Zé Ramalho e a cocaína: “Eu apenas parei”

Zé Ramalho fez 70 anos na quinta-feira passada (03/10).

Na sexta, foi ao programa de Pedro Bial.

O jornalista, naturalmente, perguntou sobre o tempo em que o artista foi usuário de cocaína.

Zé foi franco e corajoso na resposta.

O que ele disse:

“Quando cheguei, o cartel de Cali estava investindo essa substância no Rio, botando da melhor qualidade para viciar. Pessoas das gravadoras, gerentes, presidentes, políticos usavam. Eu apenas parei. Nunca fiz tratamento, psicanálise, simplesmente disse: ‘hoje é a última vez’ e nunca mais retornei”.

“Sofri bastante, mas o mais importante era recuperar a carreira. Eu fiquei sem gravar, as gravadoras não se animaram mais a trabalhar comigo. Você vai até onde dá para ir. Nesse limite eu parei, foi uma decisão importantíssima para mim. Eu tinha sentido tudo o que eu queria sentir com essa experiência. Eu só tomo vinho hoje em dia, diariamente a caneca de vinho que tenho direito”.

Ginger Baker, um dos maiores bateristas do rock, morre aos 80

O baterista Ginger Baker morreu neste domingo (06).

Tinha 80 anos.

O músico estava hospitalizado em estado crítico.

Integrante, nos anos 1960, do power trio Cream, ao lado de Eric Clapton e Jack Bruce, Baker foi um dos maiores bateristas do rock.

Em maio de 2005, o Cream se reencontrou em Londres.

Foi numa pequena temporada de quatro shows no Royal Albert Hall.

O guitarrista Eric Clapton acabara de completar 60 anos.

O baixista Jack Bruce estava às vésperas dos 62.

O baterista Ginger Baker logo faria 66.

O registro dos concertos em áudio e vídeo de alta definição é extraordinário.

Velhos companheiros de volta ao palco, sem o frescor da juventude, mas com a experiência da trajetória longa.

Não necessariamente por ser o mais jovem, Clapton estava inteiraço com sua guitarra Fender e seus blues.

Bruce, que morreria aos 71 em 2014, era, visivelmente, um homem sem saúde.

Baker, não por ser o mais velho, parecia cansado diante da sua enorme bateria.

Nada, no entanto, tirou a beleza e o vigor daquelas performances. Volto sempre a elas. É um reencontro nosso com um grupo de rock essencial, fundador.

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O Cream teve vida curtíssima. Atuou entre 1966 e 1969.

Lançou apenas quatro discos (Fresh Cream, Disraeli Gears, o duplo Wheels of Fire e Goodbye).

Estabeleceu pelo menos dois conceitos no rock: o de power trio e o de supergrupo.

O blues é uma das suas marcas. Há também a psicodelia tão em voga no rock da segunda metade dos anos 1960. E – claro – o som pesado, pesadíssimo, do hard rock.

Quando o Cream acabou, Ginger Baker permaneceu ao lado de Eric Clapton numa nova experiência, resumida a um álbum: o Blind Faith, outro supergrupo, dessa vez um quarteto.

Sozinho, Baker (como Bruce) não teve uma carreira sólida como a de Clapton.

Só precisou do tempo brevíssimo do Cream para inserir seu nome na história do rock.

Era uma lenda. Sei que é um clichê, mas é isso mesmo.

Seu longo solo em Toad sintetiza tudo.

Filmes da Marvel não são cinema. Quem disse foi Martin Scorsese

Li na Folha de S. Paulo e achei muito interessante.

O cineasta Martin Scorsese disse que os filmes da Marvel não são cinema.

Está aí o que ele disse:

“Eu não vejo. Eu tentei, sabe? Mas aquilo não é cinema. Honestamente, o mais próximo que consigo pensar deles, por mais bem feitos que sejam, com os atores fazendo o melhor que podem sob as circunstâncias, são os parques temáticos”.

Disse mais:

“Não é o cinema de seres humanos tentando transmitir experiências emocionais e psicológicas a outro ser humano”.

Martin Scorsese é um dos maiores cineastas do mundo. E é um homem que pensa o cinema.

Janis Joplin ainda é a maior voz feminina do rock

Janis Joplin morreu há 49 anos (quatro de outubro de 1970).

Tombou num quarto de hotel depois de tomar uma dose de heroína.

Tinha somente 27 anos e estava terminando seu segundo disco solo.

Nos dois anteriores, ainda era a cantora do grupo Big Brother & Holding Company.

Uma branca que canta como os negros. É o que se diz dela.

Ninguém canta como os negros, mas Janis tentava chegar perto. Prefiro assim.

Seu negócio era a black music. Há muito blues, mas também soul no que gravou.

Tanto há Bessie Smith quanto Otis Redding.

Era um diamante em estado bruto, já revelavam as precárias gravações feitas nos bares onde se apresentava, antes do sucesso, e só lançadas postumamente.

Trouble in Mind é dessa fase. Nua e crua. Por isto, tão bonita.

Kozmic Blues e Pearl, seus dois discos solo, são um pouco aveludados. Talvez fosse a gravadora tentando domar a fúria da intérprete, adequá-la ao mainstream do rock.

Os registros ao vivo, discos póstumos como o Joplin in Concert, mostram Janis livre nos palcos. A cantora, sua voz rouca e seus gritos incontidos.

Janis Joplin é de uma linhagem de grandes cantoras à qual pertencem mulheres atormentadas que levaram suas dores para o que cantaram.

O que elas sentiam (ou o que faltava a elas) estava explícito na performance vocal. Sobrepunha-se ao idioma da canção.

Bastava ouvir, com alguma sensibilidade, para entender.

Isso é o que há de extraordinário nela. Como em Billie Holiday, Maysa, Edith Piaf, Nina Simone, Elis Regina, Amy Winehouse. Não importa o estilo que abraçaram, nem o lugar de onde vieram.

Janis Joplin ainda é a maior voz feminina do rock.

Zé Ramalho, o cara de Avôhai e Admirável Gado Novo, faz 70 anos

José Ramalho Neto, Brejo do Cruz, três de outubro de 1949.

Zé Ramalho, o cara que compôs Avôhai e Admirável Gado Novo, faz 70 anos nesta quinta-feira (03).

Lembro dele jovem, na João Pessoa do início dos anos 1970.

Vindo dos conjuntos de baile, misturava o Nordeste com o rock dos Beatles, já era louco pelos nossos violeiros e por Bob Dylan.

Foi o Zé que vi ao vivo em 1974 num show que me impressionou muito. Atlântida. Tinha uma pegada profissional. Revelava a força do artista no palco. Vinha com um repertório autoral incrível.

Zé Ramalho trocou a medicina pela música. Quando fez Avôhai, cantou a música de joelhos diante do avô. O velho José Ramalho, que era, a um só tempo, seu avô e seu pai. Seu Avôhai.

O homenageado acabara de morrer quando a música foi mostrada pela primeira vez ao público. Na Coletiva de Música da Paraíba, em 1976. Eu estava na plateia do Teatro Santa Roza e senti o que havia de belo e enigmático naquela canção.

Uns três anos depois, apresentado ao LP A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, o grande músico Egberto Gismonti parou ao ouvir Admirável Gado Novo. “É essa aí!”, disse Egberto, resumindo tudo.

Avôhai e Admirável Gado Novo.

Para mim, são os dois maiores momentos do caminho autoral desse artista paraibano.

São canções que trazem a sua originalíssima assinatura. Que podem sintetizar o seu cancioneiro.

Vejam como elas atravessaram o tempo.

Vejam como permanecem com o frescor da juventude, do momento em que foram escritas.

Uma trilogia reúne o melhor do seu trabalho, a fase de maior criatividade, as canções que estão bem guardadas na memória afetiva do público fiel que conquistou.

Editados pela velha CBS, são os primeiros títulos da sua discografia: o LP que leva seu nome e começa com Avôhai, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu e A Terceira Lâmina.

Quando comemorou 20 anos de carreira, Zé Ramalho regravou seu The Best num álbum duplo chamado Antologia Acústica.

Não maculou os originais e conseguiu recriá-los de um modo que poucos fariam com canções que, àquela altura, já eram verdadeiros clássicos do nosso cancioneiro popular.

Hoje, aos 70 anos, celebra a data mexendo novamente nos seus arquivos pessoais. Dessa vez, lança um CD com um registro, de quatro décadas atrás, do show A Peleja do Diabo com o Dono do Céu.

Já cantou Dylan, Beatles, Raul, Gonzaga, Jackson, a Nação Nordestina. É intérprete singular, além de autor. Como intérprete, faz com que algumas canções pareçam suas.

José Ramalho Neto. Zé Ramalho da Paraíba. Zé Ramalho.

Com suas canções, o cara que fez Avôhai e Admirável Gado Novo orgulha seus conterrâneos.

Annie Leibovitz faz 70 anos

Annie Leibovitz está fazendo 70 anos nesta quarta-feira (02).

Escolho uma foto icônica de Leibovitz.

Esta de John Lennon e Yoko Ono.

John Lennon perdeu a mãe na adolescência.

Julia, que não criou o menino, morreu atropelada.

“Mãe, você me teve, mas eu nunca lhe tive”, assim ele cantou em Mother.

Yoko Ono desempenhou muitos papéis na vida de Lennon. Entre eles, provavelmente o da mãe que o artista nunca teve.

A foto de Annie Leibovitz fala disso.

Yoko deitada no chão. Calça jeans, blusa preta.

John nu. Completamente nu. Quase em posição fetal.

Frágil e dependente dela.

O casal está deitado no chão, mas, como a foto foi feita de cima, há a sugestão de que eles estão em pé. John estaria, então, pendurado em Yoko.

É uma bela foto.

Ela foi feita no edifício Dakota na manhã do dia oito de dezembro de 1980. Lennon seria assassinado horas depois.

A foto foi capa da edição da revista Rolling Stone de janeiro de 1981.

Annie Leibovitz é um dos grandes nomes da fotografia.

Ficou conhecida trabalhando na Rolling Stone, fotografando celebridades.

Transformou seu ofício em arte.

Durante muitos anos, foi companheira de Susan Sontag, escritora e ativista dos direitos humanos.

Annie Leibovitz marca nosso tempo como artista e cidadã.

Quer dizer que Sting cantava com uma cobra enrolada no pescoço?

Os bolsonaristas fazem muitas coisas nas redes sociais.

Uma delas: mentir.

Mentir sem qualquer cerimônia, sem escrúpulo algum.

Mentir de forma absurda.

Dias atrás, li um artigo importante do editor do New York Times sobre fake news.

Mais do que isso: sobre o desprezo que têm pela imprensa os governantes de extrema direita. Gente como Trump ou Bolsonaro, ambos mencionados no texto.

O texto fazia um alerta a cada um de nós: é imprescindível uma luta cidadã contra o que ameaça as democracias em que vivemos. A difusão de fake news em larga escala e a desqualificação da imprensa ameaçam, sim.

Os bolsonaristas – volto a eles – postam grandes e pequenas mentiras. São todas danosas.

Gosto de prestar atenção nas pequenas mentiras porque, no fundo, elas revelam muito do caráter de quem as posta.

Tenho lido posts sobre o cacique Raoni. Desrespeitosos, escritos por quem quer macular a sua dimensão internacional e difundidos por pessoas ignorantes ou de má fé.

Esses posts sobre Raoni e as ONGS que atuam na Amazônia vão para o conjunto das grandes mentiras da máquina de maldades do bolsonarismo.

No meio deles, encontrei uma – digamos – pequena mentira. Reparei nela por causa do meu amor pela música.

O músico inglês Sting – dizia o post – fazia seus shows com uma cobra enrolada no pescoço. A cobra, uma sucuri, lhe fora presenteada pelo cacique Raoni.

Conheço Sting desde os tempos do Police – segunda metade dos anos 1970 – e continuei seguindo seu trabalho depois que o power trio se desfez.

Tenho todos os discos do Police e também todos os trabalhos da trajetória solo desse músico por quem nutro grande admiração. Há nele produtivo diálogo do pop com o jazz.

Curioso. Nunca vi Sting fazendo seu show com uma cobra sucuri enrolada no pescoço.

Será que aconteceu, e eu passei batido?

Os bolsonaristas que foram às redes sociais contar essa história bem que poderiam me enviar a foto.

Foto verdadeira, claro. Fake não vale.