Stoneanos que são bolsonaristas deviam era ter vergonha na cara

Pleased to meet you
Hope you guess my name

Descobri num grupo que fãs brasileiros dos Rolling Stones estão brigando por causa de Bolsonaro.

Aqui na coluna, escrevi o que penso sobre o assunto: fãs dos Rolling Stones e bolsonaristas são incompatíveis.

Não estou censurando o gosto de ninguém, mas é que são mesmo.

É uma incoerência absoluta.

A menos que você só conheça muito superficialmente a banda e, a partir dessa superficialidade, diga que gosta.

Quem conhece de verdade, quem ama os caras e a música deles, quem tem todos os discos, quem viaja para vê-los ao vivo, quem acompanha há décadas – esses não podem ser bolsonaristas.

Não há como combinar uma coisa com a outra. Elas não se misturam.

Os Rolling Stones não coincidem em nada com a burrice da extrema direita brasileira.

Mick Jagger está para Obama, jamais para Trump.

Nesta quarta-feira (11), muitos comentaram meu texto, e a briga entre os stoneanos continuou.

Vou confessar: de tão estúpida, ficou engraçada.

Sabem o que fiz? Fui rever o documentário Havana Moon, lançado no final de 2016.

Minhas impressões?

Estão aí:

Não sem alguma ironia, a voz em off de Keith Richards diz no início do filme que a ida de Barack Obama a Cuba foi como uma abertura para o show dos Rolling Stones.

A estreia da banda em Havana tem significado simbólico forte. Marca o reatamento das relações entre Estados Unidos e Cuba e ilustra os estertores do ciclo de poder dos irmãos Castro.

Se quisermos, o filme é sobre esse tema. Mas com abordagem sutil e olhar simpático e respeitoso.

Houve a Revolução e suas conquistas. E houve o declínio com o fim do subsídio soviético. Os ganhos na saúde e na educação sempre se contrapuseram às restrições das liberdades individuais.

Havana Moon toca nessas questões sem precisar entrar nelas. Indiretamente, aparecem nas falas de Mick Jagger e Keith Richards que abrem o documentário. E no que eles dizem no palco, durante o concerto.

Jagger se estende mais, ao mencionar a censura ao rock.

Richards resume: Havana, Cuba e os Rolling Stones. Isto é incrível!

As imagens falam mais alto. Da memória da Revolução estampada no muro à pobreza do povo.

Jagger conta para a multidão em êxtase que viu a rumba de perto na Casa da Música. O diálogo se dá através da arte. É mais fluente do que nas relações políticas.

Buena Vista Social Club tem um anticomunismo que soa mal. Havana Moon não tem.

É como se os Stones repetissem o que Obama disse ao discursar diante de Raul Castro: que o destino de Cuba está nas mãos dos cubanos.

Aquela alegria toda, no palco e na plateia, é, então, para dizer isso: celebremos com música, mas o destino de vocês está nas suas mãos.

A música que os cubanos ouvem ao vivo pela primeira vez tem seu ponto alto numa “blues suite”.

É Midnight Rambler, que se estende por muitos minutos e resume o que os Stones são.

Naquela noite de 25 de março de 2016, eles se projetaram como a luz do luar sobre a noite de Havana.

Velhos, mas ainda muito intensos.