós ter sido aquilo que a Igreja é: inspiradora universal das realidades particulares, banhando cada momento histórico que surge, sem se comprometer com ele, para não morrer com ele, porque tudo o que nasce com o tempo, morre com o tempo. E nós cremos numa Igreja que só é contemporânea de todos os homens porque é eterna.

De outra parte, esta mesma Igreja não se aliena do mundo, com medo de se comprometer com ele. Sei que ela vive impregnada de reflexões de eternidade e de riscos eternos. E por isso mesmo ela pensa no tempo e se engaja nas realidades temporais: porque o que vem depois do tempo é decidido no tempo. A eternidade do homem é apenas o eco dos seus passos no mundo, por isso o particular lhe interessa. Isto é um elemento essencial da Igreja. Esta é a novidade do Novo sobre o Velho Testamento, porque antes de Cristo o pensamento de Deus teve preferência por um tipo de civilização judaica, o regime teocrático. Com o Novo testamento surge a novidade da Igreja: ela é equidistante de qualquer civilização, de qualquer regime político. Não existe a civilização cristã, nem mesmo a medieval merece esse nome com exclusividade. Não existe o partido político cristão: nenhum se atribua esse título com exclusividade. Existe uma igreja universal, banhando realidades particulares. Nascem Pedro, Maria, João. A Igreja os batiza. Nascem as civilizações grega, romana, bárbara, medieval, moderna. A Igreja as batiza. E essa vontade de batizá-las, é bom que sempre se repita, é universal. Ensaia-se, por exemplo, hoje, uma civilização comunista. Ninguém pense que a Igreja se recuse a assumi-la. Antes espera que os extremistas do ateísmo oficial um dia tombem para a conversão e o batismo.

A Igreja crê que nenhuma realidade humana é tão satânica que nada de bom se possa salvar nela. E por não querer entender isto, é que muita gente se escandaliza ao ouvir de bispos elogios a aspectos positivos de realidades socialistas, seja em Cuba, China ou Moscou. A Igreja crê que nenhuma realidade humana é tão divina que nada de mau se possa apontar nela. E por não querer entender isto é que muita gente se escandaliza ao ouvir de bispos censura a aspectos negativos de regimes que se pretendem até cristãos ou defensores da cristandade, como os de Franco ou Salazar. Neste particular, ninguém entende a Igreja, como ela pensa, enquanto não entender o mundo, como ele é, porque ainda em nossos dias há quem imagine que o mundo está dividido entre bons, de um lado, e maus do outro, separados pelo muro de Berlim. A Igreja acredita que o mundo é o campo sobre o qual em cada palmo nasceram joio e trigo, o bem e o mal. Para assumir a imagem anterior, a Igreja pensa que o muro de Berlim passa por dentro de cada um de nós. E o bem e o mal se mesclam em nossos pensamentos, nossas palavras, gestos e passos. Só resta uma opção extra para a Igreja: ser universal e particular ao mesmo tempo. Assumir todos os homens, assumindo cada homem: o capitalista e o comunista, o patrão e o operário, o rico e o povo.

Nos últimos tempos, tem se dito que a Igreja vai passando para a esquerda. Diante dos princípios aqui enunciados, isto seria um contra-senso. Há joio e trigo de ambos os lados. Se, entretanto, nos afastássemos um instante das realidades concretas, dos homens que a dirigem, dos atos humanos, sempre falhos porque humanos, e nos ativéssemos a uma pouca conceituação do que seja direita e esquerda, talvez se ativéssemos pudesse dizer que a esquerda se aproxima mais do Evangelho. Repito – porque é melhor mil repetições do que uma ambiguidade –não falo de regimes vigentes, de realidades sociais ou políticas: falo de conceitos. A ideologia da direita se exprime como preocupação de promover alguns, privilegiar alguns, dar a alguns acesso às conquistas da humanidade. Em um segundo momento pensa no resto da humanidade para o qual procura dispensar gestos de compaixão e desejos de promoção humana, contanto que não fira seus privilégios, suas situações criadas.

Em teoria, a esquerda se apresenta como aquela tendência de pensar não apenas em alguns, mas no Homem. Não deseja a promoção de alguns, mas de todos. Mas há preço a banir da terra os privilégios vigentes. Nestes termos, a ideologia de esquerda, que não é necessariamente comunista, é e corre paralela com as ânsias da Igreja que deixaria de ser Igreja se deixasse de ser universal, que trairia a mensagem do Cristo se pensasse de preferência em alguns para privilegiá-los. E quando sua preferência se afirma pelos pobres – é esta uma nota do Evangelho – não é por desejar aos ricos uma condição infra-humana, é por desejar a todos os bens que ainda faltam a tantos.

Representante desses ideais evangélicos, vim eu, mineiro, para a Paraíba, e me torno, oficialmente, paraibano – sinal de que o Bispo deveria mesmo pensar no particular, em nossa terra, em nossos problemas. Aqui enxerguei desde o início a luta contra dois determinismos: um geográfico, outro histórico. No determinismo geográfico, no sentido mais lato, incluo o fenômeno das secas, a precariedade da agricultura, a falta da indústria, tudo o que condiciona o subdesenvolvimento. E, para que o mal não esteja apenas na terra, para lembrar o joio dentro do homem, penso nos que, em tempos não muito remotos, fizeram a indústria da seca, deixando a Paraíba mais subdesenvolvida. Penso no latifúndio improdutivo ou mal explorado. Penso na condição de miséria a que se reduziu o camponês e no pouco de indústria que temos. Penso na insegurança do trabalhador na hora atual. Para superar os condicionamentos geográficos, era preciso a boa vontade. Aqui encontrou seu lugar a voz do Evangelho. E para anunciá-lo a respeito dessas realidades, fui me fazendo cada vez mais paraibano. Como sinal dos tempos e resposta a esses males, surge, no plano histórico, a Sudene. Surge, nos anseios coletivos, a sede do desenvolvimento.

O outro determinismo, esse histórico, vem sendo rompido gradativamente. É que o povo simples de nossa Paraíba pensa espontaneamente como todos os povos simples. Imagina a História como uma realidade cíclica, fatal, inexorável. E se o desenvolvimento veio como sinal dos tempos, e em resposta aos determinismos geográficos, a conscientização vem como sinal dos tempos e como resposta aos determinismos históricos. Nosso povo vai se conscientizando. Vai sabendo que todo homem tem direito a uma condição humana e que os bens do mundo pertencem à humanidade (….) O mineiro que aqui veio ser paraibano quis, durante esta estadia, ajudar o povo nesse processo de conscientização. Desejou a alfabetização de todos os homens, para que todos pudessem exercer os direitos políticos e humanos que lhes assistem. Nunca me ocorreu o medo de que a conscientização das massas fosse uma tática comunista. Antes me parece ser a vocação histórica do homem, se conhecendo para se construir. E resistir à História é ser suicida. Os princípios universais do Evangelho encontram sua temática particular, nesse momento histórico e nesse recanto da terra, quando lembram aos homens de boa vontade o dever cristão de humanizar a Paraíba. Aí está, Srs. Deputados, como vejo e recebo esse título que ora me outorgais. O legislativo vem dizer de público que a Igreja tem razão, que o Evangelho e problemas humanos caminham pelos mesmos caminhos e que serei o mais paraibano dos cristãos quando for o mais cristão dos paraibanos. É isto o que me pareceis dizer neste momento. E vos respondo: muito obrigado”.