Sem Wadi Gebara, não haveria Coisas nem Os Afro-Sambas

Wadi Gebara, de 81 anos, morreu nesta segunda-feira (01) no Rio de Janeiro. Ele tinha câncer.

Em 1964, Gebara foi um dos sócios fundadores da pequena gravadora Forma. O outro sócio, Roberto Quartin, era amigo de Frank Sinatra.

A Forma pode ser caracterizada como um negócio de pessoas que tinham algum dinheiro para gastar e não estavam nem um pouco preocupadas com lucros.

No mundo pragmático de hoje, seria um negócio de malucos. Naquele tempo, 55 anos atrás, era um belo sonho.

A Forma lançou, ao menos, dois discos essencialíssimos da música popular do Brasil.

Falo de Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, e Coisas, de Moacir Santos.

Se você é dos que pretendem ter uma discoteca básica da música brasileira e não tem esses dois discos, pode estar certo: sua coleção está incompleta.

Os Afro-Sambas e Coisas são trabalhos seminais e de profunda invenção.

Menos importante, mas nem por isto pouco necessário, é o LP de Sérgio Ricardo com a trilha do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, outro título do catálogo da Forma.

OS AFRO-SAMBAS, Baden Powell e Vinícius de Moraes

COISAS, Moacir Santos

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, Sérgio Ricardo

COCAÍNA

COCAÍNA

Se você quer dar uma volta, tem que levá-la
Cocaína
Se você quer ficar deprimido, arrasado no chão
Cocaína

Ela não mente
Ela não mente
Ela não mente
Cocaína

Se você recebe notícias ruins, quer expulsar as tristezas
Cocaína
Quando seu dia está terminado e você quer fugir
Cocaína

Ela não mente
Ela não mente
Ela não mente
Cocaína

Se o seu assunto acabou e você quer continuar
Cocaína
Não esqueça deste fato, você não pode recuperá-lo
Cocaína

Ela não mente
Ela não mente
Ela não mente
Cocaína

Ela não mente
Ela não mente
Ela não mente
Cocaína

*****

Cocaine é um dos maiores sucessos da carreira de Eric Clapton.

A música não é de sua autoria, mas de JJ Cale, músico americano que morreu em 2013 aos 74 anos.

A gravação de Clapton é de 1977. Está no álbum Slowhand.

Cocaine passou a ser número obrigatório nos seus shows.

Eric Clapton já disse que Cocaine é uma música antidrogas, anticocaína, mas há controvérsias.

O guitarrista, por muitos anos, foi usuário de drogas lícitas e ilícitas.

Hoje, aos 74 anos e totalmente “limpo”, tem neuropatia periférica, consequência do alcoolismo.

A doença provoca muitas dores e quase o impede de tocar guitarra e se apresentar ao vivo.

Lançado em 2016, seu último álbum autoral de estúdio se chama I Still Do. Eu ainda faço.

Sérgio Moro, como é grande o meu amor por você!

Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

Eu tinha oito anos, no final de 1967, quando essa canção foi lançada. Lembro como se fosse hoje.

Era a segunda faixa do disco novo de Roberto Carlos. Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. O LP tinha as músicas do seu primeiro filme. Eu Sou Terrível, Quando, etc.

Como é Grande o Meu Amor por Você é uma sensível declaração de amor. No meio, tem um solo de flauta que parece conectar Roberto Carlos à MPB, marca de “qualidade” na qual o artista nunca foi inserido.

A canção se incorporou ao repertório de Roberto Carlos. É praticamente obrigatória no set list dos seus shows. Mais do que isso: está na memória afetiva de milhões de brasileiros.

Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

É comum ouvir em casamentos. No altar, a noiva canta para o noivo. Ou o noivo canta para a noiva.

É comum também ouvir em velórios. Familiares e amigos se despedem do morto cantando.

São manifestações que colocam Roberto Carlos nas nossas deep areas. Ele pode não ter o selo da MPB, mas seu canto vem de regiões profundas do ser do Brasil.

*****

Domingo (30), a canção adentrou por um território ao qual – creio – ainda não pertencia. Sim. O das manifestações políticas.

Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

Lá estava a multidão vestida de amarelo a cantar na Avenida Paulista.

E cantar para quem?

Ora! Para o ministro Sérgio Moro!

E com o aval de quem?

De Eduardo Lages!

E quem é Eduardo Lages?

É o maestro de Roberto Carlos!

Em cima de um caminhão, ao teclado, era Lages que puxava o coro.

Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

A quem ama Sérgio Moro, não há o que dizer.

Mas se você – como eu – está entre os que não amam, não minimize essa declaração de amor.

Ela vem das mesmas deep areas que elegeram Bolsonaro presidente.