Ver Fernanda Montenegro na GloboNews alegra e entristece

Volto a Fernanda Montenegro, que fez 90 anos nesta quarta-feira (16).

Volto depois de vê-la entrevistada por Cristina Aragão, na GloboNews.

Um palco de teatro.

Uma plateia vazia.

Uns 25 minutos de conversa.

A fala de Fernanda comove.

Revigora.

Alegra.

Entristece também.

Deixa orgulhosos os que ainda creem no nosso destino enquanto Nação.

Fernanda é de uma geração de grandes artistas do teatro, do cinema, da televisão.

Gente extraordinária na integral dedicação ao ofício.

Gente extraordinária na formação humanística.

Gente extraordinária no amor pelos caminhos do Brasil.

Vê-la atuando – ou vê-la falando – remete a uma esperança quase sempre ameaçada.

Esperança de que pode ser do jeito dela.

Do jeito de um Brasil de construtores.

Não de desconstrutores.

Nesse especial da GloboNews, Fernanda observa que 20 anos se passaram desde Central do Brasil e que o Brasil continua o mesmo.

Noutro momento, vemos Fernanda e Guarnieri no desfecho de Eles Não Usam Black Tie, sequência a que me referi no texto de ontem.

As expressões.

As mãos.

Os olhares.

Os silêncios.

Sim! Os silêncios!

Fernanda Montenegro é um pedaço do Brasil com que sonhamos.

O Brasil da inteligência.

Da sensibilidade.

Da delicadeza.

O Brasil dos homens humanos.

O oposto do Brasil da barbárie, que cresce a todo dia junto de nós.

É por isto que, vê-la, a um só tempo alegra e entristece.

Bolsonarismo bate em Fernanda Montenegro. Aplausos para ela!

Fernanda Montenegro chega aos 90 anos nesta quarta-feira (16).

Tudo seria festa, não fossem os absurdos ditos por Roberto Alvim, diretor da Funarte.

Dias atrás, ele chamou a atriz de sórdida e canalha.

“A foto da sórdida Fernanda Montenegro como bruxa sendo queimada em fogueira de livros, publicada na capa de uma revista esquerdista, mostra muito bem a canalhice abissal destas pessoas, assim como demonstra a separação entre eles e o povo brasileiro”, disse Alvim.

Usando as palavras do diretor da Funarte, muitos podem dizer que o comentário dele só revela a sordidez e a canalhice dos que hoje governam o Brasil.

Mas festejemos a aniversariante.

A sua vida.

A sua trajetória.

Fernanda Montenegro é uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos. É uma obviedade que precisa ser dita quando tem gente que pensa como Roberto Alvim.

Minha primeira lembrança dela é na telenovela Redenção. E a sua?

Teatro, televisão, cinema. Fernanda brilhou por onde passou.

Gregory Peck, o grande Gregory Peck de O Sol É Para Todos, curvou-se ao talento dela no momento em que a brasileira concorreu ao Oscar por sua atuação em Central do Brasil.

Ela não trouxe a estatueta para casa, mas a sua presença ali foi importante porque o cinema brasileiro, que Collor dizimara anos antes, começava a sua recuperação.

Fernanda Montenegro é daquelas atrizes que se afirmaram na televisão e conquistaram imensa popularidade fazendo novelas.

Foi o seu caminho. Sorte que tenha sido. Foi o caminho que permitiu o acesso de milhões de pessoas à sua arte.

Na juventude, foi atriz no rádio e fez teatro ao vivo na televisão. Nos primórdios da televisão brasileira.

O cinema veio depois.

Lembro dela fazendo A Vida de Jesus Cristo. Quem lembra? A Falecida, sua estreia no cinema, só vi mais tarde. Juntava Nelson Rodrigues com Leon Hirszman.

Na tela grande, a minha Fernanda é a de Eles Não Usam Black Tie. Novamente Hirszman, agora filmando o texto de Gianfrancesco Guarnieri.

A dimensão de Fernanda, a atriz extraordinária, está naquela cena em que ela “cata” feijão ao lado do marido, que é o próprio Guarnieri.

Sarney quis fazê-la ministra da Cultura.

Itamar também quis.

Fernanda recusou, elegantemente.

Elegância é uma palavra que combina com ela.

Dignidade também combina.

Fernanda Montenegro é uma grande atriz

Fernanda Montenegro é uma grande brasileira.

Fagner chega aos 70 frustrado por ter votado em Bolsonaro

A primeira lembrança que tenho de Fagner?

Será do disquinho de bolso do Pasquim?

De um lado, ele cantando Mucuripe (melodia sua, letra de Belchior). Do outro, Caetano, que voltara há pouco do exílio,  fazendo A Volta da Asa Branca.

Ou será da mesma Mucuripe na voz de Elis, no LP que começa com 20 Anos Blue?

Não sei. Ambos os registros são de 1972.

Depois veio o disco de estreia, Manera Frufru, Manera, que é de 1973.

E também o dueto com Chico em Joana Francesa.

Para mim, o melhor Fagner continua sendo aquele dos anos 1970.

O Manera, na Philips.

O Ave Noturna, na Continental.

E os primeiros álbuns na CBS.

Na nova gravadora, o início foi com Raimundo Fagner. Tem aquela versão incrível de Sinal Fechado, com vozes ásperas e superpostas.

Orós, que veio em seguida, foi feito em parceria com Hermeto Pascoal e, de certo modo, contraria a busca do sucesso.

Eu Canto fez de Fagner um artista de grande sucesso. Tem Revelação e Jura Secreta e As Rosas Não falam.

Beleza, com o êxito comercial de Noturno, fecha os anos 1970.

O uso indevido dos versos de Cecília Meireles ficou como mácula, mas os discos eram (ainda são) muito bons.

Fagner, mais como intérprete do que como autor, é um artista com uma notável marca de originalidade, mas acho que, a partir da década de 1980, ele, aos poucos, foi comprometendo sua discografia com trabalhos muito inferiores ao talento revelado nos primeiros discos.

Bem, há os dois álbuns com Luiz Gonzaga, gravados no fim da carreira do Rei do Baião.

E, recentemente, há o belo encontro com Zé Ramalho num registro ao vivo. Duas vozes, dois violões e muitos sucessos.

*****

No ano passado, Fagner votou em Jair Bolsonaro para presidente.

Dizia crer numa mudança.

Há poucos dias, li que está frustrado com o amadorismo do governo que ajudou a eleger.

Li também que está desencantado com o mercado de música popular no Brasil.

Raimundo Fagner fez 70 anos neste domingo (13).

“Irmã Dulce não é uma santa católica. Ela é uma santa baiana”

Neste domingo (13) em que o Papa Francisco canoniza Irmã Dulce, chama minha atenção um artigo que Nizan Guanaes publicou dias atrás na Folha de S. Paulo.

Destaco o final do texto:

“Irmã Dulce não é uma santa católica. Ela é uma santa baiana. São devotos dela a mãe de santo, o ateu, o pastor e até o padre. Desafio a Harvard Business School a escrever o estudo de caso de Irmã Dulce, a primeira CEO brasileira a ser canonizada pelo Vaticano”.

O milagre de Irmã Dulce?

Nizan Guanaes explica em seu artigo:

“Escrevo esse artigo emocionado porque conheço a história de perto – de seu início no bairro pobre de Alagados até os atuais 2 milhões de atendimentos ambulatoriais, 18 mil internamentos e 12 mil cirurgias por ano. Como uma pessoa que dormia sentada por causa dos problemas pulmonares pode tocar uma obra desse tamanho? Milagre”.

Livro da minha infância foi 20 Mil Léguas Submarinas, de Verne

Os livros são objetos transcendentes

Mas podemos amá-los do amor táctil…

Caetano Veloso 

Nesse dia dedicado às crianças, meu tema são os livros que marcam a infância.

O que as crianças de hoje estão lendo?

O que os país fazem para que elas leiam?

O que as escolas fazem?

Como é a relação delas com os livros?

Elas ainda convivem bem com o livro físico?

Perguntas e mais perguntas.

Qual foi o livro que mais marcou a sua infância?

Eu não tenho a menor dúvida sobre qual foi o livro que mais me impressionou até os 10 anos.

Antes, lembro de outros.

Claro que li Monteiro Lobato, por quem meu pai tinha grande admiração. Cresci ouvindo falar do Lobato escritor e também do Lobato da luta pelo petróleo brasileiro. Hoje, penso que o politicamente correto é injusto com ele.

Li os contos dos irmãos Grimm, que me pareciam tristes e assustadores.

Fiquei encantado particularmente com o Livro da Selva, de Kipling, e o Tarzan, de Burroughs.

Creio que nunca mais vou lê-los de novo, mas os tenho entre os meus livros pelo prazer do contato físico, do manuseio eventual.

Outro que me impressionou na infância: Os Meninos da Rua Paulo, de Molnar, que andei relendo depois de adulto.

Mas o livro que marcou mais fortemente a minha infância foi 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne.

Ganhei de presente da minha primeira professora, Dona Luzinete, que prestava atenção no meu interesse pelos livros.

Era uma edição que tinha o texto integral e ainda uma versão em quadrinhos. Fui aconselhado e começar pelo texto integral e segui o conselho.

Mais tarde vi o filme, com Kirk Douglas e James Mason, que Walt Disney realizara nos anos 1950.

Quando o homem já se preparava para ir à Lua, o livro me apresentou a uma aventura do tempo em que submarino era coisa da ficção científica.

20 Mil Léguas Submarinas despertou meu gosto pela literatura de Verne.

Mais do que isto: foi quem realmente despertou meu amor pelos livros.

Gilberto Gil, Campina Grande e essa vontade de ser Nova York

Nesta sexta-feira (11), Campina Grande faz aniversário.

São 155 anos de sua emancipação política.

Aproveito a data para contar uma história.

Maio de 1988.

Gilberto Gil estava em João Pessoa para fazer uma conferência sobre racismo no campus da UFPb.

Depois do evento, foi à TV Cabo Branco gravar o programa A Palavra É Sua.

Eu e Rômulo Azevedo atuamos como entrevistadores.

Gil conversou sobre música, política, respondeu às perguntas que gravamos com alguns telespectadores.

Naquele ano, pretendia ser candidato a prefeito de Salvador, projeto que acabou não se concretizando.

Terminada a gravação, Rômulo Azevedo disse a Gil que estava preparando um especial sobre Jackson do Pandeiro para a série A Paraíba e Seus Artistas e que gostaria de ter um depoimento dele.

Gil, sempre muito solícito, disse que sim e começou a falar sobre Jackson, por quem tem grande admiração.

Foi aí que, ao lembrar de Jackson, lembrou de Campina Grande e do seu espírito cosmopolita.

E disse coisas que, com justa razão, envaidecem os campinenses.

 

Assinatura de Bolsonaro macularia o Prêmio Camões de Chico Buarque

O presidente Jair Bolsonaro, entre os muitos defeitos que tem, sofre de incontinência verbal.

As bobagens que diz fazem um mal danado ao seu governo e ao Brasil.

Só os bolsonaristas não querem enxergar.

O comentário sobre sua assinatura no Prêmio Camões concedido a Chico Buarque foi uma dessas bobagens.

Bolsonaro disse que tem até 31 de dezembro de 2026 para assinar, como se tivesse a convicção de que será reeleito.

Quanta arrogância!

Que fala inadequada à liturgia do cargo que ocupa!

O Prêmio Camões é concedido em parceria pelos governos do Brasil e de Portugal.

Dessa vez, vai para Chico Buarque e será entregue em Portugal, no ano que vem.

Aos presidentes dos dois países, cabe apenas assinar, gostando ou não do homenageado.

O presidente de Portugal já o fez, vimos nesta quarta-feira (09) a entrevista dele no Jornal Nacional.

E é o que Bolsonaro deveria fazer. Sem qualquer mimimi.

Mas, convenhamos, é melhor que não o faça.

Bolsonaro é um político de extrema direita.

Chico – um dos grandes artistas do Brasil – é um homem de esquerda.

A assinatura de Jair Bolsonaro macularia o Prêmio Camões de Chico Buarque.

Fãs da Marvel fazem comentários hilários sobre Martin Scorsese

Martin Scorsese disse que os filmes da Marvel não são cinema.

Postei a opinião dele aqui na coluna no sábado passado.

Li muitos comentários nas redes sociais. Recebi outros no privado.

Scorsese está equivocado?

Falou bobagem?

Sinceramente, não sei.

Esse universo da Marvel – defeito meu – não me interessa.

Mas Scorsese me interessa. E muito. Desde que vi Caminhos Perigosos, lá no começo dos anos 1970.

A crítica dele é legítima. E necessária por vir dele. Scorsese merece respeito. Muito respeito.

Sobre os comentários que li nas redes sociais, alguns eram hilários.

Um deles era mais ou menos assim: um americano, branco, rico e conservador querendo dizer pra gente o que é cinema.

A um amigo, que gosta de Scorsese e dos filmes da Marvel, perguntei: e aí?

E ele respondeu: “Juntos, todos os filmes da Marvel não valem um Taxi Driver!”.

Sigo, então, com algo que escrevi sobre Marty, esse gigante do cinema contemporâneo:

Martin Scorsese não é somente um diretor de filmes. É um homem que pensa o cinema. Também não está circunscrito à produção dos Estados Unidos, o país onde nasceu. A sua origem italiana o levou logo cedo a ver e amar a cinematografia de outros povos.

Além de realizador, é um cinéfilo dividido entre os grandes filmes americanos e os não americanos. Uma paixão não exclui a outra. Seu coração e sua mente têm lugar para os dois amores. Eles enriquecem o seu trabalho, o influenciam, fornecem elementos que vamos identificar nos filmes que realizou. Características que fazem de Scorsese um diretor de cinema diferente dos outros. Talvez o único assim entre todos os seus contemporâneos.

Um pé na América, outro fora dela. Duas viagens transformadas em documentários traduzem o que estou dizendo. Um, sobre o cinema americano. O outro, sobre o italiano. O mesmo artista a contemplar dois países e dois modos distintos de realizar filmes. As diferenças o interessam, vão acabar direcionadas ao que ele faz.

Na prática, aliás, Scorsese é um diretor dividido entre duas linguagens: a da ficção e a do documentário – mais uma das suas marcas de originalidade. O melhor é que domina muito bem as duas formas de expressão cinematográfica. Embora famoso pelos filmes de ficção, nos documentários está livre da pressão dos estúdios. E esta liberdade o conduz a resultados de fato excepcionais.

O amor de Scorsese pela música está presente em seu cinema. Não apenas em documentários como O Último Concerto de Rock ou Shine a Light, No Direction Home ou Living in the Material World. Seus filmes de ficção têm sequências concebidas a partir da música. O compasso define o ritmo da montagem.

As cenas de luta de Touro Indomável tomam como parâmetro os critérios de edição que adotou em O Último Concerto de Rock. O uso de trilhas preexistentes serve como comentários sobre uma determinada cena ou complementa a fala de um personagem. Martin Scorsese cresceu entre o cinema e a música. Aprendeu a amar os dois. E escolheu um para que fosse seu ofício.

Tudo isto está em Conversas com Scorsese, de Richard Schickel. Schickel e Scorsese conversam sobre a infância pobre em Nova York e a formação do cineasta, cada um dos seus filmes e temas ligados à sua produção. Falam da família, das obsessões, da fé, da passagem do tempo, da morte. Vida e arte se confundem, se misturam numa leitura para cinéfilos.

O livro confirmou muito do que eu já sabia de Marty. Robusteceu as razões da minha admiração por ele. E me surpreendeu: o tornou mais homem, menos mito. Como se ele não fosse Martin Scorsese, mas um cara com quem a gente senta para conversar sobre cinema. E acompanha sua luta para fazer o próximo filme.

Fecho com seis sugestões. Para ver o cinema de Martin Scorsese.

CAMINHOS PERIGOSOS

TAXI DRIVER

TOURO INDOMÁVEL

OS BONS COMPANHEIROS

A INVENÇÃO DE HUGO CABRET

O ÚLTIMO CONCERTO DE ROCK

Sigourney Weaver de calcinha é imagem inesquecível em Alien

Alien, O Oitavo Passageiro é um excelente filme.

Quando vi, na estreia, o diretor Ridley Scott era um desconhecido.

Ainda não havia Blade Runner, e, mesmo quando este foi lançado, Scott estava longe de ser reconhecido como um grande realizador.

Aqui entre nós, quem dava conta desses filmes com a intuição de que o futuro seria promissor para eles, era o crítico Antônio Barreto Neto.

Barreto chegava na redação e dizia:

“Não deixe de ver Alien“.

Ou: “Não deixe de ver Blade Runner“.

Hoje, talvez não mais, mas, 40 anos atrás, ver Alien no cinema era uma experiência tão impactante quanto aterradora.

“No espaço, ninguém ouvirá você gritar” – a gente já entrava no cinema com a frase do cartaz na cabeça.

O tempo passou, e Alien se transformou num clássico da ficção-científica. É clássico também do terror. Os dois gêneros fundidos numa coisa só.

Na sequência final, a personagem de Sigourney Weaver enfrenta o monstro sozinha e quase nua.

Sua imagem de calcinha é inesquecível.

A atriz tinha 30 anos.

Nesta terça-feira (08), ela faz 70.