Francis Hime chega aos 80 como um dos grandes da sua geração

Francis Hime faz 80 anos neste sábado (31).

Ele é um pouco mais velho do que vários dos seus contemporâneos (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo), mas são todos da mesma geração. A geração impactada e fortemente influenciada pela Bossa Nova.

Diferente de Chico, Caetano e Gil, que são do violão (de João Gilberto), Francis é do piano (de Tom Jobim).

Francis (como Edu) também tem de Tom um híbrido que o coloca entre o popular e o erudito.

Quando gravou o primeiro disco solo, em 1973, já tinha 34 anos. É lá que está Atrás da Porta, música sua, letra de Chico Buarque, que teve gravação definitiva na voz de Elis Regina.

Em 1963, com pouco mais de 20 anos, foi um dos “parceirinhos” de Vinícius de Moraes. Mas seu grande parceiro, em qualidade e quantidade, foi Chico Buarque.

Juntos, Francis e Chico assinaram alguns clássicos do nosso cancioneiro, sobretudo ao longo dos anos 1970 e no início da década seguinte.

Grande melodista, hábil arranjador, Francis Hime é um músico muito sofisticado, o que talvez explique o fato de ter ficado menos exposto do que seus contemporâneos, de ter corrido por fora.

Nos últimos anos, produziu muito, gravou muito, experimentou novos parceiros. Agora, finaliza um disco que deve ser lançado em breve.

Francis Hime chega aos 80 anos como um dos grandes da sua geração.

Jackson é festejado agora, mas morreu à margem do sucesso

Neste sábado (31), faz 100 anos que nasceu Jackson do Pandeiro.

Tem sido muito lembrado (que bom!), mas duvido que muitos que o fazem tenham seus discos em casa.

Jackson fez sucesso nos anos 1950 e depois viveu em terrível ostracismo.

Houve, sim, o necessário resgate feito pelos tropicalistas (Gilberto Gil e Gal Costa regravaram suas músicas) e a parceria com os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

Mas, no fundo, os ouvintes “chiques” da MPB nunca se interessaram por ele. E continuam assim.

Uma jovem jornalista me perguntou se era preconceito racial.

Não creio. Era (ainda é!) preconceito com o tipo de música que Jackson fazia.

“Música menor”, dirão. Ou não dirão, mas pensarão.

Um dia desses, um amigo muito querido ficou surpreso porque tenho discos de Luiz Gonzaga. “Você, que gosta de coisas refinadas, ouve Luiz Gonzaga?” – foi a pergunta que me fez.

Com Jackson, é do mesmo jeito. Talvez um pouco pior.

Festejá-lo no centenário do seu nascimento é importante porque repõe o nome dele no cenário da música popular do Brasil.

Ele reaparece na mídia com suas performances e suas histórias.

Os que foram influenciados por ele (são tantos!) dão valiosos depoimentos.

A garotada (sobretudo ela!) se vê diante do artista talentosíssimo que Jackson foi.

Jackson e os ritmos nordestinos, do coco ao frevo. Jackson e os sambas do Rio de Janeiro. Jackson e seu modo de cantar.

O documentário Jackson, Na Batida do Pandeiro, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira, marca muito positivamente o centenário do artista. Permanece como algo que vai além das homenagens da data. Em uma palavra: fica.

O maior esforço de resgate do legado de Jackson do Pandeiro tem uma assinatura: a do pesquisador Rodrigo Faour. É dele a produção executiva da caixa Jackson do Pandeiro, O Rei do Ritmo, que a Universal Music colocou no mercado há três anos.

Quer ter Jackson do Pandeiro em sua discoteca?

Quer ouvir Jackson do Pandeiro?

O box produzido por Faour é o que há de melhor.

São 15 CDs, entre coletâneas temáticas e álbuns originais.

Festejar Jackson do Pandeiro no centenário do seu nascimento é muito importante. Mais ainda é não deixar de ouvi-lo.

BACURAU estreia nesta quinta. Kleber Mendonça Filho é o maior nome do novo cinema brasileiro

No dia 15 de março de 1990, ao tomar posse como primeiro presidente eleito depois do golpe de 64, Fernando Collor, numa canetada só, acabou com o cinema brasileiro.

O homem da cultura no novo governo era o paraibano Ipojuca Pontes.

Ipojuca Pontes envergonha a Paraíba.

Ipojuca Pontes envergonha o cinema brasileiro.

Bem, como sabemos, Collor foi derrubado, e aí vieram Itamar e FHC e Lula, etc.

O cinema brasileiro renasceu. Foi renascendo.

Primeiro, falava-se em retomada. Cinema da retomada. Depois, a expressão ficou para trás.

A recuperação foi notável!

Novos diretores. Muitas mulheres dirigindo. Produções voltadas para plateias – digamos – mais exigentes. Outras destinadas essencialmente ao – tão importante – êxito comercial. Documentários, cinebiografias. Diálogo com a televisão. Prêmios internacionais, presença no Oscar (a Fernanda Montenegro de Central do Brasil). O Nordeste (Pernambuco, Paraíba, Ceará) dentro desse cenário. Ancine, Petrobrás. Qualidade e quantidade.

Tudo isso em 25 anos.

Agora, em 2019, um governo de extrema direita expressa o desejo de impor grandes restrições à produção brasileira de audiovisual. Não é papo de esquerdista. É o que tem sido dito e feito pelo governo do presidente Bolsonaro.

Adota-se, então, uma outra expressão. Cinema de resistência.

Bacurau, que estreia nesta quinta-feira (29) nas salas brasileiras, é um grande acontecimento político e estético e, por excelência, um exemplo disso que a gente está chamando de cinema de resistência.

Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Bacurau é cinema à altura do melhor cinema que se faz atualmente em qualquer lugar do mundo.

Acompanho Kleber Mendonça desde o tempo em que ele fazia crítica de cinema no velho Jornal do Commercio, onde, no passado, a gente lia Celso Marconi.

Depois, vieram os filmes de curta metragem (Vinil Verde, Recife Frio) e a fabulosa estreia no longa com O Som ao Redor.

Claro que havia a pergunta. Kleber conseguirá repetir o êxito de O Som ao Redor?

E, aí, veio Aquarius a mostrar que sim.

E, agora, Bacurau.

Ali no Recife, o Recife onde vi tantos filmes e tantos shows, o Recife das livrarias e das lojas de discos, ali no Recife, tão real porque tão perto de nós, surgiu esse cara a fazer justiça ao passado do cinema brasileiro e a dizer, com seus filmes, como é o presente e como pode ser o futuro.

Kleber honra a linhagem dos que migraram da crítica para a realização. Como François Truffaut – o primeiro nome que sempre me ocorre.

Kleber foi crítico, é cinéfilo e sabe tudo do seu ofício – ser cineasta, escrever e dirigir filmes.

Já escrevi aqui mesmo sobre Bacurau:

É filme realizado por quem pensa o cinema. A habilíssima manipulação dos gêneros, a construção de climas, a tensão permanente, o uso de trilhas preexistentes, o diálogo com o passado (do cinema) e a rara capacidade de atualizá-lo – tudo junto e misturado para levar o espectador à catarse final.

Bacurau é um grande filme. Daqueles aos quais a gente dá cinco estrelas. Como Inácio Araújo deu, na Folha.

Kleber Mendonça Filho é o maior nome do novo cinema brasileiro.

Ele e seus filmes estão aí a nos orgulhar.

Como seria mundo sem Beatles? Yesterday pergunta. Tento dizer

O mundo de Yesterday é um mundo sem os Beatles.

O filme dirigido por Danny Boyle estreia nesta quinta-feira (29) nas salas brasileiras.

Nele, um apagão varre os Beatles do mapa, e só um jovem sabe que eles existiram.

Mais do que isto: o cara desponta como autor das canções que apenas ele conhece.

Como seria o mundo sem os Beatles?

Yesterday, o filme, pergunta.

Tento responder. À minha maneira.

Começo por uma grande obviedade: num mundo sem os Beatles, não teríamos as 200 e poucas canções que eles gravaram entre 1962 e 1970.

Sem o quarteto, não conheceríamos joias do cancioneiro popular como Yesterday ou Strawberry Fields Forever ou Something ou Let It Be.

Nem In My Life ou Eleanor Rigby ou A Day in the Life ou Golden Slumbers.

Nem a juventude impetuosa que há em She Loves You ou I Saw Her Standing There.

Ficaríamos privados das vozes – sobretudo – de John Lennon e Paul McCartney, as mais marcantes do quarteto.

E da assinatura Lennon & McCartney, uma das mais poderosas da música popular que o homem produziu no século XX.

Seria um mundo menos alegre, menos ousado, menos transgressor, menos livre, menos terno, menos sonhador, menos solidário. Mais careta.

Seria um mundo sem aqueles rapazes filmados em preto & branco por Richard Lester em A Hard Day’s Night.

Um mundo sem o marco chamado Sgt. Pepper.

Um mundo sem que, por causa de uma simples fotografia, uma faixa de pedestres mobiliza gente de todos os cantos do planeta há meio século.

Um mundo sem “tudo o que você precisa é amor”.

Ou: “Dê uma chance à paz”.

Um mundo em que, no Ocidente, não ouviríamos os sons de Ravi Shankar.

Nem os arranjos de George Martin.

Um mundo em que talvez não tivesse havido o encontro do rock – um negócio tão banal – com a música erudita contemporânea.

Um mundo em que seria preciso outro homem para bradar: “A guerra acabou, se você quiser”.

Ou: “O sonho acabou”.

Num mundo sem os Beatles, Joe Cocker não teria feito With a Little Help From My Friends no agora cinquentenário Woodstock.

Num mundo sem os Beatles, o que teria sido do rock psicodélico?

Num mundo sem os Beatles, o que seria dos nossos Mutantes?

Num mundo sem os Beatles, o que Rogério Duprat teria escrito para os tropicalistas brasileiros?

Num mundo sem os Beatles, para quem Milton Nascimento teria feito uma canção como Para Lennon & McCartney?

Num mundo sem os Beatles, será que o maestro Leonard Bernstein teria ficado fascinado pelo rock tanto quanto pelo jazz?

A música (como a arte) humaniza o homem.

Otto Maria Carpeaux disse isso da música erudita naquele imprescindível livro Uma Nova História da Música, que eu passo a vida relendo.

Bernstein disse algo semelhante dos Beatles quando reconheceu que a relação deles com quem os ouviu transformava aquelas canções tão simples em algo mais importante do que a música erudita do século XX.

Claro. Porque o diálogo entre criadores e ouvintes era mais produtivo, mais fértil, mais intenso, mais amoroso.

Como seria o mundo sem os Beatles?

Não sabemos porque não há mundo sem eles.

Felizmente.

Só na ficção que o cinema agora traz como mera diversão.

Ney Matogrosso está de volta a João Pessoa com Bloco na Rua

Na próxima terça-feira (03), Ney Matogrosso apresenta seu novo show em João Pessoa.

É Bloco na Rua.

Será no Teatro A Pedra do Reino.

Vamos conversar um pouco sobre Ney Matogrosso?

O surgimento dele foi um acontecimento extraordinário naquele remoto ano de 1973.

A voz incomum, o figurino, o rosto pintado, a performance no palco, o repertório.

Secos & Molhados. Parecia impossível no Brasil de Médici.

O grupo arrebatou público e crítica e fez apenas dois discos.

Como seria Ney sem os Secos & Molhados?

A estreia foi em 1975, num disco chamado Água do Céu – Pássaro.

Sozinho, ele era ainda melhor.

Da Continental (uma gravadora de médio porte) para a Warner (uma multinacional do disco), Ney foi consolidando sua carreira.

O estouro mesmo veio em 1981, já num terceiro selo, no disco que tem Homem com H, do paraibano Antônio Barros.

Pescador de Pérolas, de 1987, foi outro marco.

Ao vivo, ao lado de músicos como Arthur Moreira Lima (piano), Paulo Moura (sax e clarinete), Raphael Rabello (violão) e Chacal (percussão), Ney trocou de figurino e de repertório.

Mostrou que também sabia ser contido e cantar os clássicos do cancioneiro popular.

Em sua longa carreira, com uma extensa discografia, Ney Matogrosso foi dos Secos & Molhados a Villa-Lobos. De Cartola a Cazuza. De Tom a Chico.

Tudo muito bem feito, com uma inconfundível marca de qualidade. Nos estúdios e nos palcos.

Ney é clássico e é contemporâneo.

Na turnê anterior, estava atento aos sinais.

Agora, aos 78 anos, põe o bloco na rua.

Bolsonaristas, a mulher pode ser mais velha do que o marido!

O marido deve ser mais velho do que a mulher.

O marido e a mulher podem ter a mesma idade.

O marido não pode ser mais novo do que a mulher.

São convenções machistas.

Bibi Ferreira era mais velha do que Paulo Pontes.

Yoko Ono era mais velha do que John Lennon.

Rita Lee é mais velha do que Roberto de Carvalho.

Tatá Werneck, nossa Lady Night, é mais velha do que Rafael Vitti, de quem espera um filho.

Vou trazer para dentro de casa: minha mãe era 13 anos mais velha do que meu pai.

Quando ela morreu, aos 71, ele tinha 58 anos.

O tema – mulher mais velha não pode! – está muito presente nas redes sociais nos últimos dias.

A posição do presidente da França em relação às queimadas na região amazônica levou ao inaceitável: os bolsonaristas passaram a agredir Brigitte, a mulher de Macron.

Macron vai fazer 42 anos em dezembro.

Brigitte fez 66 anos em abril.

Ela é 24 anos mais velha do que ele.

Os dois estão casados há 12 anos.

A relação deles merece respeito.

É um ataque ao processo civilizatório o que os bolsonaristas estão fazendo com Brigitte Macron.

É um absurdo o que os seguidores do presidente Bolsonaro estão dizendo dela nas redes sociais.

É inadmissível que o próprio Bolsonaro tenha manifestado apoio a comentários ofensivos a Brigitte.

Bolsonaro é presidente de um país.

Bolsonaro e Macron estiveram juntos na reunião do G20.

Para onde vai a diplomacia?

Para onde vai a boa relação entre povos e nações?

Que riscos corre o acordo entre a União Europeia e o Mercosul?

Afinal, para onde Bolsonaro – com o aplauso dos que o seguem – quer levar o Brasil?

Show de Milton é bálsamo num país sob desconstrução

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

O verso vem de longe. Lá do começo dos anos 1970. De uma canção chamada Clube da Esquina. Ela está no disco de Milton Nascimento com o Som Imaginário. Aquele que começa com Para Lennon e McCartney. É, portanto, anterior ao álbum Clube da Esquina.

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

O verso falava de um sonho (ou de muitos sonhos) que a gente tinha no Brasil da ditadura militar.

Depois dele, veio o álbum Clube da Esquina, no qual os espaços eram divididos entre Milton e um quase garoto chamado Lô Borges.

E, em seguida, vieram todos aqueles discos que Bituca gravou na década de 1970. Milagre dos Peixes e Milagre dos Peixes ao Vivo e Minas e Geraes e, finalmente, o Clube da Esquina 2.

Esses discos e suas canções são um pedaço das nossas vidas. Pedro Osmar me disse algo parecido ao final do show Clube da Esquina, que Milton apresentou nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Aos 76 anos (77 em outubro), Milton Nascimento está na estrada (Brasil e mundo), revisitando o repertório dos dois álbuns Clube da Esquina e mais algumas canções daquela época.

Nos meus 60 anos, nos meus quase 50 anos de espectador de shows ao vivo, vi (prossigo vendo) muita coisa bonita. Muita mesmo. Mas não foram muitas as que me emocionaram tanto quanto este Milton que vi agora, na velhice, voltando às canções dos seus 30 ou 30 e poucos anos.

São canções belas, fortes, cortantes, e elas nos remetem não somente a grandes discos, que a gente ouve até hoje, mas ao tempo dos nossos melhores sonhos, das nossas maiores esperanças.

O show de Milton, só com velhas canções, é um arrebatador diálogo do presente com o passado. O nosso passado e o nosso presente. É o Brasil que está ali, o Brasil dos seus grandes legados, dos seus construtores, daqueles que nos representam, que nos orgulham, estejamos aqui ou longe daqui. Seja noite ou dia.

Nada Será Como Antes e Cais e San Vicente e Trem Azul e Para Lennon e McCartney e Maria, Maria e Ponta de Areia. Bituca e sua vigorosa banda. Arranjos que remetem aos originais, mas injetam atualidade a velhos sons. Versos e versos e mais versos que são ressignificados pela passagem do tempo e se reencontram agora, numa outra noite brasileira.

Clube da Esquina, o show de Milton Nascimento, é um bálsamo num país em desconstrução.

Comove. Emociona. Alegra. Entristece também.

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

A canção que tem esse verso não está no set list.

Mas aquela outra, que se chama Clube da Esquina 2, está.

É ela que nos diz que sonhos não envelhecem.

Tomara.

Milton faz Clube da Esquina em João Pessoa. Veja o repertório

Milton Nascimento traz o show Clube da Esquina a João Pessoa.

A única apresentação será nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, às 21 horas.

O repertório reúne canções que Milton gravou nos anos 1970, principalmente nos discos Clube da Esquina e Clube da Esquina 2:

Tudo que você podia ser (Lô Borges e Márcio Borges)

Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Clube da esquina (Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges)

Cais (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Nascente (Flávio Venturini e Murilo Antunes)

Mistérios (Joyce Moreno e Maurício Maestro)

Cravo e canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Casamiento de negros (Violeta Parra e Polo Cabrera)

Um girassol da cor de seu cabelo (Lô Borges e Márcio Borges)

Os povos (Milton Nascimento e Márcio Borges)

Dos cruces (Camilo Larrea)

Para Lennon & McCartney (Márcio Borges, Lô Borges e Fernando Brant)

San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Estrelas (Lô Borges e Márcio Borges)

Clube da esquina 2 (Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges)

Nuvem cigana (Lô Borges e Ronaldo Bastos)

Lilia (Milton Nascimento)

Paixão e fé (Tavinho Moura e Fernando Brant)

Um gosto de sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Paisagem da janela (Lô Borges e Fernando Brant)

Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant)

O que foi feito devera (Milton Nascimento e Fernando Brant) / O que foi feito de Vera (Milton Nascimento e Márcio Borges)

O trem azul (Lô Borges e Ronaldo Bastos)

BIS

Francisco (Milton Nascimento)

Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Paula e Bebeto (Milton Nascimento e Caetano Veloso)

Raul Seixas era muito bom, mas gostava de um Ctrl C + Ctrl V

Nesta quarta-feira (21), faz 30 anos da morte de Raul Seixas.

Vindo de uma passagem pela Jovem Guarda, no início da década de 1970 ele deixou de ser chamado Raulzito para se projetar como uma das grandes expressões do rock brasileiro. O disco Krig-Ha Bandolo!, que o consagrou em 1973, não faz parte apenas das antologias do pop/rock nacional. É, com suas qualidades e seus defeitos, um dos discos fundamentais da nossa música popular.

Sou contemporâneo da explosão de Raul Seixas. Ouvi Krig-Ha Bandolo! com o entusiasmo da época e, logo em seguida, Gita. Mas não acompanhei sua trajetória com o interesse que tive pelos dois primeiros discos. Fui ouvi-lo de novo muito mais tarde. E já com o devido distanciamento.

Gosto de Raul sem concordar com alguns elogios que lhe são feitos. Não sou um admirador incondicional. Nem faço parte do grupo que o tem como um verdadeiro pensador, um filósofo. Claro que não. Prefiro enxergar nele um rocker talentoso e inteligente que promoveu o encontro de Elvis Presley com Luiz Gonzaga (dois dos seus ídolos) e obteve êxito nesta mistura maluca e improvável.

Antes de Krig-Ha Bandolo!, Raul Seixas frequentou as paradas com uma música que já confirmava esta fusão. Era Let Me Sing, Let Me Sing. Suas fontes eram de facílima identificação: de um lado, o rock primitivo dos anos 1950 e também as baladas da época; do outro, os ritmos nordestinos. No meio, um certo mau gosto (alguns chamarão de brega), oriundo do seu vínculo com a Jovem Guarda. Ou da admiração por um lado bem popularesco da nossa canção.

Os ingredientes que Raul jogava em seu caldeirão sonoro levaram muita gente a considerá-lo genial. Um exagero. Ele era apenas suficientemente habilidoso para fazer a mistura e superar suas limitações.

No blues, e depois no rock primitivo, os riffs e as melodias se repetem. Ganham novas letras, como se fossem outras músicas, e ninguém é chamado de plagiador. Raul Seixas usou e abusou do método.

Vamos conferir:

A Verdade Sobre a Nostalgia parece uma versão de My Baby Left Me. A introdução de Rock do Diabo é igual à de Honey Don’t. O refrão de Gita é como o de No Expectations, dos Rolling Stones. As Minas do Rei Salomão dá a impressão de que estamos ouvindo o Dylan de I Want You.

Tem mais:

S.O.S. remete a Mr. Spaceman, dos Byrds, e Dia da Saudade, a Get Back, dos Beatles. Meu Amigo Pedro lembra um dos temas que Dylan compôs para o filme Pat Garrett & Billy the Kid. Algumas vezes, ele exagerava. Ave Maria da Rua incomodará o ouvinte se este pensar em I’ll Be All Right.

Uma frase de Raul fala de quem ele era: “finjo que sou cantor e compositor e todo mundo acredita”.

Milton: “Nosso lance mesmo era fazer música. Simples assim”

Trago hoje uma breve conversa do colunista com Milton Nascimento, que se apresenta nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa, com o show Clube da Esquina:

O que há de fusion no álbum Clube da Esquina, o primeiro? Se falava que o disco trazia um certo pioneirismo na área.

Sabe que a gente nunca fez nada assim muito pensado? As coisas sempre aconteceram naturalmente. Nosso lance mesmo era fazer música. Simples assim.  

O que dizer da relação do Clube 1 com o cenário político do Brasil daquela época?

Talvez a gente esteja vivendo momentos muito próximos um do outro. 

Qual o papel de Lô Borges na criação do álbum?

Sem Lô Borges não teríamos o Clube da Esquina. Foi da minha união com ele que a gente conseguiu fazer tudo isso que está aí até hoje. 

O Clube 2 é a melhor síntese da sua música e também do encontro desses amigos em torno desse conceito do Clube da Esquina?

Eu sou muito feliz com as coisas que o Clube da Esquina trouxe para a nossa vida. Jamais poderia imaginar que viveria tantas coisas através dele. 

Como é revisitar o Clube da Esquina?

Uma emoção muito grande. A gente acabou de voltar de uma turnê de nove países com o Clube. E isso depois de ter feito esse show em várias cidades do país. A recepção tem sido uma coisa que jamais vamos esquecer. 

Um grande país eu espero do fundo da noite chegar. O verso continua atual?

Eu espero que sim, apesar de tudo o que anda acontecendo, né?