King Crimson faz um dos melhores shows de rock do mundo!

O King Crimson, em sua atual formação, faz um dos melhores shows de rock do mundo!

É isso mesmo?

Não é exagero?

Quem viu/ouviu Meltdown, King Crimson Live in Mexico (três CDs e um Blu-ray/edição importada) sabe que é a mais pura verdade.

O King Crimson, essa banda em atividade há meio século, faz, de fato, um dos melhores shows de rock do mundo!

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O álbum de estreia – In The Court of The Crimson King – é de 1969.

Da formação original, apenas o guitarrista Robert Fripp permanece na banda. Mas Mel Collins, Tony Levin e Pat Mastelotto vêm de longe no grupo.

O King Crimson teve fases distintas e várias formações.

Em Meltdown é um octeto.

A formação é singular.

Na frente, mais perto do público, há três bateristas.

Atrás, num nível mais alto, há um saxofonista, um baixista, um tecladista, um cantor/guitarrista e mais um guitarrista, que é Robert Fripp.

Meltdown quer dizer fusão.

Se pensarmos só em música, é isso o que o King Crimson faz.

O rótulo de rock progressivo, usado para essa banda, é insuficiente para classificá-la.

Claro que é progressivo, com todas as características desse subgênero do rock. Mas é muito mais do que isso. Muitíssimo mais!

É completamente diferente do Yes, do Genesis, do Pink Floyd ou do Emerson Lake & Palmer. Sim. Porque há mais jazz nas extensas faixas cheias de improvisação e virtuosismo.

O Meltdown traz o King Crimson tocando para o deleite de ouvintes muito exigentes.

Talvez até mais: músicos tocando para músicos.

Os brasileiros vão ver o King Crimson ao vivo pela primeira vez agora em 2019. A banda toca no Rock in Rio e faz uma apresentação em São Paulo.

Nota em defesa de Miriam Leitão é marco no Jornal Nacional

A jornalista Miriam Leitão ia participar de uma feira literária.

Foi desconvidada por causa de ataques feitos por bolsonaristas nas redes sociais.

Nesta sexta-feira (19), num encontro com jornalistas estrangeiros, o presidente Jair Bolsonaro também atacou a jornalista. Disse que ela mentiu sobre ter sido torturada e vítima de abuso em instalação militar, durante a ditadura.

A fala do presidente causou indignação traduzida em longa nota lida por Renata Vasconcelos no Jornal Nacional.

A nota – firme, contundente, corajosa – registra que “é preciso dizer com todas as letras que não é a jornalista quem mente”.

Em tom de editorial, a nota traz necessário posicionamento da Rede Globo num momento em que o país é governado por um grupo de extrema direita e é um marco para o mais importante noticioso da televisão brasileira.

Segue, na íntegra, o texto lido no Jornal Nacional:

“O presidente Jair Bolsonaro recebeu nesta sexta-feira (19) um grupo de jornalistas estrangeiros para um café da manhã. Os jornalistas cobraram do presidente um comentário sobre o ato de intolerância de que foi vítima a jornalista Miriam Leitão, no fim de semana.

Miriam e o marido, Sérgio Abranches, participariam de uma feira literária em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Em redes sociais, foi organizado um movimento de ataques e insultos à jornalista, cuja postura de absoluta independência foi tratada como um posicionamento político de esquerda e de oposição ao governo Bolsonaro.

Em resposta aos correspondentes internacionais, o presidente Jair Bolsonaro disse que sempre foi a favor da liberdade de imprensa e que críticas devem ser aceitas numa democracia.

Mas, depois, afirmou que Miriam Leitão foi presa quando estava indo para a Guerrilha do Araguaia para tentar impor uma ditadura no Brasil e repetiu duas vezes que Miriam mentiu sobre ter sido torturada e vítima de abuso em instalações militares durante a ditadura militar que governava o país então.

Essas afirmações do presidente causam profunda indignação e merecem absoluto repúdio. Em defesa da verdade histórica e da honra da jornalista Miriam Leitão, é preciso dizer com todas as letras que não é a jornalista quem mente.

Ela foi presa e torturada, grávida, aos 19 anos, quando estava detida no 38º Batalhão de Infantaria em Vitória. No auge da ditadura de 64, em 1973, Miriam denunciou a tortura perante a 1ª Auditoria da Aeronáutica, no Rio, enfrentando todos os riscos que isso representava na época.

Narrou seu sofrimento aos militares e ao juiz auditor e esse relato consta dos autos para quem quiser pesquisar.

A jornalista foi julgada e absolvida de todas as acusações formuladas contra ela pela ditadura. A absolvição se deu em todas as instâncias.

É importante ressaltar que Miriam Leitão, ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores, foi também alvo constante de ataques. Não questionaram, como agora, o sofrimento por que passou na ditadura, mas a ofenderam em sua honra pessoal e profissional em discursos do ex-presidente Lula em palanques, e até mesmo a bordo de avião de carreira, quando Miriam Leitão ouviu insultos e ofensas por parte de militantes petistas, que então a chamavam de neoliberal e direitista.

Esses insultos, no passado como agora, em sinais trocados, apenas demonstram a maior das virtudes de Miriam como profissional: a independência em relação a governos, sejam de esquerda ou de direita ou de qualquer tipo.

A Globo aplaude essa independência, pedra de toque do jornalismo profissional, e se solidariza com Miriam Leitão”.

Uma solidariedade compartilhada por nós, seus colegas da TV Globo, da rádio CBN e do jornal “O Globo”.

Não crer no homem na Lua era coisa de ignorante. Hoje, não mais!

Neste sábado, 20 de julho de 2019, faz 50 anos que o homem pisou na Lua pela primeira vez.

Neil Armstrong, primeiro, e Buzz Aldrin, logo em seguida, foram os pioneiros enviados ao nosso satélite natural a bordo da Apollo 11.

Michael Collins, o terceiro homem da missão, permaneceu na nave enquanto um pequeno módulo levou Armstrong e Aldrin até o Mar da Tranquilidade.

Eu tinha 10 anos. Sou contemporâneo. Vi ao vivo pela televisão.

Na época, e nos primeiros anos após o feito histórico dos astronautas americanos, havia pessoas que não acreditavam na ida do homem à Lua.

Lembro bem.

Não era ainda teoria da conspiração, mas simples descrença.

Coisa de gente sem instrução, sem escolaridade. Gente muito simples, sem informação, sem conhecimento ou contaminada pelo que há de mais atrasado nas religiões. Gente ignorante – como muitos diziam.

O tempo passou, e surgiram as teorias da conspiração sobre o homem na Lua.

Sabem aquelas coisas?

Kennedy não morreu. Elvis não morreu. Paul McCartney está morto.

As teorias são montadas para que as pessoas acreditem nelas.

Dia desses, vi Elvis velho cantando na igreja e visitando Graceland! Rsrsrs.

Com o voo da Apollo 11, não foi diferente.

Precisei de mais de 30 anos para perceber a mudança.

Já estávamos no século XXI, quando ouvi de um jornalista experiente e conceituado que o homem nunca fora à Lua.

O que ele chamava de evidências se misturava com deboche e alguma agressividade que impossibilitavam o diálogo civilizado.

Agora, nos 50 anos  da Apollo 11, o tema – o homem foi ou não foi à Lua? – está na mídia e nas redes sociais.

Com alguma tristeza, ouvi um jovem jornalista dizer que não acredita na chegada do homem à Lua. Não só jovem, mas talentoso, bem informado, inteligente, promissor.

Isso coincide com um momento em que muitos afirmam que a Terra é plana.

É provável que os que acreditam no terraplanismo não creiam no homem na Lua.

Felizmente, nem todos os que contestam a veracidade do projeto Apollo embarcam nessa maluquice de Terra plana.

Mas é lamentável que estejam do lado dos que negam evidências históricas e científicas.

APOLLO 11/50: Louco por 2001

LOUCO POR 2001

Vi 2001: Uma Odisseia no Espaço em agosto de 1969, na estreia em João Pessoa, num Cine Municipal com sua plateia de 800 lugares lotada. O homem acabara de pisar na Lua.

Aos 10 anos, claro que entendi muito pouco desse filme extraordinário, mas saí da sessão completamente siderado. Penso que foi naquele dia que me apaixonei em definitivo pelo cinema, essa grande arte do século XX.

Por mais clara que hoje a sua narrativa possa parecer, 2001 é um filme enigmático, de perguntas sem respostas. Para ser degustado lentamente, contemplado. Visto como se o espectador estivesse diante de um grande quadro. Ou de alguns grandes quadros, porque não há uma história com começo, meio e fim, mas episódios interligados.

É um filme difícil de ser visto, chato, cansativo – dizem muitos dos que tentaram e nem conseguiram chegar ao final. Estão equivocados. Se você for colhido por toda a beleza de 2001, vê-lo será sempre uma experiência magnífica. Quadro a quadro, segundo a segundo – nada se perde, não há nenhum excesso, cada imagem e cada som compõem uma verdadeira obra de arte.

Stanley Kubrick, em cinco décadas de cinema, realizou somente 13 filmes. Era daqueles em que a qualidade se sobrepõe gigantescamente à quantidade. 2001 deve ser o ápice de sua trajetória. Marco do cinema, marco do gênero a que pertence (a ficção científica), evocação (agora que o tempo passou) de uma década turbulenta e inesquecível.

O ano de 1968 teve Paris. Nos Estados Unidos, mataram Luther King e Bob Kennedy. Havia Beatles e Rolling Stones. No Brasil, o golpe dentro do golpe. Violência ou não violência? É proibido proibir! O filme de Kubrick enriqueceu 1968. Mas o homem que estava na tela ia muito além daquele momento. Era um homem permanente, a própria humanidade com seus dilemas insolúveis.

O filme transformou o ano de 2001 em sinônimo de futuro. Kubrick não viveu para ver a sua chegada. Morreu em 1999. Seu parceiro, o escritor Arthur C. Clarke, viveu além de 2001. O futuro do filme é diferente do futuro que virou presente. O fim da Guerra Fria, tal como esta se configurava na década de 1960, deteve a corrida espacial e nos manteve com os pés na Terra.

O filme não está preocupado em nos excitar, mas em inspirar nossa reverência – disse de 2001 o grande crítico Roger Ebert. Ainda Ebert: “Nosso cérebro nos deu os instrumentos para entender onde vivemos e quem somos. Agora chegou a hora de dar o próximo passo, de saber que vivemos não num planeta, mas entre as estrelas, e de que não somos carne, mas inteligência”.

2001: Uma Odisseia no Espaço – com seus silêncios, suas poucas falas, sua música clássica, seus efeitos visuais – mudou o cinema. Mudou o jeito de fazer filmes. Mexeu com o olhar do espectador. Mexeu com a plateia do seu tempo. Atravessou mais de meio século, intocado. Que tal revê-lo agora, quando 2001 (o ano) já é passado?

APOLLO 11/50: No mundo da Lua

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NO MUNDO DA LUA

Na mitologia grega, Selene, a deusa da Lua. Daí o nome selenografia para o estudo da superfície lunar. E selenógrafo para quem se dedicou a esse estudo.

Em seu tempo, o cearense Rubens de Azevedo foi um dos grandes astrônomos brasileiros. Seu negócio era a Lua.

O professor Rubens não era um homem dos números, dos cálculos. Era um romântico, um poeta, um artista plástico. Por isso, se apaixonou pela Lua e passou a estudá-la com afinco. E a desenhá-la.

Fez milhares de observações do nosso satélite natural. Numa delas, descobriu uma espécie de acidente geográfico transitório. Comunicou à NASA. E a agência espacial americana comunicou aos astronautas da Apollo 11.

Queria que a sua descoberta fosse chamada de Brasiliana. Não foi. Dizem que recebeu o nome de um americano!

Em 1969, quando o homem chegou à Lua, o professor Rubens morava em João Pessoa. Era diretor do Observatório Astronômico da Paraíba. Funcionava no centro, ali na 13 de maio.

No observatório, acolheu os amantes da astronomia. Sobretudo jovens atraídos pelas belezas do céu. O professor foi fundamental na formação intelectual deles. Fiz parte desse grupo, na minha adolescência, e aprendi muito com ele.

Não tinha somente a astronomia para oferecer. Falava de arte, de estética, filosofia, música, cinema, literatura. Dava aulas o tempo todo em suas conversas. Emprestava livros e discos. Comentava os filmes.

No observatório, muitos contavam uma história, mas ninguém tinha coragem de checar com o professor se era verdadeira.

Em agosto de 1969, na estreia de 2001: Uma Odisseia no Espaço, com o Cine Municipal lotado, o nosso astrônomo não resistiu à beleza da sequência em que se ouve o Danúbio Azul, ficou em pé e gritou para toda a plateia ouvir:

Esse é um dos momentos mais felizes da minha vida!

Claro que foi duramente repreendido pela mulher, Dona Jandira, que estava ao seu lado.

Verdade?

Lenda?

Não sei.

Mas fica como no filme de John Ford: quando a lenda se sobrepõe à verdade, publica-se a lenda!

APOLLO 11/50: A Águia pousou

A ÁGUIA POUSOU

O presidente Kennedy fez a promessa de que, antes do término da década de 1960, os Estados Unidos poriam um homem na Lua.

Os soviéticos haviam surpreendido o mundo, partindo na frente dos americanos, quando, em 1957, inauguraram a era dos satélites artificiais e, em 1961, fizeram de Yuri Gagarin o primeiro homem a orbitar o nosso planeta.

Se a frase de Gagarin – “A Terra é azul” – abre a década de 1960, a de Neil Armstrong fecha.

“Um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade”, foi o que ele disse ao pisar no solo lunar naquele domingo, 20 julho de 1969.

Em seguida, Edwin (Buzz) Aldrin juntou-se a ele.

Michael Collins, o terceiro astronauta da missão, permaneceu na nave Apollo.

Lembro bem daquele 20 de julho.

Ao entardecer, a Lua, em fase crescente, estava sobre nossas cabeças.

Aos 10 anos, vi ao vivo pela televisão.

Transmissão tão histórica quanto precária.

Imagem em preto e branco cheia de ruídos, áudio de péssima qualidade.

Todos os defeitos suplantados pela emoção de testemunhar aquele instante.

Uma outra frase entrou para a história: “A Águia pousou”.

Foi pronunciada no momento em que o módulo lunar fincou os pés na Lua.

O pequeno módulo levou Armstrong e Aldrin da nave Apollo 11 até o Mar da Tranquilidade, a área escolhida para a chegada dos desbravadores.

Nos anos 1960, todos estavam nas mãos de duas potências antagônicas, os Estados Unidos e a União Soviética. Elas investiram na corrida espacial e a transformaram num símbolo do seu poder.

A grande meta era a Lua.

A sua conquista sobrepôs uma nação à outra no tempo da Guerra Fria.

O projeto Apollo foi pensado para culminar com o que o mundo testemunhou em 20 de julho de 1969. Um voo anterior ao da Apollo 11 orbitou a Lua e fez belas fotografias da Terra vista de longe.

As ações dos americanos frequentavam a mídia com uma intensidade que fazia crer que eles chegariam à Lua antes dos soviéticos. Mas estes poderiam surpreender, garantiam na época os que torciam pelo bloco socialista.

No final, o incontestável pioneirismo foi dos Estados Unidos.

A União Soviética optou por uma operação menos dispendiosa e mais discreta do que os voos tripulados: enviou uma sonda para colher amostras do solo lunar.

A concretização do sonho do presidente Kennedy colocou os EUA na frente.

Neil Armstrong se transformou num herói americano.

Entrou para a história como o primeiro homem a pisar na Lua, um feito que vai além das disputas da época, dos confrontos da Guerra Fria.

Admirável que tenha conseguido uma vida discreta nos 43 que separaram o voo da Apollo 11 da sua morte em 2012.

APOLLO 11/50: A Terra é azul

A TERRA É AZUL

Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin pronunciou essa frase ao se transformar no primeiro homem que orbitou nosso planeta.

Eu tinha dois anos, claro que não tenho nenhuma lembrança do feito, mas cresci ouvindo meu pai falar da sua importância científica, do seu significado histórico e da força poética da frase.

A Terra é azul – a simplicidade do comentário de Gagarin não destoa da dimensão do seu voo pioneiro.

Antes, parece a mais perfeita tradução do impacto que aquela visão provocou.

O planeta visto não exatamente de longe, mas de fora, como ninguém o havia observado antes.

Yuri Gagarin foi um dos heróis da minha infância. Talvez o maior deles, numa época em que sonhávamos com a conquista do espaço.

Os soviéticos largaram na frente. Lançaram o primeiro satélite artificial (o Sputnik) em outubro de 1957.

Colocaram animais em órbita da Terra (a cadelinha Laika foi e não voltou) e, por fim, um homem.

Os Estados Unidos demoraram um pouco mais, mas deram passos semelhantes até transformar John Glenn no primeiro astronauta americano a voar em órbita da Terra.

Os americanos eram astronautas. Os soviéticos, cosmonautas.

A figura de Gagarin sempre me leva a uma viagem sentimental pela década de 1960. E me remete não só à sua frase, mas à que o americano Neil Armstrong pronunciou quando pisou o solo lunar pela primeira vez, em 20 de julho de 1969:

Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.

Apenas oito anos separam uma frase da outra.

De certa forma, se a de Gagarin abre, a de Armstrong fecha a década de 1960.

As duas podem fazer a síntese daquele tempo em que a Guerra Fria movia a corrida espacial.

Billie Holiday, a maior cantora do jazz, morreu há 60 anos

Billie Holiday ainda não era Billie Holiday.

Era Eleonora, nascida na Filadélfia em 1915.

Eleonora e sua vida miserável na infância e adolescência.

Fugindo da prostituição, tentou emprego como dançarina.

Foi quando ouviu do dono de um bar:

Dançarina, não. Tenho vaga para cantora. Você sabe cantar?

Ao que respondeu:

Cantar? Ora! Todo mundo sabe!

E cantou!

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Billie Holiday foi a maior de todas as cantoras do jazz.

A maior e a mais verdadeira.

A voz doce e amarga.

Um pouco rouca.

Ligeiramente infantil.

Levemente perversa.

Ou perversamente infantil.

Querem saber?

É inútil.

As palavras não dirão como era a sua voz!

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O melhor de Billie Holiday está nos discos de 78 rotações que gravou na Columbia, entre 1933 e 1942.

São tecnicamente limitados, mas a voz está no auge.

Nos anos 1940, há passagens pela Commodore e pela Decca.

Na década de 1950, sob contrato da Verve, fez discos muito bem gravados, mas com a voz já afetada pelas drogas e pelo álcool. De todo modo, são de uma beleza imensa.

O final – no álbum Lady in Satin – foi novamente na Columbia.

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Em março de 1959, Billie enterrou o saxofonista Lester Young, seu querido amigo e grande parceiro musical.

A caminho do cemitério, disse ao crítico de jazz Leonard Feather:

Serei a próxima.

E estava certa.

A cirrose hepática, a insuficiência cardíaca e um edema pulmonar mataram Billie Holiday no dia 17 de julho de 1959.

Faz 60 anos. Tinha 44.

Sua vida foi uma tragédia.

APOLLO 11/50: Observador da Lua

No próximo dia 20 de julho, fará 50 anos que, transportado pela Apollo 11, o homem pisou na Lua pela primeira vez.

O astronauta americano Neil Armstrong era o nome dele.

Sou contemporâneo. Eu tinha 10 anos e vi ao vivo numa precária – mas histórica – transmissão pela televisão ainda em preto e branco.

A partir de hoje, postarei aqui uma série de textos sobre temas e personagens que, na minha memória afetiva, estão associados àquele tempo.

OBSERVADOR DA LUA

A corrida espacial começou no dia quatro de outubro de 1957, quando a União Soviética colocou um satélite artificial (o Sputnik) em órbita da Terra. Os americanos vieram depois.

Satélites, voos suborbitais, animais em órbita e, finalmente, o homem.

Yuri Gagarin foi o primeiro, no dia 12 de abril de 1961. O cosmonauta soviético, a bordo da nave Vostok, resumiu tudo numa frase:

A Terra é azul!

No início dos anos 1960, os americanos criaram um programa internacional de rastreamento de satélites. Eles queriam saber o instante exato em que aqueles pequenos pontos luminosos cruzavam os céus das cidades do mundo.

O programa se chamava Moonwatcher e foi desenvolvido pelo Smithsonian Institute. Os voluntários que o instituto reuniu foram batizados como moonwatchers e receberam riquíssimas cartas celestes, um cronômetro suíço de absoluta precisão, um pequeno telescópio e crédito telegráfico para o envio das informações.

O Brasil teve apenas dois moonwatchers. Um deles era paraibano. Montou seu modesto posto de observação no quintal da casa onde morava, no bairro de Jaguaribe, aqui em João Pessoa.

Foram centenas de observações. Todas enviadas aos americanos. Um admirável trabalho num tempo de comunicações precárias e sem os recursos tecnológicos que a própria corrida espacial ajudaria a desenvolver.

Em 1968, o pequeno telescópio ficou obsoleto. O Smithsonian Institute enviou outro, mais moderno, mais potente. O equipamento ficou preso na alfândega. O governo brasileiro não facilitou a liberação. O moonwatcher não admitiu pagar propina e abandonou o programa.

O rastreamento de satélites saiu da sua vida no turbulento ano de 1968, mas não o amor à astronomia. Na virada da década de 1960 para a de 1970, ainda teve uma passagem pelo Observatório Astronômico da Paraíba.

Depois, apenas contemplava o céu à noite. E dividia com as pessoas a alegria de observar os astros.

O moonwatcher paraibano se chamava Onildo Lins de Albuquerque. Era meu pai. Comunista, ateu, homem dividido entre a precisão dos números e as angústias do ser.

Em tempos de Intercept, 10 filmes sobre jornalismo investigativo

Recebi do advogado e cinéfilo Antônio Barreto uma lista (muito bem) comentada de filmes sobre jornalismo investigativo.

Não posso deixar de registrar que Antônio Barreto é filho do grande crítico de cinema Antônio Barreto Neto.

Nesta segunda-feira (15), a coluna é dele.

10 FILMES SOBRE JORNALISMO INVESTIGATIVO

Antônio Barreto

Em tempos de acaloradas discussões sobre a atuação do jornalista Glenn Greenwald e do seu site, “The Intercept”, listamos 10 filmes que retratam os trabalhos dos jornalistas investigativos e suas repercussões em vários âmbitos sociais (jurídico, político, no próprio jornalismo e até no aspecto pessoal). Segue:

  1. TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (Alan J. Pakula, 1976) – A pedra fundamental. O cinema já havia retratado jornalistas e jornalismo (Cidadão Kane e A Montanha dos Sete Abutres, por exemplo). Mas Pakula inovou ao trazer, para o primeiro plano, a importância do trabalho da base da profissão (a reportagem). A apuração sobre o escândalo de Watergate resultou na queda do então presidente Nixon. Onde ver no Streaming? Looke
  2. O POVO CONTRA LARRY FLINT (Milos Forman, 1996) – Antes do X-Vídeos (e congêneres) a pornografia era consumida, principalmente, através de revistas. E nada se comparava, em depravação, à Hustler, de Larry Flint (Woody Harrelson). Mas Flint pegava pesado também nas reportagens, desmanchando mitos (sim, desde sempre existiu isso) e não dando trégua ao falso moralismo de clérigos e políticos. Em tempo: apesar de viver da pornografia, Flint jamais apresentou cenas de Golden Shower ao alcance de todos. Onde ver no Streaming? Circulou por todos os canais de TV e serviços de streaming. Mas encontra-se fora dos catálogos.
  3. BEM-VINDO A SARAJEVO (Michael Winterbottom, 1997) – O diretor britânico mostra o trabalho dos correspondentes da guerra da Bósnia e escancara o dilacerante dilema entre apenas noticiar e também interferir no cenário da barbárie. Onde ver no streaming? Fora de catálogo.
  4. O INFORMANTE (Michael Mann, 1999) – Narra o trabalho da equipe do tradicional programa ”60 Minutes”, da rede americana CBS, para desmascarar as mentiras da indústria do cigarro. Mann passou a carreira retratando homens obcecados por suas atividades laborais e aqui conta com Russell Crowe (o delator da indústria) e Al Pacino (o produtor do programa). Não podia dar errado. Onde ver no streaming? Telecine Play
  5. A VIDA DE DAVID GALE (Alan Parker, 2003) – Kate Winslet é a repórter que tem faro suficiente para suspeitar que há mais do que estupro e assassinato no caso do condenado David Gale (Kevin Space, bem antes de ser um pária). Só é repórter quem entende que nem tudo é o que parece. Onde ver no Streaming? Fora de catálogo
  6. BOA NOITE E BOA SORTE (George Clooney, 2005) – Nos EUA dos anos 50, desafiar o senador Joseph McCarthy e sua caça aos comunistas era coisa de quem não queria boa vida. Mas foi isso que fez o âncora de TV Edward R. Morrow (David Strathairn, soberbo). A inteligência e a elegância intelectual são o melhor antídoto contra o delírio institucionalizado, diz Clooney. Onde ver no Streaming? Fora de catálogo
  7. ZODÍACO (David Fincher, 2007) – Fincher reconstitui o medo que dominou a população da Califórnia, entre 1968 e 1970, quando o serial killer que nomeia o filme apavorou o Estado, não só pelos crimes em si, mas pela obsessão em se ver como assunto midiático (à época, o rádio e o jornal San Francisco Chronicle). Mas mostra, principalmente, que nenhum apuro jornalístico, mesmo que não se chegue ao resultado desejável, é descartável. Onde ver no Streaming? Netflix
  8. FROST/NIXON (Ron Howard, 2008) – Assista a qualquer entrevista conduzida pela nova referência nacional em questionar autoridades, o apresentador Ratinho. Depois assista a este filme meio esquecido do artesão Ron Howard. Será fácil separar jornalismo de relações públicas. Onde ver no Streaming? Looke
  9. SPOTLIGHT (Thomas McCarthy, 2017) – Grande ode moderna ao jornalismo investigativo e um pedido para que este não morra. O tour de force de uma equipe do Boston Globe para revelar a pedofilia na igreja católica. Onde ver no Streaming? Fora de catálogo
  10. THE POST (Steven Spielberg, 2018) – Um Spielberg na versão adulta conta com Meryl Streep (como a dona do Washington Post) para mostrar que uma elite digna do nome não é feita apenas de dinheiro e posição social mas, sobretudo, de coragem. Onde ver no streaming? Telecine Play