Bloco na Rua, de Ney Matogrosso, é comentário para o Brasil de 2019

“Há quem diga que eu dormi de touca/que eu perdi a boca/que eu fugi da briga/que eu caí do galho e que não vi saída/que eu morri de medo quando o pau quebrou”.

Bloco na Rua, o show que Ney Matogrosso trouxe a João Pessoa nesta terça-feira(03), começa com a música que lançou Sérgio Sampaio. Em 1972, era um forte recado político.

“Pra pedir silêncio eu berro/pra fazer barulho eu mesma faço”.

Ney cai no rock. É Rita Lee. Segunda metade dos anos 1970.

“No beco escuro explode a violência” ou “Nada mais me deixa chocado/nada!”.

São os Paralamas do Sucesso. Anos 1980.

De canção em canção, Ney vai montando um retrato.

Pode ser um autorretrato atual do artista.

Um autorretrato atual do artista diante do mundo que o cerca.

Ney Matogrosso, 78 anos, 46 desde os Secos & Molhados, esse grande artista brasileiro.

Domínio total do canto e do espaço cênico em que pisa.

“No escuro dessa noite, me ajuda a cantar” ou “Eles são muitos/mas não sabem voar”.

É Ednardo. Aquele do Pessoal do Ceará. Anos 1970.

Ney abre as asas sobre a plateia. Ele sabe voar. Sempre soube.

E, assim, segue Bloco na Rua.

Tem Raul Seixas (A Maçã), mais Rita Lee (Corista de Rock), Secos & Molhados (Sangue Latino), Caetano Veloso (Como 2 e 2), Milton Nascimento (Coração Civil).

Grande show. Grande banda. Grandes arranjos. Grande set list.

Grande noite!

Ney Matogrosso é um homem de muita coragem.

Ney Matogrosso é um transgressor maravilhoso.

Visto de perto, nos bastidores, sempre parece tímido.

No palco, se agiganta.

É um performer extraordinário.

Bloco na Rua é fortemente político.

Não foi, necessariamente, pensado para o Brasil de 2019.

O que o artista diz, através dessas canções, fala de uma utopia permanente, expressa ali no Coração Civil de Bituca.

Mas diz muito no Brasil de 2019.

Do Brasil tomado pela barbárie política e por uma caretice sem fim.

Digamos que Bloco na Rua não é um comentário sobre o Brasil de 2019, mas para o Brasil de 2019.

É o que Ney Matogrosso tem a nos dizer.

Aos não caretas e também aos tantos caretas que lotam o teatro.